Project Lorrain
3 Cap 3 - O Despertar
Notas iniciais
Tum, tum, tum, tum.
Ouço um barulho que se parecia com batidas. A principio o barulho é baixo e abafado, como se alguém estivesse tocando um tambor em um túnel subterrâneo. Vagarosamente, o barulho aumenta, invadindo meu peito como uma vibração, só então percebo que é meu coração. Não estou morta.
Com o passar do tempo, começo a sentir uma formicação onde deveriam ficar meus braços, não consigo movê-los, mas sei que estão ali e estão inteiros, isso é um alívio. Mesmo com os olhos fechados, sinto o mundo dar voltas e mais voltas, meu cérebro lateja sem cessar, e cada esforço imprimido a ele é recebido como uma forma diferente de dor, então decido ficar quieta e me lembrar do que me pôs nessa situação.
Assim que me acalmo, consigo esquecer o quão dolorido está meu corpo e quão cansado e latejante está meu cérebro. As lembranças começam a vir como vultos que vem e vão desordenados, mas que imprimem imagens e sons à minha memória. Logo me lembro de um estrondo, me lembro do impacto que me jogou contra a mureta, do som de batidas na parede e finalmente o rosto concentrado de Roney. A partir deste ponto, começo a recobrar a memória, me lembro das frases que falei e ouvi, as imagens e vultos que meus olhos captaram e me alivio percebendo que nenhum dano sério foi empregado à minha cabeça durante a explosão.
Forço meus olhos a se abrirem vagarosamente. A luz de onde estou parece forte demais para eles, mas continuo pouco a pouco. Sinto uma dor no peito quando percebo que apenas um está funcionando, o olho esquerdo, o olho que não consigo usar para mirar. Suprimo e engulo um soluço e fecho novamente os olhos, apertando-os bem, então, abro-os novamente e o peso sai de meu corpo, consigo novamente ver com os dois olhos. Um suspiro de alívio escapa de minha boca antes que eu perceba.
Examino cuidadosamente a sala: ela é exageradamente branca, somente a luz solar que entra pelas múltiplas janelas já se encarregaria em iluminá-la, mas luzes de LED retangulares também ajudam a iluminar o local, que fica tão branco que meus olhos doem. Do meu lado esquerdo e direito existem divisas feitas de pano, que ao balançarem encostam no monitor cardíaco que está do lado da cabeceira do meu leito e no criado mudo metálico à minha esquerda. O leito em que estou deitada tem lençóis e revestimento (que surpresa!) brancos.
Tento me levantar, mas uma dor lacerante nas costelas me impede, torço a face de dor e me deito novamente. Além das costelas, as mangueiras ligadas por agulhas aos meus braços me impedem de me levantar, a única maneira de sair dali que encontro é chamar por alguém:
—Olá!- Digo, com cada letra saindo como pregos da minha garganta- tem alguém aí?
Uma mulher jovem de jaleco e touca brancas e cabelos negros amarrados aparece rapidamente diante de mim. Ela me examina rapidamente, retirando uma mecha minúscula de cabelo que cai em sua testa.
—Que bom que acordou, estávamos receosos que sua recuperação não fosse completa- diz ela com um sorriso que parece forçado.
—Onde estou?- Retruco.
—Na enfermaria do quartel- reponde ela com um sorriso mais forçado que o último.
—Há quanto tempo?
—Há três dias.
Meu corpo enrijece, fiquei desacordada por três dias, talvez não tenha sido tão sem importância quanto eu pensei que fosse. Será que está tudo realmente bem comigo? Estremeço de leve afastando esse pensamento e me focando novamente na enfermeira que agora está de pé ao meu lado, ela examina a máquina com um olhar concentrado.
—Você parece boa- diz ela antes que eu possa falar algo- vou chamar o doutor para examinar você.
—Tudo bem- repondo, suprimindo a pergunta que iria fazer, porém ela ainda queima em meu estômago: “Roney está bem?”. Se tivesse dito isso, mais um peso em minhas costas se aliviaria. Ouço a porta da sala bater antes que eu pudesse falar mais alguma coisa.
