Promessa De Voltar
5 Capítulo 4
Notas iniciais
Montreal estava realmente linda naquele começo de outono. O fim de tarde nublado misturava ainda mais o amarelo e o laranja que começavam a tingir a cidade e, logo mais, seriam substituídos pelo vermelho. Podia sentir o cheiro das folhas e da terra, molhadas pelo orvalho, e também o calor dos poucos raios de sol que conseguiam ultrapassar a barreira de nuvens.
Podia ouvir os risos que ressoavam, alegres por parte das crianças que brincavam animadas nas parcas folhas já caídas, condescendentes por parte dos pais que se divertiam com a felicidade dos filhos.
Em qualquer outro dia, eu me agasalharia, mais por aparência do que por não querer o vento frio em minha pele, e encontraria algo para pintar em meio às cores de outono. Mas não naquele. Não, aquele não era um dia para diversão...
Era um dia para caça.
Disparei por entre as árvores do parque em que me encontrava, utilizando-me de seus troncos como apoio para saltar sem levantar as folhas do chão e não chamar atenção.
Saindo de lá, corri por mais algumas ruas, passando pelos telhados de alguns prédios, até chegar aos fundos de um hospital, bem a tempo de entrar antes que o portão fechasse após a saída de uma ambulância.
Vestindo um uniforme de enfermeiro, fechei os olhos e me concentrei nos sentimentos humanos que emanavam por ali. Sentindo alegrias e tristezas, uma emoção aguda me chamou a atenção. Uma pontada de desespero, seguida por dor, desolação e resignação. Hum... Belo conjunto. Onde há dor e resignação, há um mal que não se pode curar, ou talvez uma alma que já não pode ser salva.
Buscando a origem desses sentimentos, cheguei ao terceiro andar do hospital, mais precisamente, a um longo corredor com vários quartos. No final dele, avistei duas silhuetas: dois homens, um deles vestindo um jaleco e, aparentemente, consolando o outro. Foi deste último que senti o furacão emocional que me atraiu. Na verdade, ele ainda emanava uma sensação de dor profunda. Com um suspiro arrastado e cansado, olhou para o doutor, que acenou, e ambos adentraram no quarto logo atrás deles. Interessante. Uma má notícia, talvez? Aproximei-me e impedi que a porta batesse, deixando-a entreaberta. Era o suficiente para que eu pudesse ouvir.
– E então? Como está nosso pequeno Theodore? – uma voz cansada e suave sussurrou. Uma voz feminina.
Um suspiro soou. O mesmo que ouvi no corredor.
– O quê? Amor, o que houve? – a voz indagou, agora mais forte.
– Creio que, antes de mais nada, precise entender o que aconteceu após sua queda, Sra. Grayson – desta vez, uma voz grave quebrou o silêncio do quarto – Meu nome é Alexander White, fui eu quem a atendeu quando a ambulância chegou aqui. A senhora teve uma queda de pressão e desmaiou enquanto descia a escada de sua casa, não sei se se lembra.
A única mulher no cômodo assentiu rapidamente, como que ansiosa para que o médico continuasse.
– Pois bem. Ao desmaiar, você bateu a cabeça no corrimão e rolou dois andares escadaria abaixo, por isso está enfaixada. Quebrou a perna e fraturou algumas costelas ao cair.
– Isso não importa agora, quero saber por que meu filho ainda não veio mamar – a voz suave adquiriu um tom preocupado.
– Calma, meu amor... – uma voz masculina, semelhante à dos suspiros, tentou tranquilizar sua, provavelmente, esposa.
– Deve imaginar o estado em que você e seu filho chegaram aqui, Sra. Grayson – suspirou – Seu parto teve muitas complicações. Ele já possuía um risco considerável, pois você chegou apenas ao sexto mês de gravidez, com o acidente, os riscos, tanto para você quanto para o bebê, cresceram exponencialmente – a voz grave encheu-se de lamento – Fizemos todo o possível para impedir, mas era pedir demais de seu corpo...
