Promessa De Voltar
6 Capítulo 5
Notas iniciais
O taxista me deixou em um prédio de esquina todo envidraçado – sua forma lembrava a superfície da água, como um aqua build – de mais ou menos quinze andares. Nas portas duplas de entrada, o nome Devillana era ostentado.
Indo ao hall de entrada, me dirigi à recepcionista que tinha um telefone preso entre a orelha e o pescoço e digitava freneticamente. Com um aceno de reconhecimento, me indicou os sofás e poltronas próximos à sua escrivaninha, e acabei por acatar à sua sugestão de que me sentasse. Minutos depois, desligou o telefone murmurando “Ela banca de supervisora, e quem faz o trabalho sou eu” e levantando a cabeça para me procurar.
– Bom dia, bem-vindo à Devillana. Em que posso ajudá-lo? – sorriu-me suavemente.
– Bom dia. Meu nome é Ciel Bluehive e... – nem pude ao menos terminar. A moça deu um salto da cadeira, saindo de trás do computador e enlaçando-me o braço, e começou a me arrastar até os elevadores.
– Senhor Bluehive! Temos esperado sua visita a mais de um mês. Só esta semana, mandei três e-mails à sua agência – chegando ao elevador, ela apertou o botão do último andar – A diretoria está ansiosa para conhecê-lo, principalmente após o diretor principal ter falado tão bem do seu trabalho de capa do nosso último lançamento: Mortes Noturnas. E devo dizer que sua expressão ficou fantástica!
Arrastando-me novamente quando as portas se abriram, a recepcionista deixou-me em frente a uma porta de madeira escura.
– Basta bater e esperar quem ele autorize sua entrada – com um aceno animado, ela partiu.
Esperei a moça sumir de vista e respirei fundo. Batendo na porta, ouvi um “Entre e feche a porta.” abafado e um tanto familiar, mas deveria ser apenas impressão.
Entrei devagar, dando de cara com uma cadeira de espaldar alto virada para a janela, pegando toda a parede oposta à entrada, posicionada atrás de uma escrivaninha de mogno. A sala era bem decorada, em tons de marrom e vinho do carpete aos móveis. Duas grandes estantes embutidas cobriam as paredes laterais e dois sofás de couro ladeavam a porta.
Enquanto a fechava, vi os dois quadros dos quais fui modelo, um acima de cada sofá. Eram os quadros que o executivo da Devillana adquirira no leilão da faculdade, o mesmo que havia me dado o cartão da empresa. Por que foram postos logo nessa sala? Mas não pude conjecturar sobre o assunto, meus pensamentos foram cortados quando um timbre grave e aveludado penetrou em meus ouvidos, fazendo meu corpo inteiro arrepiar e pulsar.
– Estava especulando quando você iria aparecer, Ciel...
Sorri de canto, ainda de costas para o som. Por que será que ainda me surpreendo? Aguçando meus sentidos, fui invadido por um aroma embriagante. Algo diferente de todos os cheiros que já senti, e ao mesmo tempo familiar para mim. Algo que meu nariz não sentia há mais de cem anos... Bem, não totalmente, porque algumas nuances desse odor, que preenchia a sala do diretor, eram iguais às do meu próprio. Afinal, somos da mesma espécie.
– Eu deveria saber que era você... – dizendo isso, me virei de frente para ele – Olá, Sebastian.
E lá estava ele. Sebastian.
Vestido num terno risca-de-giz, o demônio apoiava os cotovelos na mesa e a cabeça nas mãos entrelaçadas. Quase deixei um riso escapar, podia lembrar-me de mim na mesmíssima posição. Quando humano, eu sempre a fazia ao ouvir a suave batida na porta do escritório, indicando a chegada do meu mordomo com o chá. Será que ele ainda lembra? Será que decorou meus gestos? Será que isso importou para ele... Não, Ciel, não crie ilusões. Demônios não sentem.
– Bom dia, Sr. Bluehive. Devo supor que sua vinda tem como objetivo aceitar o acordo que propusemos à sua agência?
– Na verdade, vim para ouvir a proposta da qual seu funcionário falou-me tanto na noite do Leilão de Obras – cruzei os braços e ergui as sobrancelhas em divertimento, lembrando o tal homem. E tentando ignorar o vazio em meu peito a diminuir.
– Oh, sim. Darei um agrado ao fiel James, parece que ele cumpriu sua tarefa... Nada como uma recompensa após um truque bem feito – seus olhos brilharam e um sorriso surgiu no canto de seus lábios. Aparentemente, não sou o único que acha engraçadas as ações de James e sua fidelidade canina.
– Sabe... Eu deveria ter percebido que era você o diretor. Cães tendiam a obedecê-lo cegamente, creio que isso não mudou. Ele me parecia Pluto, ansiando pela resposta que seu mestre queria – revirei os olhos, agora o fato me parecia óbvio.
