Project Lorrain
2 Cap 2 - O treinamento
Notas iniciais
Atravessando a ultima porta de vidro que me separava do pátio de treinamento, sou surpreendida por uma forte luz que se concentrava em cima de mim e vinha de um alto mastro à minha direita. Do alto do mastro um velho homem rabugento começa a cuspir palavras de ofensa em minha direção:
—Olhe só unidade!- Diz ele com um tom de desdém em meio aos gritos- a bela adormecida e o seu capacho resolveram dar o ar da graça por aqui!
Esse velho rabugento é o Coronel Case, um velho conhecido meu dos tempos de recruta. Estava sempre vestido de uniforme militar, nunca o vi sem, nem mesmo nas festividades beneficentes que vez ou outra fazíamos para melhorar a visão que a sociedade tem de nós. No rosto, ele usa uns óculos do tipo aviador que o faz parecer aqueles policiais barrigudos dos anos 80, ou um policial rodoviário americano. Sua pele era escurecida pelo sol, mas percebia-se sua tonalidade branca e cheia de cicatrizes que refletiam décadas de batalhas passadas. Se não fosse tão irritante, seria um herói como os de quadrinhos.
Reviro os olhos e tento ignorar suas palavras gritadas através de um megafone enquanto sou seguida pela luz do holofote até meu lugar na formação de treinamento. Chegando lá, perco Roney de vista, só agora me lembro de que ele estava me seguindo desde o dormitório. Aquele sonho mexeu mesmo comigo, mas não é hora para pensar nisso, o treino já vai começar.
Como de costume, começamos com o hino da corporação. Se alguém parar para ouvi-lo direito, ele fala de batalhas que só podem ser vencidas com coragem, de missões que mesmo sendo suicidas são as mais nobres e etc. Não acredito muito nele, primeiro por me parecer muito superficial, como se fossemos maquinas ou algo do tipo, e segundo, por que não aceito a ideia de que se sacrificar iria ajudar em algo, não causaria sofrimento do mesmo jeito? A pessoa que se sacrificou, veria novamente as pessoas que ama? A pessoa que ama? Uma vida salva justificaria outra perdida? Eu acho que não, para todas essas perguntas. Não se morre por aqueles que ama, se vive por eles.
Depois do hino, o Coronel Rabugento separa a unidade em quatro subunidades e designa cada uma para um tipo de exercício: a primeira, na qual acredito que esteja Roney, iria dar 20 voltas ao redor do pátio em ritmo acelerado; a segunda deveria revezar no tiro ao alvo; a terceira, na qual eu estava, deveria levantar pesos em equipamentos variados; a quarta iria fazer flexões. Ao final de tudo, faríamos todas essas coisas, a divisão era para que saibamos qual a nossa posição seguinte no exercício. No caso, a primeira trocaria com a quarta ao soar do apito, a quarta com a terceira, a terceira com a segunda e a segunda com a primeira respectivamente.
Sou uma das ultimas a chegar ao primeiro aparelho, tento manter a concentração, mas não consigo, algo na atmosfera me deixa incomodada. Normalmente, o pátio seria rodeado por paredes cheias de trincados e infiltrações, com o muro na sua extremidade oposta no qual ficava o pilar de vigilância com uma guarita coberta onde estava o rabugento Case. Dos outros lados, ela seria rodeada pelo prédio dos dormitórios, com seus pilares circulares que iam do chão à laje, sendo interrompidos apenas pelos pisos dos andares. Sua cor era um branco vivo, que mesmo sujo, emanava uma espécie de brilho para quem olhava. O parapeito de cada andar seria de um cinza claro, que era tão opaco que desaparecia no branco, enfim, não era tão aterrador como se poderia imaginar.
Mas hoje, ele parecia muito estranho. Suas paredes pareciam escuras demais, a sujeira parecia que ia o tomando em uma velocidade perceptível, engolindo seu branco e o transformando em um marrom claro. O muro parecia distante e muito alto, seus tijolos enormes agora pareciam pequenos, mas o muro mais alto que o de costume. Afasto esses pensamentos e procuro me focar no exercício.
No final da vigésima repetição estava suada, mas não muito cansada. Quando ia tentar fazer mais repetições, ouço o barulho estridente do apito e me direciono ao estande de tiro, ansiosa para atirar, pois essa é minha parte favorita dos treinamentos matinais. Chego lá o mais rápido que posso, seguro a arma e a examino por alguns instantes, era uma M16A2 com luneta, sua cor era tão opaca e escura, que a luz não refletia nela.
