Projeto Alex - Livro I - Cidade de Metal
6 Cruel Decisão Tomada
Notas iniciais
Alexander adentrava cada vez mais na escuridão daquele mar turbulento, que o sugava depressa para um redemoinho sem volta. Ofegante, já desistira de pelejar e de se debater, apenas permitia-se arrastar pela forte correnteza. A água salgada entrava pela sua narina e lhe saia pela boca. Não havia escapatória do sentimento de angustia que o assolava. Estava condenado! Seu único destino era adormecer no fundo daquele oceano: Seu último leito.
De repente, quando as esperanças já haviam se extinguindo, eis que surge, desde a superfície das águas, iluminando as trevas que o envolviam, um ser cuja presença proporcionava um calor acolhedor. Um braço etéreo descia em busca do rapaz, clareando as profundezas à medida que se aproximava do corpo exposto do jovem.
Alex sentiu seu corpo aquecer-se pela energia cálida emitida por aquele que ia ao se encontro e lhe fazendo retornar os sentidos. Por fim, abriu seus olhos, podendo ver aquela pessoa luminosa, embora irreconhecível, se esforçando em alcançá-lo, com todas as forças:
POR QUE? POR QUE ALGUÉM AINDA TENTA LUTAR POR MIM? O QUE EU TENHO DE BOM QUE ME TORNE INDISPENSÁVEL PARA ESTE MUNDO?
Era isso o que o mestre desejava gritar, de dentro de sua garganta, mas não lhe saia som nenhum. Algo quente se formava no canto de seus olhos, embora o rapaz não fizesse idéia do que se tratava.
A pessoa, que parecia ouvir seus mais sinceros pensamentos, não lhe respondeu. Com um simples sorriso, continuou achegando-se a Alexander, estendendo-lhe a mão, ternamente. Pela primeira vez em sua vida, o jovem mestre não se sentiu completamente sozinho. Graças aquele ser, pode finalmente recuperar suas forças e resistir à correnteza mortal.
Alexander, aceitando o convite daquele desconhecido, levantou também sua mão, a qual foi agarrada firmemente, tanto a ponto de sentir sua pele incendiar-se com o carinho contido naquele gesto. Com as mãos bem seguras, seu salva-vidas o arrastou daquela situação desesperadora tão ligeiramente quanto ele afundara no princípio. Alex podia perceber a rápida e continua mudança da pressão enquanto se moviam para a superfície. A enorme massa de água exercia atrito sobre ele, batendo em seu rosto com fúria, mas não importa o que acontecesse, ele iria emergir. Tinha de emergir!
Bruscamente, Alex se viu de volta a aquela cozinha, onde o miravam preocupados, os três empregados.
—Meu mestre, o senhor está bem? —A jovem Elizabeth lhe perguntava, verdadeiramente interessada.
Alex permanecia calado, com a cabeça levemente abaixada, fazendo com que a juba loira lhe cobrisse parcialmente o rosto. Sem tocá-lo, ele percebeu que seus olhos estavam ligeiramente molhados:
Que desgraça! Como posso ficar dessa maneira, ainda mais na frente destes servos? Humilhante!
Hill censurava a si mesmo. Um homem em sua posição não deveria em hipótese alguma ser visto daquela forma. Ao menos os cabelos densos impediam que sua vergonha fosse observada nitidamente pelos outros. Até porque, a sensação de afogamento que sentira lhe era comum. Afinal, tudo o levara a crer que havia sido abandonado pelas pessoas que mais lhe importavam.
No entanto, nunca antes fora salvo por alguém, nunca antes alguém mergulhara nas profundezas de sua solidão para trazê-lo de volta. O calor que experimentara ainda jazia em sua mão e face. Por puro reflexo, olhou para a mão a qual havia sido agarrada e espantou-se com o que viu: eis que realmente, alguém segurava sua própria mão e ainda por cima, também tocava-lhe no rosto. Aquilo que se passara com ele, fora verdade!
Estremeceu.
Segurando-o fortemente, estava Nathan Bennett, seu pequeno amigo, com os olhos negros marejados. Este podia perceber toda a dor guardada no coração de seu mestre, e senti-la como se fosse sua. Aquilo que Alexander não punha para fora, talvez por vergonha ou receio, Nathan o fazia, derramando as lágrimas as quais Hill não poderia demonstrar.