Ele soltou uma risadinha de lábios cerrados, tão comum quando era meu mordomo, quando debochava de mim. Olhei-o, desgostoso, ao que o outro demônio ergueu uma sobrancelha em descrença, como se perguntasse “Você se lembra disso?”. Ignorando o questionamento, continuei.
– Pois bem... Proponha-me.
– Ciel, Ciel... Sei que nos conhecemos há... Algum tempo – comentou com um sorriso – Mas não acha que ainda é cedo demais para casarmos? – o sorriso entortou. Bufei.
– Sabe muito bem ao que estou me referindo – estreitei meu olhar. E, não. Nunca o conheci verdadeiramente, Sebastian.
Seu sorriso abriu.
– A culpa não é minha se você deu margem a diferentes interpretações, Ciel – pude ouvir claramente o Bocchan implícito em sua frase, era um de seus típicos sermões – Mas tem razão, não foi para propô-lo em casamento que o chamei à Devillana. Entretanto, é uma grande falta de educação mantê-lo em pé, não acha?
No tempo de um piscar, ele saiu da sala e voltou com uma poltrona.
– Por favor... – indicou-me o assento enquanto voltava para sua cadeira. Sentei-me, sentindo o conforto do veludo e imaginando onde Sebastian queria chegar com tudo isso. Seu rosto ficou sério ao assumir uma fachada de negócios.
– Nosso mais recente lançamento, Mortes Noturnas, vem tendo ampla aceitação no mercado consumidor, pois a história foi impecavelmente elaborada e escrita, apesar do título ridículo – o demônio deu um sorriso falso, numa clara expressão de raiva contida, e soltei um risinho pelo nariz. Realmente, um livro de suspense com esse nome não atrairia leitor algum. Vi-o suspirar – Autores e sua inflexibilidade com títulos... Mas esse sucesso interessou a diretoria.
Levantando-se devagar, Sebastian seguiu para uma das estantes e pegou três grossos blocos de papel, pondo-os à minha frente e voltando a sentar-se em seguida. Notei que as folhas eram manuscritos e traziam a assinatura de Katerinne Greend, autora de Mortes Noturnas.
– Como pode ver, nossa mais nova escritora best-seller é altamente produtiva. Está terminando mais duas side-stories, além desses volumes, e alguns acionistas sugeriram a criação prévia de suas capas como meio de atrair mais público leitor.
– Nunca estão satisfeitos, não é? – comentei com um arquear de sobrancelhas.
– Ora, Ciel... – abriu um sorriso malicioso enquanto pronunciava lentamente, cuidadosamente, cada letra do meu nome... Fazendo estremecer cada célula do meu ser – Conformismo não tem lugar no ramo dos negócios. Você sabe que, sem ambição, estagnamos e somos ultrapassados pela concorrência. E um aumento nos lucros nunca fez mal a ninguém.
Acompanhei-o no sorriso, realmente não poderia me opor a isso: ele estava certo.
– E meu papel no seu monólogo é o de modelo para as próximas capas, suponho.
– Precisamente. Serão de três a quatro sessões de fotos, mais o processo de escolha e facção da capa; seria bom que participasse de todas as etapas, afinal usaremos sua imagem.
Pensei no que Sebastian me propôs. Apesar de parecer muita coisa, eu sabia que o mais complicado seria agendar as sessões, com o tanto de projetos que eu podia prever os professores passando assim que chegássemos de viagem. De resto, provavelmente seria rápido.
– Aceito sua proposta, Sebastian, com duas condições – cruzei os braços em defensiva, eu sabia que não estava em posição de exigir nada, mas ignorei esse pensamento – Só poderei começar daqui a quinze dias e... E preciso de um adiantamento de trinta mil dólares – terminei com um suspiro, encarando firmemente os olhos escarlates à minha frente.
Sebastian recostou-se melhor no espaldar de sua cadeira, apoiando os cotovelos nos braços dela e entrelaçando os dedos. Fitou-me por longos segundos antes de se pronunciar.
– Está bem, aceito suas condições. Mas me vejo no direito de fazê-las também. Serão apenas duas para mim, igualmente: incluirei no contrato a facção de mais três capas além das que lhe falei, o que torna você modelo oficial da série da Srta. Greend – pausou, como que esperando uma resposta, então assenti, concordando com a primeira imposição – E gostaria que fosse ao baile de Halloween da editora como meu acompanhante.
~X~
– Ah! É lindo! Ciel, corre aqui! – Christian gritou.
Andei calmamente até a grade, observando os menores movimentos daquele hiperativo. Um passo em falso e ele ultrapassaria a proteção rumo a uma queda de quase trezentos metros, o que não me parece algo bom, visto por qualquer ângulo.
– Realmente impressionante – comentei – A vista daqui nunca deixa de surpreender...
Chris deixou de observar a multidão que aglomerava-se abaixo de nós, próxima à enorme construção de metal. Virou-se curioso e um pouco chocado em minha direção.
– Você nunca disse que já havia estado em Paris, Ciel...
Fechei os olhos, percebendo meu deslize. Como explicaria que a última vez que estive na Cidade Luz fora na Exposição Universal de 1889?
