Promessa De Voltar
3 Capítulo 2
Notas iniciais
A luz do sol entrava pelas grandes janelas de vidro, aquecendo a tarde fria de outono e iluminando a sala de aula com tons alaranjados. Contrastando com essa cor, um par de olhos azuis safira me encarava, demonstrando um medo infantil. Lábios rosados tremiam entreabertos. Um corpo esguio com leves curvas, de um branco leite coberto pelo fino tecido de uma túnica, jazia em um divã vermelho. As mãos faziam tanta força segurando o estofado que seus nós haviam esbranquiçado. Era uma imagem bela, e sua beleza vinha do leve desespero que toda criança tem ao encarar algo assustador.
Era um belo modelo também, mas este não me chamava atenção. Na verdade, nem essa frágil e sutil beleza me tocava. A imagem refletida no espelho à minha frente não me emocionava de jeito algum.
– Alguém está se concentrando no rosto? – silêncio. A senhorita Amélia o tomou como um “não” – Ciel, pode relaxar o rosto, querido.
Lentamente, a face assustada no espelho se desfez, passando a refletir meu tédio, mas rapidamente o disfarcei com cansaço. Afinal, eu havia aceitado prestar este favor à professora, e ela não tinha nada a ver com o fato de eu odiar os sorrisinhos maliciosos que Jonas direcionava para mim.
O ruivo de olhos dourados era o típico bad boy. Parece que nenhuma faculdade existe sem um desses, uma pena... Mas, francamente, esse tipinho não faria falta nenhuma, a não ser para aqueles projetos de meretriz que só pensam em transar com o primeiro musculoso que aparecer.
Revirei os olhos com esse pensamento, não entendo como algumas mulheres podem agir assim, buscando prazer e migalhas da atenção de um homem que nem vai lembrar o nome delas após cinco minutos. Elas realmente são dignas de pena.
Enfim, ainda não entendo por que diabos Jonas cursa Artes Plásticas. É perda de tempo, ele nunca conseguiria se formar, por um simples motivo: não era o curso que ele desejava. E não se pode ser um bom artista sem o mínimo de vontade para isso. Não sei por que ele continua fazendo algo que claramente não gosta. Talvez seja um masoquista.
Continuei refletindo sobre as pessoas ao meu redor, cada uma tentando criar algo de bom em sua tela, ou tentando não criar algo tão ruim. Isso durou mais ou menos três horas, quando a senhorita Amélia comentou que já tinha judiado demais de mim – o que respondi com um sorriso leve – e pediu que todos cobrissem suas telas para que ficassem protegidas.
Um por um, os outros estudantes guardavam seus materiais e deixavam a sala, enquanto eu desviava dos cavaletes que rodeavam o divã e ia para trás do biombo ao fundo para colocar minha roupa novamente. Ouvi algo como “Obrigada, Ciel!” ser gritado pela professora, que saiu com os últimos alunos presentes.
Puxei a barra da minha regata branca por sobre a calça jeans e peguei minha jaqueta preta, indo em direção a uma das janelas. Senti a presença de mais alguém na sala, no cavalete próximo a mim, devia ser algum retardatário que não havia terminado de arrumar tudo junto com os outros. Suspirei, eu iria pular a janela para correr até minha casa, então tinha de esperar até estar sozinho.
De repente sinto um par de braços me apertando firme e uma respiração quente chocando-se contra a pele do meu pescoço. Mas que diabos...
– Sabe, essa sua carinha amedrontada é muito sexy. O que eu preciso fazer para vê-la novamente?
Jonas! Mas o que aquele idiota estava fazendo?! Francamente, o que ele tem na cabeça?
Aproveitando-se do fato de que eu ainda estava surpreso com o que ele havia feito, o ruivo me virou e jogou no chão, ficando de quatro em cima de mim, uma de suas mãos segurando as minhas acima da minha cabeça.
– Vamos, Ciel, estou pedindo muito? Se bem que eu preferiria ver seu rosto contorcido de prazer... O que me diz? – ele riu malicioso – Eu estou interessando em você há muito tempo, e sei que essa sua cara de enfado é só para fingir que não está aos meus pés, como todos os outros. Acho que mereço alguma compensação por esperar esse tempo todo, hã?
Nojo e indignação se misturavam em mim. Ele realmente achava que eu... Como se eu tivesse meu interesse despertado por um ser como ele.
