Notas iniciais
É, tô de volta XD Desculpem a demora, de verdade! Aconteceram algumas coisas nos últimos tempos fora do mundo das fics, e esse capítulo meio que travou na minha mente (Ciel e Sebastian não queriam colaborar de jeito nenhum ¬¬). E eu havia prometido esse capítulo para a Páscoa a uma leitora :/ Desculpa mesmo. Enfim, ao capítulo! o/ Ps.: Só eu achei irônico o número de palavras desse capítulo??

Fria. Nublada. Úmida. Soturna. Real. Londres não mudara.

À medida que o avião descia, tínhamos uma vista privilegiada da cidade. Mesmo que ainda fosse cedo – cerca de quinze para as cinco, já estava escuro e as luzes, muito maiores em número do que me lembrava, iluminavam as ruas da capital britânica quase romanticamente. Ao meu lado, Chris soltou um leve suspiro, encantado com o que via.

Os ônibus alugados para nosso transporte fizeram um mini-tour pelo centro da metrópole (certamente um pedido da sonhadora Prof.ª Amélia) antes de seguirem para o hotel e, durante esse passeio, notei que Londres continuava tão sombria e misteriosa quanto no século XIX.

Essa aura mística envolvia Londres desde a Idade Média, muito antes de seu surgimento como cidade. É algo que, estranhamente, atrai e repele ao mesmo tempo. Todos os crimes pelos quais as ruas e os becos londrinos são famosos, sejam ficcionais ou não, contribuem para isso. Assim como a bela e intimidante arquitetura das pontes, catedrais, palacetes e o famoso Big Ben. E, sendo o ser humano uma criatura que é facilmente aliciada pelo perigo, Londres tornara-se um local de incrível atração, tanto para turistas como para os próprios londrinos.

Poderia continuar a devanear sobre a capital da Inglaterra, mas um pequeno contratempo forçou-me à realidade.

Ao chegarmos ao hotel, descobrimos que as reservas, feitas de última hora por causa da tempestade, não condiziam com o número de quartos disponíveis no estabelecimento, e metade do grupo não teria onde ficar.

– Eu posso ligar para outros hotéis, se desejar – a recepcionista sugeriu solícita a um dos professores acompanhantes, franzindo o cenho após um segundo pensamento – Entretanto, duvido muito que consiga mais de três quartos. A tempestade fez com que muitas pessoas prolongassem sua estadia na cidade, então quase todos os hotéis estão lotados.

– Entendo... Muito bem, ficaremos com os quartos que vocês têm disponíveis – informou um dos professores acompanhantes, antes de virar-se para os outros – Podemos ver em outros hotéis, cidades próximas...

Enquanto os professores seguiam discutindo as possíveis soluções, muitos alunos ao meu redor começavam a se desesperar, ligar para familiares ricos e influentes, pedindo para que dessem um jeito, como as crianças mimadas que são. Francamente... Em vez de pensarem de caminhos alternativos para os próprios problemas, correm para as calças e saias dos pais.

– Acho que tenho uma ideia... – murmurou Srta. Amélia – Um momentinho! – sacando um celular, ela dirigiu-se a uma das varandas da recepção.

Momentos depois ela voltou saltitante, dizendo que conseguira hospedagem para o restante de nós. Aliviados, os professores dividiram-se em dois grupos e fizeram o mesmo com os alunos. Ao que parecia, uma das mansões que iríamos visitar tinha quartos disponíveis para nós e empregados o suficiente para arrumá-los.

Ninguém estranhou a solução arranjada, as pessoas tendiam a ajudar a professora quando ela precisava. Sempre havia quem segurasse suas pastas mais pesadas, quem apanhasse coisas que ela derrubava ao andar apressada pelo campus, ou quem a hospedasse em outro continente – junto com mais de cinquenta alunos.

Com o problema resolvido, os professores dividiram os alunos e a si mesmos em dois grupos, sendo que a metade da Srta. Amélia – onde ficamos eu e Chris – iria para a mansão ao fim da noite. Porque, agora, todos nós iríamos para uma boate próxima ao centro de Londres. Ao que parece, nem toda a arte de Paris e Londres é capaz de suprir os hormônios de jovens no fim da puberdade. Depois de tanto insistirem, os alunos conseguiram uma noite de meia-liberdade durante a viagem – porque os professores não seriam malucos de deixar esse pessoal sem o mínimo de supervisão.

A boate era escura, como se espera que seja. O show de luzes era hipnotizante, raios das mais variadas cores neon passeavam pela enorme pista de dança, e canhões de luz branca piscavam a cada segundo, dando a impressão de que as pessoas não se moviam continuamente, mas quadro a quadro, como fotografias em sequência.

Saindo da pista, a iluminação era em tons escuros, sempre indireta. Sofá, puffs e poltronas de veludo agrupavam-se em cantos estratégicos do local, dando conforto a quem preferia um lugar mais privado para ficar com os amigos. A ilha do bar, próxima tanto à pista quanto aos assentos, era iluminada apenas o suficiente para ter destaque sem incomodar a visão de ninguém.

