Notas iniciais
Na solidão da minha mente sou livre, Jogo fora o que me desgasta. Lembro-me daquele passageiro timbre E cuspo, este asco já me basta.

O velho ia à frente, guiando os demais para o local onde havia deixado os meliantes, para que Alexander Hill pudesse se vingar de acordo com a sua vontade. Evidentemente, o rapaz não estava esquematizando por em prática nada amistoso. Pelo visto, Alex intencionava proporcionar a tais vermes depravados, a dor que eles mereciam. Só de pensar na facada brutal que deram em seu pequeno criado, seu sangue fervia. Para ele não bastava que Nathan estivesse bem, queria arrasá-los principalmente pela audácia que tiveram de invadir a casa e o território de sua família. Era isso o que o deixara mais louco!

—Abutres imundos! —O garoto ia logo atrás de Backer, com as mãos dentro dos bolsos do conjunto azul marinho. —Vão descobrir o porquê de ninguém se meter com a família Hill! —Disse, exibindo os dentes num sorriso largo e sinistro, enquanto passavam os três pela grande porta da entrada.

Contudo, ainda na cozinha, governanta continuava parada, estática com o desenrolar da situação.

Elizabeth esperou que os homens deixassem a cozinha e apoiou-se na mesa com as duas mãos, deixando rolar pelo ombro arqueado, a cascata dourada de suas madeixas.

A jovem preocupava-se com Nathan, mais do que com seu mestre. Seu irmãozinho estava estranho, como se estivesse se tornando outra pessoa. Ele sempre fora tão doce e inocente, principalmente com ela, sua única irmã... Mas as lembranças alegres da moça foram interrompidas pela ultima que ficou: seu maninho se referindo a ela da forma mais fria, como se ela não representasse mais nada para ele...

Pense Elizabeth, pense! Você foi escolhida a dedo pelo próprio Patrão Hill para orientar o mestre e lhe colocar freio. Você não estaria aqui se realmente não fosse capaz.

Instantaneamente, veio em sua mente uma antiga recordação, como um flash, irradiando sua mente, lhe trazendo uma possível solução. Lembrou-se de uma conversa antiga que tivera com o senhor Hill, pai de Alexander.

A jovem, utilizando seus dedos ágeis, pegou os pães que estavam dispersos sobre a travessa prateada e tomou uma toalha rendada, embrulhando-os rapidamente. Guardou-os dentro do próprio avental imaculado que estava vestindo. Tomou também um grande bule repleto de água quente e pôs-se em direção dos outros.

—Espero estar certa. Sendo o mestre Alexander como é, não duvido ele querer me punir também!

[...]

Do lado de fora da mansão, Hill e os empregados caminhavam circundando o jardim ao redor da casa e pararam junto à fonte quebrada, nos fundos da habitação.

— Então foi aqui que você os colocou, velhote?

—Eu não poderia guardá-los dentro da casa, poderia, patrão? —O homem diz calmamente, afastando o suspensório de seu lugar costumeiro, deixando-o pendurado nas calças de alfaiataria.

—Tisc! Já vai começar! —Alex vira o rosto para o outro lado. Enquanto Nathan observa Backer tirando a camisa e ostentando uma incrível musculatura, incomum para um homem daquela idade.

—Ohh! —O pequeno Bennett diz, com os olhos fixos, impressionado com o porte do motorista. —Mas por que o senhor Backer tirou a camisa? Devo me preocupar? —O menininho abraçou o próprio dorso, olhando para o mestre com um semblante de apreensão.

Alex esticou o dedo indicador, tocando o sinal de nascença de Bennett e lhe dando um leve empurrão alí: —Ele não precisava. É um exibido. Relaxe, você ainda não viu um, não é mesmo?

Claro que o garotinho confiava em Alex, mas aquilo era estranho. Até as palavras de seu mestre saíram dando a entender algo bizarro. Nathan ficou corado e levou as mãos ao rosto para tentar esconder o rubor.

Seria o senhor Backer... um pederasta¹?

Alex voltou sua face para o garotinho lentamente, como se tivesse lido o pensamento do pequeno Bennett. Finalmente percebendo o que se passava pela cabeça dele, Alex acabou ficando corado também.

—ESTÁ FICANDO LOUCO, MOLEQUE MISERÁVEL? —Alexander agarrou o pequenino por trás, dando-lhe um cafuné extremamente violento. —COMO OUSA IMAGINAR ALGO TÃO DETESTÁVEL? —Dizia completamente envergonhado.

