Quando menos esperava, o formoso ser etéreo que o tocava desapareceu por completo e embora ele o procurasse em seus pensamentos, não o conseguia encontrar, nem ao menos lembrar-se de suas feições. Ainda tentando retornar a aquela sensação, o jovem espreguiçou-se no sofá, se esticando e fazendo estalar algumas articulações. Um objeto gélido e rígido aponta para a testa de Alex, cutucando-a.

—Vamos, acorde de uma vez, “jovem mestre”... –Uma voz desconhecida, porém inundada de sarcasmo, chegou ao seu ouvido, chamando-o e compelindo-o a despertar. Alexander Hill perguntava-se em sua mente o que havia acontecido e se aquilo que acontecera realmente não passara de um sono delirante, causado por um dia agitado.

Sem refletir direito no que enunciaria, o rapaz reclama: –Quem é o maldito bastado que ousa acordar-me do agradável sonho que eu estava tendo? –Apercebendo-se do que falara, o jovem balançou a cabeça negativamente. Afinal, nunca tivera um sonho daquela natureza. Tentava convencer-se de que aquilo nem ao menos era sonho e que, ser atacado tão de repente por uma mulher, daquele jeito, assemelhava-se mais a um pesadelo. Persuadiu a si mesmo a acreditar que “agradável” não era exatamente a palavra a qual iria dizer. Na sua cabeça, “esquisito”, talvez lhe parecesse mais apropriado. O fato é que Alexander simplesmente não queria ter admitido o quão prazeroso havia sido aquele sono.

—Eu perguntei “QUEM?”! –Alexander interrogou imperativo, enquanto limpava a vista com os dedos. Sentia-se febril e animado. Entretanto, quando finalmente abriu os olhos lilás, ao invés da brilhante miragem da ninfa inspiradora, para seu espanto, estava sob o alvo de uma espingarda enferrujada, colada em sua têmpora.

O jovem não sabia exatamente quanto tempo dormira. Pela janela vítrea, mal podia ver o luar prateado camuflado entre as nuvens. Contudo o pôr-do-sol trouxera uma coisa mais preocupante que a escuridão. Mesmo aquela montanha de difícil acesso não era impossível de ser vasculhada. Ele bem sabia da existente probabilidade de serem encontrados pelo mesmo tipo de bandoleiros, citados por Backer há pouco. O rapaz somente não imaginava ser tão logo.

O jovem buscou manter a calma, Era inútil agoniar-se. Já não tinha dúvida do que estava acontecendo: A casa fora tomada por bandidos. Contudo, não parava de perguntar-se como estes abutres conseguiram encontrar tão rápido o caminho para a residência, afinal o costume de Backer era justamente estacionar a quilômetros da mansão, para evitar deixar a trilha visível. E como se não bastasse, eram silenciosos, não escutara som de motor de automóvel e só se apercebeu de suas odiosas presenças, quando estavam em cima dele.

Lógico que o mestre reconhecia o quão valiosos eram os conselhos de seu velho empregado. Não que tenha mudado de ideia sobre evadir-se da habitação a qual era tão apegado, mas por conta de seu humor instável, adiara a criação de contra medidas defensoras caso acontecesse algo assim. Todavia, não era mais a hora de pensar nisso, os assaltantes descobriram a casa e chegaram até ela.

Um indivíduo fedorento abeirou-se de Alex e audaciosamente, observou atento os olhos do jovem mestre. Contente, ele abriu a boca, mostrando os nojentos dentes amarelos: –Oh! Parece que demos sorte, Chefe. Este daqui também tem olhos cor de ametista. –Disse, empurrando o loiro com a arma, rumo a entrada, onde traziam Backer, já dominado.

—Aqui tem mais dois, Jarryd. –Um brutamonte trazia Nathan e Elizabeth, arrastando-os pelos cabelos, e os jogando rudemente também ali, onde lhes foram amarrados os pulsos por detrás das costas, O pobre menininho estava com a perna ensangüentada e chorava alto. –Esse pivete me deu um monte de pontapés enquanto tentava soltar a garota, mas quando o Chuck jogou a faca na perna dele, ele se aquietou. –O homem massageou o calcanhar e continuou: –O menino parece ter alguma força. Levamos ele também?

O homem fez cara feia, chateado: –Não fiquem mutilando as pessoas antes de me trazerem para que eu os avalie, assim o valor cai e não nos pagarão direito. –Retrucou o líder da quadrilha, aproximando-se de Nathan, e agarrando-lhe o rosto com força, conferindo-o: –Não... É apenas um garoto comum. Se o levarmos e ele não passar, vamos ser fuzilados. Só o loiro aí tem serventia. –Soltou-o.

