Projeto Alex - Livro I - Cidade de Metal
11 Deixe-me Ir
Notas iniciais
“Você é valioso, Hill-Olhos de Ametista. É forte, resistente e se cura rápido. Há uma recompensa pela cabeça de pessoas como você.”
O que Vassíli disse continuou ecoando na mente de Alexander e este, sentindo o sangue aquecer sua face, abaixou a cabeça, mordendo o lábio inferior e deixando aparecer pela fenda formada, um dos caninos. O jovem sabia de sua condição anormal, pois embora não tivesse contato com muitas pessoas, não era nada leigo. Conhecia bem o quão frágil era a carne de um ser humano e que a dele própria não se igualava a da maioria das pessoas. De certo que um dia iriam atrás dele a fim de descobrir do que era composto seu corpo, mas não conseguia aceitar que esse dia estava tão perto, ou melhor, havia chegado.
Contudo, graças aquele homem, descobrira um fato importante que poderia ajudar a revelar sua própria natureza, antes oculta dele próprio:
—Você disse “pessoas como você”. Existem quantas pessoas como eu?
Jarryd sentiu o olhar fuzilador do motorista sobre ele, como se tivesse revelado um segredo proibido, mas isso não o impediu de abrir o jogo: —Não sei ao certo, mas você não é o único. Diversas organizações colocaram incríveis recompensas por vocês. Nesse momento, mercenários estão atacando aldeias e vilas procurando por qualquer um que tenha estes olhos.
Alex observou o rosto de seus empregados. Ambos procuravam disfarçar o nervosismo causado tanto pela informação soltada pelos malfeitores como pela perspicácia do rapaz em fazer a pergunta certa.
Hill se viu mais afundado na escuridão do que pensava. Mal podia acreditar em tal situação. Pelo visto aqueles quadrilheiros desgraçados mereciam mais confiança, do que aqueles ao seu lado, que o chamavam de ‘mestre’.
Voltando-se para seus empregados, proferiu indignado: —VOCÊS SABIAM!
Alexander correu para dentro da casa, com os documentos em mãos, abalado com a conclusão a qual chegara.
—SENHOR ALEX! —Nathan aprontou-se para alcançar seu amado mestre, porém foi impedido. —Mas senhor Backer! —O pequeno levantou a vista para o empregado.
—Deixe-o. O patrão precisa de tempo para assimilar estas coisas.— Backer passou a mão na cabeça do menininho, o qual ainda estava preocupado. —Ele vai ficar bem, eu prometo. —O empregado sorriu serenamente.
Desta vez, voltando-se para os bandoleiros, Backer disse: —Vou entregá-los as autoridades, vocês já ficaram tempo demais aqui. —Os levantando e conduzindo rumo ao veículo.
Jarryd e os outros se entreolharam, afinal poderiam confiar naquele homem de olhos cerrados? Ele poderia simplesmente os matar, jogar seus corpos no rio, e voltar dizendo que tinha os entregado para o xerife.
— Então, vocês vão subir na caminhonete por livre e espontânea a vontade ou eu terei de amarrá-los novamente? —O velho falou, apontando para o veículo logo adiante.
—Está tudo bem. —Elizabeth, ao observar a dúvida deles, pôs a mão sobre o ombro de Vassíli. —Eu conheço o senhor Backer. Ele não vai matá-los sem a ordem do mestre. —Ela disse com seu costumeiro tom sereno.
—Isso é verdade. —Nathan concordou, ao passo que o empregado afirmava com a cabeça. —O velhote parece malvado, mas é bacana.
—Quem você está chamando de velhote, garotinho? Está pegando todas as manias 'charmosas' do seu patrão. —Sem ter se ofendido de verdade.
Os bandoleiros subiram a bordo obedientemente. Na verdade, estavam bem agradecidos por ainda estarem vivos depois da noite infernal que tiveram nas mãos de Backer. Nem mesmo Chuck pensava em revanche. Como mercenário agir por vingança não valia muito a pena.
—Nathan, venha comigo. Se quiser ficar no meu lugar quando eu morrer, tem de aprender minhas funções.
—Roger¹! —O garoto leva a palma rente o cabelo e entra no carro junto com o motorista.
[...]
Ao entrar na mansão, a jovem Elizabeth escutou barulhos de coisas quebrando vindo do quarto de Alex. De repente, um urro.
—Mestre Alexander! —A loira pronunciou preocupada, ao subir as escadarias.
