Promessa De Voltar
4 Capítulo 3
Notas iniciais
“Yes, my Lord.”
Essa foi a última coisa que ele me disse, a única frase que ainda ouço em meus raros, vagos e nebulosos sonhos, a única coisa sobre ele a qual me permito lembrar. E agora... Essas palavras obtiveram mais um papel marcante em minha vida: tornaram-se prelúdio dele.
Ao me virar, a primeira coisa que vi foram seus olhos carmesins brilhando intensamente. Segui a franja que caía suavemente por eles, chegando até o topo dos sedosos fios negros que se moviam com a brisa. Tracei a linha do nariz com o olhar para, enfim, chegar aos lábios finos e bem desenhados, curvados para cima.
Estava de pé na varanda do apartamento, um braço atrás do corpo esguio, o outro dobrado e servindo de suporte para um paletó grafite, aparentando subserviência. Vestia uma calça da mesma cor e uma camisa azul com listras pretas, além de uma gravata também preta. E... Luvas idênticas às que ele usava quando era mordomo, exceto pela mudança de cor: negras.
– Boa noite, Mestre... Já faz muito tempo. – ao ver que eu não iria falar nada a respeito de sua súbita aparição, Sebastian aproximou-se de mim – Você cresceu bastante, Ciel. E... Bluehive? – indagou com ar de riso – Acho que não poderei mais chamá-lo de Lord Phantomhive, não é? Uma pena, senti falta desse nome... Mas, não mais do que de ‘Bocchan’.
Acabei saindo da provável hipnose em que me encontrava, retomando o controle do meu corpo e da minha mente. Como Sebastian me achou? Por que agora? E por que o deixei entrar tão fácil assim?
Senti uma pontada no coração. Parece que ele faz questão de me deixar consciente sobre como a volta desse demônio mexeu comigo. Meu peito estava cheio, havia tantos sentimentos lutando por espaço dentro dele, uma massa de emoções misturadas e, portanto, indefinidas. Meus pensamentos não estavam em melhor estado, mas um deles me atinou para a falta de algo dentro de mim: o vazio, frio e cruel companheiro meu. Percebi que praticamente não havia espaço para ele, eu era quase... Completo de novo.
– Por que está aqui? – perguntei para fugir desse pensamento e, para minha desgraça, o som foi falho.
– Diga-me você, que foi quem me chamou.
– Há uma grande diferença entre chamar alguém e dizer seu nome. Estava me seguindo, ao ponto de me ouvir?
– Não ouvi sua voz pronunciar meu nome, foi algo mais abstrato do que isso. Eu senti seu chamado através da ligação que temos, e quase não acreditei quando essa sensação me invadiu novamente. Vim o mais rápido que pude, um pedido seu não há como negar, Ciel – explicou com algo indecifrável no olhar, e isso me deixou nervoso.
– Não temos mais nenhuma ligação, Sebastian. – apesar de minha fala, pude perceber que o nome dele demorou a passar por meus lábios, como se eu houvesse sentido falta desse som em minha boca, e as aparências não enganaram dessa vez. Essa saudade que senti de certo modo me ligava a ele... Havia até me esquecido de como era prazeroso pronunciar o nome de Sebastian.
– Não é verdade, e você sabe disso, Bocchan. – Não... Não fale essa palavra – Você sabe, sempre que vê seu olho marcado pelo contrato, assim como eu também sei... Sempre que vejo o torso de minha mão – e retirou a luva negra de sua mão esquerda, deixando à mostra o símbolo que nos liga eternamente.
– Pense nisso como uma tatuagem que nunca deveria ter feito, humanos fazem isso a torto e a direito. Afinal seu intento fracassou, fazer um contrato comigo foi um erro – Assim como acreditar que você sentia algo por mim, além de fome por minha alma, também foi, Sebastian.
– Tatuagens, Ciel, também são feitas por significarem algo para as pessoas que as fazem, por mais fútil que este motivo seja. Com este contrato ocorreu o mesmo. Ele adquiriu um significado que, para mim, é impossível de ignorar – sua voz era calma, mas já não lembrava a inflexão que conheci nos dois últimos anos que passamos juntos. Seus olhos ganharam um brilho e intensidade que quase me sugaram, mas busquei me ater apenas a suas palavras – E, diferente do que parece ter sido para você, nunca o considerei um erro, Bocchan.