—Por favor, senhor Alex, não nos deixe! —O garotinho falou ao seu amigo, enquanto tocava-lhe na face também. Servir a ele era seu objetivo de vida, assim, não suportaria ficar longe de seu mestre. Porém, mesmo que Hill fosse ao outro lado do mundo, o pequeno Bennett estava decidido a ir ao encalço dele e trazê-lo de volta.
O pequenino não parava de surpreendê-lo.
O jovem vira a cabeça pra outro lado, fugindo do olhar sincero do menininho: —Garotinho idiota, eu não vou a lugar nenhum. —Alexander diz, cobrindo a boca com as costas da mão, tentando esconder um milésimo de contentamento que se lhe estampava nos lábios.
De fato, Nathan tinha um estranho poder de tornar qualquer momento sério e enevoado, em um dia ensolarado e agradável.
—Vocês vão ficar aí parados? Eu detesto comer sozinho. —Com um gesto, o jovem convidou os empregados para sentarem com ele e tomarem a refeição.
As feições daqueles que ali estavam, se encheram de alegria. Enfim o rapaz aceitara a presença dos irmãos Bennett. Assim, os servos se recostaram a mesa, junto ao seu mestre.
Ambos passaram a servir-se e comer da refeição feita carinhosamente por Elizabeth. Todos estavam bastante animados. Até mesmo Alex permitiu-se divertir. Ele não conseguia recordar qual fora a ultima vez que comera algo agradável, e considerou notável alguém estar fazendo o máximo para deixá-lo feliz. Isto ia além de bajulação e adulação. O jovem distinguia as intenções amáveis daquelas pessoas ao seu redor, comendo juntos, conversando como uma grande família, tal como nunca fizeram seus próprios pais.
Contudo, Backer fitava intrigado, o menino Nathan.
Este ria e brincava ao lado de seu tão querido patrão, como se nada tivesse acontecido poucas horas antes. Aquela situação aterrorizante causaria trauma em qualquer criança da idade dele, ainda mais num garotinho tão sensível e transparente. Afinal este fora golpeado cruelmente na perna, por um dos bandidos e embora estivesse mancando um pouco, agora não demonstrava qualquer sinal de dor ou mesmo de ressentimento.
Isso me é familiar...
O velho raciocinou, escancarando os dentes brancos, encobertos pelo bigode grisalho e espesso, sem que aqueles na cozinha percebessem seu interesse pelo moleque.
—Sei que não é apropriado falarmos disso agora, e não querendo acabar com este clima agradável, tenho de perguntar... —O jovem mestre olha de canto para o motorista, com a xícara tampando parcialmente a boca e a narina. —... o que foi feito dos bandoleiros?
Os servos se entreolharam abatidos, como se as memórias fatídicas se reavivassem. Apesar de todos ali estarem tentando agir normalmente, Alex não havia se esquecido do ocorrido, nem por um minuto, e mesmo sem parecer, este também estava concentrado na dor que causaram no garotinho a seus cuidados, assim como Backer.
—Mestre Alex, nós deveríamos aproveitar mais este pequeno momento de paz. Teremos muito tempo para nos concentrar nestes outros assuntos. —A jovem governanta procurou amenizar a situação, mas o tópico era importante. Além disso, ela mesma desejava saber o que acontecera depois que seu irmão e ela subiram com Alexander para cima.
O motorista levou a xícara à boca devagar, bebendo um gole do chá, vagarosamente e dirigiu-se para o patrão logo depois:
—Eles ainda estão aqui.
Houve uma comoção geral. Aqueles indivíduos tão perigosos ainda estavam na propriedade! O que Backer fizera deles?
—Estão vivos ainda? —De olhos fechados, Alex perguntou.
—Ah, estão sim, meu patrão. Não os fiz nada, justamente por esperar suas orientações com respeito a isso. Eu não o iria privar do prazer da desforra. —O velho respondeu calmamente, ignorando a inocência dos irmãos Bennett.
A governanta ouvia com atenção tal diálogo, temendo o que se sucederia. Ela observava Backer e Alexander, falando de machucar severamente seres humanos, assim tão naturalmente, mesmo se tratando que humanos impiedosos. A seu ver, os homens daquela casa, com exceção de seu irmãozinho, estavam tramando uma retaliação sangrenta. Ela se assombrava cada vez mais ao adentrar neste universo estranho. Não imaginava que aquele garoto o qual servia pudesse articular sobre vida e morte com tamanho descaso. Porém, existia algo a fazer para por um fim nesse plano indigno?
