Projeto Alex - Livro I - Cidade de Metal
8 Desastre Angustiante
Notas iniciais
Alexander encontrava-se tão fora de si, descendo a pá ferozmente, para aniquilar o assaltante, que nem ao menos percebeu o vulto loiro precipitando-se sobre eles, pulando na frente de Jarryd. E este vulto era Elizabeth!
Bennett viera impedir seu amo de ultrapassar uma linha perigosa, ato o qual certamente o faria desmoronar, abandonar toda e qualquer humanidade que ele tivesse e se tornar nada mais que um monstro. A jovem governanta estava decidida a impedi-lo a qualquer custo. Na mente de Elizabeth, ficava cada vez mais claro que fora escolhida devida sua total abnegação. Pararia-o, nem que precisasse se colocar na linha de fogo. Completamente decidida, iria ensinar ao menos uma única lição àquele garoto arrogante mesmo que tivesse de morrer para isso. Assim, usando de destreza, a jovem pôs-se entre o golpe de Alexander e o homem dominado.
O tempo praticamente parou! Como se os segundos se arrastassem lentamente, era perceptível a todos, a tragédia que se sucederia: Nathan correndo para sua irmã, nervosamente, almejando salvá-la; Backer atirando-se sobre eles a fim de impedir o braço de Alex, enquanto este, de olhos arregalados, percebendo que acertaria em cheio o pescoço da jovem, tentava parar a pancada.
Droga! Não vai dar tempo! Não vai dar tempo! —Alexander repetia em sua mente, aflito, buscando refrear o golpe...
...Inutilmente!
Ouviu-se um baque oco. A pá rasgara carne fazendo algo salpicar o rosto de Hill.
Antes que o velho pudesse alcançar Hill e pará-lo, a pá raspara no solo, jogando sangue na bochecha de Alex. Em desespero, o jovem mestre larga subitamente, o instrumento vil por terra. O coração dele parecia querer saltar da caixa torácica. Matara a garota, a inocente irmã de seu pequeno amigo?! Alexander arfava, enquanto agarrava o próprio cabelo com força, enlouquecido, temendo olhar para o que fizera:

—E-Elizabeth! ELIZABETH! —Alex procurou-a atormentado, com seus orbes lilás.
—MANA! MANA ELIZABETH! — O pequeno Nathan corria ao seu encontro, ajoelhando-se sobre ela.
A moça caída no chão tentava abrir as pálpebras com dificuldade. Não conseguia respirar, seu corpo dolorido parecia ter se tornado pesado, um grande bloco de pedra. Elizabeth procurou mexer os membros franzinos, que se espremiam contra o seu dorso, contudo estes estavam imóveis. Sentiu algo quente escorrendo sobre o avental alvejado. Finalmente esticando os dedos e tocando o líquido que lhe escorria pela garganta, levou-o para perto da vista a fim de identificar do que se tratava: era sangue!
Quando isto aconteceu? Foi tão rápido... Eu não consigo... sentir! Estou morrendo?
Mas o sangue não era seu. Sobre ela estava o gigante, defendendo-a como um colossal escudo protetor. Das costelas daquele brutamonte, escorria um filete espesso do fluido vital, o qual pingava nela, encharcando seu uniforme escuro. Acontecera que o assaltante, embora prostrado, valeu-se dos resquícios de sua própria força, e conseguira se desvencilhar das cadeias. Agarrando a moça e trazendo-a para junto de si, a protegeu, recebendo a pancada furiosa que embora tivesse sido de raspão, atingira-lhe o lombo.
—Por que? Por que você fez isso? —A governanta atônita perguntava à aquele bandido enquanto ele afrouxava o abraço.
O quadrilheiro libertou a jovem. Apoiou a enorme mão no chão e com muito esforço, levantou-se de cima dela, sentando-se ao seu lado e gemeu em dores. Ele balançou a cabeça:
—Você estava disposta a se ferir para defender meu amigo. —Tossiu cuspindo um pouco do vermelho. —Eu não vou perder pra você. —Disse com um sotaque engraçado.
O pequenino jogou-se em cima da irmã, choroso, esfregando a testa em seu pescoço, escondendo-se na cascata dourada dos cabelos da jovem:
—MANAaa! —O pequeno Bennett a agarrava, aliviado em ver que Elizabeth estava plenamente sã.
—Shiu! Eu sei, eu sei... —Ela respondia, entrelaçando suas mãos entorno de seu irmãozinho.
