Notas iniciais
Está confuso dentro de mim. Eu vejo torres se erguerem e o chão cair, O tempo quebrar e toda esperança partir... Não tenho forças, admito... Mas irei me empenhar e enquanto eu respirar, Farei o que for bom em mim eclodir.

Abismado, Backer olhou o russo. Embora este fosse um homem grande, intimidador, desde o momento em que o vira pela primeira vez, ficara obvio para ele que estes bandidos, em especial, Vassíli, eram amadores. A única exceção a isto era Chuck, afinal um soldado sabe reconhecer outro quando se encontram.

—Ah, não! Dmitri? —O xerife indaga, franzindo o cenho, embora estivesse temeroso de ouvir a resposta daquele homem. —Diga-me Vassíli! O que aconteceu com o pequeno Dmitri?

De repente alguns barulhos cortaram a tensão da conversa. Tratavam-se dos passos acanhados dos moradores do vilarejo. Estes, outrora receosos com os visitantes, começaram a aproximar-se curiosos ao finalmente reconhecer os rostos daqueles ali.

Nisso, uma grande bola colorida rola da porta de uma das casas, indo deparar-se com a bota do jovem Benett. Um olhar tímido, porém desconfiado, acompanha o movimento de Nathan ao abaixar e tomar o objeto em suas mãos alvas.

—É sua? —O garoto falou, ao decifrar o olhar atento. —Pode vir buscá-la. Eu não vou te machucar. —Disse, estendendo o objeto.

Ao seu encontro vem uma garotinha de tranças alaranjadas, a fim de receber de volta o brinquedo, o qual é entregue prontamente pelo pequeno empregado que o faz mostrando seu sorriso maravilhoso.

Que rosto lindo, parece uma... Lua!

A criança então, em retribuição, faz um gesto bem-educado, se inclinado graciosamente, segurando a barra do vestidinho desgastado. Assim, a pequena corre até as pernas de Bob, escondendo-se entre elas. Dali, continua a contemplar o rosto redondo do garoto, admirada.

Nathan mira o motorista, intrigado: —Senhor, este lugar sempre esteve nesse estado?

O velho coça a barba. —Este é um dos vilarejos que circundam a montanha de Helvellyn, propriedade dos Hill. Antes era um lugar pacato e com um bom movimento de pessoas...

Bob interrompe Hector¹, mas não a explicação: —Verdade. Noutros tempos, uma pequena faixa de terra por essas bandas custava uma fortuna. No entanto começaram a surgir enormes grupos de salteadores e isto vem destruindo a paz e a abundancia de um povoado após o outro...

—Até infectar toda região de Wythburn com desgraças. —Jarryd conclui o pensamento do delegado.

O velho servidor retira do bolso do casaco, um único cigarro amarrotado, acendendo-o. —Veja só, está cada vez mais difícil de manter o vício... —Ele fala por entre os lábios, com sinais de queimadura.

—E morrer devagar, não é sua velha Caipora? —Backer restitui pelo momento em que fora interrompido anteriormente.

O homem sorri. —Venham, é melhor irmos entrando. Não é bom comentar esse tipo de coisa ao alcance dos ouvidos castigados dessa gente. —Anderson abre passagem, apontando para a sala mofada, com um conjunto de sofá e mesa de centro, convidando-os para sentar.

—Hector, meu amigo, pode soltá-los, eles não vão criar problemas.

—Você quer dizer, não vão criar “mais” problemas... —O empregado faz um gesto e Nathan corta as cordas usando o canivete que recebera mais cedo.

Virando-se para a garotinha agarrada em suas pernas, o homem faz um pedido: —Ellye querida, por favor, prepare chá para os nossos amigos. —A pequena inclinou-se, mostrando que havia entendido e foi em direção ao interior da instalação, porém se emitir nenhum som.

—Ela não fala, não é? —Bennett observa.

—Não fala. —Ele suspira, deixando sair fumaça da boca enquanto fala. —Ela viu muitas coisas ruins... Mas é uma garotinha amável apesar de tudo o que passou.

—Eles nos atacaram em Steel Car... —Todos olham para Jarryd, o líder do bando, o qual desatava a contar o desastre que também sofreram. —Roubaram o que puderam carregar. Procuravam avidamente por coisas valiosas, e principalmente, procuravam aqueles olhos. Por fim queimaram tudo, a plantação, as casas e... também... —Não sendo capaz de completar a frase.

Juntos, aqueles na sala ouviam a história, cabisbaixos. Em diversas partes do país havia se tornado comum relatos desta natureza, contudo, isto não diminuía a seriedade e tristeza que causavam no coração daqueles que estavam à mercê de tais abusos, afetados diretamente pela situação penosa.

—Castigo... —Um dos bandoleiros abriu a boca somente para cuspir seu ranço no chão do assoalho.

