Project Lorrain
8 Cap 8 - Fantasmas de um Passado
Notas iniciais
Aos poucos meus sentidos voltam a mim, abro os olhos lentamente e uma luz muito forte me atinge diretamente no rosto, de modo que eu tenho que fechá-los novamente no mesmo instante. Enquanto forço minha visão a se acostumar com a claridade, sinto meus músculos doerem por todo o corpo, tanto por causa do caminho até ali, quanto por causa do que aconteceu lá dentro.
Finalmente consigo olhar em volta e percebo que estou em cima de uma mesa de cirurgia, tento me mexer, mas estou com meus membros amarrados, isso não me surpreende. Presto mais atenção no lugar em que me encontro pra ver se consigo achar algo para me auxiliar na fuga dali, mas não vejo nada que seja útil, apenas uma sala branca mal iluminada.
Subitamente palmas irrompem o silêncio em que a sala se encontrava mergulhada, olho desesperadamente para de onde elas vinham e me deparo com uma figura grande saindo da escuridão bem na minha frente. Ela parece encarar o meu interior enquanto me olha, e isso faz um frio correr minha espinha, mas não desvio o olhar.
Ele se aproxima vagarosamente de mim até estar do meu lado e para de bater palmas:
—Devo admitir que você é bem treinada Der Lorrain – começa ele com um sotaque estranho e carregado de alemão – mas será que é esperta?
Ele sorri como se cada palavra tivesse um gosto delicioso em sua boca. Então continua, se virando e se afastando de mim:
— Fez muito bem seu papel de soldado se infiltrando aqui, passando por minha segurança sem quase ser notada, admito, mas será que foi esperta o bastante pra perceber que eu quis que isso acontecesse?
Assim que ele diz isso, minha cabeça gira como se tivesse levado outro chute dele, fico atordoada. Não tinha pensado ainda em como foi fácil demais passar por tudo aquilo sem morrer ou ser descoberta, como não percebi que nenhuma base militar deixaria sua entrada de trás tão desprotegida? Como não notei que aquele atirador de elite poderia ter me matado antes de eu ter visto sua silhueta como os outros soldados do meu exercito jazidos no chão da mata? Eu acreditei muito na minha sorte, e agora ela não está mais do meu lado.
Ele solta uma risada que parecia a de um louco se deliciando com o terror de sua vítima e se vira para mim com um olhar alucinado:
—Percebe? Eu estava apenas testando você, para ver como minha criação se sai no campo de batalha – nesse momento uma névoa paira sobre minha cabeça e meus pensamentos ficam confusos, o que ele quis dizer com aquilo?
—O que você disse? – Pergunto.
—Exatamente o que ouviu, eu criei você, de ambas as maneiras.
—Ambas... – as palavras escapavam de mim antes que eu pudesse pronunciá-las.
—Sim, eu sou seu pai Der Lorrain e sou também quem te deu suas habilidades.
Aquilo me pega de surpresa, meus músculos parecem gelatina presa a mim, não se mexem por mais que eu queira, minha cabeça dói, talvez pela pancada, talvez pela novidade que acabei de receber. Ele ri mais um pouco e recomeça a falar:
—Você parece confusa, então vou explicar para você: — ele lambe os lábios e inicia sua fala — Quando você nasceu, eu trabalhava como cientista no projeto denominado “biomachine”, financiado por essa facção que agora comando. Na época, era o cientista chefe do projeto e precisávamos de cobaias para a nossa experiência principal: a criação de supersoldados para uso em guerras futuras – ao falar isso, seus olhos vermelhos ganham um tom mais claro, quase cintilante — soldados que com pouco treinamento pudessem ser melhores que veteranos... imagine, soldados que com 17 anos ou menos, pudessem ser treinados por dois meses e já estariam prontos para combate armado intenso dotados de sua plena força da juventude.
Ele faz uma pausa e começa a andar em círculos ao meu redor, como se estivesse em transe:
—Para isso adicionamos nano-robôs na corrente sanguínea da cobaia para que eles viajassem até o cérebro – continua ele -, estimulando os neurônios e melhorando-os para que a aprendizagem e o desenvolvimento motor e dos músculos fossem maiores e acelerados. Mas essas máquinas destruíam os cérebros das cobaias, logo ficamos sem nenhuma, na beira do fracasso, até que você veio, de minha amada esposa, o ultimo presente dela para mim.
Ele para e me olha, sua expressão é de tristeza, mas ele continua sorrindo de uma maneira estranha, fazendo a grande cicatriz em seu rosto se dobrar de uma forma estranha, logo ele continua:
—Ela...morreu após seu parto, me deixando sozinho com você, foi aí que veio a ideia, você era tão forte, tão sadia, nem sequer chorou ao nascer, parecia tão diferente das outras crianças, você ia ser a cobaia perfeita. Então fiz tudo que era necessário, e deu certo, você sobreviveu, era um sucesso! Mas aqueles malditos tinham que aparecer, estragar tudo, malditos sejam!
Algo parece o deixar perturbado nesse instante, ele balança os braços como se estivesse querendo agarrar alguém invisível a sua frente.
—Aqueles malditos soldados, eles entraram atirando, quebrando tudo, explodindo tudo — continua ele salivando de tanta frustração — eles apareceram de repente, matando todos os cientistas, todos os meus amigos, eu corri para fugir deles, mas eles me acharam – ele se vira e caminha em minha direção, me olhando com um olhar medonho, então ele apoia suas mãos na lateral da maca em que estou e me olha bem de perto nos olhos – agora olhe para mim, OLHE!!! – ele grita desesperadamente – veja o que suas bombas e tiros fizeram em mim e não é só isso.
Ele segura seu antebraço esquerdo com a mão direita e o puxa, fazendo ele de desprender do restante do braço, era na verdade uma prótese avançada, como nunca tinha visto antes, por isso ele batia tão forte.
—Sim, eu perdi meus membros em uma das explosões que eles causaram, mas acha que eu me importo com isso agora? Não, e sabe por quê? Porque foi um sucesso o meu trabalho, tanto é que estou olhando para ele agora, um apena eu ter que terminar seu teste agora.
Essas palavras me acordam do torpor e me dão uma onda de adrenalina que me faz querer arrebentar as amarras e correr dali, mas não consigo me soltar:
—Não se preocupe – diz ele com tom de riso enquanto recoloca sua prótese no lugar – não é nada pessoal, é puramente científico, quero ver como seu cérebro cresceu depois daquilo e não posso fazer isso com você viva, mas se serve de consolo, foi bom rever você, filhinha.
Tento me livrar daquelas amarras o máximo possível, me debato o quanto posso, tento gritar, mas ninguém parece me escutar e ele apenas se incomoda em me arrastar até outra extremidade da sala, que agora ficava mais iluminada à medida que nos movíamos por ela. Ele para e começa a ligar instrumentos que parecem monitores cardíacos mais sofisticados, em seguida os conecta em minha testa. Continuo me debatendo, mas as amarras pareciam apertar mais a cada movimento que fazia, então não conseguia bons resultados. Assim que acabaram os preparativos, ele injeta um liquido em meu pescoço e meu corpo fica dormente instantaneamente. Ele aproxima uma máscara de meu rosto e nesse instante um clarão me cega, sinto o impacto da cama caindo para a esquerda e as amarras do meu lado direito se soltam, os sons parecem ruídos em minha cabeça e minha visão não funciona direito, por fim minha cabeça desaba e eu perco a consciência.
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