Backer suspirava, também aliviado. Porém, parecia que a alma de Hill se atormentara ainda mais! Alexander dirigiu-se a garota Bennett, injuriado, bradando furiosamente inúmeros insultos:
—VOCÊ ESTÁ LOUCA, SUA IMBECIL? VOCÊ ESTÁ QUERENDO MORRER POR ESSES MISERÁVEIS, MULHER ESTÚPIDA? EU DEVIA TER PARTIDO VOCÊ EM DUAS JUNTO COM ESSE MALDIT-
Hill nem terminara de falar, e a moça levanta-se num salto, indo contra ele, o esbofeteando com toda a força, a ponto de ferir o rosto de seu mestre com um corte. Estático, o loiro não sabia como reagir, devido o fato de que jamais alguém de dentro da mansão ousara o atingir.
O machucado feito por ela chegara a sangrar, mas ela também não saíra ilesa. O movimento deslocara-lhe o punho, fazendo-o começar a inchar. Mas sem se importar com a dor, Elizabeth segurou a face de Alex delicadamente, mergulhando no fundo de seus olhos:
—VOCÊ É QUEM ESTÁ AGINDO COMO UM LOUCO, MEU MESTRE! —Disse em voz alta, a fim de que as palavras lhe entrassem em tsunamis¹ pelos ouvidos. Cerrando os olhos, e mudando o tom de voz, ela trouxe o rosto dele para junto de si, envolvendo-o no colo convidativo. —Você ficou preocupado comigo e tentou não me atingir, não é, mestre Alexander? Por isso que este homem foi pego apenas de raspão. Eu estou tão feliz!
Alex não sabia ao certo o que pensar, embora permitisse o abraço aconchegante da donzela, sentindo seu calor e o delicioso perfume exalado por ela. Ele continuava com a cabeça afundada naquele colo macio, acalmando-se devagar, apenas segurando firme a lateral do avental da jovem. Não queria tocar nela. Não merecia tocar nela.
—Meu mestre, é como o senhor mesmo disse ontem: “Não há mais motivos”. Além disso, você bem sabe que matar estes homens amarrados e indefesos como estão não se trata de justiça, se trata na verdade, um ato de covardia. É por isso que o senhor hesitou.
Garota estúpida, o que você sabe sobre mim?
—Sabe... Quando eu era pequena, o mestre Willian... Seu pai; contou-me histórias sobre você, sobre suas aventuras na montanha dessa propriedade. Ele me contou sobre o incidente com o urso, quando você acabara de completar doze anos. —Hill parou de respirar por um segundo. —Desde então, eu sempre imaginei o senhor Alex como uma a pessoa mais amável do mundo e que seria a maior das honra poder estar ao seu lado.
—Você continua a me chamar de “Alex”. —O loiro resmungou, fazendo a voz abafada sair quase inaudível.
—Você está com o rosto encostado em meus seios, acredito que posso te tratar de forma mais intima... —Ela sorriu, pendendo a face mimosa para o lado, buscando observar o rosto querido de seu mestre.
—Tisc. Cala a boca... —Ele sussurrou, vexado.
Dirigindo-se agora para o motorista, a moça proferiu:
— Senhor Backer, vamos tratar estes homens e levá-los para o povoado. Eles irão ser julgados pela lei, não por nós. —A moça pronunciou cada letra com autoridade.
O velho surpreendeu-se e gostou do que ouviu, e gostou principalmente da altivez estampada nos olhos daquela empregada: uma autêntica Bennett, da mesma maneira que aquele certo homem fora quando vivo.
Estou cercado de crianças tão promissoras! —Ele alegrou-se por dentro, porém sem dar sinal visível para os que estavam ali presentes.
—De certo, senhorita... —O empregado aventurou testá-la ainda mais. —... No entanto, Alexander é o mestre desta casa, e ainda precisamos do consentimento dele. —Desta vez, voltando-se para Alexander, mas sem perder o semblante da jovem de vista, o velho fez a pergunta. —Então, o que faremos patrão Hill?
Não houve resposta. Alex sequer levantou a cabeça de onde estava repousada. Assim Elizabeth tomou as rédeas:
—Ele consente. —Ela ordenou, por seu mestre. —Devemos alimentá-los também antes de entregá-los. Eu trouxe uns pães e água quente. Estes homens passaram a noite na propriedade Hill, vamos mostrá-los nossa verdadeira hospitalidade. —Elizabeth aponta para uma antiga chaleira que deixara recostada na fonte quebrada, demonstrando toda sua cortesia.
Nathan correu até a chaleira de bronze, e voltando ligeiro, trouxe-a consigo para entregá-la a irmã. Contudo, como o garotinho esperto que é, levantou uma questão, ao lhe entregar o objeto:
—Mana, eles foram envenenados. Alimentá-los agora além de não ser uma boa idéia, é inútil. Temos de tratá-los primeiro e dar o antídoto!
