Notas iniciais
Perfeito poema Unido a encantadora melodia! Comparável ao imponente emblema Engastado com preciosa gema, Refletindo a luz do dia. Preferia eu passar por açoite e algema Do que ter cometido tamanha ousadia.

Elizabeth Bennett mantinha-se sentada sobre a colcha da cama de seu jovem mestre, enquanto este repousava a cabeça sobre o colo seu. A cascata dourada de cabelo da dama descia-lhe pelo busto até deparar-se com o rosto cálido do rapaz, o qual procurava agir da forma mais natural possível, se não fosse pelo leve rubor estampado em sua fisionomia. De certo que este desejava descansar calmamente em tão doce almofada, no entanto, à medida que a governanta respirava pelo peito palpitante, os fios passeavam sobre a face de Alex, fazendo cócegas em seu nariz.

—Prenda logo essa crina, Bennett! —Disse coçando a venta, afobado com a mecha loira que teimava em entrar em sua narina, fazendo-o sentir vontade de espirrar.

—Sim, jovem mestre. —Habilidosa, ela tomou todo o cabelo com uma das mãos e girando o pulso, enrolou as madeixas, alinhando-as de um lado do ombro, para longe do rosto do rapaz. Ao fazer isto ela deixou a mostra um detalhe que passara despercebido por Alexander desde que acordara: A moça havia colocado em seu pescoço esguio, uma faixa de tecido atado ao redor dele com volta dupla, e amarrado formando um gracioso laço. É claro que o adereço tornava a moça ainda mais formosa, mas por algum motivo aquilo o incomodava.

—Assim está bom? —Ela esperou por uma resposta, ao passo que observava os olhos lilás de Hill, contemplando-os.

—Hoê! O que você está olhado, Bennett?! —Alex cobre a boca com as costas da mão ao ser encarado desta forma tão intima e tão de perto.

De fato, sem perceber, a garota havia aproximado muito o rosto dela do dele. —Desculpe-me, mestre Alex, acho que meus óculos precisam ser trocados! —A jovem logo corrige a postura, envergonhada. —É que são tão lindos! Parecem pedras preciosas... —Empolgou-se com a cor incomum.

O rapaz virou o rosto para o lado, fechando os orbes claros. —Talvez... —Mudando o tom de voz. —Mas é por causa deles que eu vivo como um prisioneiro na minha própria casa, escondido. —Hill cerrou o punho e também os dentes, deixando aparecer o canino ligeiramente saltado e esmurrou de leve o colchão. —Essa coisa só tem me trazido problemas. Tirou tudo o que eu poderia ter... tudo o que eu poderia viver... Eu seria bem mais feliz sem eles! —Disse Alex, que praticamente nunca abandonava a montanha de Helvellyn, sempre aconselhado pelo velho Hector a se manter em segurança, na segurança de sua gaiola.

O garoto mordeu o lábio com força, a ponto de sangrar. —Sabe o que é pior, Bennett? —Dirigiu-se a governanta, a qual surpreendeu-se com a repentina pergunta.

—O que é pior, meu mestre? —Ela tocou-lhe o lábio recém ferido, limpando-o com o branco punho do uniforme. O líquido vermelho foi aderindo ao tecido leve, tingindo-o gradualmente de rubro.

Devagar, Alexander levantou o braço, em direção ao rosto de Elizabeth, tocando-o também, deslizando com a ponta dos dedos na bochecha rósea...

—Desculpem se estou interrompendo algo. —Disse o homem de pele fumê, o qual entrou repentinamente no quarto, escorando o cotovelo na ombreira da porta. —Bom saber que você já acordou, cabeça oca. —A camisa do tipo túnica e a calça de couro escura tornavam-no impossível de identificá-lo como um cirurgião, ainda mais por conta do comprido sobretudo, que lhe caia desde os ombros.

—Mohinder! —Alexander abaixou o braço rapidamente e num gesto de desprezo, virou o rosto para o outro lado, incomodado com a presença inconveniente. —Tisc! Nem precisa ficar preocupado, se depender de mim, não haverá o que interromper!

Sabeena sorriu, envergando de leve um dos cantos da boca. —Preocupado? Eu estou é com inveja. —Respondeu ao garoto, que fingira não prestar atenção. —Vou arrumar as minhas coisas, antes de ir, eu passo aqui novamente, garotinho. —O homem deu as costas, saindo do recinto, mas não antes de dar uma piscadela para a jovem governanta a qual cuidava do rapaz. —Juízo, ein?

—Homem insuportável! —Hill falou, ainda indignado com os modos do velho conhecido.

