Chegamos em casa ao amanhecer. A neve derretida ao redor dos carvalhos e por cima do telhado de madeira já apresentava o final do inverno.

Retiramos as botas e entramos. Dizem que quem vê aparência vê casa. Assim como nós, nosso lugar de aconchego não era tão normal e moderno comparado a uma casa de um ser humano benevolente de linhagem nobre. Nos acomodamos em um lugar bem afastado da população humana por motivos óbvios. Uma pequena cabana abandonada no meio de uma floresta de pinheiros e carvalhos próximo a um riacho de águas cristalinas. Por fora, era aparentemente uma cabana normal, arquitetada rusticamente por madeiras finas e fortes de pinhares. Sua falta de tintura deixava o seu ambiente ainda mais rústico quanto parecia.
— Eu só não entendi uma coisa... – Iniciou Patrick ao estacionarmos as motos em frente a cabana.
Não tínhamos a preocupação de deixa-las ali e muito menos de sermos roubados (também por motivos óbvios), ou que alguma autoridade nos encontrasse. Qualquer pessoa que se atrevesse a nos incomodar ficaria sem a parte do corpo que ousasse a tocar em nós ou em nossas motos, pois elas eram os bens mais preciosos que tínhamos.
— O que? – Indaguei.
— Por que deixou a outra vítima escapar? – Perguntou.
— Eu disse que estou boazinha hoje. – Liguei o lampião para clarear o ambiente. Joguei minha mochila em cima do sofá e direcionei-me para o saguão, o qual Patrick fez questão de cavar três metros de profundidade para fazer o que ele é hoje: “Nossa sala de troféus. “

Tudo que se refere a nós já dá para notar que nem tudo o que dissemos é cem por cento o que aparenta ser, a começar por nós, até porque não aparentamos ser o contrário do que não somos. Nosso estilo rústico e sombrio nos destaca e deixa bem estampado o que queremos que vejam.Outro exemplo é a nossa “sala de troféus “. Trocamos as taças por cabeças cortadas e penduradas nas paredes em fileira, as medalhas por órgãos vitais guardados em potes e os troféus por corpos semi- enterrados guardados em caixões. Alguns até vivos para enterra-los em alguma ocasião especial ou data comemorativa, tipo no natal ou páscoa.

Retomei a sala e me acomodei na macies do estofado revestido em couro de urso enquanto Patrick iniciava o jantar.

— O que quis dizer com “estou boazinha hoje”? – Ele ascendeu o fogo na lareira para me esquentar e sentou-se à minha frente.
— Que sei bem aonde encontrá-la. – Respondi.
— Você é demais! – Sorriu e tentou me beijar.
— Vou caçar algo para o jantar. – Me esquivei.
— Vou preparar os legumes. – Disse ele.
Me levantei, calcei novamente o coturno, peguei o lampião e o casaco que estavam pendurados no cabideiro e sai.

Apesar de que o inverno já estava acabando, estava congelante lá fora. Minha pele pálida, transparecia ser albina em toda aquela neblina esfumaçante que deixava os meus longos e lisos fios negros molhados. Minhas bochechas coravam-se só de sentirem o vento frio as tocarem.
Desde pequena, assim como Patrick, aprendi a ser independente, pois nunca gostei de sentir a sensação de que precisava de alguém além de mim mesma. Aprendi a fazer tudo sozinha. Desde a engatinhar até matar. Nunca tive auxílio dos meus pais para nada, e por isso tive que desenvolver minhas habilidades um pouco mais rápido que uma criança normal. E não foi diferente com a caça. Na falta de comida em casa, eu saia em busca de algum fruto ou qualquer animal que o meu estômago sentisse atração.
Como o lago estava congelado, não dava para pescar, então resolvi sair para a caça. Não fui tão longe, após dez passos contados avistei uma lebre com seus filhotes. Sempre tinha uma armadilha fácil em mãos, e também espalhadas pela floresta. Como eu e Patrick sabíamos como acionar cada uma de longe sem espantar a presa, logo puxei um dos galhos do arbusto que estava a minha frente, que de imediato fez cair com velocidade indistinguível, cair uma pequena gaiola de madeira por cima dos orelhudos sem dar-lhes qualquer uma brecha para escapar. Os peguei e voltei para a cabana.
— Como diz o ditado: cinco coelhos com uma machadada só! – Falei ao entrar com a gaiola nas mãos.
— Não é bem assim o ditado. – Contrariou Patrick, analisando as criaturas felpudas.
— E eu também não precisei usar nenhum machado! – Avacalhei.
Ele riu e pegou a gaiola.
— Vou tomar um banho! – Retirei o casaco e as botas e as coloquei de volta no cabideiro.
— Acho uma excelente ideia, antes que esse sangue seque e apodreça o seu rosto. – Ironizou, levando os bichinhos para a cozinha.
— HAHÁ! Que engraçado!