O médico pausou seu discurso, e pude sentir uma chispa de indecisão vinda dele, além de pesar e um quê de impotência. Parecia ponderar sobre algo. Por fim, suspirou longamente e sua voz tornou a soar:
– Sra. Grayson, tivemos que retirar seu útero. Você nunca poderá engravidar novamente.
Uma exclamação de susto foi o que precedeu as lágrimas da moça. Seus soluços me prenderam ao presente, pois, de repente, me vi tomado por uma forte sensação de déjà vu. Eu já havia visto essa cena, há muito tempo atrás.
– Calma, querida.
– E-eu... Eu estou bem... – soluçou baixo – Mas onde está meu bebê? Onde está o Theo?
O silêncio tomou conta do local, eu podia ouvir as respirações daquelas três pessoas, bem como sentir suas emoções. Apesar de que não era algo realmente difícil: ao contrário de suas bocas caladas, os sentimentos que emanavam daqueles três pareciam gritar, tamanha as suas forças. Dor, pesar e desespero. Enquanto o doutor e o esposo protelavam em responder à mulher, esta já parecia ciente do que ambos hesitavam tanto em falar.
– Não... Não pode ser... – seu choro ficava mais forte a cada soluço – Amor, cadê o Theodore? – pânico tomou sua voz e ela gritou – Cadê o meu bebê?!
– Seu filho não estava pronto para nascer. Ele não sobreviveu ao parto.
– Não... Não! Meu filho! Eu quero o meu filho! – ela gritava em histeria.
– Sammie! – o esposo gritou – Ele não está mais aqui... – falou calmo, como quem explica algo a uma criança.
– E p-pra o-onde ele foi, Steve? – gemeu a moça após algum tempo, numa voz dolorida.
– Para o céu, que está cheinho de anjinhos... Assim como ele...
Após isso, ouvi um barulho de almofada cedendo, ou quem sabe de colchão, e o marido juntou-se à esposa no pranto por seu filho.
Não pude continuar ali, era intenso demais, doloroso demais... Familiar demais. Eu já vi aquilo, toda aquela cena. Com a única diferença de que, da primeira vez, a esposa era uma viúva.
Madame Red...
Senti uma súbita falta de ar, um aperto forte no meu peito vazio, uma lembrança de que já não tenho nada. Nem um colo para chorar, nem um par de braços para me abraçar.
Nunca liguei para nada disso, afinal, para o herdeiro da família Phantomhive, era impensável sequer cogitar a possibilidade de demonstrar tal fraqueza um dia. Mas só imaginar que ela sempre estaria ali para o que eu precisasse, com suas piadas de baixo calão, respostas irônicas e ternura maternal, era um alento para a alma de um jovem órfão, endurecida por vontade própria. Talvez por isso não tenha puxado o gatilho, quando ela partiu para cima de mim, num beco escuro de Londres.
Quando Madame morreu, coberta pela cor escarlate que sempre foi marcante em sua vida, eu não chorei. Não me desesperei, não sofri durante meses, não me enfureci com a vida, não derramei uma única lágrima. Apenas senti pesar pelo mundo ter perdido uma mulher de tanta fibra como ela, e também indignação ao vê-la ser velada rodeada por branco. Branco nunca seria sua cor, era vermelho.
Mas não sofri porque outro alguém tomou seu lugar como consolador de minha alma. Não era alguém a quem eu pudesse pedir colo, ou que me abraçaria se eu chorasse, não, de jeito nenhum. Eu me acalmava apenas por sentir sua presença perto de mim, por vê-lo no espaço ao meu redor, por sentir seu cheiro ou seus toques.
Agora não tenho nada. Nada que impeça meu sofrimento, nada que acalante meu peito, nada que segure minhas lágrimas, nada que acalme essa alma quebrantada que tenho. Se é que eu tenho uma alma.
Nem sabia mais o que fazia ali, o que me levara àquele hospital, àquele corredor, àquele quarto. Eu precisava sair dali, estar longe ao ponto de não sentir mais nada daquilo, de me esquecer de tudo que ouvi atrás daquela porta, de tudo que aquelas palavras me lembraram. Talvez ainda mais distante.
