Project Lorrain

9 Cap 9 - Encontros e Desencontros


Notas iniciais
Fala galera! Mais um capítulo recheado dessa história que conhecemos e amamos, espero que gostem. Abraços!

—Roney

“Pressione e enrole, pressione e enrole” repetia a mim mesmo como um mantra enquanto enfaixava o que restou do braço de um recruta, ele tinha sido alvejado no ar por uma bateria antiaérea enquanto descia de paraquedas em terreno inimigo, repetiam a ele que ele tinha sorte de não morrer e que deveria estar feliz por ainda estar vivo, mas não tenho certeza disso, naquelas condições ele não pode sobreviver aqui.

Paro o que estou fazendo e percebo que tudo o que eu fiz até aquele momento foi automático exatamente como uma maquina construída para aquele serviço. Sem que eu realmente me desse conta saltei do Osprey em chamas, sem que eu me desse conta abri o paraquedas e procurei empunhar o lança-granadas da minha arma, sem que eu me desse conta atirei e explodi uma metralhadora montada que alvejava o nosso esquadrão, sem que eu me desse conta cai e me reagrupei com meu pelotão, sem que eu me desse conta... Deixei Lorrain ir em uma missão suicida sem nem sequer estar em sua melhor condição física... Foi a primeira vez que eu pensei nela depois do salto desastroso e esse pensamento me cortava por dentro, poderia ter impedido isso, mas ela não me escutaria.

Fomos então como combinado para o portão principal, segundo os cálculos do radio-operador o portão principal não estaria longe, então formamos uma coluna tática como aprendemos na academia: um atrás do outro, colados na parede e cada um mirando em uma direção, para a qualquer sinal de perigo, todos saberem onde esta o inimigo.

Caminhamos o mais silenciosamente possível beirando um barranco, a fortaleza estava acima de nós, mas as sentinelas não poderiam nos ver. Eu estava carregando o soldado ferido, eu lia em sua “dog tag” que brilhava com a lua o nome Marcus B. Luck, logo abaixo dela, manchada de sangue, estavam outras informações ilegíveis, mas uma idade estava visível e me aterrava completamente, ele tinha 18 anos, com apenas 18 anos ele tinha visto o inferno de perto, perdido o braço e talvez não sobreviva para contar a história. A cada passo que dávamos sentia os músculos dele se contraírem com a dor do movimento, sua respiração era acelerada como a de alguém que estava a beira de um grito de pânico e seus olhos estavam arregalados e sem vida, clamando claramente para que aquilo fosse só um sonho, para que ele acordasse e tudo estivesse como antes, mas era um pensamento em vão.

Viro o rosto para tirar esses pensamentos da mente, me concentrar na minha missão e talvez salvar esse garoto. Nesse momento um sibilo agudo como o som de um chicote se faz ouvir em meio ao barulho abafado de baterias antiaéreas. Eu arrepio. Sei o que é aquilo, sei o que quer dizer, esse som significa morte. Antes que eu possa processar o que ouvi, um impacto como um soco atinge a lateral da cabeça do soldado que carrego e é transmitido para o meu capacete. Uma inundação de um liquido vermelho atinge meu rosto em cheio, minha visão escurece e eu tomo de lado com o impacto na cabeça e o peso que me empurra para o chão, mas eu não perco os sentidos, apenas fico atordoado.

Ainda no chão e zonzo, limpo os olhos com a manga e corro instintivamente ainda agachado para uma pedra que estava perto, os outros fazem o mesmo da melhor maneira que podem. Assim que estou seguro, minha visão fica clara novamente e minha cabeça menos confusa, eu olho na direção de onde vim e me dou conta de que eu não deveria ter feito isso. Caído de lado, em uma posição estranha, estava Marcus, seus olhos estavam em um tom opaco, sem brilho, mas ainda estavam arregalados, contrastando com um filete de liquido vermelho-escuro que descia de seu capacete retorcido por uma perfuração que provavelmente acabava do outro lado da cabeça do jovem. Agora o braço arrancado não fará mais falta, sua vida foi tirada dele. Mas o que mais me atormentou foram seus olhos, eles mesmo sem vida me encaravam, como se ele estivesse me olhando fixamente, me perguntando por que eu não morri, aquela bala era para mim, eu sentia isso, mas eu estava carregando ele e ele foi em meu lugar.