Trouxe a perna direita para o vão entre nossos corpos e chutei seu estômago com força mediana, fazendo-o arquejar de dor e soltar meus pulsos. Fiquei de cócoras em frente a ele – que se contorcia de bruços no chão – apenas aproveitando o momento. Há muito tempo eu queria fazer isso...
Segurei os fios ruivos de sua nuca com força, puxando-os obrigando seu tronco a arquear-se para trás, do modo a eu poder olhar em seus olhos.
– Como se eu fosse me interessar por alguém que nem ao menos tem a coragem de dizer ao paizinho rico que quer fazer Educação Física e que é gay... – ditei num frio desdém e seus olhos se arregalaram, provavelmente surpreso por eu saber disso.
– E torna a vida acadêmica de seus colegas de curso um verdadeiro inferno por ser frustrado e infeliz, quando a culpa é unicamente das suas próprias escolhas. – Sim, eu sabia de um podre ou outro dele. Audição apurada às vezes é um incômodo – Você é digno de pena. – pronunciei as palavras suavemente, vendo com prazer o impacto delas em seu rosto.
Soltei-o sem qualquer delicadeza, levantando e pegando minha jaqueta no chão. Ouvi Jonas soltar um gemido abafado.
– Devia passar na enfermaria, ou vai ficar com mais do que um hematoma como lembrança deste nosso... Encontro. – e saí.
Aquele ali já não importunaria mais.
~X~
– Christian! Christian! – Rafael exclamou, esmurrando a porta de madeira que, por sorte, era bem resistente – Christian, se você não sair desse banheiro em cinco segundos, eu arrombo essa porta!
– Só mais cinco minutinhos...
– Já é a décima quinta vez que você fala isso!
– Aff, calma! Estressado... – Chris reclamou.
– Cinco...
– Estou terminando!
– Quatro...
– Calma!
– Três...
– Já estou indo, caramba!
– Dois...
– Pronto, acabei, relaxa!
A porta se abriu, revelando um loiro vestido para matar: blazer cinza sobreposto a um suéter azul-marinho de gola rolê, calças jeans ajustadas às pernas e sapatênis azuis. Devo admitir que Chris arrasou. E, quando olhei para Rafael, percebi que não fui o único a achar isso. Mas ele logo se recuperou de seu pequeno devaneio.
– Toda essa demora só pra colocar essas roupas? – desdenhou.
Christian o olhou indignado com seu pouco caso para a escolha de um vestuário, o que, em sua opinião, era algo importantíssimo! Apenas rodei os olhos, o ataque iria começar.
– Só para colocar umas roupas?! Passei horas procurando alguma roupa mais formal que não me deixasse com cara de advogado engomadinho! – a voz dele subiu algumas oitavas nesse final – Não é todo mundo que pode botar qualquer camisa e calça sociais, jogar um paletó por cima e ficar perfeito assim. Você nem abotoou a camisa direito, e ela é vermelha! E ainda assim, você ficou ótimo! – concluiu alterado, aparentemente sem perceber que suas palavras revelavam o quanto ele notara Rafael. Mas nem tinham porque se importar, o outro também não percebeu.
Rafael corou, olhando pra si mesmo e percebendo alguns botões em casas trocadas. Começou a desabotoá-los devagar, mas Chris bufou impaciente, indo até ele.
– Depois eu que sou o lerdo. Francamente, você já deveria saber como botar uma camisa de botões, não? – deu um sorriso de lado, ao qual o outro retribuiu com um sorriso aberto, ambos corando. É, parece que minha presença tornou-se um tanto quanto desnecessária aqui...
– Bom, eu vou descer e esperar vocês no carro. Nunca tive vocação para castiçal. – comentei irônico, saindo do apartamento ainda a tempo de ouvir um “Ciel!!!” oitavas acima do normal humano. Sinceramente, não sei como Christian consegue fazer isso.
Fiquei uns cinco minutos sentado num banco do jardim que fica no térreo do apartamento dele. O céu está estrelado, sem uma nuvem ou lua que atrapalhe o brilho desses astros. Mas, apesar de adorar noites assim, sinto um estranho pressentimento. Algo vai acontecer hoje, se bom ou ruim, não sei, mas será importante.
~X~
O Centro de Convenções da universidade estava lotado de obras criadas pelos estudantes dos cursos que envolviam artes. Era a noite do Leilão de Obras, e havia uma grande variedade este semestre. Além das telas e esculturas de tamanhos variados, as maquetes do curso de Arquitetura também seriam leiloadas para construtoras.