—O doutor Sabeena fez um trabalho admirável pondo suas costelas no lugar. — A garota afirmou, muito embora, no momento em que ele chegara, ela mesma tenha custado em acreditar que tal indivíduo exercesse a medicina de forma tão impecável —Então não seja tão rude, mestre Alex. —Bennett sorri, pendendo a cabeça para o lado, graciosa.

Aquela faixa no pescoço de Elizabeth, realmente estava começando a lhe incomodar.

Alexander avermelhou-se de imediato. A moça era belíssima, contudo o que lhe chamava atenção nela de fato eram suas maneiras gentis. Mesmo em situações extremas (geralmente causadas por ele mesmo) Elizabeth nunca abandonava a cortesia. Como se não bastasse isto, seus cuidados ternos e seus gestos suaves, pareciam quase que calculados para fazer sua pulsação saltar.

—Por que esse lenço? —Hill pergunta, tentando manter o tom de desdém ao observar a peça atada a garganta delicada.

—Ah... hum... —A governanta gaguejou, desconcertada. —Eu achei que ficaria bonitinho! —Ela tocou o sinal de nascença do rosto, de olhos cerrados.

—Ah, que bom. Achei que estava querendo parecer bonita para o Mohinder. —Alex soltou o motivo de sua inquietação. —Sinto desapontá-la, mas fique sabendo que você não faz o tipo do Sabeena em nada. Ele já tem uma garota e ao contrário de você, ela é uma “profissional”. —Levantou uma das sobrancelhas.

—Pfrrrrrhh! —Elizabeth não aguentou e começou a rir, levando as mãos rumo ao lábio úmido. Estranhamente, seu mestre estava demonstrando interesse em sua vida amorosa. Superlativamente engraçado de se pensar, levando em conta que se tratava do arrogante Alexander Hill, sempre tão seguro de si. A garota buscou tapar a própria boca a fim de impedir o ruído, contudo desatou a rir ainda mais.

—Hoê! Bennett! Posso saber o motivo de tanta graça?! —Ele rosnou enrubescido, ainda deitado sobre as pernas da governanta.

—É uma pena... mestre Alex!... —Riu tanto que lacrimejou. —Eu estava mesmo querendo saber... se... o doutor Sabeena estava disponível! —A loira falava entre suspiros engasgados de quem tenta evitar gargalhar.

—Você está se saindo muito engraçadinha senhorita Bennett! —Hill falou fazendo bico.

—Desculpe-me senhor Alex. —Elizabeth buscou respirar compassadamente a fim de voltar ao decoro. Afastou então a franja de cima dos óculos e descansou o dedo mínimo debaixo do olho, mirando o jovem por entres os dedos da mão, a qual pousava serena em sua face. —Mas é divertido vê-lo tão preocupado em saber se há algo entre eu e o doutor.

Corado, Alex pegou um dos travesseiros bordados com desenhos de lótus e com ele acertou delicadamente a cabeça da donzela, quase como uma carícia, fazendo-a dar um sorriso refrescante: —Bobona. —Esgotando seu repertório de ofensas, o rapaz se pôs a sorrir junto a ela.

[...]

—Com licença pombinhos, preciso falar com a dama. —Mohinder voltou ao quarto, com uma expressão inquieta. Ele acenou com o polegar rumo ao corredor, convidando a jovem a acompanhá-lo.

—O que você tem de tão importante que precisa levá-la ao invés de falar na minha frente? —O loiro desfere de modo ríspido, levantando-se do colo de sua cuidadora, visivelmente chateado.

— Fique tranquilo Alexinho, eu não vou tomá-la d você. —O homem coçou o curto cabelo negro, de forma despreocupada: —Estou de saída, só quero fazer as ultimas recomendações a minha bela amiga.

Se o loiro estivesse bebendo algo certamente o teria cuspido.

Amiga? —Uma veia na testa de Hill começou a latejar. —VÁ SE DANAR SEU MÉDICO SAFADO! —Ameaçou saltar da cama, sobre o médico, de tal forma que foi necessário ser impedido pela garota.

—Você me acompanha até lá embaixo senhorita Bennett? —Ignorando completamente o rapaz.

—Está tudo bem, mestre Alex. O doutor Sabeena deseja apenas me dar os últimos conselhos sobre o seu tratamento, antes de ir. —A loira tocou no ombro do jovem como uma forma de fazê-lo entender e também, de pedir permissão.

Hill deixou que a juba escondesse-lhe a face, olhando em outra direção, que não fosse aquela mulher. —Tisc! Faça o que quiser! —Ele disse, cruzando os braços, numa birra infantil, embora ele mesmo não tivesse mais idade para aquilo.

