Notas iniciais
O lamaçal em que hoje me afundo Foi resultado de cada mau passo. Tudo o que eu tinha de mim foi arrancado Um homem outrora poderoso tornou-se quebrado. Devo esconder tal agonia do mundo Assim, eu simplesmente me amordaço.

Nathan mantém o cotovelo apoiado suavemente na porta da velha caminhonete, enquanto descem a trilha montanha abaixo. Pensativo, olhava ora para o motorista, ora para a vegetação que passava devagar pelo vidro retraído. A temperatura era quente sob a copa das árvores. Uma gota de suor desprende-se de sua fonte, rolando pela curva da bochecha do jovem. Estava abafado e a fraca brisa que corria pela janela aberta, não era o suficiente para aplacar o calor. De súbito, a roda do veículo passa sobre uma pedra fora do lugar, fazendo todos ali quicar, inclusive os quadrilheiros algemados na caçamba do veículo, quebrando assim, o clima silencioso que pairava.

O pequeno olhou através de vidro, conferindo se estes estavam bem. Estavam os quatro: O gigante, o fedorento homem de dentes amarelos, Chuck e seu líder, Jarryd. Ambos conversando baixo, embora ainda cansados devido os acontecimentos anteriores.

—Não adianta tentar disfarçar, pequenino. —O empregado se manifesta, sem tirar os olhos do trajeto. —É óbvio que você está preocupado... Está nervoso por conta de sua primeira missão oficial como empregado dos Hill?

—NÃO É ISSO! —O garoto se vira bruscamente, fazendo o velho admirar-se com sua reação rude. —M-me desculpe... —Nathan gagueja, abaixando a cabeça, pela falta de jeito e se acomoda no banco de couro, enrubescido.

—Eu entendo que você está sentindo. —O motorista respira alto, limpando o suor da testa com a manga da camisa. —É Alexander, certo?

Nathan encosta a nuca no apoio do banco e mira o homem: —Senhor Backer... tudo bem deixar a mana Elizabeth sozinha com o senhor Alex? Ele estava bem chateado, nem pude falar com ele antes de sairmos. —Nathan meche na trava do porta-luvas e suspira, fechando os olhos negros. —Gosto do mestre e não quero que ele sofra, mas também quero que ele se dê bem com a mana Elizabeth...

Backer leva uma das mãos a cabeça, afastando um pouco a boina e coçando-a. Apesar de ser só um garotinho, era evidente que os pensamentos de Nathan eram muito profundos.

—Eu sei como você se sente. Afinal, viver pelos Hill é dever de todo aquele que nasce como um Benneth. —Ele retorna a mão para o volante, junto à outra. —Mas eu confio na senhorita Elizabeth, a velhota educou-a bem, assim como você. Além disso, me sinto feliz em finalmente ter alguém com quem possa falar essas coisas.

O rosto do garoto com cara-de-lua iluminou-se, quase como se tivesse tornado uma Lua de verdade. De certo que o velho desejava tranqüilizar seu doce co-piloto, mas na realidade acabara de dizer algo animador, que significava o quanto esperava dele.

Com seus olhos enormes e brilhantes encarando Backer, o menininho soltou, encabulado: —Legal! Agora estou nervoso por outro motivo! —Mostrando os dentes alvos pelo delicioso sorriso.

O velho, contagiado pela leveza daquele agradável ser, permitiu-se rir também, fazendo sair por entre o bigode de comprimento inapropriado, uma gargalhada grave e reconfortante: —Quando chegarmos no povoado e resolvermos tudo, vou te levar pra comer Ale Pie¹ no meu bar favorito.

—Tudo bem em levar uma criança para um lugar como esse? —O menino toca o sinal de nascença do rosto.

—Você não é uma simples criança, é um servo da família Hill. Em outras palavras, você é um homem, mesmo que seja em miniatura, e é bom que conheça diversos tipos de lugares. —Contudo, o velho cerra os orbes e levanta o dedo indicador. —Mas ainda assim, refresco é a única coisa que irei permitir que você beba lá, então não insista!

Riram. Fora aquele momento de descontração, como a calmaria depois da tempestade. Pena que o mar não fique calmo pra sempre...

Ao saírem da montanha e pegarem a estrada de terra que dava acesso ao vilarejo, o motorista, por conta de seu instinto aguçado, tem um mau pressentimento.