O espaço estava lotado, mesmo as áreas que deveriam estar mais livres. Os frios e austeros ingleses moviam seus corpos quentes na pista, fervilhando de suor. Fui tomar um drinque, agradecendo por Christian ter ido ao banheiro, o que me deixar sair da pista. Posso estar levando a promessa que fiz a Rafael um tanto à sério demais, mas não deixaria Chris dançando sozinho em uma boate com tanta gente bêbada e sem o mínimo de inibições e pudor.

Foi quando dez minutos se passaram que eu comecei a me preocupar; Chris não aparecera. Fui até o banheiro, mas – excetuando-se uma moça que claramente errara de porta ao correr para vomitar – não havia ninguém ali. Voltei ao salão, buscando um vislumbre que fosse de seu cabelo loiro, e nada. Resolvi, então, farejá-lo. Nunca me senti tão estúpido quanto quando percebi quão parecido com um cachorro estava. Mas isso não passou por minha cabeça, no momento; algo estava errado, eu podia sentir.

O rastro de Chris me levou até um beco a poucas ruas da boate. Perguntava-me o que diabos ele fazia ali, quando notei que o cheiro dele não era o único dali, havia mais três. Eram todos homens, irradiando feromônios, sujeira, álcool e malícia, com almas tão podres que chegavam a me enojar. O típico grupo que aborda pessoas sozinhas em locais ermos e escuros. Realmente. Londres não mudara em nada.

Os três brutamontes encurralaram Christian num canto do beco, estrategicamente fora de vista a partir da rua. Meu amigo tremia, com olhos lacrimejados. Eu podia ver que ele lutava para não deixar que aquela água escorresse de seus olhos, mantendo a expressão firme. O corpo teso tinha um pequeno felino nos braços, que chiava e sibilava em direção aos atacantes da dupla. Ai, Christian... Já até sabia o motivo para ele ter parado ali. Mas depois pensaria nisso. Agora eu tinha três desgraçados para derrubar.

– Christian, Christian, Christian... – suspirei fingindo ironia, e tentando impedir meus olhos de avermelharem de ódio – Mal desvio o olhar e você arranja... Companhias problemáticas.

Pude ver o alívio que brilhou nos olhos metálicos ao me ver. Mas preocupação logo tomou seu lugar.

– Ciel! Sai daqui! Sai!

Torci o pescoço para o lado, meu rosto em sua direção. Mas meus olhos não deixavam as três figuras. Que, agora, cercavam a mim.

– Olha só... A bichinha tem uma amiguinha biba, rapazes! E parece que ela veio participar da festinha também... – o do meio comentou maliciosamente, abrindo um esgar de dentes podres e amarelos – Vamos dar a ela as boas-vindas.

Apenas ergui uma sobrancelha, esperando.

Esperando o passo para o ataque.

Os três avançaram em mim e eu abri caminho com um soco, quebrando o nariz de um deles. Duas rasteiras, e todos estavam no chão, um desacordado por ter batido a cabeça numa parede. Poucos golpes e desvios mais tarde, eu tinha os três nocauteados à minha frente.

– Ciel! – Christian gritou, correndo até mim. Com o gato a tiracolo – Você está... Espera. Onde você aprendeu a lutar assim?

– Aulas de defesa pessoal – menti calmamente.

– Tá – ele rolou os olhos, acarinhando o felino preto em seus braços – Agora fala a verdade.

– Essa é a verdade.

– Claro, Ciel. Porque ensinam como dar uma rasteira em aulas de defesa pessoal – disse com sarcasmo.

– Eu era bom – falei indiferente – O instrutor me indicou para um curso de luta. Agora me faça um favor, da próxima vez que você ouvir um animal em apuros, não saia atrás dele beco adentro, está bem?

– Tá bem. Foi burrice, eu sei – ele murmurou – Mas ele está ferido, acho que quebrou uma patinha – com isso, eu suspirei, estendendo a mão.

– Me dá ele aqui – Chris hesitou e eu o encarei firme – Eu não vou machucá-lo. Depois de ter feito tudo isso por causa dele, seria uma estupidez. Dá o gato.

Christian me encarou, tentando ver se eu mentia, mas não achou nenhum indício disso. Cuidadosamente, ele me passou o gato. Tomando cada uma das patas em minha mão, vi que meu amigo estava certo; as duas traseiras estavam feridas, a esquerda chegando a estar quebrada. O serzinho começou a ronronar e Chris exclamou “Aaaah... Ele gosta de você... Que fofo!”. Bufei com o comentário.

– Tem razão... Certo, vamos pedir à senhorita Amélia que nos leve a um veterinário.

Anuindo, Chris liderou o caminho de volta à boate.

– Christian?

– Sim?

– Eu realmente falei sério. Nunca mais faça isso.

– Sim, mamãe! – exclamou, revirando os olhos – Eu já estou grandinho, sabe? Sei me cuidar.

– Eu vi como você sabe se cuidar – sorri torto, e ele deu um tapa no meu ombro com as costas da mão.

