Promessa De Voltar
9 Capítulo 8
Notas iniciais
Ao badalar das cinco horas, Lady Midford chegou ao jardim de rosas.
James já preparava a mesa há pouco mais de cinco minutos, e eu estava lá há certo tempo; desde que o grupo de desenho liderado pela Srta. Amélia passara por ali, para ser mais exato. Meu caderno de desenhos estava apoiado no braço do banco de pedra onde eu sentara enquanto fazia o rascunho do que seria Micaela se esfregando nas pernas do pobre mordomo, que a olhava de tempos em tempos e sorria de leve, logo controlando a expressão e voltando a sua tarefa.
— Boa tarde, Ciel. Espero não achar muita ousadia chamá-lo pelo primeiro nome – a bela mulher me cumprimentou, se aproximando. Levantei-me, tomando uma de suas mãos e levando-a aos lábios.
— De modo algum. Só espero que me permita o mesmo – comentei com um sorriso.
— À vontade – sorriu – Na realidade, prefiro mil vezes ser chamada de Eleanor. Midford é um nome de tradição, com um peso forte. Não combina com o leve clima de um chá, não concorda? E o título de Lady torna-se cansativo e repetitivo com o tempo.
— Entendo – e eu realmente entendia. Havia dias em que sentia que explodiria se ouvisse a palavra “lorde”, quando ainda era humano. Ela sorriu torto, como se soubesse exatamente o que eu pensara.
— Bem... Vamos? – e dirigiu-se à mesa, indicando a cadeira em frente à que escolhera.
Com ambos acomodados, James serviu-nos e deixou-nos a sós com uma mesura. Provamos da bebida, o tradicional Earl Grey, e dos pequenos cupcakes de variados sabores postos à mesa. A Lady, então, apoiou-se no encosto da cadeira e encarou-me.
— Estive pensando em como iniciar esta conversa: com sutilezas, com meias verdades... No fim, decidi que, sendo quem é, preferiria a verdade sem subterfúgios – pausou, e sua fala me fez estreitar os olhos, do que ela estava falando?— Devo dizer que é uma honra ser eu a recebê-lo de volta, Lorde Phantomhive.
Lorde Phantomhive. Nunca imaginei ouvir tal título novamente em minha existência, achava que fora enterrado com o caixão vazio que Sebastian providenciara para o funeral que impediria a sociedade inglesa, especialmente a Scotland Yard, de procurar pelo conde da Casa Phantomhive.
No entanto, também nunca passara por minha mente voltar a Londres, voltar à mansão, voltar a encontrar o malditamente irritante Sutcliff em suas roupas vermelhas.
Inferno!, nunca, em sonhos ou pesadelos, me veio à cabeça a possibilidade de ver Sebastian novamente!
Com tantas coisas improváveis acontecendo em sequência na minha vida, eu realmente não deveria me surpreender. Além do mais, o sobrenome de Eleanor era Midford; foi ingenuidade acreditar que uma parente de Lizzie me convidaria para um chá apenas por termos nascido no mesmo país.
Ainda assim, a alcunha pegou-me desprevenido, embora me orgulhe de ter impedido que qualquer expressão tomasse meu rosto, cuidadosamente em branco.
— Até onde sei, a linhagem Phantomhive findou em 1889, com a morte do último conde da família, o qual era ainda adolescente e não tivera filhos – comentei, tomando um gole do chá. Delicioso, mas não chegava aos pés dos que provara quando ainda tinha um mordomo ao meu dispor.
— Um caixão sem corpo e um misterioso desaparecimento em alto mar dificilmente contariam como morte, não acha? – sorriu.
— Talvez não atualmente, mas naquela época era algo bastante comum de acontecer. E mesmo que não em 1889, o conde morreu. Não sou seu descendente – ela sorriu com meu comentário.
— Concordo plenamente, Ciel. Como poderia ser descendente de você mesmo?
Encarei-a após a frase. Então ela sabia... Pois muito bem, ela ofereceu-me honestidade; merecia nada menos em troca.
— Como soube? – indaguei com um suspiro, e ela riu levemente. No entanto, se sentiu satisfação por fazer-me ceder, Eleanor guardou-a para si. Meu ego não poderia estar mais grato.
