Notas iniciais
Pobre Elizabeth Bennett, onde foi se meter... Estamos torcendo por você, sua linda!

A ameaça batera de frente com o loiro, de tal modo que este precisou apoiar-se na parede para não perder o equilíbrio. Contudo o esbarrão havia lançado sobre o tapete da sala, esborrachado, o troço funesto, fazendo-o derrubar no chão uma estranha caixinha preta. Alexander entra então, indo até ele, agachando-se junto ao repugnante ser, intencionando examiná-lo de perto. Logo em seguida levanta uma das sobrancelhas, aborrecido.

—Ahh... Dói! –A criatura dizia baixinho, chorosamente, enquanto passava a mão no quadril dolorido, pois caíra de mau jeito.

Alexander se levanta: –A julgar pelo sinal de nascença no rosto, você deve ser o outro maldito Bennett que veio me atazanar. –Ele fala pelo canto da boca, transbordando grosserias, como de costume.

Tratava-se do meigo irmãozinho da senhorita Elizabeth. Este havia observado da janela de seu quarto, desde o começo, tudo o que acontecera colina acima, acerca do encontro desastroso de Alexander e a jovem governanta, completamente admirado com a força monstruosa que o rapaz demonstrara.

Mais acima, junto à árvore caída, Elizabeth continuava de joelhos sobre o mato. Um forte vento balançou seu avental impecável, bem como a seus compridos cabelos dourados, desatando e levando consigo a faixa branca que os prendia. O rubor de seu rosto foi se desfazendo pela ação da brisa fresca, fazendo-a recobrar a postura. –Nathan! –Pronuncia angustiada, o nome de seu amado irmão. Seu mestre provavelmente já havia chegado à mansão e do jeito que Alexander tinha se mostrado a ela, como um rapaz irracionalmente agressivo, o perigo de ele fazer algo terrivelmente violento ao pequeno, era iminente. Seu mestre certamente iria machucá-lo!

Usando os braços franzinos para apoiar-se, a jovem empenhava-se em se levantar. Suas pernas ainda estavam trêmulas, bem como todo seu corpo, mas não tinha tempo a perder. Devagar, ela forçava-se a avançar, arrastando seus pés e trilhando com dificuldade, o caminho de volta para a mansão. A única coisa em que a moça pensava no momento era que precisava proteger seu querido maninho, nem que precisasse desistir de sua própria vida por ele. Para ela, perdê-lo seria o mesmo que perder a si mesma.

—Perdoe-me senhor Alex! Eu o machuquei? –Na enorme sala, o menininho pergunta, levantando-se ligeiro, indo até seu senhor e apalpando-o nas costelas, procurando com as mãos ágeis, alguma lesão que resultara do acidente. De fato, ele estava visivelmente preocupado e sentindo-se culpado por ter esbarrado em seu querido mestre.

Arrepiado pela ação inesperada do garotinho, o rapaz dá um pulo para trás, nervoso e nitidamente encabulado: –Q-que audácia! Como v-você, seu minúsculo pedaço de excremento, se atreve a me tocar assim, e pior de tudo: chamar-me de Alex? –O jovem segurou o pequeno pela parte detrás da gola, suspendendo-o até a sua altura, com apenas uma das mãos, tal como se ergue um gato sarnento antes de jogá-lo na sarjeta. Indignado, coagiu-o: –É ALEXANDER! Meu nome é Alexander. Diga: A-LE-XAN-DER, sua criaturazinha horripilante.

—Desculpa senhor Ale-, quero dizer, mestre Alexander. É que eu ouvi tanto falar no senhor não via à hora de conhecê-lo. Eu gosto demais do senhor Alex! –O menino responde, com um lindo sorriso aberto. Embora persistindo em tratar seu senhor de maneira deveras informal, o fazia involuntariamente.

O jovem mestre passa a mão no rosto, impaciente. Acabara de ordená-lo a não mais usar tal expressão, e o menino torna a fazê-lo quase que imediatamente! Exausto, põe o garotinho no chão devagar: –Tisc! É inútil falar! Seria mais fácil me comunicar com um peixe. –Disse, aborrecido, se dirigido ao sofá da sala e sentando-se nele.

Acontece que, desde cedo, os irmãos Bennett foram treinados para serem subordinados dos Hill. Em seus berços, ouviam atentos, narrativas emocionantes sobre tão distinta família, principalmente a respeito de Alexander, a quem serviriam. De modo que, mesmo antes de conhecê-lo, o pequeno Nathan já desenvolvia um carinho especial por seu jovem mestre, tanto quanto por seus heróis favoritos de histórias em quadrinhos.

