Project Lorrain
6 Cap 6 - A Missão
Notas iniciais
Passo o resto da noite em claro tentando criar um plano para me por dentro do Osprey, mas nada me parece bom, algumas vezes por causa da minha condição física, outras por ser um plano de ação rebuscado demais.
Por fim resolvo fazer algo que nunca fiz na vida: improvisar. Esse era meu plano, meu melhor plano.
Deito-me para descansar um pouco, mas o dia já amanhece. Minha cabeça lateja pela noite em claro e meus olhos ardem por tentar enxergar o que eu escrevia sob uma fraca luz de um abajur que ficava sobre a escrivaninha onde eu estava. Assim que me deito meu impulso é tentar dormir, mas resisto a essa vontade e me sento na beirada da cama esfregando o rosto.
Passo algum tempo olhando para baixo, durante esse tempo o dia pareceu estar parado, não escuto nada do lado de fora do quarto, nem mesmo os passos apressados que enchiam o corredor de barulho durante o dia ou o som das hélices dos helicópteros cortando ar para alçarem voo, nada.
Levanto o rosto e olho pela ultima vez para a janela, a luz do sol já começava a aumentar e junto com ela a minha coragem, isso era bom, começo a pensar que vou precisar dela hoje. Levanto-me com toda a velocidade que consigo e caminho par a porta, meu corpo ainda treme um pouco, mas sinto que já consigo correr.
Saio do quarto o mais silenciosamente que consigo, tranco aporta para que ninguém perceba que eu não estou lá e ando o mais rapidamente possível sendo silenciosa na direção do almoxarifado, tenho uma linha de ação na cabeça e estou disposta a tentar usá-la.
Logo no primeiro corredor um susto, um guarda percebe minha movimentação e me para, perguntando o que eu estava fazendo, por sorte ele acredita que eu estava indo fazer uma caminhada e me libera sem grandes problemas, mas isso serviu para que eu percebesse que estava sendo vigiada e que não seria nada fácil embarcar naquele avião.
Assim que me aproximo do almoxarifado, avisto outro guarda vindo em minha direção, olho para os lados e vejo uma porta semiaberta, não penso duas vezes e entro no quarto sem iluminação antes que o guarda me visse. Assim que ele passa pela porta e desaparece, saio e corro para o almoxarifado que ficava no fim do corredor. Por sorte, todos os quartos tinham uma chave extra para entrar lá, como medida de segurança, já que nele existia uma rota de fuga e eu trazia a minha comigo.
Assim que alcanço a porta, olho para os lados para ver se tem alguém vindo e a destranco. Assim que ela se abre, o cheiro de coisa antiga guardada invade meus pulmões através do meu nariz, apesar de frequentado diariamente, o almoxarifado continua juntando poeira nos seus cantos, isso faz com que o ar de lá desça queimando como fogo pelas narinas.
Ignoro o cheiro e entro fechando a porta atrás de mim, assim que completo a ação me viro e vasculho as grandes sacolas de uniformes por algum masculino do meu tamanho. Isso não deveria demorar muito, pois tinha o porte físico que poderia caber em um uniforme de recruta ou de raso. O tamanho do lugar e a quantidade de coisas empilhadas nele atrapalham meus movimentos, dificultando a procura. O almoxarifado era como uma grande caixa de sapatos posta de lado, comprido e alto, mas apertado. Por má sorte de minha parte, as fardas ficavam em sacolas gigantescas, o que dificultava a locomoção dentro do lugar, existem mais três sacolas iguais à que eu estou vasculhando, cada qual se encostando a uma parede lateral do lugar. Depois de muito procurar, parando toda vez que escuto um ruído do lado de fora do lugar, encontro tudo o que preciso e enfio em uma mochila que estava largada bem perto da porta.
Assim que abro aporta, a claridade do sol refletida nas paredes brancas ofusca meus olhos, mas eu ignoro isso e caminho depressa para meu quarto, prestando atenção em cada curva para não me encontrar com a ronda matinal. Assim que chego a meu quarto e pego a chave para destrancar a porta me dou conta de uma coisa: não fechei a porta do almoxarifado. Um tremor me domina, mas eu o afasto pensando que eles podem pensar que foi um raso que o vasculhou, afinal, não sou a única pessoa do quartel. Entro no quarto e me ponho a esperar a hora de agir.
***
Olho pela janela o céu se tornar alaranjado à medida que o sol se aproxima do horizonte. Durante o tempo que passei ali, cochilei algumas vezes, isso foi mais do que suficiente para me dar alguma energia. Durante os poucos minutos de sono que eu passei dormindo, tive alguns pesadelos, em geral dispersos e sem ligação entre eles.
