Notas iniciais
Quando quase arrancadas a audácia e a esperança, Erguem-se as lagoas, admirando as praias de areia, Moldadas acima de nossas cabeças pela eterna dança. Como o inseto que se liberta da aconchegante teia E move-se desesperadamente em busca da chama, Almejando o caos da flama que suas asas ateia, Assim sopram os ventos da mudança.

Na enorme cama, sem despertar, Nathan remexeu-se ligeiramente incomodado com o frio daquela nova manhã. O garoto enrolou-se um pouco mais nas cobertas, ao passo que abraçava o travesseiro bordado com flores de lotos. Sentindo o cheiro característico, nada demorou em perceber que não se encontrava em seu quarto.

Lembrou-se da noite anterior a qual vararam a conversar, Alex e ele: Hill acomodado a cabeceira, recostado sobre as almofadas, ouvindo atentamente sobre sua condição de saúde, enquanto ele mantinha-se aconchegado aos seus pés, também sobre a cama. Lembrou então o quão dorido parecia seu irmãozão quando este pressionava os olhos com os pulsos e dizia: “Por que você fez eu me importar tanto com você pra agora jogar isso em cima de mim de repente?”

O pequeno sabia que deveria ter contado isto a ele desde o começo, mas por algum motivo, não conseguira. Reconhecia tanto que havia errado a ponto de Imaginar merecer uma punição por ter escondido algo tão importante.

Recordou quando Hill aproximou-se dele e estendeu a mão sobre sua cabeça. Por instinto e culpa, este havia cerrado os orbes, acuado. Mas diferente da reação que ele achava que Alex teria, de gritar e acusar, o loiro tocou-o em seus cabelos, afagando-os e dizendo: ...

...

Nathan abriu os olhos devagar e pôde observar Alexander sentado a sua mesa. Com uma mão, este apoiava a testa sob os fios loiros da juba, enquanto a outra girava a caneta. Ele parecia concentrado ao estudar alguns papeis, os quais naquele instante, devido a letargia, não fazia ideia do que se tratava.

O rapaz, percebendo que Bennett despertara, colocou a “bico de pena” sobre a bancada e olhou-o. —Dormiu bem? —Questionando-o com uma expressão terna, tentando disfarçar as olheiras escuras que lhe marcavam o rosto.

Nathy ergueu-se, sentando-se sobre o colchão. O moletom caiu-lhe sobre um dos ombros, exibindo-o. —Sim... —Ele coçou a cabeça, bagunçando ainda mais os cabelos castanhos. Bennett compreendeu que em algum momento havia pegado no sono, mas ainda estava surpreso de ter acordado no quarto do seu mestre. —...Desculpe-me por ter causado incômodo ao senhor.

—Você acabou cochilando. —O loiro levantou os braços espreguiçando-se e estralando as articulações da coluna. —Fiquei com pena de te mover para o seu quarto e você acordar, então eu te deixei aí mesmo. —Alex falou num só bocejo o qual não parecia acabar mais.

—Mas e o senhor Alex? Parece que não conseguiu dormir bem. —O Cara-de-Lua indagou.

—E-eu não costumo dormir bem à noite, prefiro cochilar quando o sol começa a esquentar. —Hill olhou para o outro lado, disfarçando.

“Que nem um gato preguiçoso!” Nathan teve vontade de rir ao imaginar seu irmãozão loiro com longos bigodes felinos e calda, se espreguiçando em uma cesta de vime.

—Que cara é essa? No que você está pensando Cara-de-Lua? —O rapaz disse, percebendo que seu irmãozinho postiço estava a viajar em pensamentos malucos. —Tisk! Deixemos isso de lado, quero te mostrar uma coisa! —Alex chamou o garotinho, que logo calçou os sapatos e colocou-se de pé.

Aproximando-se de Alexander, viu que ele manuseava uma espécie de livro. Nela haviam vários recortes de colados e também coisas escritas a mão. —Um diário? —Nathan tocou o sinalzinho do rosto.

—Está mais para agenda. —Hill falou, levantando as sobrancelhas altivamente. —É um apanhado das informações que obtive a respeito do trabalho dos meus pais como cientistas da Cidade de Metal e sobre as atividades dessa corporação. Tem algumas anotações minhas, coordenadas de algumas instalações e também... as cartas que o Daniel mandava pra mim. —Falou com certo abatimento.

Alexander realmente havia feito a tarefa da casa. O garotinho pegou a agenda e folheou-a, deparando-se com a lista entregada por ultimo, contendo alguns nomes, incluindo os de seus mestres: Willian e Catherine Hill.

—Está vendo essa lista, Nathan? São de indivíduos que tem ligação com as pesquisas realizadas dentro das instalações da Cidade de Metal. —Férvido, o loiro apontou. —Alguns desses nomes são de pessoas que estão tidas como desaparecidas. Quer apostar que se nos infiltrássemos em algum desses alojamentos, seria capaz de darmos de cara com algum deles?