Com força e velocidade sobrenaturais, ultrapassei o muro e a cerca elétrica do hospital, arrancando do meu corpo o uniforme que eu roubara. Saí caminhando pelas ruas úmidas de Montreal, ao que parece, havia chovido.
Já estava próximo do parque em que estive mais cedo quando senti. Dor e sofrimento, ambos fortemente sentidos, seguido de persistência e negação. Desviei-me para esta direção, atraído por esta alma, pela fome que ela me lembrou de existir em mim. Uma alma tenaz... Eu gosto disso. Talvez algum sem-teto lutando para sobreviver, afinal, o medo da morte é o mais forte motivador, não é? Mas o choro de um bebê cortou meus devaneios. O que significa isso? Um bebê não possui emoções de tamanha intensidade.
Segui por uma rua estreita e, virando à direita, cheguei a um beco úmido e frio, iluminado apenas pela fraca luz de um poste distante. Parece até que ela se compadeceu com a cena que clareava. Mas quem não se compadeceria?
Mesmo sendo parcamente iluminados, eu podia ver com clareza os elementos macabros daquela cena impactante. Os trapos de um lençol, que um dia fora branco, agora sujo e ensanguentado. Sangue este que também estava presente em manchas próximas ao pano encardido, e ainda tingia as pontas afiadas de um longo caco de vidro.
Em cima do lençol estava o bebê que eu ouvira chorar há pouco tempo, e que agora apenas soluçava enquanto era embalado carinhosamente por braços magros. Estes tremiam como se fossem cair a qualquer momento pelo peso que carregavam, e sua dona aparentava ser tão frágil quanto. Ela era jovem, mal parecia ter vinte anos, provavelmente era ainda mais jovem do que isso, mas seu corpo desnutrido e o rosto contorcido numa careta de dor a envelheciam bastante. Sua longa saia, encharcada de sangue, estava levantada na altura dos joelhos, deixando à mostra suas pernas que estavam afastadas e levemente dobradas. No meio delas, um fio de carne jazia largado no chão. Aquilo era... O cordão umbilical do bebê! Poderia ela ter dado à luz ali? Sozinha, sem ajuda, naquele beco sujo, único lugar que a acolheu...
Os sons de soluços engrossaram quando a mãe uniu-se a seu filho, as lágrimas vertendo de seus olhos enquanto tentava dar de mamar ao filho e ofegava uma canção de ninar: Boi, boi, boi... Boi da cara preta...
Fui andando lentamente na direção dos dois, fazendo barulho para que a moça percebesse minha presença e não se assustasse. Percebi suas mãos segurarem o recém-nascido com mais firmeza, como se achasse que fosse ser separada do filho. Ela levantou o rosto em minha direção, os olhos amendoados temerosos velados de dor, a boca entreaberta sorvendo golfadas de ar com dificuldade.
– Você... Veio me levar? – indagou numa voz fraca.
Sua pergunta me confundiu. Levar? Para onde eu a levaria? E por quê?
– O quê?
– Sua aura... Não é a de um humano, não totalmente. Também não possui a pureza da de um anjo... Você é um demônio, não é? – sussurrou, ninando a criança em seu colo e arrulhando para ela, que começara a soluçar.
Assenti com a cabeça, fechando os olhos e respirando fundo. Posso sentir sua dor, apesar dela tentar deixá-la de lado para acalmar seu bebê, ela está ferida demais para isso. Na verdade, é impressionante que ainda não tenha sucumbido. Talvez seja por estar tão perto da morte, essa mulher esteja propensa a realmente notar o mundo a sua volta, e, portanto, me notar.
Ela voltou a chorar, desespero emanando de seu corpo.
– Por favor... – soluçou – P-por favor, não me leve agora. E-eu não... Não posso morrer agora. Meu filho p-precisa de mim – ela falava com tanta dor, tanto desespero. Fechei os olhos, concentrando-me em bloquear os sentimentos dela, já me bastam os meus.
