Notas iniciais
As pessoas não são exatamente como aparentam. As atitudes e jeito de pensar não obedecem um padrão simplesmente porque sim. Existem muitas coisas envolvidas nisso. Sejam por suas vivências, faixa etária, experiências ou mesmo devido sua herança genética.

Deitado na grama, um jovem viaja, perdido no mundo dos sonhos. O sol vem surgindo por detrás das montanhas, deixando seus raios transparecerem através da copa das frondosas árvores e pincelando o céu de claridade. A luz começa a beijar de leve o rosto do rapaz, aquecendo-o e o fazendo despertar lentamente do seu sono, enquanto este tenta abrir os olhos lilás. Ele estica seu braço para cima devagar, erguendo a mão delicadamente, como um maestro de uma orquestra, regendo a canção da aurora, tentando alcançar o círculo ofuscante que o havia despertado.

Ao longe, na direção de casa, escuta-se um barulho de motor de carro. O loiro sabia bem de que se tratava. Havia sido avisado por meio de uma carta, que chegara dias antes. Fechou os olhos novamente e franziu a sobrancelha:

—Tisc! -Era o som que fazia quando algo o incomodava. De fato para ele, aquela era uma situação irritante. Havia morado sozinho naquela casa por tantos anos e em vez deles virem pessoalmente, mandam serviçais para o vigiarem indefinidamente? Desagradável!

Finalmente, a velha caminhonete havia se aproximado da casa, estacionando junto ao jardim. O motorista abre a porta do passageiro, dela saem uma belíssima moça, e um garotinho, o qual ela ajuda a descer do carro com cuidado.

—Senhor Backer, eu gostaria de começar o serviço o mais breve possível. Necessito ver como está o jovem mestre e reportar aos meus senhores o quanto antes. –Diz a jovem, ansiosa.

O homem afastou a boina e coçou a cabeça: –Senhorita Elizabeth, ainda é cedo. Melhor não perturbá-lo. Deixemos isto para quando eu retornar, então eu a acompanharei até o mestre. Na minha frente, o patrão não tentará nada contra você. Além disso, ele não se encontra em casa no momento. Assim, certifiquei-me de trazê-la agora. Nessas horas do dia, o rapaz costuma passear pela propriedade, podendo estar em qualquer lugar.

A moça achou estranho o conselho do motorista, mas estas palavras não diferiam daquilo que já lhe havia sido instruído outrora. Desta forma, ela decidiu acatar as recomendações deste empregado. Respondeu-o então: –Compreendo.

—Senhorita, o patrão Alex pode parecer grosseiro, mas tenha paciência com ele. O rapaz não tem convivido socialmente com pessoas além dos pais, e quase nunca vai à cidade. Por favor, em nome do senhor e da senhora Hill, cuide dele e o ensine. –Diz o motorista, ao retirar uma única mala do automóvel.

Elizabeth sorri docemente, pendendo a cabeça para o lado, deixando rolar pelo ombro uma mecha dourada de cabelo, enquanto segura a mão se seu pequeno irmão:

—Não se preocupe senhor Backer, eu farei de todo o possível para cumprir minhas obrigações para com a Família Hill.

—Excelente, senhorita. Eu lhe agradeço. Escute, preciso descer a montanha, ir a cidade fazer umas compras. Estarei aqui antes do meio dia e prepararei algo para nós. Pode se acomodar como bem entender.

Backer, carinhosamente, faz um cafuné no irmãozinho da garota, entra no carro, manobra-o e sai, deixando, imprudente, marcas de pneu no gramado. O pequenino, inquieto, pergunta para a irmã:

—Mana Elizabeth, onde está o senhor Alex? –Indagou, impaciente. –Não vejo a hora de conhecê-lo e brincar com ele!

—Não acredito que o mestre seja do tipo que brinque, mas logo iremos encontrá-lo, meu querido. –Diz a jovem governanta, enquanto debruça-se sobre o menininho, o beijando ternamente na bochecha. Ela ajeita a camisa do pequeno, para que fique apresentável: –Por que você fica tirando a camisa de dentro da calça?

—É que eu fico mais legal assim, mana. –Responde ele, dando uma risada tão gostosa, que faz sua amada irmã rir também.

Animado, o garotinho pega a maleta, carregando-a, com o objetivo de ajudar Elizabeth. Ambos vão adentrando na enorme propriedade. A moça olha em volta, buscando fazer um breve reconhecimento do novo ambiente. Ela e o pequeno continuavam a caminhar, contemplando cada detalhe: a calçada de tijolos, as roseiras brancas tão bem cuidadas, as pedras decorativas do jardim, e mais a frente a mansão. Notaram o quão bela era aquela residência, embora antiga.