—ISSO NÃO ESTÁ CERTO! —O garoto bradava. —EU SABIA DESDE O COMEÇO QUE ALGUMA COISA ESTAVA ERRADA! Eles estão sendo mantidos prisioneiros! —Desesperava-se enquanto segurava os cabelos com força, rente a raiz.
A jovem Elizabeth entrou no quarto, apressada, pois havia escutado os gritos raivosos de seu jovem mestre. Ao se deparar com o estado do quarto, horas antes, meticulosamente arrumado, e agora, em destroços, com vidro e louça estraçalhados no chão, levou a mão ao peito assustada:
—Mestre Alex, por favor, acalme-se! Pare com isso, você está se machucando!
—SAIA DAQUI, MULHER! —Ele gritou possesso, exibindo o rosto bastante vermelho. —Você sabia disso também, não é? Que eles estavam presos. NÃO É? —Ele a encarou, implorando por uma resposta.
Cautelosamente, a moça foi em direção a Alex. Naquele instante, vê-lo daquela forma não lhe pareceu estranho e incomum. Apesar de Hill na verdade já ser um homem, a sua aparência ainda era a de um garoto pouco mais novo que ela. Quem sabe até indefeso.
Elizabeth ajoelhou-se diante dele e, olhando nos seus olhos, tocou gentilmente em suas mãos, que relaxaram instantaneamente, soltando assim os cabelos e deixando cair no chão, alguns fios loiros que haviam sido arrancados em seu momento de fúria: —Meu mestre! —Ela pronunciou, de olhos semi-serrados.
Era linda! Como era linda aquela mulher! Embora estivesse com os pensamentos embaçados, era isso o que passava pela mente de Alexander ao mirar aquela jovem o tocando, tão interessada em sua segurança e bem estar. O sol entrava pela vidraça quebrada e iluminava-lhe o rosto pálido, bem como seus enormes orbes azuis... e os cabelos delicadamente levados pela brisa do entardecer, brilhavam dourados sob aquela luz. A imagem de Elizabeth mexia tanto com o rapaz que ele mal pode resistir, principalmente por ele mesmo estar em uma situação tão difícil como aquela.
—Você se cortou também? —Preocupou-se seriamente, a jovem. —Senhor Alex, por favor não faça essas coi-... —Enquanto ela ainda falava, Alex a tomou em seus braços e abraçou, envolvendo-lhe os ombros e agarrando fortemente a sua cintura. Ele desejava sentir o cheiro que exalava do corpo dela, como sentira no dia em que ela chegara a sua casa; a segurou tão forte que parecia que seus corpos estavam prestes a se fundir. Foi quando os ossos de Elizabeth começaram a estalar!
Alexander conhecia bem a própria força, mas naquele instante, isto lhe fugiu do pensamento, e nem lhe passou pela cabeça que seu carinho poderia estar na verdade causando dor. Nessa hora, a moça começou a sentir como se seu corpo fosse despedaçar.
—Mestre Alex, o senhor... está apertando demais. —Mas foi como se ele não pudesse ouvi-la. Estava tão concentrado em suas preocupações pessoais que ao invés de largá-la, apertou-a ainda mais. Ele só queria que passasse, que sua própria dor passasse.
—VOCÊ ESTÁ ME... MACHUCANDO! —Ela gritou, afastando-o.
O rapaz voltou a si, como se estivesse acordando de um transe. Fora rejeitado pela jovem!? Contrariado, a largou, fazendo-a despencar de forma desajeitada no chão e saiu correndo, deixando no cair os papeis que Jarryd lhe entregara.
Olhando para a página caída, a jovem reconheceu de imediato um nome: “Catherine Hill”. De espanto, tomou a folha e leu:
“Eu encontrei Catherine Hill em tal instalação...”
—ALEX! —Elizabeth chamou por ele, tentando se levantar, embora estivesse sentindo muita dor. —MESTRE ALEX!
Ele não a ouviu. Furioso, com Elizabeth, com Backer, consigo mesmo, e principalmente com seus pais, que o abandonaram sozinho, correu procurando uma forma de escapar daquela prisão. Resolvera não ficar naquela casa um só segundo a mais.
Desde sempre, Alexander cogitara ir em busca deles, mas nunca teve coragem de fato, no entanto, agora não havia mais como esperar. Assim, subiu para a parte mais alta da casa, onde havia deixado preparada uma bolsa contendo tudo aquilo que precisaria para deixar os domínios da família Hill. De repente, Alexander escutou um som de passos chegando cada vez mas perto, passos estes que certamente tentariam prendê-lo de novo.