Foram interrompidos por um urro soltado por Backer. Quando olharam, ele estava como que concentrando forças para realizar algum trabalho com os músculos. Era possível notar as gotas de suor formando-se em sua pele e precipitando, rolando pelo corpo dele. Sim, o homem lançou-se contra a fonte quebrada, empurrando-a com as duas mãos e se impulsionando com os pés com uma energia bruta. Sem a camisa o cobrindo, podiam-se ver os músculos se tencionando. Aquele velho certamente passou vários anos treinando rigorosamente o corpo. Parecia um touro bruto arrastando uma carroça colossal, ou um potente trator. No passado, teria este homem sido um lutador profissional ou mesmo um mercenário?

O homem conseguiu afastar de seu lugar, a grande fonte pesada, derrubando uma pá que repousava encostada nela. Mas o exercício do homem revelara principalmente duas portas retangulares de madeira.

—Não me canso de vê-lo fazendo isso. Impressiono-me toda vez. —Hill, solta.

Então foi ali que o velho escondeu a pá para não precisar consertar o buraco hediondo que ele fez no meu gramado! Deixe! Isto vai servir...

—Do que você está falando patrão? —Backer responde, limpando a transpiração que encharcara o rosto, com a própria camisa. —Quando o senhor abre a porta deste porão, não derrama sequer uma gota de suor. Alongou-se, fazendo estalar os ossos velhos.

Nathan estava realmente surpreso. Já conhecia a força descomunal de seu querido mestre, afinal vira com seus próprios olhos o loiro por uma grande árvore abaixo com pouco esforço. Agora, podia observar com mais clareza que aquele velho empregado, o qual a primeira vista parecia tão inofensivo, também tinha seus pontos ‘fortes’:

—Incrível! Nesta mansão moram pessoas impressionantes! Senhor Alex deve ser o Professor A. Será que conseguimos recrutar mais heróis pra formar nosso time? —O garotinho comenta, energicamente e com os pulsos cerrados, extasiado por cada descoberta que fazia a respeito de Alexander Hill.

—Você está viajando de novo, Cara-de-Lua! —diz Alex, apertando-lhe delicadamente as bochechas do garotinho e as esticando. —Eu já disse que não sou nenhum herói, além disso você não é lá tão normal, eu vi o que você fez com a minha estante, seu pirralho bobo!

Contudo o empregado esperava pelas ordens de seu patrão. Notando isso, olhando em direção ao porão, o jovem ordenou ao empregado que abrisse as portas:

—Traga-os para fora. —Mudando por completo de timbre e temperamento.

Backer tirou um molho de chaves de dentro do bolso e debruçando-se sobre as portinholas de madeira, destrancou o cadeado acobreado e logo as abriu. Eis que havia no buraco quadrado e escuro, uma escadaria que dava acesso ao cômodo do porão. O velho desceu sozinho e não se ouviu mais nada.

—O que tem lá embaixo, mestre Alex? —O garotinho puxou de leve a manga do casaco de Hill e fitou-o curioso.

Alexander não respondeu. Estava tão concentrado que provavelmente nem ouvira a indagação de seu pequeno servo. Suas mãos tremiam, de modo que as escondeu dentro dos bolsos da capri azul... Não queria que percebessem seu nervosismo. —Estão vindo. —Disse apenas, mirando atentamente a entrada do buraco.

Vieram subindo a escadaria de pedra devagar. Eles iam saindo do porão, um por um, ambos ligados por grossas correntes metálicas e grilhões, atando suas mãos e pés. O primeiro a ser visto, foi o líder da quadrilha, Jarryd, depois Chuck e o gigante. Todos extremamente fatigados e com olheiras profundas. Podia-se observar que estavam mais feridos do que estavam ontem quando os deixou a sós com o empregado.

Seguido estes, vinha o louco, cuja boca era fétida, caminhando se arrastando, a frente de Backer. Ao subir o ultimo degrau, este tropeçou e então foi empurrado bruscamente pelo velho, em direção ao chão, para junto dos outros comparsas. Esgotados, os homens permaneciam imóveis como que ovelhas encarando seu executor e esperando a hora do abate.

—O que se passa com eles? Vejo que estão abatidos demais para quem passou tão pouco tempo confinado. —Alex perguntou, evitando fixar seus olhos violeta sobre eles. Não deveria sentir pena. Tudo já fora decidido e era tarde demais para fugir da responsabilidade!

—Lembra quando o senhor perguntou o que eu fiz com eles? “Nada” foi um pequeno exagero. Além de outra surra, eu os envenenei. Trata-se de uma receita do meu antigo trabalho. Não queria dar a esses vermes, chance de fuga...