De repente outro estalo, um pedaço da rocha explode em minha frente de uma maneira que eu sinto o deslocamento do vento que a bala provocou na ponta do meu nariz, então percebo que estou com a cabeça fora da cobertura, eu volto para o mundo real e me escondo novamente, pegando o meu rifle que estava nas minhas costas. Equipo a luneta com a visão noturna e respiro fundo, só terei essa chance. Me deito e me aproximo da beirada da pedra vagarosamente respirando fundo para me concentrar. Quando a alcanço, posiciono o rifle AWP da maneira mais discreta possível, logo depois coloco a cabeça um pouco para fora e alcanço a mira com o olho direito. Rapidamente endireito o corpo e olho pela mira, consigo ver ele em uma guarita suspensa, apenas a sua cabeça e sua arma estão visíveis.

Me preparo para o único tiro, depois disso é melhor eu acertar. Meu coração acelera.

Tum Tum: respiro profundamente; Tum Tum: prendo a respiração; Tum Tum: o mundo desaparece fora da mira; Tum Tum: o xis marca o local; Tum Tum: meu dedo puxa o gatilho; Tum Tum: a bala sai da arma com uma explosão; Tum Tum: o capacete do atirador voa e ele tomba de costas. Eu obtive sucesso.

Todos saem e eu coloco a arma novamente nas costas, meu estômago está embrulhado, é a primeira vez que eu mato alguém. Caminho em silêncio e pego a “dogtag” do soldado caído, depois me viro e dou sinal para caminharmos.

O resto da caminho para o portão foi marcado por um silêncio fúnebre geral, mas também o tempo de caminhada foi curto, logo chegamos no objetivo. O portão estava destruído, provavelmente por uma explosão, de cima dele e de dentro do forte vinham rajadas de tiro de todos os calibres, desde uma pistola, empunhada por um inimigo atingido que buscava desesperadamente sua salvação até uma metralhadora calibre .50 montada atrás de uma trincheira de sacos de areia. Nossos aliados seguravam sua posição como podiam, e eu podia perceber que a situação não estava nada boa, nosso reforço de 6 homens não seria nada, mas estávamos dispostos a ajudar.

Me posiciono atrás de um jipe tombado e abro fogo, a imagem do soldado caído não sai da minha mente, ela me dá forças para lutar mais um pouco. Não quero mais perdas, não quero mais mortes em minha frente. Acerto dois soldados inimigos antes do carregador da arma se esvaziar, troco mecanicamente o carregador vazio por um cheio e quando volto a visão para dentro do forte, uma figura me chama a atenção: ao contrario de todas as outras, ela estava correndo para dentro da fortificação, saindo por de trás de caixas, imediatamente eu reconheço o uniforme e o cabelo negro já despenteado, era Lorrain, mas por que ela estava sozinha? Ver ela me anima, mas também me preocupa.

Depois que ela desaparece, foco na batalha e continuo a atirar, troco de carregador mais duas ou três vezes, derrubo mais cinco inimigos, e dois companheiros do meu lado caem mortos, um deles estava comigo durante o caminho até aqui. De repente enfio a mão no compartimento do colete em que estavam os carregadores e percebo que acabaram, um arrepio me sobe pela espinha, o pânico sobe pela minha garganta me sufocando e meus olhos lacrimejam, não posso morrer ali.

Olho para o lado e vejo uma arma, mas o fogo pesado não me deixa alcançá-la, encosto o tronco no veículo que estou usando de escudo e solto a arma, só me resta esperar e pensar. O fogo então aumenta e eu me encolho, mas então eu percebo que ele aumenta do lado aliado, olho para a estrada e um comboio de blindados atingem os atiradores em cima do portão, eu então pego a arma e arranjo alguns carregadores e alguns parceiros para invadir o complexo assim que o comboio chega ao portão.

Eu e mais cinco soldados entramos no complexo, silenciosamente formamos uma coluna tática e descemos os degraus do túnel que levava para o subsolo, abríamos cada porta a procura de prisioneiros, o comandante e principalmente Lorrain, que era minha prioridade no momento.