Entraram na moradia. Atravessaram a sala. Estavam encantados com a elegância da decoração, resultado da riqueza acumulada pela família Hill com as eras. Ela passou a mão graciosamente pelo corrimão de madeira escura e logo subiram as escadas. Escolheram então seus respectivos cômodos e se instalaram. A senhorita foi em direção a janela, afastou as cortinas e abriu as vidraças com a finalidade de arejar o quarto.

Olhando adiante, Elizabeth avistou uma pessoa, deitada no meio do tempo. Era o rapaz de quem deveria cuidar. Embora nunca o tivesse visto, exceto por fotografia, ela sentia que só poderia ser seu jovem mestre, Alexander Hill.

De certo que a jovem governanta não pretendia desobedecer a Backer, bem como as outras instruções recebidas. Porém, ao reconhecer o rapaz, seu corpo simplesmente se moveu, em busca dele. Apressadamente, ela abandonou seu quarto e saiu da habitação, para finalmente encontrar-se com Alexander, intencionando apresentar-se para o serviço. Seu coração palpitante mal cabia no peito.

Correu, subindo a colina, se deparando com um cenário que a fez ficar quase sem ar: Um jovem cochilando debaixo de uma enorme árvore, despreocupadamente, em meio a flores miúdas. Apreciando o calor gostoso proporcionado pelo sol da manhã. Era tão lindo que queria poder pintar aquilo e guardar para sempre. Havia recebido tantas orientações para saber como agir diante dele. Como se ele fosse uma pessoa horrível e cruel, mas olhando aquilo... certamente tudo não passou de exagero ou uma terrível brincadeira...

O loiro percebe a presença da jovem, levantando-se do chão pausadamente, fazendo o rico conjunto azul o qual vestia deslizar, suave, pela relva. Antes de Elizabeth dizer qualquer coisa, ele virou-se para ela, abriu finalmente os olhos e mirou-a de cima a baixo, olhando-a tão penetrantemente, que parecia atravessá-la com mil flechas. Era como se Alexander pudesse ver através das roupas e da carne dela, descobrindo seus pensamentos e temores. A moça percebera que sua presença ali, era um aborrecimento para seu mestre. No entanto, tentando obter a aprovação do jovem, ela procurou apresentar-se da melhor maneira que pode:

—Mestre Alexander, como tem passado? Viemos servi-lo como prometido. –Elizabeth fala, curvando-se graciosamente como sinal de respeito.

Porém, tanta afabilidade não fora o suficiente para agradar aquele rapaz. O clima pesado que se instalara ali era evidente. Era como se o próprio ar exercesse uma pressão tremenda sobre o corpo da garota, tentando atraí-la para o chão; era desconfortável. Alex, com sua postura altiva, vai aproximando-se dela. A jovem tenta recuar, porém seu jovem mestre estende a mão em direção dela e agarra-lhe o queixo fino, puxando o rosto dela para junto do seu. Embora estivesse apreensiva, não podia deixar de admirar a incrível cor lilás dos olhos de seu mestre. Os dois estavam cara a cara, tão perto que podiam sentir a respiração um do outro:

—Ora se não é a pobre Elizabeth Bennett. –O rapaz disse, soberbo. –Só não a escorraçarei daqui agora porque seu corpo me agrada, quem sabe ele me sirva para alguma coisa.

“Me sirva para alguma coisa”?! Será que Alexander estava testando-a? Seja como for, a moça entendia exatamente o que aquele jovem queria dizer com tal expressão. Que terrível! Mas não era permitido fraquejar, tinha de manter a postura e não deixar-se abalar. Uma empregada da família Hill, não podia dar-se o luxo de se incomodar com palavras cruéis. Sentiu uma gota de suor descendo-lhe pelas costas, por baixo do longo uniforme. Lembrou-se de seu dever: servi-los mesmo nas piores condições. Não fazia aquilo por si mesma, mas por seu irmãozinho. Por ele suportaria qualquer coisa. “Acalme-se, acalme-se, acalme-se, acalme-se, acalme-se...”, ela repetia sem parar, dentro de sua mente. Sabia que se não agisse corretamente, sua estadia naquela casa poderia se tornar insuportável.

Por fim, conseguiu controlar-se. Decidiu que era necessário dizer alguma coisa, ou seu senhor perceberia o quanto a havia conseguido atingir. Ela arrumou os óculos embaçados, devido à condensação causada pela respiração de ambos e como uma serva disciplinada que era, contornou o ataque falando de modo singelo:

—Mestre Alexander, espero ser-lhe útil da maneira que o senhor desejar. –Disse a jovem, esforçando-se ao máximo para não demonstrar o quão desconfortável fora para ela esta situação.