– Não vim leva-la. Na verdade, isso é trabalho de shinigamis, os Ceifadores. Mas você vai morrer. Logo – falei calmo, abrindo os olhos para encara-la – E você sabe disso. Não é?
A jovem explodiu num choro convulso, meneando em afirmação várias e várias vezes, como se estivesse em transe. Curvou-se sobre o bebê, soluçando e gemendo, sussurrando para si mesma que não podia morrer. Lutava contra o próprio corpo, que já implorava pela desistência, pelo descanso, pela paz.
– Você não pode fazer nada? Não pode impedir? – sua voz soou abafada – Um demônio não tem poderes sobre-humanos?
– Não em seu estado. Apenas um ser celestial teria poderes suficientes para curá-la, e eu estou longe de ser um desses.
– Mas... Espere! – levantou-se abruptamente, contorcendo a boca em dor – Eu posso vender minha alma a você... Ela ainda está intacta... É isso o que demônios querem, não é? Almas.
Não comentei nada, por que iria? Ela tem razão. É isso o que todos os demônios querem: almas. Apenas isso. Nada além disso.
– Eu lhe vendo minha alma, se... Se você cuidar do meu filho.
Arregalei meus olhos. Confiar o próprio filho a um demônio?
– Deixará seu filho... Aos meus cuidados?
– Quero sua palavra de que dará a ele um lar, um lugar onde ele será amado, acolhido, protegido, bem criado e poderá ter uma vida feliz. Em troca, lhe dou minha alma – declarou firme, com um ar de imponência que não se espera de alguém em sua situação, com uma eloquência que não condiz com uma moradora de rua. Ela nem sempre foi acolhida somente pelos becos.
– Então eu lhe prometo que o farei. Mas, antes disto, faremos um contrato.
– Está b-bem... – murmurou falhamente, acho que utilizou todas as forças de que dispunha para esclarecer seu termo no contrato, sem margem para variadas interpretações. Ela estendeu-me a mão.
– O que foi? – questionei surpreso com o gesto, mas segurei sua mão. A moça olhou-me confusa.
– Você fará... Um pacto de sangue, não é mesmo? – comentou, como se fosse algo óbvio. Sorri condescendente, acho que ela viu filmes demais. Cobri a frágil e pequena mão dela com as minhas, agachando-me à sua frente.
– Não, não será um pacto de sangue que selará nosso contrato. Pelo menos, não do jeito que está pensando – limpei as lágrimas de sua face direita, para inclinar-me e morder-lhe a bochecha devagar, até que minha língua sentisse seu sangue. Lambi a marca da mordida, espalhando o líquido rubro pelo local, para, então, beijá-lo.
– Algo doce, em meio a essa dor amarga – murmurei em sua orelha, sentindo a vibração e o ardor da criação da marca em sua pele na minha própria.
– Você é tão gentil... Tem c-certeza – ofego – de que é um demônio? – refleti sobre suas palavras, hesitando em respondê-la, até que falei por fim:
– Confesso que nunca me senti tão humano quanto nos últimos dias, senhorita.
– Anna... – ela me sorriu – Esse é... Esse é meu nome. – soluçou – Eu não q-quero ir...
Eu podia sentir sua aflição por deixar o filho, ela resistia à morte, não queria abandonar a criança. Mas isso já era algo inevitável desde antes de eu entrar em sua vida.
– Anna, está tudo bem... Seu filho ficará bem, eu lhe prometi isso – afaguei-lhe o rosto – Você já pode ir.
Alívio inundou suas feições, relaxando-as à medida que ela permitia que a inconsciência lhe tomasse, e eu pude perceber quão bela ela deve ter sido.
– Cuide bem do meu pequeno Theodore... Tá? – sussurrou e eu me aproximei de seus lábios.
– Eu prometo... – roçando meus lábios nos seus, suguei a alma que deixava o próprio corpo.