Alexander estava tremendamente furioso. Além dos desgraçados prenderem aqueles que estavam sob sua posse, ainda cometeram o imperdoável delito de causar dano a eles. Contendo-se, levantou-se do sofá devagar, com o intento de ganhar tempo para analisar meticulosamente a situação. Contou quatro malfeitores: o imbecil ao seu lado, um na escadaria e mais dois guardando a porta da mansão, com seus empregados em sua mira. A probabilidade de desastre causada por uma reação impensada era alarmante.

Como o jovem se demorava bastante, o miserável fedido bateu em suas costas com o cabo da arma, obrigando-o a marchar: –Ande logo, idiota! E não tente dar uma de esperto. –O homem empurrou Alex novamente, nervoso.

Isto irritou o loiro ainda mais. Devido à personalidade orgulhosa que tinha, ele detestava a ideia de outra pessoa ficar dando-lhe ordens. Este se segurava com todo o autocontrole que “não” possuía, rangendo os dentes, para evitar de arrancar a espingarda dele e enfiá-la goela adentro, afinal um ato dessa natureza, poderia acarretar em ferimentos fatais para os servos.

O jovem mestre abaixou-se junto aos outros reféns, a contragosto, permitindo ser amarrado a eles pelos malfeitores.

O pequeno Nathan chorava bastante, também pudera, era apenas uma criança, fora apunhalado e ainda havia sido ameaçado constantemente pelo bandoleiro a quem chamavam de Chuck, que mostrava ser o mais cruel. E este olhava insistentemente para a governanta, lambendo o beiço, com uma expressão de dar medo. Era possível enxergar sua intenção assustadora, de eliminar todos os moradores da mansão Hill, ao carregar seu revolver com algumas balas que guardava soltas no bolso.

O terror se instalara em Nathan e este hiperventilava, perdendo o controle sobre a própria respiração.

—Calado pivete, ou eu vou te fazer calar pra sempre. –Dizia o homem, desde a escada, aferventado, deixando aparecer uma veia pulsante em sua fronte, almejando descer de lá e deixar fluir suas vontades brutais: –Detesto choramingo de pirralho!

O rapaz preocupou-se com o menino. Tinha de tranquilizá-lo, pois naquela situação, isto poderia atrapalhar qualquer plano de fuga. Olhando-o nos olhos e falando roucamente ao pé da orelha, Alex procurou relaxá-lo: –Eu sei que você está assustado, meu amigo Cara-de-Lua. –Disse, brincando um pouco com ele. –Isto é natural. Seu corpo está assim porque precisa estar, deixe-o fazer o que quiser. Concentre-se na minha voz e somente nela... –As palavras de Alexander entravam pelos pequenos ouvidos do garotinho o qual voltava a respirar normalmente. As coisas ditas pelo jovem mestre daquela forma, pareciam exercer uma força calmante que não somente tivera efeito sobre o pequenino, como sobre os outros dois empregados.

—Ei! É melhor vocês calarem a boca. –Disse um dos bandidos. –Além de não ter escapatória pra vocês, tem um cara aqui doido pra se divertir. Quando meu amigo está retalhando, ele perde a noção do tempo e é difícil fazê-lo parar, sabe? Então não vamos tirar ele do sério, beleza?

Todos concordaram com a cabeça.

Quando os sequestradores não estavam vendo, Alexander virou-se para a governanta, falando baixinho: –Mulher... –O mestre sussurra para a senhorita. –Eu vou dar um jeito nessas cordas. Quando eu fizer isso, pegue Nathan e abriguem-se. Eu rechaçarei esses infelizes da minha propriedade. –Ele fala, articulando um plano.

—Eu não posso deixá-lo sozinho, jovem mestre! Eu não mereceria o título de empregada da família Hill se não pudesse servir ao menos de isca.

Ao ouvir a sugestão dela, por pouco o rapaz não grita com Elizabeth: –Você é louca? Sua tola! Um homem de verdade não precisa de uma mulher inútil como você para nada, ainda mais a colocando em risco para se salvar. Apenas pegue o menino e se esconda. Ou você já se esqueceu? Eu te mandei ficar fora do meu caminho, cadela.

A empregada lembrou-se de imediato o acorrido de manhã, na árvore caída. No entanto, diferente daquela hora, a moça sentia-se protegida ao lado do jovem. E o que parecia um monte de maus tratos, desta vez, revelara um aspecto positivo a respeito da personalidade de Alex: ele nunca colocaria em risco propositalmente a vida de um vulnerável e isto incluía tanto Nathan, quanto ela. A governanta notou o quanto seu mestre ia além do mostrado por ele. O jovem desejava resolver a situação cuidadosamente pelo bem deles.