O objetivo deste evento é arrecadar fundos para a universidade, ao que parece, a mensalidade exorbitante que nós temos que pagar não é suficiente para manter a instituição... De qualquer forma, o dinheiro arrecadado com o leilão é todo utilizado para reformas, viagens para pesquisa ou para manter matrículas de bolsistas.
O salão era enfeitado por grandes faixas de tecido azul e violeta, que foram penduradas no teto, presas às paredes ou enroladas nas colunas do salão. E as obras foram divididas em estações por “objetivo de trabalho”, afinal ainda eram os projetos dos cursos.
O ambiente estava em uma quase penumbra, graças à suave iluminação em tons de azul, e cada estação possuía uma iluminação mais “forte” na cor e direção que favorecesse mais suas obras. Homens e mulheres desfilavam pelo com belos trajes, admirando os trabalhos enquanto mantinham conversas fúteis uns com os outros, ou provavam algo oferecido pelos vários garçons presentes no recinto.
– Ainda bem que eu pensei melhor e não vim de paletó e gravata. Além de não combinar nada comigo, olha o tanto de pessoas que vieram assim! – o loiro comentou horrorizado.
– Não sei pra que tanta preocupação com isso...
– Ah, é? Pois pra quem não se preocupa com isso, você está muito dentro da moda, senhor Ciel Bluehive! – debochou.
Revirei os olhos. É claro que eu não viria de qualquer jeito, até porque ele cairia em cima de mim se eu fizesse isso, mas minhas roupas eram bem mais simples do que as do resto das pessoas no salão: blusa, calça e sapatos sociais pretos, além de um colete cinza. Também havia prendido meu cabelo num rabo de cavalo.
– Ok, até parece que você me deixaria vir se eu vestisse regata e jeans.
– Claro que eu deixaria! – ele me olhou indignado.
– Depois de fazê-lo dar meia volta e trocar de roupa. – Rafael comentou, distraído com fotografias do campus.
– De que lado você está? – Chris indagou irritado.
– De nenhum. Algum de vocês já tinha reparado que tem um lago bem no meio do campus?
Christian encarou Rafael incrédulo com a pergunta, mas depois seu rosto contorceu-se em dúvida.
– Tem um lago no campus?! – e correu pra perto das fotos.
– Acho que devo agradecer pelo resgate, ou não? – sussurrei para Rafa. Ele sorriu pra mim, piscou e seguimos para as fotografias também.
– Não se incomode. Que espécie de amigo eu seria se não pudesse salvá-lo de um Christian em surto? – debochou baixinho.
Enquanto caminhávamos pelo salão, eu buscava obras que pudessem me interessar o bastante para eu arriscar um lance no leilão, mas todas das quais gostei provavelmente receberiam os lances mais altos e, infelizmente, eu já não era um afortunado conde da nobreza britânica.
De repente, Christian começou a rir e, apontando para o próximo grupo de telas, comentou:
– Você nunca me disse que tinha irmãos gêmeos, Ciel.
Olhei para onde ele apontou e, sinceramente, entrei em choque. Mas não por ter ficado estupefato, ou coisa do tipo, era mais por não saber como agir. Foi uma daquelas situações “não sei se rio ou se choro”. As telas pintadas no dia do incidente com Jonas estavam expostas, o que mostra o nível do desespero da faculdade para ganhar dinheiro. Não havia nenhum pré-requisito para selecionar os trabalhos para o leilão. Mas o pior é saber que alguém vai comprar essas telas, mesmo elas estando mal-acabadas, mesmo que sejam um confuso mar de pinceladas e rabiscos, mesmo que não tenham emoção.
Agora, esses redemoinhos de cores desgovernadas terem a minha cara – ou caricatura – é uma irritação à parte.
– Muitíssimo engraçado, Christian. – lancei-lhe um sorriso torto, e já estávamos saindo dali, quando Rafael nos segurou pelos ombros.
– Ao que parece, nem todos estão perdidos – e acenou para os dois quadros nas extremidades do semicírculo formado pelas telas.
Eles retratavam praticamente a mesma cena, um jovem de madeixas negras e revoltas deitado num divã, com olhos lacrimosos e mordendo os lábios, sua expressão um tanto receosa ou assustada. Mas a grande diferença entre esses dois quadros era o “pano de fundo” da cena pintada.