– Ei, você! – reclamou, segurando o riso. Mas não por muito tempo. O alegre som de gargalhadas e a vibração de um ronronar permaneceram ao nosso redor até que a batida da música eletrônica os obliterasse.

Diante à visão do gato preto, que mal suportava ficar na entrada do estabelecimento, a Srta. Amélia não teve com negar nosso pedido e nos acompanhou até a clínica veterinária mais próxima ainda aberta. Em pouco mais de meia hora, saímos de lá atrás de um táxi, com – a doutora nos esclareceu – uma felina de tala a tira colo.

– Iremos direto para a mansão, rapazes! O Sr. Turner, de Teatro, mandou uma mensagem dizendo que estarão saindo em pouco tempo, então não faz sentido voltarmos à boate – falou em seu tom aerado e sonhador. Senti um alívio momentâneo, seria um inferno levar aquela gata para um lugar tão barulhento.

Com o passar dos minutos, deixávamos o centro de Londres para trás cada vez mais. Prédios davam lugar a casas cada vez maiores. Enquanto olhavam nosso entorno, comecei a achar o caminho familiar: silhuetas de árvores, curvas acentuadas, o início de uma pista de terra... Lembravam-me da época em que carruagens me agradavam mais. Uma cabecinha teimosa se esfregando em mim desviou minha atenção.

– Ela gosta mesmo de você, Ciel – revirei os olhos para isso.

– Azar o dela. Detesto gatos – murmurei.

– Ciel! – Chris exclamou, me dando um tapa – Não fale assim com Diana!

O encarei incrédulo.

– Diana? Sério?

– Claro, como a princesa. Mas, se você preferir, sempre admirei a Rainha Victória.

Estremeci, mas mantive minhas emoções em xeque. Victória não é uma rainha da qual eu goste de me lembrar.

– Eu escolho um nome pra ela – ele franziu o cenho, bufando.

– Eu que a salvei, não é justo!

– E eu salvei os dois – repliquei calmo. Christian abriu a boca para reclamar, porém um miado incomodado o calou, fazendo-o cruzar os braços e virar o rosto. Isso até a bichana subir em seu colo e começar a ronronar. Olhando feio pra ela, Chris não aguentou muito tempo antes de se desarmar e acarinhá-la. Sorri para os dois.

– Meninos, chegamos! – a professora anunciou excitada – Vejam que beleza da Arquitetura! Está mansão já foi morada de uma linhagem de condes e lordes! Podem imaginar como seria um baile em seus salões?

Saímos do carro, a gata em meu colo desta vez, e vimos a construção pela primeira vez.

Só pode ser brincadeira...

Mas não era.

Com antigas paredes de tijolos cinzentos, amplas janelas emolduradas em madeira clara, imponentes colunas brancas, telhado azul royal e ar de aristocracia, a grandiosa Mansão Phantomhive erguia-se à nossa frente.

De todas as mansões existentes em Londres, de todas as famílias nobres inglesas, viemos logo para cá. Nunca acreditei em destino, sina, karma ou qualquer coisa que negue o livre-arbítrio das pessoas, mas agora me pergunto se tudo o que vem acontecendo nos últimos tempos é fruto de mera coincidência. Quais eram as chances de virmos logo para este lugar?

Desde a reaparição dele, no entanto, tudo parece conspirar para que eu volte ao passado. Para que eu relembre de minha vida humana. Para que eu seja forçado a voltar às memórias de Ciel Phantomhive. E me aparenta ser inútil lutar contra isso, apesar disso ser a última coisa que eu queira.

Chegando à porta, esta foi aberta para nós. A casa não mudara em nada. A enorme porta ainda rangia do mesmo modo que fazia no século XIX, as correntes de ar que percorriam os cômodos ainda passavam pelos mesmos vãos e faziam as mesmas curvas, a lua e as velas ainda iluminavam – ou não – os mesmos locais. Foi com surpresa que reconheci o antigo quadro de minha família, e com alívio que notei a escuridão que o barrava da visão – da humana, ao menos.

Um mordomo de semblante sério, ainda que simpático, nos atendeu. Embora mal aparentasse trinta anos, ele lembrou-me demais Tanaka-san. Um arrepio me perpassou com esse quase déjà vu.

– Boa noite. Meu nome é James e eu sou o mordomo da Mansão Phantomhive. Pela hora avançada, meus senhores já se retiraram, mas certamente vocês os encontrarão amanhã no desjejum. Por ora, os levarei até os quartos designados para sua estadia. Lady Midford os receberá apropriadamente pela manhã.

Midford? Seria ela, talvez, parente de Lizzie?

James nos levou para a ala oeste da mansão, uma das duas destinadas a convidados, as quais eram bem providas de quartos. Deixando a Srta. Amélia no primeiro quarto, ele nos levou ao fim do corredor, para o que eu sabia ser o mais largo e confortável quarto desta área.