Depois de descermos por um tempo e abrir várias portas, entramos em uma sala escura com vários monitores, alguns quebrados e alguns soltando faíscas, olho para o chão e percebo uma arma. Eu reconheço a arma e estremeço, um pressentimento ruim toma conta de mim. Nesse momento, um dos soldados me chama e eu atendo, olhando para a sua direção. Ele me aponta um monitor, eu olho na direção que ele aponta e me assusto, era Lorrain, estava presa e tinha um cara bizarro ao lado dela, vê-lo perto dela faz meu peito apertar, eu me viro e apenas digo:

—Nós vamos entrar.

Eu me posiciono na porta para dar cobertura e seguimos para a sala onde Lorrain estava presa, tínhamos pouco tempo, peço para eles vasculharem as mochilas a procura de algo para usar e tenho a grata surpresa de saber que tínhamos explosivos C4 suficientes para mandar uma parede com aquela espessura pelos ares.

Encontramos um corredor que segue até uma porta dupla que dava acesso à sala que o monitor mostrava, nesse momento sai de lá uma mulher muito bonita, loira e de olhos claros por trás de um par de óculos, ela estava vestida de secretária e carregava uma prancheta que caiu no momento em que ela nos avistou. Eu levo o dedo indicador aos lábios e ela entende o sinal, aterrorizada pela nossa quantidade ou por eu estar apontando uma metralhadora para ela.

Cinco de nós avançam enquanto o sexto leva a prisioneira para cima, assim que entramos na porta dupla nos deparamos com um espelho como os usados em uma delegacia para interrogatórios, em que quem estava de fora poderia ver quem estava dentro, mas o contrario não era possível. Posiciono o explosivo na parede com o vidro e nós nos escondemos, seguro o detonador e aperto botão, em uma fração de segundos a parede se desintegra em um estrondo e nós nos jogamos para dentro. Dois ficam para dar cobertura, outros dois saltam para agarrar o homem que escapava atordoado e eu corro para tirar Lorrain das amarras.

Com o impacto da maca no chão, as amarras do lado direito se soltaram, então eu só tive que desamarrar as restantes. Assim que as soltei, apoiei suas costas em meu braço e com o livre passei suas pernas por cima do meu antebraço. Ela estava desacordada, então assim eu poderia carregá-la mais facilmente. Passo pelo buraco na parede e escuto tiros vindos de dentro da sala, mando os outros dois irem investigar temendo o pior e corro escadaria acima para chegar logo ao topo. Depois de um curto período de tempo estou esgotado e minhas pernas latejam, mas eu ignoro tudo isso e continuo, nesse momento eu avisto a saída e passo por ela, mal posso acreditar no que vejo.

Pra onde fosse possível olhar, não havia mais ninguém por lá, ainda podia ouvir os rotores dos Osprey, mas estavam distantes, tinham nos deixado. Então escuto passos pesados na escadaria, não poderia ser um dos nossos, corro na direção do portão principal a procura de algo que possa nos tirar daquele lugar, é quando vejo uma caminhonete pouco avariada do lado do portão, mal posso acreditar em minha sorte. Coloco Lorrain no banco do passageiro e pulo rapidamente no do motorista, as chaves não estavam lá, mas graças ao orfanato, eu aprendi a fazer ligação direta com amigos, isso nos salvou, no momento que a caminhonete ligou, uma bala atravessou o vidro traseiro da cabine, eu me levantei e com o espelho retrovisor olhei o que era e vi a figura que maltratava Lorrain vindo atrás de nós, eu pisei no acelerador e desci a estrada sinuosa a toda a velocidade sem pensar duas vezes, procurando sair de perto daquele lugar. Depois de dois minutos de pura adrenalina e velocidade, diminui a velocidade do veículo e percebi que estava segurando o ar nos meus pulmões, finalmente soltei esse ar e me convenci, estamos salvos por enquanto.

Notas finais
Fala galera! Gostaram? Espero que sim, aguentem mais um poquinho que lá vem mais postagens ai. Abraços!