Project Lorrain
10 Cap 10 - Amanhecer de um novo dia
Notas iniciais
Sinto meu corpo balançar de um lado para o outro no carro. Eu recuperei meus sentidos há algum tempo, mas não dei sinais disso, preciso ordenar meus pensamentos que dentro de mim parecem um emaranhado de fios. Em poucas horas de um dia, uma missão surpresa se transforma em um massacre, um salto padrão se transforma em momentos de angústia e um passado que parecia morto faz minha vida virar de cabeça para baixo.
Passo algum tempo pensando em tudo isso até que finalmente abro os olhos, minha cabeça dói, talvez pela droga que aquele homem injetou em mim, ou talvez por tudo que aconteceu. Olho para frente e endireito o corpo, estou em um carro que passa por uma bonita praia com a areia branca se estendendo até morrer em um mar verde que brilha com os raios tímidos do sol da tarde refletidos. Ao redor dessa praia, estende-se uma floresta mais ou menos densa, com arvores de médio porte um pouco afastadas uma das outras.
—Bom dia.- Diz Roney me tirando do meu estado de contemplação, quase me esqueci de que ele estava dirigindo o carro – como se sente?
—Estou bem, nada que possa me matar, obrigada – respondo um pouco mais ríspida do que pretendia, ele apenas assente com a cabeça e ignora o meu tom olhando para frente.
Passamos mais um tempo calados e vendo a paisagem mudar. Logo a praia desaparece, agora estávamos rodeados de coníferas dos dois lados da estrada sinuosa que seguíamos. Afundo cada vez mais as costas no banco do passageiro, olhando pela janela da minha direita, só agora percebo que estou apenas com a calça do uniforme e uma camiseta branca sem mangas que deveria ficar por baixo da farda, o ar frio daquela tarde me provoca arrepios e cruzo os braços para tentar me aquecer.
—Tome – diz Roney quebrando o silêncio, olho para o lado e o vejo me entregando sua jaqueta manchada por algo escuro, eu aceito e a visto.
O frio começa a passar, ele se ajeita e finalmente pergunta:
— Posso saber o que aconteceu lá dentro?
A pergunta me causa calafrios, lembrar daquilo me deixa tensa novamente, mas resolvo responder, afinal, ele merece saber por que teve que me resgatar.
—Bom – começo – eu encontrei a sala de controle, entrei sem ninguém me perceber e comecei a examinar todas as câmeras, mas fui pega pelo general ou cientista, sei lá, do lugar e ele quis fazer experimentos em mim, eu resisti, mas ele era estranhamente forte demais e acabou me capturando. Depois de um tempo eu acordei e estava presa naquele lugar, ele me injetou alguma coisa e eu apaguei, só me lembro de ele falar algo como “genes” e “transferência” só isso, depois disso, só me lembro da sua entrada triunfal – ele ri – e eu apaguei de novo, só acordei agora.
Eu procurei esconder a parte mais perturbadora do acontecido: que aquele homem era meu pai e que eu era uma aberração de laboratório. Por um instante eu achei ter convencido ele, mas notei pelo jeito que segurou o volante com as duas mãos que ele não engoliu minha história. Eu o conhecia muito bem e acho que ele também me conhecia da mesma maneira, talvez mais, mas resolvo ficar calada como se tivesse dito a verdade.
Depois de muito andar, entramos em uma estrada estreita de terra que ficava perpendicular à estrada principal e pouco tempo depois paramos em frente a uma casa antiga. Pensei em perguntar como ele sabia daquela casa, mas deixei isso de lado, me sentia uma mentirosa e não poderia exigir nada dele. Entramos na casa e eu a examinei. Ela era grande, feita de madeira leve e pareceria aconchegante se não estivesse tão gasta e suja pelo tempo que passou sem moradores.
Roney pega alguns troncos de madeira que estavam em um canto e acende a lareira, logo o calor e a luz tomam conta de todo o lugar. Apesar de ser uma tarde não muito nublada, o tempo era estranhamente frio. Eu me deito no sofá e fico olhando o teto, escutando enquanto Roney vasculha a cozinha em busca de algo. Minha cabeça ainda gira, aquela noite ainda estava muito viva na minha mente, cada sensação, cada dor, cada momento de ansiedade e terror. Eu conseguia ainda sentir tudo isso sem o menor esforço bastava fechar os olhos.