Minha mente foi inundada por imagens, momentos de uma vida inteira, uma vida que não foi minha. Vi Anna tendo uma infância rica em brinquedos e mimos, mas pobre em carinho materno ou paterno. Vi a empregada da enorme mansão em que ela viveu, quem a tratava com sua própria filha. Vi Anna crescer e tornar-se uma bela mulher. Vi amigos fúteis e metidos, vi boas e más escolhas, vi-a seguindo seu sonho de fazer faculdade de música.
E o vi, seu primeiro amor, o único a quem se entregou de corpo e alma, de quem engravidou, pelo qual aceitou se deserdada por seus próprios pais e por quem foi abandonada, pois conquistá-la havia sido apenas uma aposta para ele. Vi-a sem abrigo, vagando pela cidade, sendo excluída, humilhada, desprezada. Vi a velha empregada de sua antiga casa encontrando-a e levando-a para a própria casa. Vi-a sendo cuidada pela pessoa que era como sua mãe.
Vi esta senhora morrer, vi Anna sendo despejada da humilde morada da empregada, vi-a lutando para sobreviver por seu bebê, e apenas por ele. Vi seu parto, sua força para fazer o filho nascer, o desespero de sentir a morte se aproximar e, por fim, o alívio ao salvar seu pequeno Theodore.
Uma lágrima escapou de meus olhos, contrariando minhas ordens. Realmente... Nunca estive mais humano. Minhas emoções, já abaladas pelos últimos acontecimentos, se descontrolaram completamente ao entrarem em contato com as dela.
Após devorar o último resquício de alma presente naquele corpo, peguei o bebê que chorava como se houvesse percebido a morte da mãe. E talvez realmente houvesse. Tentando niná-lo como vi sua mãe fazer, respirei fundo para pensar no que prometi a Anna. Para onde eu levaria este pequeno e, por incrível que pareça, gorducho projeto de ser humano? Onde seria um lar feliz para o pequeno Theodore?
Theodore...
“... Mas onde está meu bebê? Onde está o Theo?”
Minha mente deu um estalo. Mais é claro! Segurando firmemente o recém-nascido contra o meu peito, corri pelas ruas e vielas de Montreal refazendo o caminho que me levou àquele beco.
Invadi o hospital, nem me preocupando em disfarçar. Pela velocidade que eu usei, ninguém poderia me ver mesmo. Subi ao terceiro andar, buscando pelo quarto onde, mais cedo, ouvira coisas que lembraram tanto meu passado.
A porta encostada, o barulho do vento, os parcos e espaçados ressonares. Ainda podia sentir dor e tristeza vindos do local, além do amor estraçalhado, destinado ao pequeno ser que nem teve a chance de viver. Entrei sem fazer barulho, encontrando o casal adormecido ainda com marcas de lágrimas nos rostos, ele sentado na cama e encostado na parede, ela deitada em seu colo.
Pegando uma coberta que estava dobrada na ponta da cama, juntei-a de forma a fazer um “ninho” para colocar o bebê ali. Olhando ao redor, busquei algo em que escrever... Lápis e papel? Bem conveniente... Deixei uma curta mensagem, saltando pela janela e correndo de volta à minha casa, esperando sinceramente que tudo desse certo para o pequeno. Talvez ele leia a pequena folha de papel, um dia. A única lembrança de sua antiga vida.
“Uma segunda chance.
Seu nome é Theodore.”
~X~
– Cieeeel! – afastei o celular da minha orelha até que o zumbido agudo que ouvi voltasse a parecer uma voz.
– Não sei como ninguém o processou por estouro de tímpanos – rolei meus olhos – Christian, pode me dizer o porquê de estar tentando alcançar decibéis humanamente inalcançáveis?
– Ciel, vem para cá! Agora! – ele exclamou ansioso.
– O quê? Christian? Christian! – olhei o visor do telefone – Ele realmente desligou na minha cara?!