O rapaz ficou extremamente irritado. Furioso, largou a moça bruscamente. De cabeça baixa e mostrando os dentes, como animal que era, afastou-se dela. Voltando-se para a árvore, pôs a mão sobre seu tronco, empurrando-o com força descomunal, inclinando-o. Alexander fez o enorme caule tombar e as suas raízes desarraigarem-se do solo, descontando seu ódio na árvore inocente. O peso da madeira despencando fez o chão tremer, e juntamente com o barulho da folhagem arriando, espantou vários gaios-azuis, os quais se abrigavam entre os galhos, obrigando-os bater asas, fugitivos.

Sentiu medo. Estava apavorada! Quem diria que aquela criança pudesse ser tão assustadora! –O que eu acabei de ver? Como este garoto pode possuir tanta força ao ponto de derrubar uma planta desse porte? Ele não é humano? –Elizabeth perguntava-se, atônita.

Surpresa por aquela exibição de poder, ela punha os braços diante do corpo, com o intuito de se proteger, temendo que a próxima coisa a ser derrubada fosse ela. –Esta pessoa é perigosa! –Estas palavras ressoavam no íntimo da jovem governanta.

—DESAGRADÁVEL! A PRESENÇA DE VOCÊS ME IRRITA EXTREMAMENTE, E VOCÊ SABE DISSO! –Esbravejou Alexander. –Eu tenho vivido nessa casa há muitos anos e nunca precisei de babá. –Bufou.– Meus pais terem mandado vocês para me vigiar não é nada senão um insulto. –Disparou o loiro, sem nenhuma cortesia.

Logo após esse excesso de brutalidade, Alexander coloca as mãos nos bolsos e parte rumo a mansão. Porém, antes de seguir, parou por um momento ao lado da moça. Emparelhado ombro a ombro com Elizabeth, diz: –Fique fora do meu caminho. Cadela.

A moça, embora buscasse permanecer firme, não pode mais manter-se de pé, despencando de joelhos sobre o mato. Tremia, jamais sentira medo quanto naquele instante. Ela, cujo rosto mostrava-se vermelhado, praticamente não conseguia controlar o fôlego. Arfava, tomada pelo nervosismo. –O que devo eu esperar, morando debaixo do mesmo teto, junto a esta pessoa tão agressiva? –Imaginava apavorada, ao olhar para trás, para as costas de seu mestre, o qual continuava caminhando sem se importar com ela.

O rapaz descia para sua moradia: –Garota estúpida! –Resmungava, indignado, retirando de sua cabeça, uma folha seca presa: –A quanto tempo isso está aqui? – Indagou-se enquanto passava os dedos alvos pelas madeixas, para ver se não havia algo mais grudado nelas. –Por causa dessa mulher acabei destruindo meu lugar de descanso favorito. Tisc! A única obrigação desta fêmea irritante é recolher seus pertences imundos e desaparecer da minha propriedade!

Conforme ia chegando perto da residência, Alex sentia algo o observando atentamente, acompanhando cada movimento seu, faminto. Friamente, prosseguiu andando até ter total certeza de onde exatamente, vinha aquela impressão. Olhou então para uma das janelas da habitação. Através da vidraça, notou o contorno estanho, cuja boca escancarava um sorriso apavorante e insano, observando-o fixamente. O destemido rapaz já pretendia escalar o alto muro, cogitando surpreender a abominação assustadora que o encarava, quando, subitamente para diante da casa furioso:

—BACKER, SEU VELHO ORDINÁRIO! – Exclama ao se deparar com o buraco horroroso no chão, causado pelo descuido do homem ao conduzir a velha caminhonete. –Como ousa causar estragos por onde passa? DESGRAÇADO, VOCÊ IRÁ PAGAR QUANDO CHEGAR AQUI. –Alexander esbravejava, cerrando o punho. Entretanto...

—Espere aí...! –Percebendo ter deixado de lado o outro problema, o jovem mestre olha novamente para a janela de vitral, mas a coisa horripilante a qual vira, não estava mais lá. –Que porcaria sinistra está acontecendo aqui? Mal essa maldita Bennett invade meu território, logo me aparecem esquisitices. Eu deveria logo tocar fogo em toda a montanha e na mansão. Quem sabe desta forma teria um pouco de paz! –Dizia com o mesmo espírito arrogante herdado de sua mãe, a senhora Hill.

Alex, antes mesmo de cruzar a porta da frente, é apanhado pela coisa horripilante que partira do andar de cima, atingindo-o em alta velocidade.

Notas finais
Uou! Meio bruto este Alexander Hill, ein? Merece levar uma surra de cinto do lado da fivela.