A dourada plantação de trigo ao pé da estrada estava praticamente abandonada, e as ervas daninhas começavam a tomar conta da lavoura. Os grãos maduros já estavam a cair no solo, contaminando-se de sujeira. Claramente já havia começado a época da colheita, mas não havia ninguém trabalhando ali, ninguém a colher, debulhar ou a estocar os grãos, nem ao menos sinal de pessoas nos sítios. O campo fora invadido por fauna brava, a qual ia dispersando-se e correndo vegetação adentro, conforme o veículo passava.

O que estaria acontecendo ali?

—Pequenino! Veja se nossos convidados estão a salvo. —Ordenou o homem, sério.

Nathan, de imediato, olha para trás, novamente. Apesar de se manterem sentados na caçamba, aqueles homens estavam estranhos, tão apreensivos quanto o velho. O bandido fedido esticava o nariz para cima, como se fosse possível farejar uma podridão fora a dele mesmo. Os demais bandoleiros pareciam estáticos, observando cautelosamente tudo ao seu redor, da maneira dos animais selvagens ao perceber a presença de um predador.

—Estão todos ali. —Nathan se volta novamente para o motorista. —Mas estão bem nervosos. Há algo errado acontecendo, senhor Backer? —Pergunta, franzindo o cenho.

O empregado fala baixinho e num tom sério: —Você não consegue sentir, não é mesmo?

Ele balança a cabeça negativamente em resposta ao homem. “Mas, o que eu deveria sentir, afinal?”, Nathan não conseguia compreender.

Chegam por fim a entrada da pequena cidade. O motorista desliga o motor. —Garoto, está vendo o porta-luvas? Isto, esse aí na sua frente! Abra-o. —Diz o homem, apontando para a pequena tranca.

Bennett inclina-se para frente e, com seus dedos finos, destrava-a e assim que a portinhola desce, tão logo percebe uma garrucha e também, um belo canivete de marfim, com detalhes em ouro e um cordão atado nele.

—Nathan. —Sussurrou, o velho. —Quero que você me escute. Nós estamos sendo observados desde o momento em que começamos a nos aproximar da cidade. Eu ainda não sei o que nos aguarda, mas eu preciso que você se mantenha calmo e centrado. Pode ser que se trate do resto do bando deste homem, Jarryd.

O garotinho começa a suar lembrando-se daquela ocasião traumatizante. O garoto toca a perna no lugar em que fora golpeado por seu agressor um dia antes. A dor da carne sendo perfurada pela lâmina fria, parecia ter se reavivado. —Isso é mal! —O pequenino cerra a mandíbula ao segurar a coxa. —O senhor acha que ainda há bandidos aqui perto?

—Tenho motivos para acreditar nisso. As coisas podem ficar perigosas a partir daqui.

Era esperado tanto dele, mas no fim, não conseguia dar o auxílio necessário para o velho empregado, nem ao mesmo perceber um perigo iminente o qual os pudesse ameaçar. Se fosse mais habilidoso, quem sabe, poderia ter feito mais quando os quatro bandidos dominaram a mansão e o renderam tão facilmente.

Desse modo, o pequenino começou sentir-se mal e ficou ofegante devido tamanha a preocupação causada por todos aqueles sentimentos depreciativos que tão rápido invadiam sua mente e a faziam vaguear por um caminho autodestrutivo.

Eu sou um inútil...

O motorista põe a mão sobre o ombro dele, sacudindo-o devagar. —Acorde garoto! Você não teria sido mandado se houvesse alguma dúvida de que você não fosse capaz. —Backer procurou o tranquilizar e fazê-lo voltar ao caminho certo, porém sem perder o sentido de alerta. —Tudo bem, perceber a presença de um inimigo é uma habilidade que você só vai desenvolver após décadas de treinamento, eu vou te ajudar nisso. Mas por hora, vamos dar um jeito.

O homem estava certo. Não era hora de se deprimir e de se sentir fraco, pois isto poderia culminar na sua queda e na das pessoas importantes para ele. Pelo visto, o velho tinha muita experiência em liderar e extrair o melhor de seus subordinados. Precisava confiar nas instruções dele.

O homem continuou as orientações: —Escute, você vai pegar o canivete e vai ficar com ele, use-o para a sua proteção. A garrucha continuará guardada no carro para caso seja necessário você fugir sem mim. Você já aprendeu a usar uma dessas, certo? Vai se sair bem.

—Roger! —Bennett respondeu sem oscilar.