— É uma longa história, iniciada antes mesmo de meu nascimento – e pôs sobre a mesa cinco livros de capa de couro. Inclinei-me e peguei o primeiro da pilha, abrindo-o e reconhecendo de imediato a letra arredondada e bem desenhada.
Lizzie...
— Dez anos após sua partida, seu antigo mordomo voltou à mansão. Ele revelou a todos o que era, e no que você se tornara. Os criados, que mantiveram a morada em perfeitas condições em sua memória, agora tinham o ânimo renovado para fazê-lo, pois um dia você voltaria. Ao menos, foi o que acreditaram. Tanaka-san, Bard, Finny e Meyrin decidiram escrever diários para as futuras gerações de criados, para que você não fosse esquecido, nem a mansão abandonada.
“Elizabeth soube da verdade pouco depois; ela fora tomada por uma grande tristeza e mal cuidava da própria saúde, após saber de sua morte. Sua mãe permitiu que ela passasse algum tempo na mansão, esperando que estar próxima ao que restara de seu querido primo acalmasse seu coração. Tanaka-san, penalizado pelo estado dela, acabou por contar-lhe o que Sebastian revelara. A verdade acabou por ajudar, deu um propósito à vida dela. Lady Midford assumiu a administração da propriedade Phantomhive assim que atingiu a maioridade e dedicou sua vida a ela, transferindo-a somente ao único descendente que concordou em manter a mansão perante contrato, Robert Midford, filho caçula de Elizabeth e Bard.”
“Meyrin e Finny casaram-se pouco antes de sua prima, já que Bard teimou em aceitar o pedido de casamento por não se achar merecedor do amor dela. Eles cuidaram pessoalmente da casa até serem obrigados a parar por seus filhos, pois já estavam velhos demais para um serviço tão braçal. Mesmo assim, supervisionaram de perto seus substitutos até que me deram por satisfeitos com o serviço e comprometimento deles para com a mansão. Sua filha do meio, Rosemary, casou-se com Robert, filho de Lizzie e Bard, e eles cuidaram da mansão até que seus filhos assumiram a tarefa. E tem sido assim desde então, geração após geração, nós Midford temos cuidado de sua propriedade, na esperança de um dia retorná-la a você.”
Passou-se um bom tempo antes que eu fosse capaz de formular uma frase, a história de meus entes queridos – enquanto humano – rondando minha mente. Não conseguia acreditar em tamanha devoção.
— O que aconteceu a Tanaka-san? – Eleanor sorriu com afeto em seu semblante.
— Encontrou uma viúva muito bem apessoada, aposentou-se e viveu com ela pelo resto de sua vida. Segundo seu diário, amaram um ao outro até o último suspiro – declarou, suspirando sonhadora.
— Ainda não consigo entender como tudo isso aconteceu. Certamente sei que eles eram leais a mim, provaram-me isso inúmeras vezes, mas... Como a gerações seguintes seguiram seus passos?
— Através dos diários de seus criados e de Lady Elizabeth. Eles puseram naquelas páginas todo o carinho e devoção que nutriam por você, e todas as crianças das famílias os recebiam ao atingir a maioridade, para decidir se aceitariam ou não cuidar de seu legado, Ciel. E devo dizer que foram poucos os que se recusaram a continuar a “tradição” – respondeu, pousando uma de suas mãos delicadas na minha, apertando-a – Você foi muito querido por eles, e eles tornaram não gostar de você algo extremamente difícil.
Sorri, porque não sabia como mais reagir. Um leve rubor cobriu minhas bochechas, o que me teria feito desviar o rosto indignado com esta reação, mas simplesmente não notei o ardor em minha face até que ele passou. Ela nada comentou, e seguimos tomando chá em silêncio. Apenas voltamos a falar longos minutos depois.
— Por um acaso, saberia o que aconteceu com as Empresas Funton? – perguntei, mais por curiosidade que por me importar com o destino da Corporação.
— Foi chefiada por Edward Midford até a volta de seu mordomo. Desde então, Sebastian é o diretor e sócio majoritário de suas empresas.
Mais uma vez a surpresa me tomou. E desta vez não fui capaz de disfarçar.
— Sebastian o quê? – sussurrei perplexo – Isso é impossível.