—Sim, meu mestre! –A moça decidiu acatar a ordem de Alexander Hill, reconhecendo que seu nobre senhor desejava, acima de seu próprio bem estar, a segurança de seu amado irmãozinho.

O mestre olha para Backer, o qual se mantivera em silêncio até agora e este, entendendo de imediato, balança a cabeça sutilmente, esperando pelo momento exato.

No instante em que o bandoleiro grandalhão passava perto dos três reféns presos, caçando alguma relíquia para levar consigo, o empregado estica a perna, fazendo o assaltante tropicar. Furibundo, ele avança contra Backer dando-lhe um soco no rosto, e alarmando os outros comparsas. Alexander, aproveitando-se da situação criada pelo motorista, arrebenta as amarras usando apenas a força bruta. Ele levanta-se rapidamente, dando um gancho certeiro no outro salteador. O golpe acertara-o em cheio, quebrando-lhe o maxilar e jogando-o longe, completamente desacordado. O mestre empurra a jovem governanta, ordenando-lhe apenas: –Corre! –A moça apressa-se disparada, em direção a cozinha, puxando Nathan pela mão, o qual mancava devido o machucado.

O gigante, ao ver o capanga no chão, busca intervir, partindo pra cima de Alex. Porém, é pego novamente por Backer, desta vez, totalmente livre das amarras. O empregado dos Hill, apesar de ser mais velho, tinha alguns golpes possantes guardados na manga. Desse modo imobilizou o meliante numa poderosa chave de perna.

—Desculpe-me por ter sido um inútil, patrão... –O velho brinca com o rapaz, se sentindo vitorioso por ter tombado o maior deles. –Espero não ser punido além da conta. –Fala, deslocando fortemente os ossos do brutamontes, o fazendo dormir profundamente.

—Nem pensar velho, ainda vamos conversar sobre aquela marca de pneu que você deixou perto da minha calçada, seu estabanado decrépito. –Alexander devolveu a brincadeira com um sorriso maquiavélico, embora não estivesse brincando exatamente.

Contudo, o jovem mestre notara sumiço de um dos malfeitores.

infelizmente Chuck, que fora no encalço da donzela, conseguira alcançar-la. Agarrando-lhe e trazendo-a de volta, a segurou por trás, pondo um revolver em sua cabeça: –PAREM AGORA OU A COELHINHA AQUI VAI SE ENCHER DE CHUMBO! –Gritou, claramente nervoso. Havia percebido o quão estúpidos foram por terem invadido o lugar com apenas quatro comparsas. –SE VOCÊS DEREM MAIS UM PASSO, ALGUÉM VAI FICAR CRIVADO DE BALA E NÃO VOU SER EU!

Igualmente, Jarryd não esperava pela reviravolta, mas, aproveitando-se do trunfo conseguido pelo colega, alcança a espingarda do grandão, apontando ora para Backer, ora para Alexander: –Malditos! Eu vou matá-los todos e dar suas carcaças aos cães! –O líder do bando ameaçava apreensivo, sem saber em quem atirar.

Alexander atendeu prontamente o assaltante: –SOLTE-A! Eu irei com você para onde decidirem me levar. Apenas liberte meus servos. –Disse, pondo as mãos para cima, a vista do bandido. Não queria que de forma alguma a irmã de Nathan se ferisse, ainda mais para protegê-lo. Obviamente seu pequeno amigo sofreria muito, pois o menininho amava a moça demais. Além disso, se Elizabeth chegasse a morrer por causa dele, provavelmente Nathan não o perdoaria.

—Você não dá as ordens aqui, pirralho arrogante! Nós sim! Eu tenho o poder pra acabar com todos vocês, sacou? –O homem procurava manipulá-los, a fim de tentar convencê-los a desistir de qualquer possibilidade de escapar. –Hehehehehe. Se eu quiser posso matar todo mundo, até essa belezinha aqui. Se bem que... seria um desperdício! Certamente ela pode ser vendida em uma “daquelas casas”. –Disse, lambendo a bochecha rosada da jovem, a qual tentava esticar a face noutra direção, completamente enojada.

O desgraçado deslizou sua mão imunda pela delicada cintura de Elizabeth. Ela, completamente aterrorizada com as intenções do bandido, tentava desvencilhar-se das garras dele, entretanto, nada podia fazer contra a força daquele maldito.

Notas finais
Acautele-se para não apreciar mais a mentira que te dilata os olhos Do que a verdade que lhe destroça o espírito.