—Fez bem. —O jovem disse entre os lábios achatados, embora isso não fosse exatamente o que o queria dizer. Para “homens mortos”, tal tortura era desnecessária. Suposto que os malditos mereciam sofrer muito mais pelo que fizeram, mas tortura... era uma idéia que não gostava nem um pouco. Além disso, era desagradável saber que Backer agira novamente por suas costas.

—Então, o que vamos fazer com eles? —O pequeno servo perguntou, interessado em saber qual seria de fato a vontade de Alex.

O mestre olhou em volta e apontou com a mão trêmula: —Acho que aquilo irá servir. —Indicando a pá, derrubada quando o velho empurrara e fonte. —Nathan, vá buscá-la para mim. —Mandou.

O garotinho correu até a ferramenta, pegou-a com apenas uma das mãos e a equilibrou sobre o ombro franzino, trazendo-a então para Hill.

Bem forte para um pirralho...

Alex estava apreensivo, ofegante. Como se estivesse tentando acordar, sem poder. Sendo seguido pelos olhos de todos ali, tomou a pá. Estava para fazer algo que na realidade ele mesmo duvidava que fosse o certo, mas não havia volta. Ergueu a ferramenta e, fechando os olhos a fim de não ter nenhuma lembrança deste ato, desceu o braço bruscamente em direção aos homens dominados...

—p- pah -re!

Era Jarryd! O líder da quadrilha gritou o mais forte que podia, embora aquilo soasse mais como um sussurro. O bandido compeliu-se e forçando sua garganta ao máximo, num ultimo esforço para deter a vontade do jovem.

O mestre hesitou imediatamente, como se precisasse somente de uma desculpa para adiar o golpe. —F-fale! —O rapaz ordenou, tentando inutilmente não gaguejar.

Reunindo as ultimas forçar que tinha, o homem implorou:

—e-estes homens... n a o!... só a... m i m... —Tossiu, fazendo escorrer da boca uma baba amarela. —São meus subordinados. M e... m a t e... mas... por f a v o r... os deix- —Tossiu novamente.

Alex cravou a pá no chão, trincando os dentes, irritado: —MAS QUE MALDIÇÃO! Agora você pede que eu tenha pena da seu bando? COMO VOCÊS OUSAM NOS CAUSAR TANTOS PROBLEMAS E AINDA PEDIR CLEMÊNCIA! POR QUE NÃO CONSEGUEM ACEITAR QUE TUDO É CULPA DE VOCÊS? —Ele bradava arfando e se tremendo inteiro! —É TARDE DEMAIS PARA IMPLORAR POR MISERICÓRDIA! —Protestava quase cuspindo no bandoleiro.

Backer acompanhava o desenrolar dos acontecimentos com extremo interesse. Para ele, a parte mais atraente de seu trabalho naquela casa era justamente observar as atitudes e comportamentos daquele jovem tão extraordinário, o qual servia.

Que expressão maravilhosa, patrão Hill! Estou ansioso para saber o que o senhor fará.

O bandoleiro balança a cabeça debilmente dando um sorriso murcho. Afinal de que adiantaria explicar o porquê de terem feito essas coisas? Era o mesmo que contar toda a história da sua vida e ele não tinha mais tempo ou forças para isso. Sua língua tornou-se como uma pedra pesada em sua boca. Mas pelo menos daria uma recompensa a Hill, pelos transtornos.

O sujeito sussurrou algo que somente Alexander conseguiu ouvir, dando a entender que tinha algo para ele no bolso de seu casaco. O jovem, intrigado esticou os dedos, pegando do sujeito, um estranho envelope. Ao virá-lo, reconheceu imediatamente a letra do remetente. Suou frio. Então, Alexander, mais que depressa, rasgou desajeitadamente o envelope e retirou seu conteúdo, desdobrando o papel e lendo nervoso.

Instantaneamente, o semblante do jovem mestre mudou por completo. A pele outrora cálida, agora apresentava um tom mais avermelhado. Arregaçando a boca e exibindo os dentes furiosamente, como se estivesse fora de si. Mergulhado em cólera, Alexander segurou a pá com força, e dando um urro feroz, lançou-se contra o bandido desarmado para golpeá-lo violentamente, com tudo o que tinha.

Sem saída e totalmente vulnerável, o malfeitor mantinha-se de cabeça baixa, aceitando seu destino conformado e lamentando o de seus companheiros.

Notas finais
pederasta¹: o mesmo que pedófilo.