Fico com os olhos fechados por alguns instantes, minha garganta começa a se fechar como se eu fosse chorar, podia sentir os soluços se formando na minha barriga, mas sinto o cheiro de uma comida boa e o calor de algo próximo à minha cabeça. Abro os olhos e olho para o lado, Roney está sentado no chão com as costas encostadas no sofá em que eu estou deitada, ele me estende um prato com uma sopa, pelo cheiro parece estar boa.
Aceito o prato e começo a comer, mas logo que sinto o gosto faço uma careta involuntária, o gosto não é tão ruim, mas a sopa está salgada demais. Ele vê meu rosto e sorri:
—Qual é, eu não sou um mestre cuca tão ruim assim – ele pega a colher em minhas mãos e toma uma boa quantidade de sopa, ele para por alguns instantes e depois fala limpando a boca com a mão – acho que eu vi alguns enlatados, não devem demorar muito pra ficarem prontos.
Eu solto uma gargalhada, fazia tempo que eu não sorria assim, isso fez um pouco da tensão que eu sentia desaparecer. Ele pega o prato e volta para a cozinha enquanto eu me sento e fito a lareira com o fogo tremulando, a sensação de segurança em mim está voltando e a angústia cessa por um tempo.
Depois de algum tempo Roney volta com algo nas mãos: era uma nova sopa, mas essa me parecia mais apetitosa que a ultima:
—Fique tranquila – brinca ele – eu provei antes de oferecer ao seu rigoroso paladar.
—Rigoroso apenas para sopas que parecem ter sido feitas com água do mar – respondo em tom de insulto.
Ele ri e começa a devorar a sua, eu faço o mesmo.
Em alguns instantes, acabamos com a comida e nos deitamos na sala, cada qual olhando para uma direção diferente com o silêncio pairando sobre o lugar. Eu então decido puxar assunto:
—Como descobriu essa casa Roney?
—Ela era da minha família, mas há muito tempo foi abandonada – responde ele – o capitão que me mostrou ela.
—Mas como você conseguiu chegar tão perto da base inimiga? – pergunto estupefata.
—Na verdade estamos bem longe dela, esqueceu que andamos a noite e o dia todo bela adormecida?
—E a qual velocidade andamos senhor chofer? – pergunto com tom de ironia na ultima palavra.
—Cerca de uns cento e oitenta quilômetros por hora, ou mais – ele responde olhando para o lado como se não ligasse para o que disse.
—Você realmente se aproveita quando eu estou dormindo não é?
—Não o quanto gostaria – ele ri olhando com cara de desafio para mim.
—Tente alguma gracinha e diga adeus à sua coluna rapazinho.
—Nervosa como sempre – ele ri, mas faz uma pausa e seu rosto se torna sério e triste – na verdade, eu andei rápido assim porque eu estava preocupado em te levar para algum lugar que te ajudasse a melhorar, você não queria acordar e aquilo me preocupou, não queria perder mais ninguém em minhas mãos, não você.
Ele me olha e seus olhos estão tristes, percebo que algo aconteceu enquanto ele subia para o ataque, talvez algo pior do que aconteceu comigo. Eu me sento do lado dele encostando-me ao sofá, ele me olha de perto e sorri, eu então o abraço e sinto seu corpo estremecer, ele me abraça de volta e depois afasta o rosto do lado do meu.
—É bom saber que está bem – ele fala e eu me sinto bem, sua voz agora me traz segurança.
Minha respiração pesa por um segundo e trocamos olhares, quase no mesmo instante sinto a pressão dos seus lábios nos meus e o mundo some por um instante. Me sinto diferente e logo que o beijo acaba eu olho para ele desconcertada, meu coração bate forte e sinto meu rosto formigar, ele fica vermelho também e desvia o olhar fitando a lareira, logo sua expressão se suaviza.
—Me desculpe, não sei o que deu em mim – desculpa-se ainda envergonhado.
—Tudo bem – respondo olhando na mesma direção – não foi algo ruim.
—Mas o importante é que você tá bem agora e precisamos nos apressar em chegar – ele diz voltando á sua expressão natural e mudando de assunto.
Eu assinto e mudamos de assunto, começamos a fazer planos de como voltar, contamos histórias dos dias anteriores e falamos de qualquer outra coisa, menos da noite que tivemos. Logo adormeço ao som das madeiras crepitando.
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