– Os senhores dividirão o quarto durante sua estadia, se não houver problemas com este arranjo – com uma negativa nossa, ele continuou – Com suas malas ainda virão com o restante dos alunos, tomei a liberdade de separar algumas mudas de roupas para vocês. Coloquei-as no assento aos pés de suas respectivas camas. Os senhores, assim como os demais rapazes, ficarão nesta ala, acompanhados da Srta. Amélia, enquanto que as damas se hospedarão na ala sul, e fui instruído a alertá-los para que não se dirijam aos quartos das moças. Peço que tomem cuidado ao saírem do quarto, é uma mansão consideravelmente extensa, não queremos ninguém perdido.

Observando-nos e percebendo que nos atentamos às suas palavras, James fez uma pequena reverência e saiu do cômodo com um respeitoso “Boa noite, senhores”.

– Ciel, olha só essas camas! – Chris exclamou assim que ficamos a sós. Seus olhos brilhavam, e eu sabia exatamente o ele queria.

– Vá, Christian – acenei para o colchão sob um cobertor de veludo – Ande logo.

– Como assim? – o encarei, segurando a vontade de rolar os olhos, e a gata miou para ele.

– Até mesmo ela sabe o que você quer. Apenas faça de uma vez – ante o olhar inseguro dele, continuei irônico – Garanto que a cama não vai quebrar.

Chris hesitou por um instante antes de correr o quarto e se atirar na cama, rindo como uma criança. Pus a bichana no chão e ela andou calmamente até a outra cama, aconchegando-se num dos enormes travesseiros e repousando a cabeças nas pequenas patas. Virando o rosto, Chris sorriu para ela.

– Bom, vou tomar um banho e então pular nesse colchão macio! – comentou, se levantando.

– Certo – respondi, sentindo uma inquietação estranha – Vou buscar um copo d’água.

– E se você se perder? Essa mansão é enorme! – sorri torto com isso. Duvido muito que eu vá me perder nesta mansão, Christian.

– Não se preocupe, eu me lembro do caminho para a entrada, e James deve estar lá, esperando pelos outros. É só perguntar a ele o caminho – expliquei, resistindo à vontade de bater o pé em impaciência.

– Tá bom, então. Mas cuidado, Ciel – anuiu, ainda inseguro.

– Já volto – e, com isso, saí do quarto.

Comecei a seguir em direção à cozinha, passando pelo salão que abrigou os bailes de que Elizabeth tanto fizera questão, e pela elegante sala de jantar, cuja cristaleira fora tantas vezes ameaçada de destruição por Meyrin.

Mas minhas pernas passaram direto pela porta que eu sabia dar no ambiente quente e repletos de diferentes aromas que era a cozinha. Chegando à parte menos suntuosa de toda a mansão, suspirei resignado com minhas próprias vontades. É claro que eu acabaria aqui.

A ala dos criados? Toda essa inquietação me trouxe até aqui? Ciel, quão pateticamente previsível você pode ser...?

Revirando os olhos, continuei meu caminho. Eu bem sabia aonde iria parar.

À medida que descia o corredor, me perguntava se aquilo era realmente o que eu queria. Eu queria mesmo relembrar todos aqueles momentos? Cada pequeno detalhe de minha vida humana, gravado nos objetos guardados ali? Cada memória de Bard, de Finny, de Meyrin, de Tanaka-san, e de... dele. Mas já não era mais uma escolha, e agora eu percebera.

Se por precisar rever aquilo tudo para finalmente deixá-los ir, se apenas por saudades daquele tempo e daquelas pessoas, eu queria... precisava entrar. Precisava ver os fantasmas que tranquei aqui quando fui embora, mesmo que haja a possibilidade de apenas me sentir mais vazio ao fazê-lo. Havia algo que me impelia a fazer isso, e eu estava certo de que o faria. Sendo sincero comigo mesmo, esse algo se fez conhecer desde o momento que eu soube que viria para Londres. Todas as questões do passado, resolvidas ou não, foram encerradas naquele quarto, e finalmente chegou o momento de reencontrá-las.

Desde minha saída da mansão, evitei esse momento. Evitei-o como a peste, mas sabia que ele chegaria. E foi justamente a iminente e forçada chegada dele que me paralisou em Paris. A percepção de quão tolo e arrogante fui. Eu agira como se minha volta à mansão fosse escolha minha, como se dependesse puramente da minha vontade, e cada vez mais fui protelando meu retorno.

Quando Christian disse que viríamos a Londres, minha falsa sensação de controle espatifou-se em minha face. Nunca dependeu de mim, nunca foi algo passível de domínio. Era algo que aconteceria, quer eu quisesse ou não; e, subitamente, me vi confrontado com o fato de que chegara a hora, eu era obrigado a ir. Em poucos instantes, estaria em minha cidade natal, e teria de enfrentar tudo que deixei para trás.

Cheguei finalmente a uma porta simples, de madeira escura e acabamento em verniz. Parecia não ser aberta há um bom tempo. Respirando fundo, girei a maçaneta fria e entrei.