Suspirei, reprimindo minha indignação, e me dirigi ao apartamento dele. O porteiro, me reconhecendo das tantas e tantas vezes que passei por ali, permitiu minha entrada e eu subi até o décimo andar. Nem bem saí do elevador e um vulto loiro já me puxou para dentro do apartamento.
– Anda, entra logo! Onde é que você estava? Por que demorou tanto? Ai, Ciel, você não vai acreditar!!! – Chris dava pulinhos e batia palminhas de animação. E, sim. Foi no sentido literal.
– Calma aí, loirinho – riu Rafael – Ciel precisa de mais do que os milésimos de segundo que você pausa entre uma pergunta e outra para responder, sabe? Nem todos têm a sua habilidade de monologar sem parar para respirar – debochou, encostado na porta envidraçada que dava para a varanda, oposto a nós.
– Estava no Jardim Botânico – respondi – O que houve?
– Ai, não sei o que você vê de tão interessante nesse lugar! Quer dizer, claro, o Jardim é lindo, mas o que há de tão especial em um monte de plantas? Ir uma vez ou duas para conhecer, vá lá, mas três a cada mês?! Sabia que essa é a sua média de visitas? E sabia que... – o interrompi, antes que ele continuasse até o ano que vem.
– Chris, direto ao ponto, é só respirar e se acalmar, lembra? É fácil – sorri de canto – Agora fala. No que é que eu não vou acreditar?
Ele fechou os olhos, inspirando fundo até inflar as bochechas para soltar o ar de uma vez. Abriu os brilhantes orbes cinzentos, me encarando com o rosto corado de agitação. Rapidamente, Rafael tapou os ouvidos.
– Nós... vamos fazer... Uma excursão!!! – gritou estridentemente alto. Pode ser redundante, mas essa é a única expressão que parece fazer jus à exclamação de Christian.
Franzindo a testa, senti uma dor aguda nos tímpanos e agradeci por minha capacidade de sentir dor ser consideravelmente menor que a dos humanos. Olhei para ele, em seguida olhei torto para Rafa.
– E você nem pra me avisar...
– Acorda, Ciel! Não é hora pra você reclamar do que Rafael fez ou não fez. Nós vamos sair em excursão! Ouviu? E-X-C-U-R-S-A-O, til no ‘a’ – falou, me chacoalhando pelos ombros excitado, os olhos cor de mercúrio praticamente faiscando – Nós vamos à Paris! Ai, ai... Uma semana explorando a Cidade-Luz... – murmurou, sonhador.
– E serão todos os cursos de Humanas? – perguntei. Essa não parece uma boa perspectiva, seria um caos todos juntos e não daria para aproveitar coisa alguma.
– Na verdade, somente os alunos de cursos diretamente relacionados a Artes foram convidados. – Rafa me esclareceu, observando comigo o dono do apartamento percorrê-lo inteiro, buscando malas e murmurando coisas como “Não posso me esquecer de levar casacos e sobretudos”, ou “Será que três malas são suficientes?”.
– A faculdade vai bancar todas as despesas? Ainda assim, é um número enorme de alunos – afirmei.
– E desde quando os diretores daquilo bancam alguém que não seja bolsista? – replicou-me, ainda observando nosso amigo correr de um lado a outro – Cada aluno vai pagar as próprias despesas.
– É mesmo! – Chris sorriu como uma criança às vésperas do Natal – Tenho que pedir à minha mãe esse dinheiro, além de um bônus para compras! – suspirei.
– Eu não vou.
– O quê?! Como assim não vai? Ciel, você tem que ir, essa viagem equivale à cinquenta por cento da nota do semestre! Mesmo você sendo um gênio, teria dificuldades de fazer todos os trabalhos extras para compensar! – Chris exclamou tentando ser convincente, a ansiedade tomando conta de sua voz.
– Dessa vez, eu tenho que concordar com o Christian, Ciel. Você não vai conseguir conciliar o estudo, as aulas e o emprego com trabalhos e projetos a mais. Além do que essa é uma experiência única na vida. Você deve ir.