Os dois saem do carro e vão até a traseira do automóvel, onde estão os bandidos. Backer os faz descer sem trocar nenhuma palavra, conduzindo-os pela forte corda, enquanto Nathan segura firmemente o canivete pendurado no pescoço, oculto sob a camisa de algodão. Era melhor assim, visto que não tinham certeza se a estranha presença pertencia a outros membros desta mesma quadrilha. Qualquer reação poderia alertar os inimigos e, além disso, não tinha como saber exatamente quantos indivíduos estavam de olho neles. Já fora tão difícil domar aqueles quatro, ainda mais agora que estavam sozinhos, apenas ele e um garotinho. Assim, não parecia uma boa ideia começar um confronto no qual não tinha certeza de que venceriam.

Deixaram o automóvel e se dirigiram rumo à cadeia, atentos a tudo ao seu redor.

De fato, a pequena cidade estava bem diferente do corriqueiro: a vila deserta, não havia sequer um comércio aberto, nem mesmo os bares costumados a serem visitados pelo velho empregado. Todas as casas mantinham-se trancadas com as janelas bloqueadas com grossas tábuas de madeira. Parecia que a cidade fora atacada e seus habitantes tentaram se proteger como puderam, e por fim, tiveram de evadir-se dali. Mas ainda assim, existia a sensação de que não estavam a sós. Uma hostilidade vinda de dentro das propriedades, como se algo estivesse pronto para investir sobre eles e os sobrepujar.

Não suportando mais o clima pesado, o gigante, o mais sincero dos quatro, soltou: —Mas que raios aconteceu com este lugar em tão pouco tempo? —Disse cerrando os punhos, quase a ponto de romper a corda que o atava, preocupado.

O comentário do estrangeiro sacudiu Backer, implantando dúvida. Isto significaria que o grupo de Jarryd não era responsável por aquilo?

Finalmente chegaram à porta da delegacia, a qual parecia tão depredada quanto os outros estabelecimentos. O empregado bateu então na porta de ferro, fazendo o grosso anel dourado que usava no dedo anular esquerdo, tilintar estridentemente no metal. Uma pequena janela no portão se abriu, exibindo o cano reluzente de uma espingarda. Backer, alarmado, quase se esquiva, porem reconhece parte do rosto que aparecia pelo vão da abertura.

—Bob? Bob Anderson? —O velho se espanta. —O que houve aqui? Onde estão todos?

—Hector! —Um homem quase da idade de Backer e com vestimentas oficiais sai do esconderijo, abraçando o velho companheiro. —Bom ver você bem!

“O nome do senhor Backer é Hector?”, o pequeno Bennett observa. —Senhor Backer, este homem é seu amigo? —pergunta.

—Anderson é xerife. Tem trabalhado nesse povoado por muitos anos. Ele é americano. —O velho responde, agora mais relaxado.

—Ain Hector! Que frio, você! E isso, porque já servimos juntos! —O homem, cruza os braços infantilmente, chateado com a indiferença de seu antigo colega. Mudando o tom, Bob o põe a par do ocorrido: —Ouça, a cidade tem sido constantemente atacada por salteadores, quase todos foram embora, até meu pessoal. Só restaram poucos moradores que ainda se agarram a esta terra, todos com medo, escondendo-se ao menor ruído e espreitando pelas brechas das janelas quem entra na cidade, como ratos tímidos.

—Eu sinto muito, Bob. Não imaginei que as coisas chegariam a esse ponta, pelo menos, não tão rápido... —Backer observa algumas pessoas tomando coragem e saindo desconfiadas a fim de saber quem chegara, ao ver o senhor Anderson do lado de fora.

Nesse instante, o delegado nota Jarryd e seus companheiros, ainda amarrados pelos pulsos.

—Ei, porque Jarryd, Vassíli, e os outros estão presos? —O homem se aproxima dos quatro, cismado, mas estes desviam o olhar para o chão, envergonhados.

—O senhor os conhece? —Nathan se volta para Anderson, confuso. —Eles nos atacaram em nossa propriedade.

—O que você está dizendo, garotinho? —Bob passa a mão na barba por fazer. —Eu os conheço, esses homens não são assim. Eles são fazendeiros e moram num dos sítios mais adiante.

Não suportando mais, o russo clamou: —ELES PEGARAM O DMITRI, ANDERSON. Não sabíamos o que fazer. —O gigante tremeu, cerrando os orbes, para que não o vissem lacrimejar. —ELES LEVARAM MEU FILHO, BOB!

Notas finais
No fim do capítulo, toque essa música: https://www.youtube.com/watch?v=mF3DCa4TbD0 ¹Ale Pie: Torta de carne com cerveja Ale, muito consumida na Inglaterra, Irlanda e Escócia.