O indiano segurou a mão de Elizabeth com malicia, apenas para promover em Alexander alguma reação, ato qual surtiu efeito imediatamente. Sabenna conduziu a moça para fora, debaixo do olhar de extrema desaprovação de Hill. Também pudera, o loiro conhecia muito bem a fama de galanteador do médico, e para o rapaz, nada lhe apetecia ver a pessoa que deveria cuidar dele, sendo seduzida por um vadio safado, segundo ele.

Elizabeth abriu a porta dupla de mogno e ambos adentram na vasta sala das colunas. Caminhara um pouco sobre o tapete vermelho situado sobre o piso xadrez e pararam quando sentiram estarem sozinhos.

— Estava largada na entrada junto ao tapete. Você devia tomar cuidado de não deixar essa coisa jogado por aí. —Mohinder entregou para a jovem a seringa a qual fora usada para salvar a vida de Alex. —Ah, cara, aquilo foi insano! —Ele esfregou os olhos com as palmas.

A garota tomou o objeto e guardou no decote, sem cerimônia. —Mais uma vez, doutor Sabeena, eu sinto muito por ter causado tantos problemas. —Ela tocou no lenço do pescoço com uma expressão depressiva.

—Foi uma aposta arriscada, Bennett! —Disse o médico, se escorando em uma das colunas de mármore. —Injetar o soro Lavandula¹ em alguém que já possui olhos de ametista, pode ser extremamente perigoso. Você viu como o que aconteceu... você podia ter morrido se eu não estivesse aqui...

Nem bem Elizabeth havia abaixado a cabeça para receber a censura do cirurgião, ouviram uma batida: Backer, o qual acabara de chegar e passado despercebido, esmurrou um dos lados da porta entreaberta, indignado ao escutar aquilo:

—VOCÊ O QUÊ? —O velho pronunciou zangado, ao passo que Nathan, de olhos arregalados mantinha a boca aberta, embora sem lhe sair nenhum som.

O empregado partiu em direção a jovem e segurou-a pelos ombros. —No que você estava pensando? Por que raios de motivo você fez isso? —Ele a balançou a fim de obter respostas. —Explique-se!

Rapidamente, Mohinder interveio, a fim de afastar Hector da moça. —Foi o Alex, Hector! —Sabeena falou, buscando acalmar o motorista, pondo-se entre ele e a Bennett. —O idiota tentou fugir e pulou do telhado. Ela fez o que estava ao seu alcance. Ela agiu bem... quero dizer... acho que eu teria feito o mesmo para salvar o cabeça oca, numa hora de desespero.

—Não é só pelo garoto! —O homem procurou controlar-se, soltando a garota, com tato. —Você devia ser mais cautelosa, menina! Se algo acontecesse a você... —Backer hesitou e se afastando, limpou o suor do bigode.

Como assim?

—Mana! Você usou meu remédio no senhor Alex! —Nathan, recuperando-se do susto, correu para Elizabeth, que abaixou-se para recebê-lo. O garotinho abraçou o avental da irmã, atolando o rosto redondo nele. —Isso... foi irresponsável! Eu amo o senhor Alex, mas eu amo você ainda mais! —Então o pequeno tocou a face da irmã com as duas mãozinhas, encostando seu nariz no dela. —Você não pode me deixar Libe!.

—Olha, Elizabeth, eu sei que você deve ter passado um mau bocado quando o Lavandula começou a mostrar seu verdadeiro efeito. —Hector suspirou. —Não sei direito como a velhota lhe educou, mas eu devo lhe dar algum castigo para te ensinar a ser mais prudente, não só com Alexander, mas com você também.

—Não será necessário, senhor Backer. —A garota se levantou e afastando-se um pouco, levou os dedos ao laço no pescoço, desatando-o: —Eu já recebi a minha “punição”.

O lenço caiu lentamente no azulejo xadrez, revelando o que até então estava encoberto: um grande hematoma de esganamento tatuava a carne da garota. A pele da nuca apresentava até certa laceração!

Os três ficaram tão concentrados nas marcas, que não perceberam passos sutis se aproximando deles.

—Eu... Eu fiz... isso? —Uma voz chocada ecoou no amplo recinto, e todos se viraram assustados em sua rota.

Eis que Alexander se chegara de repente, atônito com o estado deplorável em que se encontrava Elizabeth e principalmente, assombrado por descobrir que ele mesmo fizera aquilo com ela.

Notas finais
¹Lavandula: tal nomenclatura faz referência ao nome científico da flor lavanda, por causa da cor roxa do soro.