Deixei-o só e fui para o banheiro! Antes de ficar completamente despedida, Patrick bateu na porta. Me enrolei com a toalha e abri.
— O que houve? – Perguntei.
— Pelo que te conheço bem, você odeia água fria! – Me entregou os baldes com água fervida que eu havia esquecido.
— Obrigada! – Agradeci e ele retribuiu o sorriso ao fechar a porta.
As vezes gosto muito do Patrick, sem contar os momentos de prazer quando assassinamos alguém juntos. Por mais que não pareça, ele é um cara atencioso, preocupado e carinhoso. Se não fossem os seus problemas psicológicos, seria um ótimo namorado. Mas talvez isso seja uma própria ironia da minha mente. Se eu o contasse ele acharia disto uma piada muito ruim dita por mim.
Entrei na banheira e me desliguei do mundo ao sentir a fervura das gotas purificando os meus poros. Como eu não sou uma garota normal e comum, não é de se espantar quando coisas não normais começam a acontecer comigo. Uma pessoa do meu estilo de vida, pode ser julgada como psicopata, louca, e entre outros derivados que se encaixaria dentro de uma cela de prisão ou clínica de reabilitação. Apesar do meu modo de agir e de eu não ter nenhuma religião, isso não significa que não acredite nas outras submetidas a crença da raça humana.
Mergulhei meu rosto na água e ao me submergir vi um ser muito estranho sentado me observando do lado da banheira. Vindo de uma pessoa normal, o susto e o medo seriam uma reação normal, mas não relacionado a mim. Uma pessoa como eu não tem medo da morte e sim a tem como sua melhor amiga.
Enxuguei meus olhos para me certificar de que aquilo era real, mas quando os abri novamente, não havia mais nada. Somente um fleche de luz consumiu minha visão, deixando-me quase cega.
Logo, me levantei e enrolei a toalha em volta do meu corpo coberto por uma aquarela em degrade de vermelho borrado pelo sangue mal lavado.
Com o choque do susto, não tive tempo para gritar. Sai imediatamente do banheiro a procura de algo que respondesse as ilusões do que meu cérebro acabara de me proporcionar.
Os pingos avermelhados do sangue misturado com a água faziam o meu rastro de pânico pelo corredor até chegarem a sala, onde Patrick, através do balcão que separava o cômodo da cozinha me viu de relance saindo desesperada pela porta.
— Luna? – Espantado pela minha reação, jogou a faca que cortava o animal sobre a mesa e correu atrás de mim a tempo de me segurar e trazer de volta a cabana antes que eu me congelasse com o impiedoso vento que congelava a camada de ar.
Eu podia sentir o nervosismo através da pulsação de seus fortes punhos agarrados em meus braços que me arrastavam para o sofá em frente a lareira enquanto a minha consciência voltava ao normal.
— Você está louca? Quer morrer congelada? – Patrick ajoelhou-se a minha frente e tentava entender através dos meus olhar perdido no tempo.
Ele me colocou sentada no sofá minha coluna logo pendeu-se para escora-lo, como se houvesse imãs em meus ossos e em sua cabeceira.
— O que aconteceu? – Perguntou ainda um pouco assustado.
— Eu ainda estou tentando descobrir... – Disse, ainda procurando o real motivo da minha insanidade.
— Então ainda bem que te salvei, caso o contrário só iria saber na sua próxima reencarnação. – Argumentou.
Eu já havia voltado ao normal, apesar do abalo surpreendente. Apesar de que querer saber sobre o que havia acontecido, resolvi pensar que aquilo mesmo era apenas um ilusão da minha cabeça. Além do mais, a noite havia sido “punk”. Não que todas as vezes que eu matava alguém eu ficava conturbada, mas dessa vez foi algo único, algo que nunca havia acontecido, talvez esse seja o motivo de eu ter quase causado o meu próprio suicídio congelante.
Também resolvi deixar o caso para outra hora, pelo simples e incomodante fato que se eu resolvesse dar início ao assunto Patrick iria me entupir de perguntas e eu o entupiria de volta com respostas, o que levaria a noite toda. E eu estava muito exausta para ficar dando explicações.
— Fico te devendo essa! – Me levantei, já com a consciência sã.
— Aceito uma cerveja em forma de pagamento! – Relevou.
— Duas cervejas! – Acrescentei. – Depois dessa eu também mereço.
— Luna sendo Luna! – Sorriu.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.