—Pare já com isso Stinky! —Jarryd o advertiu imediatamente.

—Castigo! —Ele insistia, sem se importar.

Vassíli tremeu inteiro. Pelo seu nervosismo, era possível perceber os dentes rangendo embora a mandíbula estivesse fechada. Como se a afirmação do homem fedido retirasse dele todas as forças.

—Temos lidando com as coisas do melhor jeito que podemos, essa coisas terrível que você disse só vai nos deixar pior! —Jarryd censura o companheiro por causa da colocação infeliz, pondo a mão no ombro do amigo russo. —Além do mais, nós já falamos sobre isso.

—Ah... eu lembro bem o que falamos. —O homem de dentes amarelos, continua num tom de deboche. —Isso pra mim é castigo! —O desvairado riu.

—Eu não estou entendendo, senhor Anderson. —Nathan mira o gigante, discernindo a angustia dele. —Como assim, castigo? Do quê eles estão falando? —O pequeno fala, mordendo o lábio em seguida.

—Ora, ora... —Bob dá outra baforada de fumaça, para conter a exasperação. —Quando os ataques aos povoados e pequenas cidades começaram, muitos fugiram para as grandes cidades em busca de proteção. Nós também podíamos ter fugido para a segurança dos muros altos, enquanto havia tempo.

—Mas preferimos ser teimosos e ficar pra lutar por terras que hoje não valem mais nada. —O animal de dentes amarelos prosseguiu. —Isso, meu caro garotinho, se chama “castigo”!

—MALDITO! O JARRYD JÁ TE MANDOU CALAR A MERDA DA BOCA! —Enfurecido, Chuck levantou-se de supetão e agarrou Stinky pelo suspensório, erguendo-o. Como o fedido era baixo, ficou a cerca de meio metro do chão, balançando as pernas a fim de tentar se soltar. —Você quer que eu te mate?

Droga! E essa agora? —O pequeno Bennett prepara-se para intervir.

Sem se exaltar, mas ainda assim, profundamente irritado, Bob toma a espingarda e aponta para os dois briguentos. —Ora ora! Vocês sobreviventes de Steel Car deviam ficar unidos ao invés de tentar se matar. —Anderson dá uma ultima tragada, até queimar quase a bituca inteira do cigarro, explicando assim as queimaduras nos lábios. Anderson cuspiu então o que sobrou na escarradeira de bronze ao pé do sofá. —Mas se for pra vocês se matarem sozinhos, prefiro apertar o gatilho eu mesmo.

Chuck olha para o líder. Era evidente que este já estava esgotado de tantos problemas, visto que não tiveram nem um momento de alívio desde que os bandos de mercenários começaram a tomar as florestas de Wythburn. Cansado, o primo coloca o fedido no chão, bruscamente. Suspirando, o mercenário senta-se de novo, cruzando os braços.

Esse homem, Bob, é incrível, eu quase não consegui distinguir se ele estava falando sério ou apenas blefando para que acabassem com a briga! —Nathan pensa aliviado, observando atentamente Bob descansar a arma, encostando-a na parede.

Contudo, ao ver Anderson soltando a espingarda, notou que não somente a mesma não estava travada, como sequer tinha trava!

Ele estava falando sério? Ia atirar afinal?! —O garoto se surpreende.

—Nós fizemos coisas ruins, admito. —Vassíli finalmente tomou a palavra. —Sei que ameaçamos e fomos violentos. Mas não queríamos isso de verdade. Eu só...

—Queria dar um jeito de encontrar seu filho. —Hector suspira, coçando o cabelo grisalho.

O russo abaixa a cabeça entristecido: —Mas é impossível! —Ele cerra os punhos contra os joelhos. —Uma vez que eles levem alguém, este nunca mais é visto.

Era surreal ver um homem de dois metros e meio, tão contristado e abalado. Nathan e o velho Backer acompanhavam a reação com espanto. Ademais, ao contrário de sua primeira impressão, quando invadiram a mansão dos Hill, este homem estava mostrando sua natureza vulnerável. De fato, Vassíli era mesmo uma pessoa interessante.

Anderson mudou o semblante novamente ao perceber uma sombra miúda esgueirar-se na quina da sala. —Está tudo bem, Ellye... —Ele estende a mão em direção dela. —Pode vir, não há perigo algum, querida.

A garotinha veio depressa, pondo a bandeja na mesinha de centro e servindo o chá nas xícaras que eram, obviamente, de conjuntos diferentes. Depois, a menina sentou-se aos pés de Anderson, agarrando firmemente a perna dele.

Backer pegou uma das xícaras e sorveu um pouco do líquido através do bigode grisalho. Apesar daqueles ali presentes se tornarem menos desconhecidos com o desenrolar da conversa, ainda pairava uma dúvida no ar:—Anderson, como xerife de West Head, você vai prender estes quatro afinal? —Hector os olhou de canto, tomando outro gole do líquido insosso.