Impossível que isso seja verdade. Como ele não considera ter se atado a mim um erro? Com toda aquela indiferença e descaso, como posso acreditar em suas palavras? Aliás, qual o motivo dele surgir do nada em vida novamente? Ele tem que me chamar desse jeito?
– Eu o libertei! O que veio fazer aqui? Por que resolveu aparecer?! – Por que está aqui, se já não sente nem um mísero sentimento por mim?Por que continua a me perturbar com suas ações?
– Porque você me chamou, Ciel. E, por mais nefanda criatura que eu seja, sempre cumpro as promessas que faço... Bocchan – comentou como quem comenta o clima, como se fosse normal ele lembrar-se do que me prometeu quando se foi. Claro que eu não esquecera, mas ele? Aquele dia realmente significou algo para ele?
E por que ele continua me chamando de Bocchan?
O demônio aproximou-se de mim lentamente, sem nunca desviar o olhar do meu, que parecia aprisionado ao dele. Observei, paralisado, cada passo que ele deu. Quando parou, estava à distância de um dedo.
– Você realmente cresceu, Ciel... – murmurou delicadamente, acariciando minha bochecha com uma das mãos – Meu pequeno amo...
Apoiei o rosto nessa mão, querendo mais daquele toque, mais daquelas mãos frias que me aqueciam, mais do singelo prazer que começava a sentir. Sebastian inclinou sua face em direção à minha, a qual segurava com as duas mãos agora. Sua respiração chocava-se contra meus lábios e eu os entreabri, por alguma estranha razão, queria senti-la em minha boca.
– Meu Bocchan.
A fala dele teve o efeito de um choque em mim, acho que um raio não funcionaria melhor. Estapeei suas mãos para que me soltasse e recuei alguns passos, quebrando o contato de nossos olhos.
– Creio que seria melhor se você fosse embora. – murmurei fracamente, mais abalado do que um dia me imaginei estar.
O demônio piscou confuso, encarando-me com se eu tivesse falado em hebraico.
– O quê? Ciel, o que houve?
– Acho que é melhor você... – Sebastian avançou e segurou um de meus braços com força, interrompendo um possível monólogo desgovernado e fazendo-me encarar seus olhos vermelhos, faiscantes e perturbados.
– Essa parte eu entendi claramente – pronunciou lento – Refiro-me ao fato de sua atitude ter mudado de uma hora para outra, de como você, do nada, me rechaçou como a um cão.
– Não foi nada disso, devo ter passado a impressão errada – desviei o assunto, não era hora para analisar o porquê de ter me deixado levar por ele – Na verdade, tudo isso foi um grande mal entendido, lamento o incômodo.
Sebastian estreitou os olhos, franzindo as sobrancelhas. Sua respiração tornou-se mais pesada, as lufadas de ar esquentando meu rosto.
– Foi para isso que você me chamou? Tanto tempo longe e é isso que você me diz? – disse cada palavra lenta e pausadamente, numa voz baixa e sombria, tanta raiva expressada na fala que provocou a minha própria.
– Já falei que não te chamei – afirmei, puxando o braço de seu agarre – E o que queria que eu dissesse? Não possuímos nenhum laço, Sebastian. Por mais que tenhamos um contrato, não há nada que nos una! – gritei.
– Sabe que isso é uma mentira, Bocchan – Não... De novo, não – Há muito mais do que o contrato entre nós. Eu não viria se não houvesse, e você também não conseguiria me chamar. Apenas dizer um nome não causa o impulso que senti de vir para cá, você desejou minha presença.
– Não venha com conclusões a partir de ideias pré-concebidas. Posso ter desencadeado algo em você, mas esse certamente não foi o motivo. Talvez outra emoção tomou conta de mim antes que eu falasse seu nome, e eles se misturaram, tendo intensidade suficiente para impeli-lo – pura enrolação. Todas essas frases sem sentido não passavam de enrolação para adiar a confissão de algo que não gostaria nem um pouco de admitir, eu sei. E ele sabe também.
