Projeto Alex - Livro I - Cidade de Metal
18 Enquanto a Chuva Cai
Notas iniciais
Imergindo na grande banheira de granito, Hill podia ouvir o som da pesada chuva que desaguava do lado de fora da mansão, sobre a montanha de Helvellyn. Parcialmente mergulhado, permitiu-se aquecer o corpo por meio do banho morno aromatizado com sais de jasmim, e Nathan estava com ele.
—Desde o momento em que pus os olhos em vocês dois, senti que estavam escondendo alguma coisa. —Alex observou a seringa de vidro que Bennett lhe mostrara, ainda com vestígios do soro.
—Esta corporação farmacêutica controla praticamente todo a área de bioquímica, como fabricação de remédios. Foi ela quem desenvolveu o Lavandula, que age como cicatrizante, anestésico, esteroides... tudo ao mesmo tempo. É um medicamento incrível, então dá pra entender de cara que não é todo mundo que pode pagar por ele. —Envergando o corpo um pouco para fora da banheira, Nathy pegou uma maleta e abrindo-a, mostrou sua pequena aquisição: diversas seringas iguais aquela, repletas do famoso composto químico. —E como ela domina a supremacia do mercado, pode por o preço que quiser...
—Extorquindo abertamente quem precisa de cuidados farmacêuticos, não é? —O loiro completou, passando a seringa de volta para o pequeno.
—Sim. O problema é que esse soro tem efeitos incomuns em quem tem Olhos de Ametista. Parece que desbloqueia o cérebro ou sei lá. Só sei que traz a tona o potencial do indivíduo, deixando-o mais rápido, forte, ou resistente... mas também o faz ficar fora de controle... causando desvarios e alucinações... afinal, tanto poder assim é difícil de dominar. É por isso que os Amethyst Eyes não devem usar esse soro: porque acabam pirando e destruindo tudo que encontram pela frente.
—Eu senti algo assim... Não consigo lembrar direito, mas foi como se meu consciente desligasse. Fiquei preso num sonho maluco e então apaguei. Mesmo assim... se eu não tivesse agido daquela forma, e me esborrachado no chão, nada disso teria sido necessário. —Alex olhou para valise. De repente os conselhos de Backer começavam a fazer sentido. Sorriu murcho.
Está na hora de começar a agir como adulto.
Sobre isto, Nathan não tinha o que dizer, mas estava feliz que esse incidente havia ajudado Alex a crescer.
—E como vocês conseguiram essa maleta? —Hill indagou. —Os Bennett administram bem demais os recursos para gastar fortunas com essas coisinhas.
O Cara-de-Lua arregalou os orbes negros. —Muito esperto mestre Hill! —Dizendo isso, guardou a injeção vazia junto das outras. —Vamos dizer que caíram do caminhão. —Ele deu uma risada gostosa que entregou na hora toda a verdade. ^^
—Vocês Bennetts, ein? —Alex balançou a cabeça, curvando o canto da boca. —Não dão ponto sem nó, tenho de admitir!
—Ah... Eles são a segunda maior coorporação do país, perdendo apenas para a Cidade de Metal. As empresas Wells não vão sentir falta... —Ao pronunciar tal palavra, notou a face de Hill alterar-se.
—ESPERE! VOCÊ DISSE WELLS? —Reconhecendo o nome, o loiro mudou completamente de expressão, quase se levantando por causa da informação. —Wells! Margery Wells? —Ele se lembrou do nome que havia na lista que Daniel intencionara enviar para ele.
—O que foi? Senhor Alex! —Nathan ficou confuso com a reação exaltada.
Alexander levou as costas da mão até a boca. —Não... Duvido que seja coincidência! —Envolvido com a desconfiança, Hill nem percebeu que...
—Você está... sangrando! —Nathy aponta para a marca de dentes.
—Desculpe-me, eu não quis te assustar. —Ele escondeu a pele marcada pelo canino afiado. Não adiantava fritar a cabeça com isso agora. O que tinha de fazer no momento era aproveitar o banho e depois, organizar as idéias com calma.
[...]
A tempestade desabava, castigando a colheita perdida, e também, o lombo de um sujeito que corria debaixo do aguaceiro, coberto com uma capa desgastada. Ele varava rapidamente pela estrada duma fazenda abandonada, indo refugiar-se as portas do velho celeiro.
Dentre as frestas das tábuas era possível perceber um ponto de luz do que parecia ser um lampião, assim era óbvio concluir que havia alguém ali dentro. Estendendo o braço sobre a madeira, o homem empurrou a porta, abrindo-a. Nem bem entrou, e esta trancou-se com a força da corrente de ar. De fora, o vento violento e gélido balançou com força a placa da propriedade: Steel Car.