O velho passou a mão na queimadura do lábio. Também estava desgastado devido os conflitos, até porque, defender sozinho aquele povoado, bem como os remanescentes, era um trabalho árduo para alguém da sua idade, ainda mais sozinho.

—Não farei isso.

—O QUÊ?! —Os demais entoaram em uníssono, incluindo os ex-prisioneiros.

Bob tosse, rouco: —Eu explico... —Mirando Stinky e os outros, com olhos semi-cerrados de quem decide algo extremo. —Não há condições de manter prisioneiros mais. Dependendo do problema que alguém causar, a única punição possível e realista para com a situação atual é...

—Execução. —Jarryd fecha os orbes negros, conformado.

Execução?

—E-esperem! Se alguém aqui deve receber a punição, serei eu. —Chuck toma a dianteira. —Fui eu quem arquitetou o ataque a casa de vocês. Soubemos do rapaz com olhos de ametista e queríamos usá-lo como isca para encontrar o garotinho russo.

—Você ia vender a irmã de Nathan. — O velho Hector o interrompeu, disparando a afirmação para o mercenário, ao passo que Bennett segurava firmemente a navalha por baixo da camisa clara. —Por mais nobre que fossem seus motivos, não pense que nos esquecemos disso.

—Mesmo assim, eu preciso dizer que eu não queria de fato fazer mal a moça. —Chuck continuou. —Apesar de precisarmos de recursos para a missão, na realidade eu disse aquilo para desestabilizar o inimigo, isto é... vocês. —Foi um blefe!

—E muito bem sucedido, diga-se de passagem. —O homem de dentes amarelos completou, piscando para Nathan.

—Não somos bandidos de verdade. —O russo também o mira. —Estávamos desesperados, principalmente depois que achamos aquela lista a qual entregamos a Hill. O nome do meu garotinho estava lá

—Eu realmente sinto muito. —Jarryd desculpou-se sinceramente.

Após um breve instante de silêncio, Bob Anderson preparou-se para ficar de pé, ao passo que Ellye se afasta, indo esconder-se atrás da poltrona. —Bem, parece que não temos outra escolha...

—EXECUÇÃO? —Nathan se interpõe na frente de Anderson, pondo o braço como barreira entre o delegado e o grupo de Jarryd, deixando Backer surpreso com a reação.

—Hoê! Bennett! O que está fazendo? —Hector toca de leve o ombro do garoto.

—Eu sei que o que esses caras fizeram foi criminoso, acredite, eu sofri nas mãos deles! —O pequenino passa a mão na coxa, no lugar onde recebera a facada. —MAS... Mas... EU NÃO QUERO QUE ELES MORRAM!

—Nathan! —O motorista balançava-lhe o ombro, para que este se controlasse. —Já basta.

—NÃO! NÃO BASTA! —Já começando a chorar. —Eu quero que eles tenham um lugar pra ir e eu... EU QUERO QUE O VASSÍLI ENCONTRE O FILHINHO DELE! —Berrou.

A tensão fora quebrada pelos soluços e pranto daquele menino. Como é possível que este tenha mudado de opinião tão rápido sobre aqueles que o fizeram passar momentos tão bárbaros? Que garoto peculiar! Começaram a sorrir.

—O quê? O que está acontecendo? Por que vocês estão rindo? —O menininho enxuga as lágrimas com a manga da camisa de algodão, sem entender.

—Você! —O velho xerife se ajeitou novamente no assento, apoiando o cotovelo no braço da poltrona e descansando a cabeça sobre o punho, analisando atentamente o pequeno a sua frente. —Me diga, o que eu devo fazer com eles? —Indagou tentado conter o riso.

—Eu? —Bennett apontou para si, tocando no sinal da própria bochecha. —Eu não estou entendendo! —Disse ele.

—Sim. —Backer respondeu. —Nos diga, o que você acha que seu senhor Alex gostaria que fosse feito? —O empregado fez um cafuné carinhoso no menino.

Sem pensar muito, Nathan proferiu: —O senhor Anderson, tem protegido este povoado sozinho, não é verdade? Talvez seja hora do senhor conseguir alguma ajuda.

Notas finais
¹Hector: Decidí mudar o nome de Green Backer para Hector Backer. Já fiz os ajustes necessários nos capítulos anteriores. Sinto por não ter revelado antes o lugar da história. Eu ainda estava decidindo onde exatamente seria e também gostaria de que fosse um lugar que realmente existe no mapa. Por fim, decidí que a história se passaria na região montanhosa de Wythburn. Contudo, eu não colocarei o ano ainda, deixo como segredo. Obrigado por acompanharem a história. Kissus.