—Oh mestre Alex! –Dizia o menininho, extasiado. – O senhor é extraordinário! Eu nunca imaginei que pudesse existir uma pessoa tão forte. Quantos anos você tem? Eu também posso ficar forte assim? Ah, Senhor Alex, esqueci de me apresentar! Sou Nathan, irmão da mana Elizabeth e...

—Sei exatamente o que você é: um boboca. –Interrompeu-o, já cansado da agitação dele. –Céus! Pelo visto, você não cala a boca nunca. Como é insuportável! Você viu do que sou capaz, eu poderia quebrar todos os seus ossos sem esforço algum. Não tem medo de mim? –Alexander indagou-o

—Eu não tenho medo nenhum do senhor Alex, meu mestre nunca vai nos machucar porque é um herói da justiça, como o Garras de Aço e o Capitão Patriota! –Nathan falava entusiasmado. Para ele, aquele rapaz em sua frente poderia ser o herói sobre os quais lera diversas vezes, e agora estava ali, diante dele. Era evidente que ele o via como o mais forte de todos, a pessoa que protegeria a sua amada irmã e a ele. Não é de se admirar com a familiaridade a qual o garotinho teimava em tratar Alexander Hill.

A resposta do garotinho lhe pareceu completamente sem noção. O loiro escorou a cabeça com a mão, confuso. –Do que este pirralho com cara de Lua está falando? Herói? Acho que devo ter lido uma matéria sobre isto em algum jornal. Como era o nome daquele homem de bigode que é escritor? Stone... Stephen... Steven...? NAH! Este pequeno lunático quer me comparar a personagens inventados, de histórias fictícias? Obviamente não sabe a diferença entre realidade e ficção. –Sua mente divagava, tentando entender o raciocínio do menino. Chegou a uma única conclusão: –É doido!

—Garotinho idiota! –Disse Alex, rindo-se do menino. –Quieto, sua animação já está me causando vertigem!

O pequenino achou graça, tocando com o dedinho, a marca de nascença em sua bochecha. Sentiu-se feliz visto que seu senhor o achava digno de trocar palavras com ele. Nathan se acomodou do tapete, junto ao seu patrão.

Aquela situação chegava a ser divertida. Nunca alguém havia demonstrado tanto interesse nele, ao ponto de deixá-lo desconcertado. O loiro se perguntava sobre o quão tolo este menino poderia ser, a ponto de não ter noção de perigo; e como conseguia ser tão inconveniente... Era mesmo engraçado! Inesperadamente, Alexander começara a gargalhar, de olhos fechados, rindo de coração, como não fazia há muito tempo. –Que garotinho bobo, este pequeno Bennett, me bajulando desta maneira tão descarada! –Dizia entre suspiros.

—Este assunto me intriga, vamos, conte-me mais sobre este Garras de Aço. –Ordenou o mestre, iluminando assim o rosto do menino.

Finalmente Elizabeth abeirava à casa. Esgueirando-se pela porta entreaberta, a governanta custou em acreditar no que acontecia: o jovem mestre e seu irmão, conversando no recinto. Alex no assento, e seu irmão sentado na tapeçaria vermelha, aos pés dele; ambos falando empolgados sobre super-heróis fantasiados e outras coisas, como bons amigos. E riam! O rapaz estampava no rosto uma fisionomia agradável, um semblante delicioso o qual ela desconhecia completamente e que ele escondera dela minutos antes.

–Nossa! O senhor Alex parece ser bem mais novo que isso, tem mais anos do que eu pensei. Eu sabia que o mestre era um pouco mais velho que eu, mas não tanto assim. Acho que por ser baixo, esconde a idade que tem! –Exclamou o menininho, admirado.

—Não acha que está um pouco cedo pra zombar de mim por causa da minha altura, seu cara de Lua? –Respondeu, cruzando os braços, emburrado.

A moça que escutava a conversa escondida, tapou a boca, espantada. –Como assim tudo isso? Mas ele parecia um bocado mais novo! –Ela não conseguia acreditar que seu mestre era até mais velho que ela. No entanto, Alexander não parecia estar mentindo. Além disso, algumas coisas anormais cercavam aquele ambiente, não custava acreditar nisso também.

—Senhor! –Gritou o pequeno Nathan. –Eu trouxe um presente... bem, acho que o deixei em algum lugar por aqui... –Girou o pescoço, procurando-o.

—A caixinha preta esquisita? Está logo ali. –Alexander aponta com o polegar.