Fui recepcionado pelo remanescente cheiro de Sebastian, no quarto que, um dia, fora dele. Era um cheiro diferente de tudo que eu já sentira. Além das notas levemente adocicadas por ser um demônio, o cheiro de meu antigo mordomo era forte, marcante e persistente, como madeira e canela. Também era leve e refrescante, como menta e erva cidreira. Quente e envolvente, como frutas cítricas. Mas não possuía o cheiro de nenhuma dessas coisas. Era como se ele tivesse-lhes roubado as características e adequado-as a si, num aroma que eu somente poderia descrever como... Sebastian.

Com um ex-viciado em um momento de recaída, fui ao velho guarda-roupa. Precisava daquele cheiro, que preenchia minhas narinas e impregnava meus pulmões, que tomava meu corpo e nublava minha mente. Que eu sempre associei a morte e segurança. Porque sempre tive consciência de que Sebastian seria minha morte. E, desde o primeiro momento, ele foi minha salvação.

Abri o antigo móvel, deixando-me invadir pelo odor que me atingiu como uma onda. Lá estavam. Camisas, fraques, coletes, calças, sapatos, tudo que ele deixara para trás ao ir embora. Puxando uma das gavetas, achei suas luvas. Tão simples, guardavam as mãos igualmente belas, porém diferentes em aparência; uma perfeitamente pálida, a outra maculada pelo selo do contrato que fizemos. Sem pensar, peguei uma das peças em minhas mãos, sentindo-lhe a suavidade, que não se comparava à dos membros que um dia enluvara...

Já anoitecera há algum tempo. Eu ainda não acabara de lidar com a papelada das empresas e Sebastian trouxera meu jantar para o escritório. Mal pude acreditar quando pus o último ponto final num memorando para o gerente de minha nova loja de doces no centro de Londres. Havia terminado. Finalmente!

Três segundos após eu largar a caneta de pena, Sebastian entrou no cômodo. Com uma pequena reverência, ele passou pela minha escrivaninha para fechar – pela terceira vez naquela tarde – a janela que eu abrira.

– Bocchan, já perdi as contas de quantas vezes pedi para que não deixasse a janela aberta – balançou a cabeça, falando num tom falsamente preocupado – O vento está muito frio hoje, você pode adoecer. Tsc... Tão descuidado! – murmurou, num tom que ele sabia que eu era perfeitamente capaz de ouvir, algo que já estava tornando-se comum. Pergunto-me se fazia isso de propósito toda vez ou se virara um hábito zombar de mim.

– Estava quente hoje, Sebastian! – expliquei, desgostoso – O sol deixou a sala abafada a tarde inteira, eu mal conseguia respirar.

O demônio soltou um suspiro antes de vir em minha direção.

– Seu banho já está pronto, Bocchan – anunciou o demônio. Estranhei.

– Tão cedo? – um sorrisinho condescendente surgiu na face de meu mordomo.

– Já passa das dez horas da noite, jovem amo. Os criados foram dormir há meia hora.

Franzi o cenho. Demorara mais do que o esperado. Esse era o resultado de uma tarde passada a atender os caprichos de Elizabeth: o dobro de papeis no dia seguinte.

Levantei de minha cadeira e segui o demônio até meu banheiro pessoal. Rapidamente, ele retirou as luvas e deu-me um banho. Enquanto me secava, uma dúvida surgiu em minha mente.

– Sebastian...

– Sim, Bocchan?

Hesitei por um momento, perguntando da onde viera aquela curiosidade tola e repentina. Era algo tão inútil... Mais eu queria saber.

–... Como era sua vida quando vivia como demônio?

Sebastian arqueou uma sobrancelha, apanhando minha camisola e vestindo-a em mim.

– No Inferno, você diz? – indagou, ao que assenti – Atarefada, luxuosa, regada a pecados e mais pecados... – com um sorrisinho de escárnio, continuou – Assim como o diabo não é tão feio quanto se pinta, o inferno não é somente sofrimento e danação – riu, como se de uma piada interna – Ao menos, não para mim.

– Por quê? – inquiri. Estava curioso, admito.

– Digamos que eu possuía... uma posição de destaque hierárquico – sorriu torto – Eu gozava de certos privilégios com que a maioria dos demônios pode apenas sonhar.

Fomos ao meu quarto e eu sentei na borda da cama, pensando em tudo que ele me falara.

– Imagino o incômodo de ser rebaixado a um mordomo – comentei, mais para mim mesmo do que para ele.

– Já passei por incômodos piores.

– Como, por exemplo?

– Como, por exemplo, ganhar o nome de um cão – deu um sorriso de lábios cerrados, e eu não pude me impedir de soltar um risinho – Tédio seria mais adequado ao meu estado atual – comentou indiferente.

Soltei um ‘hm’ distraído, puxando minhas mangas para cima com um bufo. O verão mal começara, já estava quente assim!

Sebastian se aproximou devagar, voltando a falar.

– Mas pensar no que terei como resultado faz isso valer a pena – deslizou os dedos ainda sem luvas por meu pescoço, descendo por meu ombro, a pele fria e suave contra a minha quente me fazendo arrepiar.