Assim, a jovem, intrometendo-se na conversa paralela dos dois homens, implorou ao mestre: —Eu espero estar entendendo errado, mas, por favor, não me digam que vocês estão planejando fazer mal aquelas pessoas. Senhor Alex, por favor, me diga que o senhor não fará isto. O senhor é uma boa pessoa, eu sei. Não é necessário fazer algo desta natureza. Por favo-...
—CALADA, MULHER! —O rapaz altera a voz a fim de colocá-la no seu lugar. —Eu sou o mestre, você a serva. Quem é você para censurar o meu objetivo? Eu não vou mudar minhas intenções só porque você está com este sentimentozinho miserável de culpa.
Contudo, a moça não desistira. Afinal, que diferença faria naquela casa se não pudesse guiar Alex corretamente? Ela podia imaginar o quão difícil seria, fora avisada desde o começo sobre o gênio intratável do garoto Hill. Com o rosto nitidamente avermelhado, ela teimava em continuar.
—Mas mestr-...
—Não, Elizabeth... —Alexander a interrompeu novamente, agora mais pacífico, o que calou a donzela, quase lhe parando a respiração. —Eu aceito você como minha tutora e não me aborrecerei mais com isso. Mas existem coisas que um homem precisa fazer. Eu sei que uma mulher como você, é perfeitamente capaz de entender isso.
Elizabeth arregalou as enormes lagoas azuis que lhe adornavam a face, arrumando os óculos em seguida. Desde o dia em que o conhecera, jamais imaginou ver seu mestre se dirigir a ela tão serenamente. Isto mexeu com ela e embora ele intencionasse acalmá-la, uma estranha dor subia do estômago à cabeça da jovem.
Não. Ela não conseguia entender aquele garoto. Tudo bem que não concordasse com as atitudes dele, mas não conseguia nem ao menos entendê-lo. Ela nada sabia a respeito de Alexander Hill! Ora ele agia como um dominador agressivo, ora como um menino responsável e terno, ora como um insinuante e altivo rapaz, tal como ele agira com ela enquanto esta o despia das vestes rasgadas a fim de limpar e costurar os ferimentos dele. Qual desses garotos era realmente Hill? Qual dessas personalidades mostradas por ele até agora era a verdadeira? Todas estas perguntas sem respostas a confundiam tanto que não era possível suportar.
A garota desatou a chorar, afastando os óculos e limpando as lágrimas com os pulsos, as quais lhe caiam como cachoeiras, umedecendo a pele aveludada. Os demais olhavam para baixo, para não fazer a jovem sentir-se mais mal ainda.
Hill levantou-se, sem ter ao menos terminado a refeição. O velho também se ergueu, passando a frente a fim de mostrar o caminho. Sem se virar, o jovem chamou os irmãos Bennett:
—Venham. Vocês também têm haver com isso. Vocês têm todo o direito de observar no que vamos fazer agora.
Nathan, de sobressalto, colocou-se a segui-lo animadamente do modo de sempre, como se não pensasse duas vezes naquilo com que estava se envolvendo. Elizabeth ainda pôs a mão sobre o ombro franzinho do garotinho, a fim de procurar impedi-lo de se meter naquela desgraça. No entanto, foi surpreendida pela expressão áspera a qual o garotinho lhe deu, em resposta ao seu ato protetor:
—Mana Elizabeth, você não vai me impedir de estar com meu mestre. Você virá conosco e fará tudo aquilo que o senhor Alex ordenar. A mana está entendendo? —O garotinho, pronunciava cada letra por entre os lábios miúdos e meigos, falando jeito sereno. Porém uma coisa estava errada. Somente a governanta notou a diferença brusca com a qual o menininho lhe falou naquele instante. Congelante.
A moça levou a mão ao coração, arrepiada com as palavras de Nathan. Era a primeira vez que vira seu tão carinhoso maninho tratá-la tão friamente. Parecia uma versão menor do mestre Alex. Seria resultado do novo ambiente no qual foram inseridos ou do contato com aquele jovem prepotente? Mais perguntas... Apenas observava absorta, a maneira a qual o menininho se submetia a influência de Alexander, tão extasiado com a presença intimidadora daquele rapaz. Ao mesmo tempo, para seu desespero, além deles estarem indo por um caminho obscuro, estavam arrastando a ela e pior ainda, seu pequeno irmão. Mas não havia o que dizer. Ela só podia acompanhá-los.

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