Projeto Alex - Livro I - Cidade de Metal
17 Não Desistir de Você
Notas iniciais
Elizabeth escutou um barulho de motor. Deduzindo que se tratava do Doutor Sabeena, desceu depressa a escada e viu, pelo vão da porta aberta, um homem de aparência árabe estacionando uma motocicleta debaixo duma árvore, além da cerva viva, embora tivesse certeza de que Mohinder fosse nome de origem indiana.
—QUEM É VOCÊ? —A loira correu para a porta e perguntou a distância, apreensiva pela pessoa que vinha em direção a mansão, caminhando cobre a calçada de tijolos brancos como se já estivesse visitado-a outras vezes.
—SOU O DOUTOR MOHINDER, A SENHORITA ME LIGOU HÁ POUCO. VIM O MAIS RÁPIDO QUE PUDE! —Ele parou para responder, também de longe, percebendo a inquietação da jovem.
Libe reconheceu a voz e permitiu que ele se aproximasse.
Alexander ainda jazia estendido à entrada da mansão, junto às colunas gêmeas. O árabe chegou perto do corpo do garoto, deitou sua pasta contendo equipamentos médicos no tapete e ajoelhando-se pôs-se a examinar. De fato, tal indivíduo nada se assemelhava a um médico. Até então, a governanta nunca havia visto um cirurgião com calças de couro e ainda, usando uma daquela moto como veículo.
—Para você ter me chamado, a coisa deve ter sido séria. Sei o quanto a vovó não me suporta. —Dizendo isto, o médico afastou o casaco e notou imediatamente as costelas, como lanças curvas, saindo do abdome de Hill, através de rasgos na pele rompida, perfurando-lhe também a camisa, que deveria estar completamente ensangüentada, mas por algum motivo, não estava. —O QUE ACONTECEU AQUI?
Os orbes avelã atingiram a governante, que não pode esconder-se deles. —Eu sinto muito... O mestre Alex pulou do telhado. —A garota cerrou então os olhos cianos, entristecida com sua própria incapacidade: —EU NÃO CONSEGUI IMPEDI-LO!
—Não é disso o que estou falando! —O homem cortou a camisa de algodão e mostrou-lhe o tórax do loiro. —Com este ferimento era pra ele estar ensopado de sangue, mas a carne já iniciou um processo de cicatrização ao redor das costelas mesmo estando desalinhadas! —Mohinder estendeu então a mão sobre as costelas a fim de arrancar dela a resposta certa. —É por isso que eu perguntei: O que aconteceu aqui? —Virou-se novamente para a dama.
Elizabeth engoliu seco. Pela sua expressão, já era obvia a resposta mesmo que ela não tivesse revelado: —La-Lavandula...
Antes que pudesse demonstrar toda sua indignação contra o ato desprovido de juízo da governanta, Sabeena não pôde refrear o braço, que tocou nas costelas expostas do rapaz caído.
KHARA¹!
Subitamente, Alexander Hill abriu os olhos lilás e agarrando o pulso do médico, o jogou em direção a calçada, deslocando-lhe a mão. Por pouco o doutor não deu de cara com uma das colunas! O homem de pele acobreada, levantou-se rapidamente, embora o arremesso tivesse desmentido o pulso.
—MESTRE ALEX! NÃO! —A governanta procurou impedi-lo. —POR QUE VOCÊ ESTÁ ATACANDO O DOUTOR SABEENA?
Alex não a escutou. Estava completamente alterado! Movendo-se de modo desajustado por causa dos ossos fora do corpo, parecia decidido a alcançar o mestiço, ou o que quer que estivesse a sua frente.
—PARA TRAZ, ELIZABETH! —Mohinder ordenou a garota. —Esse não é o Alex que você conhece! Ele está fora de si, sob o efeito do Lavandula!
Quando eu toquei no osso, ele deve ter sentido alguma dor, então o instinto de sobrevivência tomou conta dele, desencadeando no surto! Isso é mau!
Sentindo a presença do cirurgião, o jovem correu e saltou sobre ele, golpeando-o. Sabeena rolou para o lado, esquivando do golpe, o qual atingiu a calçada. Um buraco se formou onde o punho de Alex atingiu, esmiuçando os blocos de pedra, a um palmo de distancia do crânio do médico. De fato, se o homem tivesse recebido tal pancada, teria sido atravessado. Contra atacar não era uma opção!
O efeito do soro tem um poder impressionante sobre os Olhos de Ametista. Mas que droga, isso está perigoso! Só tem uma coisa que eu posso fazer e minha mala está muito longe...