O sujeito de capuz movia-se no escuro ambiente, indo em direção ao foco iluminado. No entanto, antes que percebesse, uma grande mão saindo das sombras segurou-o e o levantou a cerca de um metro e meio do chão.
—ARGH! —O homem gemeu, assustado com o encontro inesperado.
Um brutamontes extremamente musculoso e com vestes militares agarrava-o pela garganta e o pressionava contra uma das colunas de sustentação da estrutura. Retirando o capuz do sujeito apreendido, revelou-lhe a face. —Stinky! O que você está fazendo aqui, maldito? Eu deveria te esfolar inteiro seu saco de bosta! —Ele pronunciou com certo asco pelo intruso, o qual aparentemente lhe era familiar.
—Por favor se acalme Capitão, eu trago boas notícias... muito boas! —Tremendo, o fedido procurou barganhar sua soltura com o velho conhecido.
—Você disse que tinha pistas de outro Ametist Eye, mas desapareceu sem deixar notícias. Eu devia saber que era mentira, afinal, há tempos ninguém encontra outros Olhos de Ametistas... —Bravo, pressionou-o ainda mais, a ponto de fazer ranger o galpão. —TODOS FORAM VENDIDOS, E NÓS TEMOS DE PASSAR, RAPTANDO COBAIAS INFERIORES PRA ELES E RECEBENDO POR ISSO VALORES MISERÁVEIS! —O militar cuspiu-lhe a face.
—M-mas é verdade, C-Capitão! —Afirmou através dos dentes amarelos. —Eu estava preparando terreno pra vocês... pegando informações... o senhor sabe...
—E por que nós deveríamos acreditar em um lixo com fama de traidor como você, Duende? —Questionou-o.
—Eu juro! Por todas as garrafas de whisky que sobraram na Irlanda! —O fedido clamou sério e ao mesmo tempo, amedrontado por aquela pessoa descomunal.
—Pois bem! Espero que valha a pena dessa vez, Stinky. —Dizendo isso, soltou-o, lançando-o violentamente sobre o feno mofado.
Nisso, um raio cortou os céus, clareando o interior da estrutura e desvendando o restante do grupo que se esgueirava na escuridão.

[...]
Ocasionalmente Nathan encostou seu pé no do seu mestre. —Oh! Desculpe-me, senhor Alex! —Mas este não esboçara nenhuma reação. —Senhor Alex... Você está bem? —Hill estava tão concentrado que sua cabeça parecia prestes a fulminar.
O pequeno havia lhe contado tudo o que sabia sobre os Amethyst Eyes e sobre o Lavandula. Não sabendo ao certo o que se passava na mente de seu amigo, começou a se preocupar todo aquele silêncio. —Você está tão quieto... —Nathan, encostou o pé novamente em Alex, por baixo da água, dessa vez de propósito.
Visto que ele continuava estático, o garotinho suspirou e escorregando, colocou a narina rente a linha da água, começando a fazer bolhas com a boca. O banho deveria estar quente, contudo, por causa da longa conversa entre o pequeno e seu mestre, o líquido começava a amornar, fazendo os corpos dos dois garotos esfriar.
—Isso... é estranho... —Alex por fim, se mexeu. Apoiando o cotovelo na borda de carvalho, escondeu parte do rosto com as costas da mão. —...Eu sempre tomei banho sozinho...
—Hô! Então é isso!? —Bennett aproximou-se do rosto de Alexander, fazendo-o enrubescer de imediato. —Você está com vergonha! —Nathan apontou para o nariz do loiro.
—QUEM AQUI ESTÁ COM VERGONHA? —Hill rosnou, e saltando sobre ele, agarrou Nathan e o imobilizou por traz.
O garotinho apenas ria de Alex. —HAHAH! Desculpa, eu estava brincando! —Ele se rendeu, embora não estivesse nada apavorado. —Mestre Alex... —Ele pronunciou, mudando um pouco o tom.
—Hum? —Hill afrouxou o braço, embora ainda estivesse segurando-o.
—Ainda bem que o mestre parece normal, mesmo depois da gente ter falado dessas coisas pesadas... —O pequeno buscou os olhos lilás do outro.
Nesse momento, Elizabeth entra no quarto de banho com uma nova chaleira de água fervente¹ e se depara com a brincadeira animada dos dois garotos, fazendo bagunça e derramando espuma no chão do banheiro.