Assim como Alex, Nathan estavam conscientes de que a organização mais poderosa do país, CM, estava reunindo o máximo de Amethyst Eyes. Aliás, era por isso que os mestres haviam confinado seu amigo na montanha de Helvellyn, a fim de mantê-lo seguro. Claro que tanto ele como o loiro, não sabiam ao certo o que essa corporação queria com essas pessoas, contudo, se tratando da empresa mais poderosa do país, podiam esperar qualquer coisa.

—O que você vai fazer, mestre Alex? —O pequeno Bennett questionou, receoso por imaginar a resposta do amigo antes que Alex a dissesse.

—É óbvio, meu irmãozinho Cara-de-Lua. Eu vou procurar por meus pais. Com esse caderno, eu posso encontrá-los. —Hill virou o rosto, mirrando a claridade que chegava a eles através da vidraça parcialmente quebrada. —Os ventos da mudança estão soprando, eu sinto isso!

[...]

Dentre os pedregulhos cercados por vegetação alta, um focinho desconfiado farejava a entrada da toca. Com cautela, a lebre foi para fora, procurando algo para forrar-lhe o estômago. Entre os pulos curtos em direção a plantação, o animal levantou-se sobre as patas traseiras, erguendo as orelhas e narinas ao vento, pressentindo perigo.

De repente, antes que o pobre mamífero colocasse-se em retirada, fora alvejado por um único tiro, seguido de um estampido.

Um homem de casaco camuflado vibrou, saindo detrás da carcaça de um automóvel a grande distância. —Peguei mais um! —Era Chuck. —O segundo lugar vai buscar.

—Ok... —Jarryd, o líder do grupo concordou, mesmo não gostando da regra imposta pelo primo. —Segure para mim. —Ele entregou sua espingarda para o outro.

Rapidamente, o fazendeiro foi até o animal caído e munindo-se de uma faca, abaixou-se sobre ele. —Sinto muito... —Dizendo isso, passou a lâmina na garganta da lebre. Então, suspendendo-a pelas patas traseiras, trouxe de volta consigo, enquanto o sangue gotejava, criando uma trilha vermelha pelo caminho.

—Ainda não consigo entender porque precisamos ter todo esse trabalho... —Indagou o ex-soldado.

—A única forma que temos para estocar carne no momento é colocando ela para secar com bastante sal. —Jarryd pendurou o cadáver junto das outras caças. —Se não abatermos do jeito certo, a carne estraga antes que possamos usá-la. É um trabalho adicional, mas necessário.

—Não to falando disso, Jarry... —O primo continuou. —Começamos a trabalhar para ajudar o xerife a vigiar esse povoado ridículo e a manter a plantação livre de pestes. Eles deveriam pelo menos nos dar de comer. —Resmungou.

—Nós fizemos coisas ruins, homem. Devemos procurar ser úteis em vez de esperar receber algo em troca. —O gigante, que até então descansava no tronco da árvore próxima interferiu. —Eles deixaram a gente viver. Fizeram mais do que eu faria se estivesse na posição deles.

[...]

—Outra dose de whisky, querida! —Anderson balançou o copo de vidro trincado para a mulata, detrás do balcão.

—Bob, seu velho bêbado! Assim você acabar com todo o meu estoque! —Com os dedos ossudos, a dona do bar pegou o recipiente e encheu-o até a metade. —Veja só, você secou a garrafa! Agora eu só tenho a cerveja de barril do porão...

—O que eu faria sem você, minha maravilhosa cervejeira? A bebida alcançou a maturação? Traga para cá, Suzette!

—Eu digo quando ficar pronta, seu velho “fala mansa”! —A morena resmungou, cruzando os braços longos. —Deixando isso de lado por um instante... —Ela chamou a atenção do amigo, debruçando-se sobre a bancada. —Não sei se confio nesses sujeitos que você recrutou, Bob.

—Por quê? Com esses homens nos ajudando a proteger a cidade, podemos ficar mais despreocupados e voltar as nossas atividades do dia-a–dia. Além disso, Jarryd e Vassilli são nossos vizinhos de longa data, fazendeiros da antiga Steel Car, a oeste. Sei que parecem um pouco isolados, mas eu os conheço. São honestos, apesar dos problemas que tiveram com o velho Hector Back-

—Não é deles que estou falando Anderson. —Ela o interrompeu. —Estou falando dos outros dois. Não só o primo do Jarryd, que a gente pouco conhece, mas principalmente daquele cara que anda arrastado, como se estivesse nos espionando... —A dona pegou os dreads, arrumando-os de um lado só do ombro, preocupada. —Eu não sei o que é, mas tenho a impressão de que devemos ter cuidado com esse daí.