O menino foi até o mimo, apanhou-o e voltando rapidamente para a posição, junto ao seu mestre e entregou alegremente o estojo, o qual era adornado com um bonita fita de cetim.

O rapaz desfez o laço cuidadosamente e, abrindo a caixinha, deparou-se com uma humilde gaita. De certo, o menino havia feito a lição de casa, pois este era justamente o instrumento favorito de Alex. Por um momento, o orgulhoso rapaz cogitou pegar a oferta e jogá-la longe, a fim de deixar claro que não queria a companhia dos Bennett, mas algo nele havia mudado. Massageava-lhe o ego, ver o garotinho tão admirado por ele. Nathan tinha uma maneira especial de, como dizer? O reverenciar.

De repente, Backer apareceu na porta da mansão, surpreendendo Elizabeth, que não o tinha visto chegar, nem ao menos escutado o som do motor do antigo automóvel. Ao ver os três ali, deduziu de imediato que ela o desobedecera. O empregado encarou a garota friamente, como que a censurando. Porém, o homem tinha algo mais sério a resolver. Passou por ela, dirigindo-se ao seu patrão. O jovem experiente, leu o humor do empregado e com um sinal, o chamou aos seus aposentos para falarem a sós. Juntos, subiram as escadarias e entraram num quarto, fechando a porta por trás deles.

Deixado sozinho, pequeno Nathan ficou sem entender o que estava acontecendo, bem como a governanta. A moça foi até seu querido irmãozinho e o acolheu, entrelaçando amavelmente, seus braços ao redor dele.

Dentro do quarto, Alex encostava-se numa escrivaninha, enquanto Backer acendia um abajur prateado, iluminando entre outras coisas, uma estante repleta de livros empoeirados. No entanto o jovem, ansioso ordenou que o homem se apressasse em reportar-lhe o que havia descoberto: –Ande logo velhote. Exponha o que você sabe!

—É sobre a Cidade de Metal. Gangues estão se formando nos arredores daquela cidade. Em todo lugar há notícias de desaparecimentos e sequestros de jovens e crianças.

—Tisc! Aquela cidade desagradável... Mas não é só por isso que você está com essa cara pavorosa. Diga!

—Patrão Hill... os moradores locais relataram ocorrências de bandidos vindos de lá para essas bandas. Eles estão atrás dos seus olhos, Alexander. Se isso for verdade... precisamos nos precaver. Logo eles subirão a montanha, devemos nos afastar daqui o quanto antes!

—Cale-se Backer! —A sugestão do homem lhe causara desgosto. —Eu não vou mais fugir! A Mãe e o Pai abandonaram a mim e a esta casa. Eu não devo sair daqui. Este sempre foi o meu lugar, desde antes de eu nascer. —Nesse instante, o jovem mestre encheu-se de um sentimento nostálgico e mesmo reconhecendo, que isto dito por último, não fazia o menor sentido, lhe parecia extremamente natural. Desviou a face.

—Mas patrão Hill... —O homem, receoso, tentava ainda instar com ele.

—Cale-se Backer! –O loiro grita, interrompendo-o bruscamente. A ideia de deixar o único lugar que conhecia era-lhe deveras repulsiva.

Fumaçando pelas narinas, Alexander sai do escritório, batendo a porta com força, quase arrancando-a das dobradiças. De volta a sala, agora deserta, aconchegou-se no sofá de veludo, pôs um dos pés pra cima, embora ainda calçado, e ajeitou a cabeça na almofada. Permitiu que sua mente vagueasse em inúmeros pensamentos: no quão sozinho seus pais o haviam deixado, no quão chateado estava por mandarem uma babá para lhe vigiar, e nas coisas detestáveis que acontecem debaixo daquela cidade odiosa. Mas também, no interessante Nathan, o garotinho bobo com cara de Lua, de quem ficara amigo. Estava decidido a lutar para defender tudo o que era seu, e querendo ou não, ali haviam pessoas que dependiam dele. Adormeceu.

De repente, sentiu seu corpo pesar, como se algo fizesse pressão contra ele. Percebeu então, que algo macio e quente deslocar-se sobre ele e acariciava seu peito agradavelmente. Ainda atordoado por conta do cochilo, o jovem mestre sentiu um hálito familiar adjacente a sua boca. Abrindo os olhos afinal, Alexander arregalou-os, surpreso. Diante dele estavam enormes lagoas azuis fitando-o profundamente. Mechas douradas de cabelo tocavam-lhe suavemente a face e lábios de cereja aproximavam-se cada vez mais dos dele.

Notas finais
As coisas estão esquentando! huhuhuhuh