Em um via-se uma paisagem bucólica através de uma janela lateral, a qual fornecia luz para o quarto em penumbra onde estava o divã. Os olhos do garoto pintado eram de um azul límpido, o que dava uma sensação de leveza, mesmo sua expressão fosse um tanto angustiada. Já o outro...
Não havia leveza naquilo. Nem mesmo a inocência infantil no rosto de traços delicados pôde amenizar o sentimento desolador que a imagem trazia. O quarto dera lugar a um céu negro mesclado com o vermelho de nuvens carregadas à noite. O móvel centralizado na tela repousava numa coluna de barro vermelho, a qual era escalada por um sem número de corpos em dor e sofrimento que fugiam de uma criatura hedionda de rocha e lava. Até os lacrimejantes orbes azuis do jovem turvaram-se pelo fulgor escarlate emanante das mãos agarradas à pele de alabastro que jazia abandonada num divã de veludo carmim.
– Nossa! Realmente são belas obras. Sabe quem as pintou, Ciel? – Chris indagou.
– Na verdade, não. Acho que não cheguei a ver nenhum daqueles quadros.
– Sabe, você é o modelo menos preocupado com a própria aparência que existe! Nunca gosta das próprias fotos, nem dos retratos, nada! Certeza de que escolheu a profissão certa? – ironizou.
– Você bem sabe que este trabalho é apenas para eu pagar minhas contas, Christian. Sem falar que sou bem melhor do que aqueles top models frescos e narcisistas. – rolei os olhos.
– Ele tem razão, Chris. Aqueles caras com quem você trabalha são intragáveis. – Rafael se intrometeu.
O rapaz loiro torceu a cara como quem se lembra de algo desagradável. Acho que ele concordou que nós temos razão.
– De quem você lembrou? – perguntei.
– Daquele afetado do modelo finlandês que fez uma sessão de fotos com você. – disse azedo, e eu tive que rir.
Realmente, o cara de quem Chris falou só era um pouco mais fresco que ele próprio.
– Então é verdade que pessoas parecidas não se suportam... – refletiu Rafa, com ar de riso, o que o rendeu um olhar indignado.
– Você está me comparando àquele narcisista finlandês? – exclamou.
– Não... Ninguém chega aos seus pés no quesito afetação. – riu e levou um beliscão de Christian, passando um braço pelos ombros dele.
Nessa hora, alguém meu deu uma batidinha no ombro. Virei-me e vi um homem grisalho sorrindo suavemente. Ele trajava um terno cor de chumbo bem alinhado e tinha um ar de executivo.
– Com licença, o senhor seria Ciel Bluehive, meu jovem? – perguntou com educação, ao que assenti. – Sou da Editora Devillana, reconhece este nome?
Confirmei, vagamente lembrando que esta editora costuma contratar os serviços da agência em que eu trabalho para a produção das capas de seus livros.
– Bem, nossos diretores gostaram muito do seu trabalho e temos algumas propostas para você. – começou – Entramos em contato com sua agência, mas nos informaram que o senhor prefere não fotografar para capas. Por um acaso, um dos diretores da Devillana veio a este leilão e, o reconhecendo, pediu que eu lhe questionasse se há uma chance de você aceitar fazer esse trabalho. – me olhou esperançoso como um cachorro querendo agradar, provavelmente querendo levar uma resposta positiva a seu patrão.
– Temo que não... – minha negativa visivelmente o desanimou – Eu realmente não gosto de posar para capas, evito ao máximo fazê-lo.
O homem suspirou, retirando um cartão do bolso do paletó, e sorriu triste para mim.
– Bem... Se por caso mudar de ideia. – Me entregou o que parecia ser um cartão de visitas, o qual guardei distraidamente. – Ao menos vá à Devillana ouvir a proposta. – pediu-me.
– Pensarei. Obrigado pela oferta. – ele assentiu e foi em direção a um grupo de homens que parecia rodear alguém. Provavelmente o tal diretor.
Passeei os olhos pelo salão em busca de Christian e Rafael e os encontrei discutindo próximos à mesa de bebidas. Ou melhor, o jovem loiro falava alterado, e um pouco corado, enquanto que o rapaz moreno lançava frases a esmo que, pela sua cara, eram provocações. Observando daqui... Esses dois dariam um belo quadro. Quando eles me avistaram, uma voz soou no alto-falante.