– Sebastian... – murmurei de testa franzida, confuso com suas ações.

– Pensar em sua alma deliciosa. Presa neste corpo tão delicado... Tão frágil – sussurrou em algo próximo a um ronronar, segurando meu antebraço, cravando suas unhas em minha pele à medida em que falava, fazendo o líquido rubro que pulsava em minhas veias brotar e escorrer.

Gemi com a dor, mas não pude desviar o olhar da face extasiada de Sebastian. Não pude sair do transe no qual a voz dele me colocara. Seus olhos faiscaram em vermelho ao verem meu sangue e ele inclinou-se lentamente, seu aperto em meu antebraço mais firme do que antes.

– Sebastian, o que... – não houve chance de terminar. Sem deixar de me encarar, o demônio limpou todo o sangue derramado por suas unhas, utilizando suas língua e saliva, lambendo gota a gota, pressionando o músculo molhado contra a ferida com se para provocá-la a sangrar ainda mais. Mordi o lábio para abafar um gemido, ele forçara abertura e o corte ardeu, mas os tremores que se seguiram foram apenas de prazer, ao senti-lo lamber minha pele machucada, sorrindo diabolicamente e afastando os lábios de mim, deixando-me ofegante e com a mente tomada por uma bruma de sensações gostosas e entorpecentes. Minha pele formigava onde ele lambera, e não de uma forma ruim, era quase... Viciante.

–Mal posso esperar pelo fim de sua vingança, Bocchan.

Voltando a mim, percebi o que ele acabara de fazer. Sebastian me ferira! Aquele que prometera me proteger a qualquer custo acabara de dilacerar a minha pele. Puxei meu braço de seu agarre, indignado.

– O que você pensa que... – Sebastian rapidamente pegou o castiçal no criado mudo à sua frente, apagando as velas e interrompendo-me novamente.

– Boa noite, Bocchan – um segundo depois, eu ouvi a porta ser fechada.

Apoiei o antebraço cortado em meu colo, sentindo-o latejar, apesar de o sangramento ter parado. Inclinando-me para os vários travesseiros em minha cama, tudo que pude fazer foi bufar em desagrado, sentindo um incômodo o qual nunca soube dizer quando começou: no momento em que Sebastian me arranhou, ou no instante em que ele findou o contato entre nossas peles.

– Maldito...

Nos dias seguintes àquela noite, Sebastian não me tocou mais do que o estritamente necessário, e eu não voltei a fazer-lhe perguntas sobre sua vida antes de me encontrar. Não falávamos sobre nada que remetesse ao que acontecera. Meu corpo parecia concordar com nosso silêncio; as feridas em meu antebraço já amanheceram curadas no outro dia. Ou talvez tenha sido a saliva de Sebastian, se ele dignou-se a desejar que o fluido as curasse. Coisa de demônios.

Um miado me trouxe de volta ao quarto. Olhos semelhantes a gotas de mel me indagavam o que eu fazia. Um corpo ronronante se esfregava em minhas pernas, impaciente por atenção, fazendo-me voltar à realidade à força.

Largando a luva na gaveta, saí dos antigos aposentos de Sebastian, um gato em meus calcanhares, lançando um último olhar ao cômodo antes de fechar a porta. Subi ao quarto designado a mim e a Christian, encontrando-o já vestido em pijamas.

– Onde estava, Ciel? Faz umas duas horas que não te vejo – Chris indagou, franzindo o cenho, enquanto seu mais novo bichinho subia em seu colo, deitando. Dei de ombros, pegando minha jaqueta jogada numa das camas.

– Olhando a mansão. Vou sair, não me espere.

– Sair?! Sabe que horas são? Eu não vou deixar você vagar por aí sozinho numa cidade como Londres! – protestou em alto e bom tom. O felino levantou a cabeça e me encarou, soltando um miado longo antes de pular da cama e se enroscar em minhas pernas.

– Viu? Nem mesmo ela quer que você saia, e gatos têm um sexto sentido pra situações de risco – Chris continuou, encarando-me como se eu fosse louco ao contestá-lo.

Olhei-o de lado, suprimindo um sorriso amargo. Afinal, sou a última das criaturas que temeria um passeio noturno. Em vez disso, virei-me para ele.

– Esqueceu que já morei aqui? Eu conheço Londres, Chris, não vou me perder ou algo parecido – olhei-o divertido, afinando minha voz – Além disso, já sou bem grandinho. Sei me cuidar, mamãe.

– Ciel! – Christian gritou indignado com minha imitação dele, jogando-me um travesseiro, que peguei e joguei de volta. Então, ele mostrou-me a língua.

– Volto antes de você acordar, ok? – e, com isso, saí.

Foi inesperadamente fácil me localizar pela cidade. Se bem que eu estava nos telhados, e ruas possuem menos chance de serem mudadas que fachadas e prédios. No fim, acabei à beira de um telhado alto, com Londres aos meus pés. Havia um quê de beleza no contraste de suas luzes e sombras, e eu sentia uma inegável familiaridade com este horário, por motivos óbvios. Entretanto sempre preferi seu amanhecer, o breve momento em que podia ver cores naquele céu continuamente cinza, ver um tom luminoso diferente do branco.