—Então as provisões que eu trouxe são inúteis? —A moça franziu as sobrancelhas, assoprando-se, aborrecida.
—Não exatamente. —O motorista se adiantou. —A água quente que você preparou. Temos de provocar vômito neles e ela será perfeita para isso. Depois, administraremos esta coisa... —Tirou do bolso da calça, um minúsculo frasco de vidro, o qual continha o antídoto.
Elizabeth acomodou Alexander carinhosamente no gramado, junto às pedras decorativas do jardim, pois este parecia exausto. De fato, o mestre até apresentava olheiras... Fora uma montanha russa de emoções, demais até para aquele rapaz aparentemente tão forte. Pôs Nathan junto com Hill para fazer o companhia, para impedi-lo de se exaltasse novamente e ajudá-lo a descansar.
A governanta, juntamente com Backer, iniciou todo o processo, removendo as amarras e correntes, dando-lhes de beber o líquido, direto da chaleira velha, fazendo-os sorver o fluido. Depois, com jeito, forçaram-nos a vomitar. Um por um, os bandoleiros iam golfando, colocando para fora a baba amarelada que era uma mistura asquerosa de veneno, saliva e água fervida. Em seguida administraram o antídoto em todos eles.
—Vamos esperar umas horas e ver como reagem. Procure descansar, senhorita Elizabeth, depois lhes daremos algo para forrar o estômago. —O velho empregado a aconselhou, ao arrastar os homens para debaixo da sombra, e por fim, sentou-se também.
[...]
Passado o tempo necessário para que eles descansassem, não somente os bandidos, mas todos em geral, a jovem governanta abaixou-se sobre os bandoleiros e partindo o pão que trazia consigo deu-os diretamente em suas bocas, atenciosamente. Os homens, famintos, comiam de suas mãos, avidamente.
—Ôeh, Elizabeth, o que está fazendo? —Desde a grama, Alex indagava estendendo-lhe a mão ainda trêmula.
—De certo modo, eles são um tipo de hospedes, senhor Alex. Nós os trataremos bem a medida do possível, certo? —Elizabeth lhe respondeu dócil, sem mirá-lo. —Eles não podem comer sozinhos, podem? Afinal ainda não estão completamente restabelecidos.
Esta mulher é mesmo interessante! —Hill concluíra, se interessando cada vez mais em entender aquela pessoa curiosa, sem ao menos se aperceber disto.
Quando chegou a vez de Chuck, ariscamente, ele recusou-se a se alimentar daquilo que lhe era oferecido pela donzela: —Não! Eu não quero. Escute, velho... —Falou, virando-se para Backer. —Eu planejava vendê-la na zona a quem pagasse mais. Não posso aceitar a piedade dela. Tenho meu orgulho...
Alexander levantou-se de onde estava e vindo na direção do mercenário, socou-o no rosto: —Idiota! O orgulho não vale de nada quando não tem fundamento. Você perdeu. Coma e continue vivo.
Sim, às vezes, desse rapaz tão selvagem, saíam coisas inspiradoras e sábias. Deste modo, o homem finalmente sucumbiu aos cuidados da jovem aceitando ser alimentado por ela e comendo aquilo que ela lhe oferecia, direto daquelas mãos delicadas.
Alexander voltou para seu lugar, sentando-se novamente na grama e Nathan ao seu lado, recostou a cabeça em seu ombro espalhando as madeixas castanhas no casaco de Hill, que parecia preocupado com outra coisa. O mestre observava atento o trabalho de Backer e Elizabeth, a cuidar dos bandoleiros.
Por fim, encarando Jarryd, Alex perguntou:
—A pessoa que portava estes documentos, esta carta que você trazia consigo... Foi você quem a matou, certo? —Hill fuzilou-o com o olhar.
—Não... —O bandoleiro respondeu sinceramente, qfinal não tinha motivos para esconder essa informação. Estava mais do que grato por terem poupado a vida de seus companheiros, e de quebra, a sua própria vida. —Nós o encontramos semi-decomposto na estrada do povoado vizinho e paramos para verificar se ele tinha algo de valor. —Abocanhou outro pedaço de pão, e engoliu-o sem mastigar direito. —A verdade é que achamos este envelope por acaso, visto que estava longe cadáver. Ao que parece, o sujeito estava sendo caçado e se livrou da carta para que os outros não a usassem de pista para te encontrar.
Alex deixou cabeça arriar de tanto desgosto. —Eu já vivo confinado nesta prisão! Por que não podem me deixar em paz? —Interrogava, embora sem se dirigir a alguém específico.
—Você é valioso, Hill-Olhos de Ametista. —O gigante expôs honestamente. —É forte, resistente e se cura rápido. Há uma recompensa pela cabeça de pessoas como você.
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