– Oras, Ciel. Ambos sabemos que mentir e dissimular não estão entre suas qualidades, por que tenta fazê-los agora? E para enganar a mim? – debochou com seu costumeiro sarcasmo, mas seus olhos endureceram de seriedade – Pare de fingir que não nutre sentimentos por mim, pare de tentar encobrir isso, pare de ignorar o que tento mostrar a você, Bocchan! – vi nervosismo aflorar nas feições de Sebastian e isso me chocou.
Abaixo a cabeça, incrédulo. Meneio-a em negação, ao mesmo tempo que luto para expulsar as ideias que a invadem. Não consigo, não quero entender o que ele tenta me mostrar. Simplesmente porque é...
– É impossível – um soluço de riso me escapou – Tudo isso é impossível.
O demônio me encarou com incompreensão. Como se não soubesse do que estou falando, Sebastian. Dei-lhe um sorriso amargurado.
– Demônios não sentem – disse com rancor.
Os belos e brilhantes olhos escarlates tornaram-se opacos, o corpo que quase me encobrira ao se inclinar endireitou-se numa postura rígida. A boca abriu-se, mas nada saiu dela. Virei, me apoiando numa poltrona ao lado do sofá.
– Creio que seja melhor você ir – repeti. Ele se aproximou, suas mãos também se apoiaram no espaldar da poltrona, ao redor do meu corpo, o dele à minha frente. Sem escapatória.
– Tem certeza, Bocchan? – seu tom tão rouco que estremeci.
– Não importa se tenho certeza ou não – respondi, trazendo o pequeno cartão de visitas até seu campo de visão – Você seguiu com sua vida, como lhe falei. E, ao que parece, eu não faço parte dela. – seu olhar foi ao papel e retornou ao meu – Já não sou seu Bocchan.
Todos os sentimentos que duelavam por espaço dentro de mim sumiram, um após o outro, a cada passo que ele deu ao se afastar. Por fim, com uma última mirada, jogou-se da varanda, deixando-me com o vazio. Frio e cruel vazio... Mas este já não parecia meu companheiro. Não...
Este já não era ignorável.
Minhas pernas cederam, meus joelhos tombaram, meu tronco curvou-se. E então veio o primeiro soluço, que deu vazão às lágrimas. Deitei encolhido no chão, triste, acabado. Meu corpo se contorcia com os sobressaltos que o choro causava, meu peito revirava atrás da completude que estivera tão perto, tão ao meu alcance.
Maldita promessa de voltar. Maldito mordomo que ainda atende meus desejos. Maldito demônio que me abala ao ponto de deixar-me em cacos. Maldito título que ele ainda insiste em usar. Maldito Sebastian.
– Maldito... – soquei o chão, gritando de angústia, rachando tanto o piso quanto o pouco que me restava de autocontrole – Maldito! – minha voz saía arranhada, rouca, falha – Mal-dito...
Tive de admitir, ao menos a mim mesmo, que ele tinha razão. Não é apenas o contrato que nos une, há algo mais. Toda essa falta, essa saudade que senti e aprendi a esconder até de mim tão bem, é apenas um sintoma de uma coisa maior e mais aterradora, é um sintoma desse algo. Esse algo unilateral, que decidiu dar as caras logo agora, me mostrar o que realmente é. Nunca pensei que a ignorância realmente pudesse ser uma bênção.
– Maldito – ofeguei soluçando – Inferno! Por quê? Por que sinto isso logo por você?!
O dia amanheceu, os raios solares invadiram o apartamento, banhando-o com sua luz morna e terna. Mas ela não foi capaz de parar os soluços e tremores que sacudiam meus membros, ou de afastar meu humor sombrio, ela não conseguiu esquentar a minha pele gélida da friagem da noite, ela não pôde acabar com a tristeza que a verdade me trouxe. Ela nunca seria suficiente para afugentar o vazio corrosivo que me tomou.
– Por quê... Por que sempre tem que estar certo?
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