Ouvi algo se aproximar, e ignorei. Eram passos tão leves, devia ser algo pássaro ou coisa parecida.

– Lord Phantomhive? Ciel, é você? – embora suave e sussurrada, era impossível não reconhecer o timbre forçosamente agudo daquela voz. Ainda mais quando seu dono estava tão entrelaçado à minha antiga vida. Suprimi um suspiro.

– Grell Sutcliff – saldei-o, virando-me e erguendo os olhos para sua figura.

Ele vestia vermelho, como sempre. A serra que já ceifara inúmeras vidas pendia de uma das mãos enluvadas no que parecia veludo, os óculos de aro carmim repousavam no nariz do rosto pálido. As roupas, embora atuais, ainda eram acompanhadas pelo sobretudo escarlate de Madame Red.

Diferentemente de antes, no entanto, seu cabelo estava bastante curto: duas mechas mais longas emolduravam-lhe o rosto, chegando abaixo do queixo; o resto diminuía e repicava gradativamente até a parte de trás de sua cabeça, mal lhe cobrindo a nuca. Ergui uma sobrancelha para isso.

– Aderiu à moda dos mortais?

Com um bufo e um gemido, Sutcliff começou a narrar, com uma riqueza incrível de detalhes, como William o arrastara pelos cabelos para coletar almas após o ruivo chegar atrasado ao trabalho – sem entregar um relatório que devia – e os fios ruivos foram cortados por um ornamento metálico de algum telhado londrino, fazendo Grell despencar até o chão.

– Ele nem se importou em ver se eu estava bem, apenas disse que eu “descansasse apenas em meu horário vago e o seguisse” – terminou com os lábios em bico.

– E por que você não fez com que seus cabelos crescessem? – indaguei por curiosidade, e para mantê-lo falando. Descobri que o shinigami era uma ótima fonte de distração.

– Shinigamis não podem mudar tanto a aparência como demônios. Só conseguimos disfarçar nossos traços inumanos. Então nada de cabelos longos até que eles cresçam sozinhos – comentou triste.

– Entendo – murmurei – Mas até que você ficou bem assim.

Seu rosto corou e um sorriso ergueu seus lábios. Não o psicótico da noite em que Madame morrera, mas um leve e apreciativo. Era bonito, além de chocar ver algo tão suave naquele rosto marcante.

Ficamos quietos por um momento, apreciando o frio que prenuncia o inverno. Era estranhamente reconfortante estar sentindo-o novamente, estar em Londres mais uma vez, por mais agridoces que minhas memórias daqui possam ser.

– E como está Sebas-chan? – Grell perguntou-me afetadamente, sentando ao meu lado e cruzando as pernas em posição de lótus. Suspirei; pelo visto, limpar minha mente dele será impossível esta noite.

– Sarcástico, agindo como se fosse superior a todos, me manipulando para obter o que quer... – comentei indiferente – O mesmo de sempre.

– Ah! – os olhos do shinigami brilharam – Dá até pra imaginá-lo! Que saudades de Belial! – sua voz subiu uma oitava na última sílaba, ao que ele uniu suas mãos, apertando-as contra a bochecha. Franzi o cenho, intrigado.

– Belial, o Príncipe do Inferno? – Grell parou de sonhar acordado para me encarar como se eu tivesse cinco anos e assentir – O que Sebastian tem a ver com Belial?

– Tudo! – respondeu, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. Ao notar minha confusão, Grell arregalou os olhos verdes – Você não sabe mesmo... – disse assombrado.

– Não sei o quê?

O ceifador continuou a me fitar, chocado com a descoberta de que eu não sabia de... De quê?

– Do que é que você está falando? Responda, Sutcliff!

– Ciel, você sabe que Sebastian Michaelis não é o verdadeiro nome de Sebby... Não sabe? – indagou, incerto.

– Claro que sei! Fui eu quem lhe deu esse nome. Era uma das... cláusulas do nosso contrato – expliquei, lembrando a expressão de ódio velado que tomou o rosto de Sebastian ao descobrir que ganhara o nome de meu cachorro – Ele nunca me contou seu nome verdadeiro, nem eu lhe perguntei.

Grell assentiu, anormalmente quieto e pensativo. Depois suspirou e virou-se para mim.

– O demônio que atende pelo nome de Sebastian Michaelis é, na verdade, Belial, o Príncipe do Inferno.

Belial? Sebastian é... Belial?!

– Você... você não pode... você tem que estar brincando!

Descrença me tomava, não era possível que Sebastian fosse Belial, simplesmente não era. Não Belial, o comandante de oitenta legiões de demônios. Não Belial, que era apenas superado pelo próprio Lúcifer. Não Belial, um dos Originais. Não Belial, o Segundo a Cair. Não esse Belial.

