Meia noite.

Sangue fervendo, veias pulsando. Sorte era daquele que não ousasse cruzar o nosso caminho ao decorrer da grande cena que ali acontecia.
O suor que escorria pelo meu rosto e mãos ardentes se misturava com o sangue da vítima debruçada sobre minha moto que ali eu não continha piedade em minhas mãos. De longe dava para se ouvir os gritos de dor e agonia ao fundo da floresta neblinada.

Com um golpe certeiro no meio de sua testa e outro no coração fiz o maldito se calar de vez. No ápice da matança, mais suja a minha adaga ficava e uma nova cor a minha Hurley Davison ganhava.
Com a certeza que ouvi o seu último suspiro, iniciei o meu atestado de óbito. Com a navalha que estava em meu colar, fiz-lhe um corte em formato de "x" e abri o seu peito. A lâmina estava afiada como o de um bisturi. Retirei as artérias junto com as verteres e arranquei o seu coração que ainda eclodia em minhas mãos culpadas. Abri a minha mochila, coloquei o órgão ensanguentado em um potinho de vidro e em seguida o guardei. Por fim, arranquei-lhe o pescoço.
— Mais um brinde para a sua coleção de cabeças? — Ironizou Patrick, após assistir toda a cena.
— É o que eu mereço depois de ter feito todo o trabalho sozinha. — Peguei minha mochila e a coloquei nas costas.
E eu não estava mentindo. Pela primeira vez o meu parceiro de crimes deixou o trabalho sujo todo para mim.
— Está merecendo um banho, isso sim. — Avacalhou ele com o seu charmoso risinho irônico de canto.
— Cala a boca! — Levantei-me e amarrei a cabeça no guidom da minha moto com o meu cinto de correntes.
— Tem certeza que vai andar com uma cabeça chacoalhando no seu guidom? — Indagou.
— Caso algum policial nos pare por causa disso, a vendo pelo preço de um chaveiro. – Respondi.
— É mais fácil você mata-lo do que negociar um chaveiro humano. – Ironizou.
— Acho que não. Hoje estou muito boazinha para isso. Mas como não fez nada hoje, caso aconteça, eu deixo o último espetáculo para você.
— É isso mesmo produção? Senhorita Luna está renegando mais um assassinato na mesma noite e deixando ele para mim?
Patrick não perdia a chance de me zoar. Foi assim desde o princípio e será até o fim.
—Esse é o castigo por não ter me ajudado em nada. – O encarei.
— Queria ser castigado mais vezes! – Rimos e demos a partida.
Patrick e eu nos conhecemos desde de pequenos, ambos tivemos uma infância não muito agradável e desde então começamos a olhar a sociedade com olhos cruéis. Os traumas intercalados de nossas infâncias não justificam tais atos que cometemos, mas sim o mero prazer e a diversão. Estes são os únicos momentos em que nos divertimos juntos, caso o contrário, nossa relação vira um picadeiro do inferno, e começa a passar de amizade para ódio eterno inconfortável. Tiramos essa mesma conclusão quando tivemos que matar nossos pais aos seis anos de idade, quando uns grandalhões invadiram a nossa e as outras casas do bairro para matarem. E para nós mantermos vivos, ou matávamos todos ou nos matavam. O resultado dessa chacina resultou em nós. Dois adolescentes compulsivos por vingança.
Desde então, unimos o nosso ódio, mas até hoje não sabemos ao certo quem eram e porque foram enviados a cidade para cometer tal ápice. A única certeza que temos é que ainda estão por aí, mas não por muito tempo.