– Na verdade, nunca estive. Mas foto dessa paisagem é o que não falta – arqueei uma sobrancelha, fingindo desdém e torcendo internamente para que ele acreditasse nessa desculpa.
– Mas você falou como se... – antes de terminar a frase, o estudante de artes cênicas chacoalhou a cabeça e sorriu com leveza – Deixa pra lá, devo ter entendido errado. O restaurante fica no primeiro ou segundo nível da Torre Eiffel?
Balançando a cabeça, apoiei minha mão em seu ombro e guiei-o para o elevador. Como pôde esquecer algo que ouviu cinco minutos atrás?
– Le Jules Verne fica no segundo nível. Por que? Você já quer descer? – perguntei incrédulo. Christian teve a decência de corar, baixando a cabeça. Sim, decência. Era o mínimo que ele devia fazer depois de me atazanar a viagem inteira! Suspirei, contendo a ira que ameaçava me dominar.
– Ora, vamos, Ciel! Mal acordamos, tivemos que sair do hotel para ir ao Louvre, sem café da manhã. Estou a mais de cinco horas sem comer, já são quase três da tarde! Mais um pouco e eu vou ter uma úlcera! – reclamou, um biquinho já se formando em seus lábios.
Certo, isso era verdade. Assim como era verdade que, se eu não tivesse uma ótima audição graças a Hannah, esta viagem não adiantaria de nada para mim. Afinal, é humanamente impossível entender alguma explicação de um guia quando um ser hiperativo fica dando pulinhos de inquietação, resmungando e reclamando sobre terem adiado tanto a visita à Torre Eiffel.
– Está bem...
Sorrindo, Christian enlaçou um braço no meu e arrastou-me para a escadaria.
– Vamos de escada? Por favor... – implorou com olhos brilhando como prata líquida.
– De escada? Em cinco minutos, você estará se lamentando e me culpando por não termos ido de elevador – revirei os olhos, já vira aquele filme.
– Dessa vez, saberei que a culpa é única e exclusivamente minha. Por favor, Ciel.
– Certo, Chris. Mas depois não comece a reclamar!
Ao contrário do que eu esperava, Christian ficou quieto enquanto descíamos calmamente os lances de escada. Ele encarava a cidade por entre as fendas na estrutura de metal, suspirando vez por outra, pensativo.
– A vista daqui é realmente incrível... – começou, seu tom próximo a um sussurro quando continuou – Sabe, apesar de ter gostado muito dessa viagem, estou morrendo de vontade de voltar pra casa. Sinto saudades de lá...
– Só de lá? – perguntei com um sorriso – Então devo assumir que certo jornalista negro com ébano, de olhos claros como gelo, não tem nada a ver com essa sua súbita melancolia, não é? – falei suavemente, tendo que segurar um risinho ao vê-lo corar de leve.
– Ciel! Quer parar de me constranger?! – disse baixo, como eu, nenhum de nós querendo quebrar esse momento de quase paz – E são estrelas – murmurou.
– O quê?
– Os olhos de Rafael, eles demonstram sentimentos demais para a frieza do gelo. Por outro lado, brilham como estrelas – esclareceu, fitando o céu perdido em lembranças. Um canto dos meus lábios arqueou-se para cima, simplesmente não consegui evitar. Chris estava tão apaixonado quanto Rafa, e nenhum dos dois percebia isso. Teria que ajudá-los, e já sabia como.
– Em momento algum eu citei o nome de Rafa... – comentei malicioso, rindo à medida que o vermelho nas bochechas dele se intensificava. Chris empurrou-me para o lado com seu ombro, o que só me fez rir mais.
– Para, que coisa! – resmungou e suspirou, indicando o céu parcialmente nublado – É como se a cidade não quisesse que fôssemos... Por mais que esteja sentindo falta do vermelho de Montreal, que parece amenizar o outono, fico meio triste por já estar indo.
– Christian... Você tem dinheiro e tempo livre o bastante para cinquenta viagens à França. Em um ano! Pode voltar quando quiser – revirei os olhos, desdenhando de seu drama, até que estranhei sua última frase – Mas o que você quer dizer com “já estar indo”? Ainda faltam três dias para voltarmos. São duas semanas em Paris, lembra?
– Na verdade, são onze dias em Paris. Os três últimos serão de escala por causa de uma tempestade que passará pela França. Não ouviu a senhorita Amélia avisar? – me encarou.
– Se ouvi, não recordo.
– Que estranho – franziu o cenho antes de seus olhos brilharem em compreensão – Ah, sim! Você já tinha ido dormir na noite que ela nos falou... Desculpa, esqueci de te dizer – corou levemente, envergonhado.
– Tudo bem, agora você já falou mesmo. Mas para onde vamos?
– A terra da Rainha. Ciel, nós vamos para Londres!
Se Chris não estivesse tão distraído, comentando pontos turísticos que poderíamos ver nesses três dias, teria notado o choque que tomou meu corpo, me impedindo de mexer um músculo sequer pelos próximos cinco minutos.
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