– Senhoras e senhores, por favor, dirijam-se para o anfiteatro da universidade. Nosso leilão terá início em cinco minutos.
– Então, se interessaram por alguma coisa daqui? – indaguei ao me aproximar.
– Oh, sim. Vi um vaso lindamente feito, e pensei em dá-lo a minha mãe, o aniversário dela será em dois meses. – os olhos cinza brilharam, assim os dentes brancos do sorriso que Chris abriu.
– Não senti vontade de comprar nada, mas até que sua causa é nobre. – Rafa ironizou.
– Então vamos, antes que vocês comecem outra briga de proporções homéricas, e me usem de mensageiro de paz novamente – os empurrei para o anfiteatro antes que Chris pudesse abrir sua boca. Basta uma centelha para que estes dois fiquem em chamas, e em mais de um sentido até.
A quantidade de assentos era mais do que suficiente para todos os participantes do leilão. No palco, havia sido armado um telão, provavelmente para “apresentar” a obra que seria leiloada, além de um tripé de apoio para um microfone.
Pontualmente às oito e meia o mestre de cerimônia saiu da cochia e, a partir daí, o que minha mente registrou foi um borrão de lances, imagens e braços erguidos agilmente. Vi quando Rafael aumentou por três vezes o lance para o vaso que Christian queria quando a peça atingiu o valor máximo que ele podia pagar, e que os olhos cinzentos dele ficaram úmidos com o gesto do outro. Notei o homem grisalho fazer alguns lances, após ponderações do grupo que o acompanhava. Mas o que me intrigou foi a insistência de quem suponho que seja seu patrão, mandando-o cobrir os lances feitos à dois quadros. Belos e intrigantes quadros. Paradoxalmente belos e intrigantes quadros. Meus paradoxalmente belos e intrigantes quadros.
– Ao que parece, o diretor da editora gostou mesmo de você, Ciel. – Chris comentou, entre a malícia e a seriedade.
– Pouco provável... – Rafael murmurou. – Nem de longe nosso Ciel parece tão indefeso quanto aqueles dois.
– Nem pareço, nem sou, que fique bem claro. – resmunguei irritado. Sempre detestei que me julgassem frágil ou fraco, coisas que nunca fui. Apesar de que não posso culpar totalmente quem o faz por isso, afinal minha aparência só parece confirmar essa ideia.
– Certo, calma, olho azul. – sorriu torto, e então olhou para seu ombro oposto a mim, onde Christian se encostara sonolento. – Bem... Acho que devemos ir, não?
Concordei com um aceno e o ajudei a levar nosso amigo cambaleante para o carro.
Meia hora depois, eu entrava em meu apartamento e me jogava no sofá. Pus um braço sobre os olhos e suspirei resignado. Já não podia mais adiar, há quase treze anos eu não consumia uma alma e, mesmo que não fosse morrer se não o fizesse, aquilo me enfraquecia. Pelo menos já tinha algo para fazer amanhã, já que não teríamos aula por se tratar de um feriado.
Levantei com o intuito de beber uma taça de vinho tinto antes de dormir, mas um farfalhar me fez virar: o cartão que o represente da Devillana me dera caíra do meu bolso quando sentei.
Apanhei-o, prestando atenção nas informações pela primeira vez aquela noite. Ela ficava próxima ao Jardim Botânico de Montreal, para onde ir eu planejava após me alimentar. “Talvez eu devesse considerar ouvir essa tal proposta”, divaguei enquanto lia os nomes dos diretores, “Eu poderia passar lá antes de...”.
Paralisei, os olhos fixos naquele pedaço de papel. Como algo tão pequeno pôde gerar tal comoção? Mas... Aquele sobrenome...
Sócio majoritário: Mr. Michael – Balancei a cabeça, devia ter lido algo errado, não poderia ser... Mas era.
Michaelis.
Quantas pessoas no mundo têm esse sobrenome que lhe dei?
Michaelis.
Suponho que não o bastante para justificar essa coincidência.
Michaelis.
O nome rondava em minha cabeça como um eco. Preciso... Ao menos uma vez... Ouvi-lo soar.
– Mic-chaelis. – o som parecia preso em minha garganta – Michaelis. – falei quase em reverência esse nome que nem sequer me permitia pensar.
– Michaelis. – suspirei – Sebastian...
– Yes, my Lord.
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