[...]

—NÃO! —Hill jogou o braço para o lado, combatendo vigorosamente a idéia descabida do pequeno Bennett. —VOCÊ TEM IDÉIA DE COMO ISSO QUE VOCÊ FALOU É ESTÚPIDO?

—MAS VOCÊ DISSE “NÓS”! —Nathan cerrava os pulsos instando com o loiro para que este o permitisse, defendendo veementemente sua posição.

—Não disse nada! E mesmo que tenha dito, foi apenas uma figura de linguagem! —O loiro deu as costas para o menino, rejeitando por completo.

O menino bateu na mesa com as duas mãos. —EU VOU COM VOCÊ IRMÃO! SEI QUE NÃO TEM COMO TE IMPEDIR E SE NÃO POSSO TE PRENDER AQUI, EU VOU COM VOCÊ!

Cansado, Alexander desabou na bancada, batendo a testa nos papeis. —Você não entende? Isso vai ser muito arriscado. Como eu vou cumprir o que eu te prometi ontem se eu te colocar no meio do perigo? —A voz saia abafada, quase tapada.

O menininho percorreu com os olhos toda a mesa e deparou-se com o presente que havia dado a Alex quando chegara a Helvellyn, então tomou-o e estendeu o objeto delicadamente ao amigo, implorando para que este usasse o presente dado com tanto carinho. —Toque pra mim!

—Mesmo sabendo tocar, não há muitas músicas que eu conheça além das que estão nesse livro velho de partituras. —O mestre apontou para a estante sem sequer levantar a cabeça.

—Eu quero esta aqui! —O pequeno abriu na página certa, como se já tivesse fuçado todas as suas coisas e escolhido a melodia muito antes.

PIRRALHO SAFADO!

Surpreso com a rápida decisão, Hill leu mentalmente o título da música. —Você só pode estar de brincadeira comigo, seu Cara-de-Lua! —Alex balançou a cabeça, porém sem ocultar a suave curvatura em seu lábio. —Venha.

Ele levantou-se da escrivaninha com o pequeno estojo preto e moveu-se rumo a janela, abrindo-a. Hill observou a colinas ao longe. O dia emergia sobre elas, tingindo seu pico de dourado e fazendo-as reluzir.

Alex assentou-se sobre o parapeito da janela, colocando uma das pernas apoiada nela, ao passo que Nathan ajoelhou-se na poltrona junto a ele. Hill desatou então o laço vermelho e abriu o estojo, revelando a gaita com seu nome gravado nele. Era mesmo um presente bem bolado! Assim, Alex umedeceu os lábios e levou o instrumento a boca, deslizando-o pelos lábios:

https://www.youtube.com/watch?v=0BLzJ7_Zrzw (ignore a banda tocando)

O pequeno fechou os olhos, e embora estivesse preocupado com os passos tomados por Alex, permitiu-se deliciar-se com a bela melodia composta pelos mitos do passado e executada de forma primorosa pelo amigo.

A melodia ecoou pela mansão como que crescendo e se multiplicando em infinitas cores, chegando até mesmo a cozinha, onde estavam Elizabeth, Backer e também Sabeena, o qual passara a noite na mansão.

—Bem, vocês sabem o que isso significa... Eu tinha esperança de que este dia nunca chegasse, mas o rapaz é exatamente como a mãe dele. —Hector sorveu um gole de café, olhando de canto para a governanta. —Infelizmente, você fracassou, minha cara...

A garota serviu café ao doutor, sem responder uma única palavra. No entanto, seu semblante de decepção era evidente.

Mas eis que de repente, enquanto Hill e Bennett estavam no alto da janela, eles avistaram uma pessoa estranhamente familiar, cruzando desesperado a propriedade em direção a mansão, arfando e tombando no meio do caminho.

—Mas o que foi isso agora? —Alex levantou-se imediatamente, e rapidamente, deixou o quarto correndo a fim de descobrir o que estava acontecendo, sendo seguido por Nethan.

—SOCORRO! POR FAVOR, ALGUÉM! —O individuo invadiu a casa gritando amedrontado, buscando ajuda.

Todos, inclusive o doutor, foram até a sala para ver do que se tratava e viram aquele homem tombado a quem reconheceram de imediato.

—FEDIDO???

Notas finais
Desculpem a demora pessoas. Mas acredito que a espera valeu a pena, pois acho que foi bem bolado. Um pergunta para vocês, meus amigos: Vão querer o próximo capítulo com ou sem emoção? hehehehe Um abração especial para meus amigos especiais ApenasUnicornia e Franco, que nunca me deixam na mão. Espero que gostem desse capítulo porque foi feito especialmente pra vocês dois. Preciso dormir por 5 dias direto, pra me recompor depois de hoje. P.S. Tenho uma gaita mas não sei tocar. kkkk