Grell me deu hesitantes tapinhas nas costas, como se não tivesse certeza de como agir. Eu mesmo não percebi o que ele fazia, ou teria imediatamente me desfeito de seu toque, até que o shinigami voltou a falar.

– Estranho que você não soubesse disso, Ciel. Afinal, vocês são bastante unidos, né? – Sutcliff comentou confuso, sua pergunta soando como retórica. Mas aquilo não tinha nada de retórico para mim.

– Como? – exclamei atordoado. Como assim, “unidos”?

– É, ele sempre passa por Londres, pelo menos uma vez ao ano, procurando por você. Vocês marcam de se encontrar, não é isso?

– Ele disse isso? – indaguei. O que Sebastian faria me procurando, eu lhe dissera para ir embora. E, se ele era realmente Belial, por que iria procurar um demônio jovem, para os padrões imortais, e de tão baixa casta quanto eu?

O Ceifeiro inclinou a cabeça para o lado, mordendo o lábio.

– Não exatamente... Ele dizia que vinha resolver assuntos pendentes – comentou, fazendo beicinho – Mas nunca veio resolver nosso assunto pendente, Sebas-chan mau – murmurou, me fazendo revirar os olhos. Décadas, e ele ainda não superou essa queda por Sebastian? Tenho certeza de que esse “assunto” só é pendente na mente dele – Mesmo assim, eu e William o víamos passar pelos arredores da sua antiga Mansão durante os dias que ele ficava na cidade. Nunca chegava a entrar, mas rondava a propriedade, como se esperasse encontrar algo ali.

– E então você presumiu que esse algo era eu – comentei com desdém por sua lógica.

– Claro, era a sua Mansão! – cruzou os braços emburrado, fazendo bico – O que mais seria?

O encarei, sem saber como lhe responder. Desviei o olhar e ouvi-o descruzar as pernas, balançando-as e batucando os calcanhares no prédio abaixo de nós.

– Qualquer outra coisa – murmurei, mal movendo os lábios, meio vago, meio certo.

– Não podia ser nenhuma outra coisa, Ciel. Sebastian sempre e somente teve olhos pra você – gracejou, ao que dei um riso irônico. Grell abriu a boca, mas uma voz forte o impediu de falar o que quer que fosse.

– Sutcliff – William pronunciou o nome do outro shinigami ponderadamente, e o ruivo estremeceu ao meu lado – Está atrasado para seu turno.

– Ora, Wiru... – levantou-se, olhando para seu chefe e segurando-lhe a gravata perfeitamente alinhada – São apenas alguns minut... Ai! – o shinigami em vermelho soltou um gritinho ao ser puxado fortemente pela orelha.

– Está atrasado – Spears murmurou firme, ignorando a fala do outro. Parou por um segundo e virou-se para mim, inclinando a cabeça de leve, pensativo. Seus olhos brilharam em reconhecimento e ele ajeitou os óculos, fazendo a luz da lua refletir sobre as lentes, escondendo sua expressão – Boa noite, Phantomhive. Mande lembranças a Belial.

Ao que parece, somente eu não sabia disso...

– Você nem gosta dele... – Grell resmungou, tentando soltar do agarre do outro, sem sucesso.

– Não importa, devemos estar em bons termos com todos os mundos – disse, factualmente.

– Não gosto dessa fachada política... Você fica tão frio, Wiru – comentou, fazendo um bico de lábios carmesim.

Vamos, Sutcliff – sibilou o supervisor, impaciente com seu subordinado – Até a vista, Phantomhive.

Acenei em despedida, vendo-os partir; Grell gemendo e reclamando com manha, inclinado para frente, William pondo a gravata em seu devido lugar, nem um milímetro diferente. Ri fraco com aquilo, eles continuam do mesmo jeito...

De repende, gotas de chuva começaram a atingir meu rosto. Achei melhor voltar, embora esta saída somente tenha servido para trazer mais dúvidas à minha mente e me confundir ainda mais. Eu não conseguia entender...

Sebastian era Belial. Ele era o Príncipe do Inferno, recebia ordens apenas de Lúcifer, o primeiro a Cair. Por que se rebaixaria ao status de um mero criado, apenas por uma alma? Por que se sujeitaria a isso? Mas o mais desconcertante era o fato de que... Ele era meu superior. Sebastian estava acima de mim na hierarquia demoníaca, se ele me mandasse abaixar a cabeça, eu deveria obedecer. Se ele ordenasse que eu beijasse seus pés e lambesse o chão por onde passou, eu o faria sem ter qualquer outra opção.

Então, por que ele continua a agir como se estivesse preso ao contrato? Por que se comporta como se ainda fosse meu mordomo? Por que veio até um mísero demônio inferior como eu, apenas porque eu pronunciei seu falso nome?

... Por que se deu a trabalho de não me esquecer?

Notas finais
Então... O que vcs acham? Por que Sebastian não o esqueceu? Esse demônio... ¬u¬ Aos poucos vou respondendo aos comentários pendentes, certo? E 'Promessa de Voltar' vai continuar! Bjs! LauraLuna