Assim que o céu começa a escurecer, me levanto da cama e encaro a mochila posta atrás do giro da folha da porta. “Está na hora” penso, caminhando na direção dela lentamente. Assim que a abro, retiro o seu conteúdo e o coloco na cama, a farda parece surrada demais e o capacete de Kevlar antigo demais, mas não havia mais o que fazer a não ser rezar para que não me notassem.
Assim que anoitece já estou pronta e saindo do quarto, olho para os lados e saio. Quando estou virando o ultimo corredor em direção ao ponto de decolagem, vejo uma figura conhecida passar por mim, era Roney. Por sorte ele não me viu, mas eu o sigo até sairmos do prédio. Ao chegar ao ponto de decolagem marcado, saio do seu encalce e me misturo com os rasos. Durante alguns minutos ficamos parados ouvindo instruções de como a missão iria funcionar, só nos mexemos no momento em que começaram a distribuir as armas para cada um de nós. Eu recebo uma M16A2 M203, por sorte era uma variação da arma que eu uso para treinar, então a conheço bem. Junto com ela vieram três carregadores e duas granadas de mão que eu prendi no meu colete à prova de balas.
Assim que a distribuição de equipamentos acabou, fomos conduzidos para dentro do Osprey, era minha primeira vez entrando naquilo, assim como os outros vinte soldados da minha unidade. O Osprey era grande, entrávamos por uma abertura na traseira grande o suficiente para caber um tanque leve. Nas suas laterais, grades asas se erguiam e na ponta de cada uma havia um rotor gigantesco que girava rapidamente para dar sustentação ao avião, sua lataria tinha uma cor preta bem escura e opaca, que facilitava sua camuflagem.
Assim que entrei, um calafrio subiu em minha espinha, a pessoa que estava cuidando da porta do avião era justamente Roney e ele passaria do meu lado vasculhando meu equipamento, se fosse outra pessoa, talvez não me reconhecesse, mas é logo ele, minha missão iria fracassar.
Somos enfileirados e posicionados de frente para a saída, não demora muito para que uma voz soe alto e claro de dentro do veículo.
—Ouçam todos! Como vocês sabem, vamos mandar duas pessoas para o campo com vocês, para guiá-los! – exclama a voz – vocês vão ter seus equipamentos conferidos por elas agora mesmo, então se preparem. Sentido!
Assim que a ultima palavra foi falada, todos os soldados ficaram em posição de sentido e Roney começou a caminhar em minha direção vasculhando o equipamento de cada soldado minuciosamente. Estávamos colocados em duas fileiras de dez pessoas, e eu era a penúltima da minha, então não demoraria que ele passasse por mim.
À medida que ele se aproxima, uma sensação diferente passa por meu corpo: ele vasculha as luvas, faltam quatro soldados, meu coração acelera; ele confere o colete, faltam três soldados, minha cabeça lateja; ele confere o capacete e os óculos, faltam dois soldados, minha respiração pesa; ele confere a arma e as granadas, sou a próxima, meu corpo fica frio; ele para em minha frente e coloca a mão em meu colete, apalpando as amarras, depois pega minha arma e a checa, dizendo sempre “ok” ao acabar de conferir, ele pega as granadas e as posicionam direito no colete, eu nunca fiz isso direito. Nesse momento minhas mãos tremem, eu percebo que “só” eu não fazia isso direito, ele sabia disso, levanto minha cabeça, que até então estava abaixada e encontro o seu olhar desconfiado, fui descoberta. Ele me encara e coloca a mão em meu ombro:
—Está pronto pra ir soldado? – ele pergunta mudando sua expressão séria para um sorriso brincalhão. Afirmo com a cabeça com um gesto curto e lento, isso me surpreende, ele sabia que era eu ali, mas mesmo assim não me denunciou, não sei o motivo.
Ele passa por mim, confere o equipamento do ultimo soldado e vai de encontro com o homem que está na porta, eles se falam por um instante e o homem por fim diz:
—Muito bem senhores! Hoje faremos história, que Deus esteja com cada um de vocês e os proteja, para que voltem e comemorem sua vitória — rio internamente da rima forçada.
Dizendo isso ele se vira e sai quase ao mesmo tempo em que uma luz vermelha se acende, avisando que a porta traseira do avião irá se fechar. Eles pedem para que nos sentemos nos bancos na fuselagem do avião, olho pela pequena janela lateral do Osprey o quartel general e um nó se forma na minha garganta, será que iria voltar a vê-lo? A porta se fecha e os rotores giram mais rápido, fazendo o gigante de metal sair do solo ao mesmo tempo em que joga uma massa de poeira contra a janela, me viro e apoio a cabeça no metal olhando para cima, tenho que esquecer o que pode acontecer e descobrir o porquê de tudo isso... Parto para minha primeira missão.
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