Atrás dele, podia-se ouvir a jovem seguindo-o, embora devagar. Ela segurava as costelas doloridas por conta do carinho violento que recebera, subindo as escadarias com dificuldade. Bennett continuou chamando por ele, procurando-o... Como se tivesse certeza de que seu mestre estivesse para fazer algo imprudente.
—Tisk! Não posso voltar por aí, se eu vê-la... não vou conseguir... ela vai me impedir de ir—Ele cogitou, ao sentir a presença dela no andar.
Sesta forma, abriu a porta que dava para o telhado da mansão, e aproximando-se da beirada do telhado, parou por um momento a fim de preparar-se para agir conforme seu intuito.
—Jovem mestre, pare! Venha cá, me dê a sua mão, volte para mim! —Finalmente ela o havia alcançado, não iria permitir que ele se afastasse agora. —Não faça isso comigo, mestre Alex!
—Cale-se, sua estúpida! Como ousa me dar ordens? —Disparou friamente. De fato, ela tê-lo afastado, mexeu com a auto estima de Hill, porém o fez lembrado porquê de ter ficado tão descontrolado. —Eu estou indo embora deste lugar! Vou procurar meus pais. Alguma coisa ruim aconteceu com eles, eu sinto isso!
—O que tem nesses papeis que te obrigam a pular? Você vai acabar se matando, não vê? Este lugar é muito alto, até para o mestre. Eu mal consigo ficar de pé aqui. Se foi pelo quê aconteceu a pouco, eu “me” dou para você, está ouvindo? —Elizabeth tentou convencer Alex com tudo o que tinha. —Está ouvindo? Eu “me” dou para você!
—E quem quer isso? Você é estúpida ou imbecil? — Agora realmente ofendido. Engana-se se acha que estou fazendo isso por você. Você não vale tanto assim!
—Por favor, não faça iss-...
—Se não quer que eu pule, saia do meu caminho e me deixe sair pela porta da frente! —Ele a interrompeu. Não queria prolongar essa conversa, não somente pelo seu bem, mas pelo dela também.
—PARE! EU NÃO VOU DEIXAR VOCÊ IR A LUGAR NENHUM! —Elizabeth gritou, desesperada.
—Ah, não? Pois fique olhando! —Disse Alex, tomando aquilo como um desafio.
Alexander abriu os braços e se jogou do telhado, de costas, como se não temesse nada. A moça ainda se lançou tentando segura-lo com suas mãos, mas em vão, ele já estava fora de seu alcance. Houve um baque. Do alto da mansão, amedrontada, a jovem olhou para o chão e, não pode evitar arregalar os olhos azuis, deixando escapar um grito agudo que tentava abafar com as mãos: O corpo de seu jovem mestre esticado no chão, manchando as rosas brancas do jardim com algo vermelho.
Abalada, Elizabeth desceu as escadas e atravessou a mansão inteira a fim de chegar a porta de entrada. Destrancou apressadamente a porta da frente, com seu molhos de chaves, a fim de ir ao encontro do corpo de seu amado mestre.
Assim que abriu a porta, avistou o garoto deitado no gramado, junto as roseiras. Ela não pode conter as lágrimas, que rolavam copiosamente. Aproximou-se devagar e viu: Estava morto, o coitadinho! Havia muito sangue saindo-lhe da boca e nariz, manchando as flores, a calçada de pedra e o gramado tão querido por ele. Ela se ajoelhou e abraçou o corpo, lamentando inconsolada.

De repente, sentiu um arrepio. Uma mão tremula estava a tocar-lhe os cabelos e as costas.
—Meu mestre! —Chorava ainda mais, desta vez exageradamente, embora aliviada. —Graças aos céus!
—Você não achou que eu morreria só com isso, achou? Sua tola! —Disse, limpando o sangue que lhe saia a boca com a manga do casaco. —Agora saia de cima de mim, você é pesada. —Tossiu.
A moça chorava, levantando ainda mais a voz. Agora as lágrimas lhe caiam como cascata, dos lagos dos seus olhos. —Que coisa horrível de se dizer, Alex! —Disse, esboçando um sorriso sem jeito e limpando os orbes com o tecido do avental.
Ele, por sua vez, contemplava esse momento com uma satisfação de quem saboreia um prato fino. Sentiu um desejo incontrolável de rir do sofrimento de Elizabeth, que chorava infantilmente; tanto que ficou enrubescida, soluçando como uma criança; mesmo que ele a desejasse tanto.
—Que bonitinha! —Disse ele, zombando dela. Cobriu então a boca com as costas da mão a fim de esconder o riso que fugia dos lábios.
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