— Bem, não é a coisa mais fácil do mundo esconder o fato de que ele nunca envelhece, mas Michaelis sempre dá seu jeito. Apaga seu nome dos arquivos de tempos em tempos, esperando que se esqueçam de sua existência, e assumindo diferentes setores na Corporação. Atualmente, creio que ele está em nossa editora...
— Devillana – falamos juntos, e não pude acreditar.
Ao menos agora estavam explicadas as viagens anuais daquele demônio a Londres. Grell estava enganado, ele não vinha por mim. E nunca viria.
— É irônico que hoje eu seja empregado da empresa que um dia comandei – murmurei, mas não baixo o bastante.
— Como assim?
— Aceitei trabalhar como modelo para capas dos livros de uma saga publicada pela Devillana.
— Realmente... Mais saiba que pode assumi-las quando desejar, assim como a mansão.
Ia negar-lhe polidamente a oferta, mas fui interrompido pela chegada de dois mini furacões em forma de crianças.
— Mama, mama!
— O que houve, piccolos? – indagou Eleanor com a paciência de uma mãe.
— Christian disse que pode deixar a gente igualzinhos ao Coringa! – o menino, Alessandro, exclamou aos pulos – Você deixa ele pintar a gente? Deixa?!
A jovem mãe gargalhou e assentiu, diversão estampada no rosto.
— Claro, amore. Mas quem é Christian?
— Um dos alunos da zia Lia – respondeu sorridente.
Alheia à felicidade do irmão, Chiara me encarava embasbacada e puxava a saia da mãe de modo a chamar-lhe a atenção.
— Mama... Ele é igualzinho ao garoto do quadro...
— Tem razão, Chiara. Ele é exatamente como o garoto do quadro – sorriu para a filha, e depois para mim.
Em seguida, Chris apareceu esbaforido, apoiando-se nos joelhos. Aparentemente, fora ele o encarregado de cuidar das crianças. Logo fomos todos para dentro da mansão, já que Christian tinha duas transformações a fazer.
Somente à noite, deitado na cama com Mica e incapaz de dormir, é que voltaria a pensar na conversa que tivera com Lady Midford. Saber que Lizzie e os outros tiveram vidas felizes trouxe uma estranha tranquilidade ao meu ser, não percebi que me preocupara tanto com o que acontecera a eles.
E mais uma vez Sebastian surgia em minha vida, trazendo mais e mais perguntas sem resposta. Afinal, porque diabos aquele demônio assumiu minhas empresas?!
Micaela subiu até meu peito, apoiando sua pequena cabeça em mim e começando a ronronar.
— O quê? Só dorme se eu dormir? – indaguei, passando os dedos em seu pelo macio – Só mais uma noite, Mica...
Só mais uma noite eu teria que passar naquele lugar, onde mesmo respirar tornava-se uma volta ao passado, pois todos e cada um de seus cheiros relembravam-me de um momento na vida de Ciel Phantomhive, uma persona da qual eu habilmente conseguira me desvencilhar ao longo dos anos longe desta mansão. Mas cada segundo passado aqui parecia ruir pouco a pouco o que trabalhei tão duro para conseguir.
Cada nova lembrança que se soltava das amarras de minha mente trazia à tona um pedaço de quem fora o Lorde Phantomhive, de quem eu fui quando era o Lorde Phantomhive: um garoto – nada mais que isso – que se achava um homem e portava-se como tal, que assumiu responsabilidades muito além do que seria saudável para alguém de sua idade, que nunca entendeu o que sentia por seu mordomo demônio, que morreu ao vê-lo partir janela afora, que enfim não era mais o Lorde Phantomhive. Este foi o dia que ganhei minha liberdade da tão tradicional linhagem, ou ao menos assim pensei.
Agora minha mente se perdia em quem eu sou e quem eu fui, e me questionava se um dia realmente houve diferença. Afinal, o que me consumiu na noite em que Sebastian veio novamente ao meu encontro não foi a descoberta de estar incompleto, e sim a percepção de que eu não conseguira deixar de sê-lo. Eu ainda era o mesmo garoto maduro demais, incompleto demais, quebrantado demais pelo nome Phantomhive.
Maldito nome Phantomhive.
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