De repente o loiro parou. Esticou o braço em direção ao poente tentando tocar em algo que não estava ali na realidade: —Quei... mando...! —Hill falou pausadamente, imerso em delírio. Seus olhos vazios miravam os cantos da propriedade como se estivesse assombrado.
—Ele está... tendo alucinações? —O médico segurou o pulso e puxou para pô-lo no lugar. —ELIZABETH, A MINHA PASTA QUE ESTÁ COM VOCÊ! TEM UM VIDRO DE LORAZEPAM², ENCHA A SERINGA GRANDE E INJETE NELE! VOU TENTAR MANTÊ-LO OCUPADO.
Ao ouvir o barulho da voz de Sabeena, Alexander inclinou-se para frente, como um urso perseguidor, a fim de continuar arremetendo contra ele. O loiro avançava, com o dorso descoberto, perfurado pela armadura óssea e arrastando no chão, a camisa cortada ainda presa ao cós.
—Ai meu Deus! Ele está vindo de novo! —Nervoso, o doutor já se preparava para esquivar, pois sabia que se apostasse num contra ataque e errasse, estaria perdido. —VAMOS MENINA! EU ESTOU EM APUROS AQUI!
Mas a governanta, ágil, já vinha às costas de seu mestre, com o frasco e a seringa, a fim de pará-lo. —QUANTO DE LORAZEPAN? —A garota sugava o líquido através da agulha rapidamente.
—O VIDRO TODO! —Disse Sabeena, chamando a atenção do jovem descontrolado e preparando para esquivar ao menor sinal de bote por parte de Hill.
A Bennett investiu contra Alex, mas quando tentou perfurar-lhe o músculo, ele se virou de uma vez e a agarrou pelo pescoço com as duas mãos! Em grunidos, Elizabeth derrubou a seringa no chão esperneando, sentindo as unhas de Hill apertando sua nuca. O sangue não estava chegado ao cérebro e a garota estava prestes a desfalecer.
FERROU!
Mohinder agarrou o braço do rapaz: —PARE GAROTO! VOCÊ VAI MATÁ-LA! VAI MATAR ELIZABETH! —O moreno gritava nervoso, procurando abrir os dedos de Alexander e desagarrá-los da garganta delicada.
—Eli... za... —Um som grave saiu dentre os lábios de Alexander, revelando que dentro dele ainda havia um sopro de controle.
Ligeiramente, Sabeena tomou a injeção que havia caído, implorando que ainda estivesse intacta. —ISSO! —Sem perder tempo comemorando, Mohinder golpeou Alex com a agulha, introduzindo nele todo o líquido! O remédio agiu em questão de segundos, amolecendo-o e o levando ao chão, desmaiado.
A garota também caiu no gramado, segurando a garganta magoada. —O-o-obri.. gad... —Ela tentou agradecer a Mohinder, apesar da voz rouca.
—Não me agradeça, garota. Se o cabeça-ôca quisesse mesmo torçer seu lindo pescoçinho teria dado tempo de fazer isso e muito mais. Parece que você significa alguma coisa pra ele.
A moça torceu a boca. Se tivesse chamado Sabeena na noite em que Alexander tomou o tiro, provavelmente não haveriam de chegar a esta situação. Tinha muita sorte de ainda estar viva.
Mohinder segurou então, pela cintura fina, erguendo-a: —Se você ainda tem alguma injeção de lavandula é melhor tomar. Eu também tenho um ungüento baseado no soro, que vai te ajudar a se restabelecer logo. —Ele a encarou tão profundamente que ela podia ver-se refletida nos seus olhos.
—S-si... —Respondeu baixinho e sem jeito, pela boca cálida, duma forma que fez corar os dois.
O homem a soltou e coçou a cabeça, disfarçando: —É melhor cobrir essas marcas. Isso o que aconteceu deve ficar em segredo... para o bem dele.
[...]

—Por que isso tudo está acontecendo comigo? —Hill perguntava-se desde o alto do terraço, no beiral do cômodo mais elevado da mansão. —Mamãe, Papai... até Daniel! Ah, eu sinto tanto! —Observou a folhagem das árvores, revolvendo-se ao longe. —E agora... Elizabeth...
O vento forte e úmido anunciava a vinda de uma tempestade. A atmosfera escurecia gradativamente, ao passo que o ar esfriava com o anoitecer. Mas Alexander, mantinha-se entre o vão do parapeito segurando um dos joelhos ao passo que a outra perna balançava precariamente sobre o precipício, entretido com pensamentos tão nublados e profundos quanto a noite que se aproximava.