Posiciono-me e dou o sinal para que o instrutor ligue o aparelho que fará os alvos se levantarem, abaixarem e se moverem aleatoriamente. Mal vejo um vulto negro se levantando e aperto o gatilho, o recuo da arma não mais me incomoda, praticamente não me movo do meu lugar enquanto o alvo é atingido e perfurado pela bala, bem no centro da cabeça. Um tiro perfeito. Dou um sorriso de satisfação vendo meu feito.
O segundo alvo se move na horizontal, da direita pra esquerda saindo de uma parede de madeira. Posiciono-me e miro, quando ia apertar o gatilho, a imagem do homem do sonho me vem na cabeça repentinamente. Dou um passo exagerado para traz e atiro sem perceber, a bala passa distante do alvo e se choca na parede atrás dele, criando um buraco no concreto ao lado de vários outros. Quando percebo o que fiz, me foco no alvo e vejo que algum engraçadinho desenhou um rosto no alvo que eu deveria acertar, foi aquilo que me assustou assim?
Antes que eu pudesse voltar a atirar, sinto uma mão em meu ombro, quando me viro vejo a carranca do instrutor me olhado com uma expressão séria:
— O que houve? Você quase nunca erra, e agora fez isso?- Diz ele cruzando os braços e levantando uma sobrancelha.
—Desculpe senhor!- Digo ajeitando minha postura- não estou me sentindo bem, senhor!
— Se sente mal, sargento? –Diz ele.
— Apenas não dormi bem, minha cabeça está girando um pouco — digo, por fim.
— Muito bem, concentre-se.
— Sim, senhor!
Quando ele se vira, continuo ignorando o ocorrido. Depois de algum tempo, o apito soa, deixo a arma no estande e saio com passos apressados. O que diabos foi aquilo? Por que aquela imagem apareceu tão de repente? Não sei, mas não posso deixar isso me atrapalhar, foi só um sonho idiota, ou melhor, um pesadelo idiota.
Procurei me concentrar na corrida, prestando atenção na velocidade dos meus passos e observando os outros recrutas passarem ou serem ultrapassados por mim ofegantes. Nem percebi quando essa parte do treinamento acabou. Fui direto para o local onde faria flexões junto com minha unidade.
Chegando lá, me enfileirei como de costume, me abaixei e iniciei o exercício, repetindo para mim mesma que era só um pesadelo e que nada daquilo era real, que nada me faria mal a não ser um soldado inimigo. Dou um sorriso ao pesar nessa parte. Não, eu não seria ferida por um inimigo, muito menos morta. Isso me dá mais forças para terminar a seção.
No fim do treinamento estava cansada e suada, a única coisa que eu pensava era em chegar ao dormitório e tomar banho o mais rápido possível, antes de Roney chegar e me encher como de costume.
Chegando por lá, paro por algum motivo na frente da porta do dormitório vizinho, escuto batidas na parede e murmúrios lá dentro. Tento prestar atenção, mas não consigo ouvir direito o que o usuário diz:
—Olá? Tudo bem por aí?- Digo quase gritando para que a pessoa pudesse me ouvir.
As batidas cessam, há um minuto de silencio e depois uma voz trêmula e fraca responde:
— Você! Saia daqui, não quero que nenhum de vocês fale comigo... nunca! Vou sair disso por cima, vocês verão! — Ele cospe palavras em um ritmo que elas quase não fazem sentido.
— Do que está falando?- Pergunto
Roney vem chegando e eu faço um sinal para que ele pare onde está:
— Eu sei que você sabe da missão, eu sei que você sabe que ela é suicida e que vão fazer isso apenas para se livrar de nós!- Diz ele tendo um ataque de risos histérico quase demoníaco.
— Do que está falando? – Digo me aproximando da porta lentamente.
— Antes que vocês me mandem pra lá, eu assino minha própria demissão... Seus porcos sujos! E olha só... Vou até reformar o lugar — outra risada demoníaca pode ser ouvida.
Aproximo-me da porta até poder tocá-la, Roney se aproxima vagarosa e silenciosamente. Colo o ouvido na porta e não ouço nada. Dou um passo para traz e olho para Roney com uma expressão de confusa e então escuto um ranger metálico dentro do quarto.
Em uma fração de segundo escuto um barulho de explosão e algo grande me acerta na lateral do corpo, o impacto me joga conta o parapeito e o objeto me espreme contra as barras de metal de uma maneira que tudo fica escuro. Não sinto meu corpo, apenas escuto algo cair no chão e minha consciência se vai junto com minha audição que parecia apenas um chiado diminuindo rapidamente.
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