Ao encontrar os orbes de Alex, a loira sorri serenamente: —Bom ver que o senhor está se sentindo melhor. —Ela pendeu a cabeça de leve para o lado.
Rapidamente, Hill, percebendo a situação em que se encontrava, largou o irmão da jovem e afundou no banho a fim de esconder o lombo exposto.
O pequeno foi até a beirada flutuando, e tocando nela, fitou a irmã, despreocupado. —Libe, essa chaleira é para nós? —Perguntou de olhos cerrados.
—Hum rum! —Ela respondeu, afagando a cabeça do irmão. Voltando-se então para seu mestre e com seu sorriso terno, fixou em seus olhos profundamente, sem se importar com o fato de que a única coisa que o cobria era a toalha minuscula atada à cintura. —A água está muito fria? —Perguntou.
Um pouco vexado, Alex apenas concordou: —...E-está. —E valendo-se da técnica de Nathan, submergiu até a altura do lábio.
O loiro observou Elizabeth subir no degrau e, com habilidade, entornar a chaleira de bronze a certa distancia da água, despejando seu líquido quente entre os dois garotos.
—Ah! Que gostoso! Não está gostoso, mestre Alex? —O pequeno perguntava, com uma expressão agradável, quase nadando ali. —O senhor tem que me lembrar de consertar o aquecedor elétrico...
—Hum. —Alexander estava com a mente em outro lugar, aliás nem estava, pois não conseguia desviar a vista da donzela que tanto se esforçava em cuidar dele.
Assim que terminou, a jovem aprontou-se para deixar o recinto, debaixo da visão do rapaz, que a seguia atentamente com os olhos. Fora tão indiscreto que Nathan percebeu. O menino esperou que a irmã se ausentasse e disparou:—Você deveria falar com ela...
—É tão obvio assim? —Alex voltou sua atenção para o amigo, sem esquivar-se da colocação.
—Está tão na cara... Tenho certeza até que a Libe já sabe.
—Eu... —Alex inclinou a cabeça para traz, fazendo com que a juba dourada saísse-lhe de cima da face. —Eu gosto dela.
E não é de agora... Acho que ela nem se lembra da primeira vez que nos vimos...
Nathan ficou surpreso com o quão maduro seu amo havia ficado em tão pouco tempo. A dois dias atrás seria impensável que aquele jovem arrogante dissesse algo assim.
—Senhor Alex! O senhor é um homem incrível! —Bennett segurou sua mão. —Um homem sabe o tempo certo para tomar decisões sem que ninguém precise forçá-lo a isso. Eu vou apoiá-lo seja qual for o caminho que o senhor tome!
Hill acompanhava a dissertação do amigo, impressionado com tamanha experiência que este possuía, apesar de tão jovem.
—Mesmo assim... —Disse, Nathan. —Eu quero que o senhor Alex saiba que eu gosto muito de você, e eu gostaria que o senhor me visse com seu irmãozinho, porque eu já o vejo como meu irmãozão. —O garotinho tocou o sinal de nascença da bochecha e exibiu o riso delicioso.
Aquilo divertiu Alexander. De fato, conversar com o pequeno Bennett era bem acalentador. —Se é o que você quer... irmãozinho. —Era um pouco vergonhoso a princípio, mas também engraçado. No fundo, o loiro sempre quis uma companhia que o livrasse do tédio daquela mansão, um irmão, talvez... Assim, Alex segurou novamente a Nathan, dando-lhe um carinhoso cafuné: —Irmãozinho Cara-de-Lua!
Quando finalmente decidiram vestir-se, pegaram as mudas de roupa que Libeth aprontara cuidadosamente e colocara separadas. Alex pôs em si outro conjunto azul, e passando a mão pelo colete, abotoou-o, ao passo que checava a aparência pelo espelho do banheiro, o qual ia do chão até o teto. Nathan cobriu-se também, com um simples moletom.
—Só existe uma coisa que não faz sentido nessa história toda... —O Loiro pegou o canivete do pequeno, de cima da bancada e estendeu para ele. Na hora em que o Bennett ia receber o objeto, Alex o segurou com firmeza, procurando sua face. —O que vocês dois estão planejando andando por aí com uma maleta cheia de Lavander?
Nathan hesitou por um instante, evitando os rosto do amigo. Não queria ter de falar sobre isso ainda, mas o mestre sempre sabia fazer as perguntas certas, e também, estava resolvido a nunca mentir para seu irmaozão: —Isso... isso é para mim, senhor Alex... —O que Nathy revelou fez o peito de Alex doer por dentro. —Eu estou morrendo, irmão. O lavandula é a única coisa que pode fazer minha vida durar um pouco mais.
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