—Como eu pude tocar na Bennett? —Ele fechou os olhos para escapar da memória escarnecedora: O cabelo dourado pousado sobre a face cálida. Um lenço desabando no chão... Densos olhos azuis... A dolorosa escoriação maculando o pescoço puro... —Não consigo me lembrar! Como eu fiz aquilo? —A única coisa em que conseguia pensar era no mal que provocara na jovem. —Eu poderia... tê-la matado! —Sussurou perturbado, o jovem que havia evadido do salão das colunas depois da amarga descoberta, se refugiando em seu local de solidão.
Ele cravou o canino novamente nos lábios, enquanto censurava os orbes, pressionado as pálpebras com os dedos trêmulos. Duas grossas gotas de chuva cairam na bochecha do loiro, rolando sobre a face e escorrendo pelo colarinho.
Nesse instante, leves passos aproximaram-se da janela, alertando seus sentidos: —Mestre Alex... —Era Nathan, seu pequeno amigo.
O menininho saiu de dentro da abertura e engatinhando cuidadosamente sobre o telhado, esticou o braço a fim de alcançar aquele que pendia melancólico no beiral, igual ao Pássaro de Pedra³ que vira nas ilustrações dos livros no acervo da biblioteca.
—NÃO SE APROXIME! —O loiro gritou, inundado de remorso pelo que fizera a irmã do garotinho. Temia que apenas por estar na sua presença, o menino corresse perigo.
Nathan parou seus dedos por um instante. A mão estremecia só de olhar Alexander a sua frente, a pessoa que atacou sua amada irmã, embora não por vontade própria. Mas aquele ainda era seu querido mestre, por quem tinha o maior carinho mesmo antes de conhecê-lo. Além disso, Bennett sabia que Alexander não fazia ideia do que realmente estava sucedendo. Assim, Nathan continuou avançando.
Sentindo que o pequeno chegava cada vez mais perto, Alex pegou uma das botas e jogou-a da direção do menino: —EU MANDEI VOCÊ SE AFASTAR! —Hill ordenou fingindo fúria.
O calçado acertou em cheio a cabeça de Nathan e então quicou e aterrissou sobre o telhado. A pancada não fora forte o suficiente para ferir o garotinho, contudo Hill ficou aflito:
O loiro mordeu a própria mão com força: —Droga! Eu não queria que tivesse acertado de verdade! Você está bem? —Demonstrando extrema preocupação com o garoto Cara-de-Lua.
O pequenino voou então sobre o pescoço do mestre e pondo os braços entorno dele, envolveu-o num abraço apertado, chorando. Nisso, os pingos ralos foram ficando mais freqüentes até desabarem sobre eles em forma de uma longa chuva gélida.
—Por favor, não! —Hill tentou afastar o abraço terno, mas este parece sugar suas energias, deixando-o a mercê do carinho do jovem. —Todas as pessoas que se aproximam de mim saem machucadas. Se você ficar comigo... Eu... não quero te ferir também, Nathan! —Alex falou dentre os dentes.
—Você não vai me machucar. —O garoto sorriu, alegre por ver que Alex continuava a ser a mesma pessoa admirável e que ainda por cima, ele o via como alguém importante para si. Nathan chorava, feliz por sentir isso tão intensamente. —O senhor realmente gosta de nós, embora não querendo demonstrar. Eu... estou tão feliz! —Espremia os olhinhos castanhos.
Como era inconveniente, esse Cara-de-Lua! Por que aquele menino depositava tanta esperança nele, ainda mais depois do que fizera?
—Eu quase matei a Elizabeth... Eu não queria... Por que você não desiste de mim? —Alex, confuso por causa da situação em que se encontrava, escondeu os olhos sob as palmas das mãos e esboçou um sorriso tristonho. —Eu não consigo te entender... Eu não consigo me entender... —A mente de Hill estava sendo forçada ao máximo. Todas as suas aflições lhe vinham de uma só vez como que apunhaladas direto no crânio.
—Eu nunca iria desistir de você, senhor Alex... Não foi sua culpa! —Bennett afastou o cabelo molhado de seu senhor de cima do rosto e passando a mãos sobre a face dele, tirou parte da água da torrente que desaguava sobre os dois, encharcando suas roupas. Então o menino tirou de dentro da bermuda, a seringa usada por Elizabeth. —Foi isto. Este remédio te fez fazer aquilo.
Alex segurou o dispositivo junto ao peito, amargurado. Então segurou de leve a nuca de Nathan, e trazendo-a para junto de sí, apoiou a sua testa na dele.
—Por favor Naty, me diga o que estão escondendo de mim. Está na minha hora de saber a verdade. No que você disser vou acreditar.... Eu confio completamente em você!
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