– E é agora que vocês me falam que encontraram o pote de ouro no fim do arco-íris e pretendem compartilhá-lo comigo? – indaguei num frio desdém – Caso vocês não se lembrem, o salário que ganho como modelo mal me permite pagar a faculdade, quanto mais uma viagem dessas! E isso deve custar mais de trinta mil dólares, levando em consideração o gosto dos diretores por primeira classe e locais cinco estrelas.
Ambos me olharam com um quê de tristeza, e eu podia até ver as engrenagens rodando em suas cabeças na busca por uma solução.
– Nós podemos pagar sua excursão, não concorda, Rafa? – Chris indagou, continuando após um aceno positivo do outro – Dividimos o valor em quinze mil pra cada um, não vai ser nem um arranhão nas contas bancárias de nossos pais. Inventamos um evento escolar, não sei, qualquer coisa! Eles mandam o dinheiro.
– Não, obrigado – recusei a oferta – Se eles descobrirem que gastaram todo esse dinheiro por um motivo idiota desses, é capaz de vocês não verem a cor dos seus cartões e carteiras por um bom tempo.
– Ciel – ambos me chamaram com seriedade, encarando-me até que os fitei de volta – Você e seu futuro não são, nem de longe, motivos idiotas.
Sorri levemente. Por essas e outras, nos tornamos amigos, por se preocuparem comigo e estarem sempre lá por mim, dispostos a me ajudar – mesmo que eu não precise dessa ajuda. Olhei para ambos, vendo a determinação em seus olhares, e podia até imaginar a cena que se estenderia: Christian apelaria para o lado emocional, Rafael para o lado racional e, juntos, me coagiriam a aceitar o que me propuseram.
– Está bem, verei se consigo algum trabalho rápido e bem pago na agência, satisfeitos? – respondi, irônico, antes que pudessem continuar – Mas não me deem nada, eu posso me virar. Já sou bem crescidinho.
– Ótimo! Agora vamos comer, fiz macarronada para a gente – Chris informou e correu cozinha adentro. Rafael e eu o seguimos devagar.
– Nunca conheci alguém como ele – murmurei impressionado.
– É, ele é incrível... – sorriu ternamente, para abaixar os olhos claros e logo após vira-los para mim, preocupação tingindo seu semblante – Entretanto, eu... – suspirou – Eu tremo só de pensar... Nos problemas que ele conseguiria arranjar em uma cidade tão grande e estranha para si como Paris.
Sorri de canto, esse foi seu jeito sutil de me implorar para que eu fosse junto com nosso amigo e o protegesse, confiando-o a mim. Penso em quando ambos descobrirem o que sentem um pelo outro, será que todos os humanos são lentos assim?
– Seria como uma mariposa atraída pela chama de uma vela até perceber, tarde demais, quão perigoso é o ato – refleti, imaginando uma mariposa amarela gigante rondando a Cidade-Luz. Segurei firme no ombro de Rafael, sentindo que ele precisava de algo palpável para se acalmar – Vamos. Ao menos sem fome preciso estar, se terei que voltar àquela agência antes da semana que vem.
Ele assentiu, respirando fundo e relaxando as feições, ciente de que esse era o meu jeito sutil de dizer que faria tudo o que puder para ir com Christian, para protegê-lo.
– Eu também porque, enquanto os aspirantes a artistas curtem suas mini férias, o aprendiz de Jornalismo aqui digita e redigita matérias e mais matérias! – Passou um braço por meus ombros, gargalhando e contagiando Chris. Envolto em sorrisos, não pude impedir que um despontasse em meu rosto.
~X~
No dia seguinte, eu estava na agência de modelos no exato momento em que a secretário do dono chegava ao trabalho. Era ela que passava os trabalhos ao grupo de modelos, saberia se uma sessão de fotos que pagasse bem tivesse sido requisitada.
– Bom dia, Ciel! – me cumprimentou com um enorme sorriso, simpático como de costume – De volta tão cedo? O que o trás aqui?
– Bom dia, senhorita Phillips. – falei, com uma animação bem diferente da dela, e expliquei resumidamente o motivo para estar ali: a viagem pelo curso e a quantia necessária para tal. Perguntei se haveria algum trabalho para mim.
– Então, Ciel, para o seu tipo físico, não há nada com um pagamento próximo a esse valor e... – ela parou de repente, encarando o monitor com espanto – Que coisa estranha...
– O que foi? – indaguei.
Ela levantou o olhar para mim, parecendo insegura, e logo após voltou-o à tela do computador.
– Há um trabalho aqui para você... – começou hesitante.
– Mas a senhorita não disse ainda agora que não há pedido algum que atenda às minhas condições?
– E não há, pelos filtros que usei. Especifiquei seu perfil, na primeira busca: estatura, cor de pele, olhos, cabelo... – explicou-me, enquanto digitava algo rapidamente para virar-se na minha direção – Mas, como é algo urgente, resolvi buscar por “Ciel Bluehive”. E não é que achei uma lista de pedidos para você?
– Mas por que essa lista não saiu na primeira busca? – indaguei surpreso.
– Porque é uma lista de pedidos rejeitados – disse, virando um pouco o monitor. Apoiei-me no balcão para poder ver – Todos enviados por editoras, buscando um rosto para capas de livros. O sistema os deleta automaticamente dos pedidos recentes, pois na sua ficha há “Indisponibilidade” para esse tipo de trabalho.
– E por que esses continuaram arquivados?
– Então, os pedidos rejeitados pelo modo automático passam um mês na lixeira, antes de serem excluídos dos arquivos – olhei novamente para a tela, tinham mais de vinte pedidos na lista!
– Está me dizendo que todos eles foram feitos nos últimos trinta dias?! – perguntei perplexo, querendo tem certeza do que entendi. Eu nunca fora tão requisitado assim.
– Uhum, e o mais estranho é que todos são da mesma editora. Devillana, conhece?
– Devillana? Tem certeza? – o nome lembrou-me imediatamente do Leilão ocorrido há dois dias, o senhor grisalho, seu pedido de reconsideração, o nome que li naquele cartão...
– Ciel! – gritou, chamando-me a atenção.
– O quê?
– Pareceu estar em outro mundo, chamei-o várias vezes e não respondeu – olhou-me desconfiada, mas ignorou a própria vontade de saber mais sobre minha distração momentânea – Bom, os pedidos foram feitos pela Editora Devillana, sim. E... – pausou, rolando o cursor para baixo – Ao que parece, essa empresa acabou de enviar mais uma solicitação. Gostaria de ver?
– Abra. Talvez seja o que procuro – pedi, lembrando das palavras do empresário. Nossos diretores gostaram muito do seu trabalho... Temos uma proposta para você...
A Srta. Phillips abriu o arquivo, lendo-o rapidamente, e voltou a falar.
– Eles querem mais do que uma sessão de fotos, é um pedido de empréstimo. Querem você fotografando pela editora por um mês, e ofereceram uma boa quantia à agência. O diretor aceitaria a barganha fácil, fácil... Quanto a seu pagamento, seria combinado na editora. Que acha?
– Interessante... – comentei, desvencilhando-me do balcão devagar, até estar ereto novamente – Acho que vou ouvir o que eles têm a me propor – acenei para ela, andando em direção à saída.
– Não quer o endereço, Ciel? – exclamou.
– Não precisa, Andrea – sorri ao ver sua surpresa por eu saber seu primeiro nome – Sei onde fica.
Entrei no elevador, virando para as portas que se fechavam bem a tempo de ver sua face chocada.
Rindo, chamei um táxi, falando ao motorista o endereço que havia decorado, de tanto ler e reler aquele cartão. Será que ele estaria lá? Não... A sede da editora fica em Nova York, além do que ser sócio majoritário não implica necessariamente que ele trabalhe nela. Essa afirmação ficou rondando minha mente, tentando cortar pela raiz a esperança que brotava em meu âmago. Estou aqui apenas para proteger aquele loiro anormalmente inocente, pensei firmemente, e nada mais.
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