Os minutos seguintes à conversa com a enfermeira parecem infinitos e agoniantes, cada barulho que escuto meu coração dispara de expectativa, queria sair logo daquele lugar, queria procurar Roney, queria me certificar de que ele está bem. Tento novamente me sentar e minhas pernas formigam, passando a onda de choque para minha coluna até que uma dor aguda toma conta de minhas costas e da lateral do meu corpo. Cerro os dentes e termino o movimento, me apoiando desajeitadamente no travesseiro em minhas costas.
A porta finalmente se abre e escuto três passos apressados em minha direção, um deles eu reconheço como pertencendo à enfermeira, os outros dois são muito fortes para serem de uma mulher, então deduzo que sejam dois homens com ela.
Logo o trio para em minha frente, nos pés do leito. A enfermeira franze a testa ao me ver naquela posição e se apressa em me ajeitar com as costas no travesseiro de uma maneira correta e menos dolorosa. Quase a agradeço por isso, mas estou ocupada demais encarando os outros dois à minha frente.
Mais à esquerda, colocando uma das mãos no meu leito, está o Dr. Shapperd, médico cirurgião local. Ele me olha com uma expressão quase esculpida e com um sorriso quase tranquilizador no rosto, seus cabelos são negros e curtos penteados para traz, fazendo-o parecer mais um cantor de "pop-rock" que um médico militar. Mais à direita está o bom e velho Coronel Case, carrancudo como sempre, escondendo seus olhos de pura maldade atrás de seus óculos ridiculamente grandes para seu rosto.
O doutor é o primeiro a quebrar o silêncio que se formou na sala:
—Como está a minha paciente favorita hoje?- Pergunta ele em tom de brincadeira para quebrar a tensão que se formava de forma evidente.
—Poderia estar melhor doutor- respondo de forma ríspida, não estou com paciência para brincadeiras.
Ele limpa a garganta, sem graça e depois fala:
—Você tem ossos muito fortes Lorrain, os ferimentos foram múltiplos apenas nos músculos, mas nada profundo, sua cabeça ainda dói?
Balanço a cabeça devagar positivamente, sem tirar os olhos dos dois, meu corpo fica tenso, era como se a cada resposta eu pudesse ficar por lá por mais tempo e eu não queria isso. Shapperd analisa alguns papéis que trouxera consigo, pareciam radiografias, tomografias e raios-x, alguns de minhas costelas, outros de minha cabeça e braços.
—Você está com tudo em ordem internamente também, essa dor deve ser dos hematomas, vou medicá-la e você poderá ir.
Fico aliviada em saber disso, agradeço com um aceno de cabeça e me viro para o Coronel Rabugento que estava calado até então.
—Vocês têm notícias do soldado Roney senhor?
—Hum...- fala ele passando o indicador em baixo do queixo enquanto cruza os braços- fala do seu namoradinho? Ele está bem, apenas se queimou um pouco.
Fico tão aliviada por ele estar bem que ignoro a parte do “namoradinho”. Apenas observo sua face estranha se contorcer em algo diabólico que parecia ser um sorriso de prazer enquanto se delicia com minha reação interna, como se ele pudesse ver meus pensamentos. Me viro um pouco para o lado para que não veja seu rosto, encaro o doutor mais uma vez.
—Quando posso sair?- Pergunto ajeitando minhas costas no travesseiro, que agora estava me incomodando com toda sua maciez.
—Imediatamente se preferir- responde ele sem olhar direito para mim enquanto encara de forma séria os papéis que carrega.
—Pode ser- respondo já me levantando.
Assim que meus pés tocam o chão, uma dor aguda me atinge na coxa direita, como se meu fêmur estivesse para se partir. Eles se agarram a mim e me sentam novamente. A enfermeira que estava sentada do outro lado da sala sai e retorna com uma muleta para que eu me estabilize. Seguro e posiciono-a debaixo do meu braço direito, sinto uma pequena dor nos ombros, mas a ignoro e começo a me locomover devagar, me apoiando nela ao invés de me apoiar na minha perna direita. Meu corpo apenas relaxa quando saímos da enfermaria branca, torço para que não a veja novamente por dentro, mas algo dentro de mim me diz que isso vai se repetir. Os dois homens se despedem e caminham na direção oposta à que eu vou seguir, nem penso em observá-los se afastando, apenas viro as costas e começo a caminhar o mais rápido possível.
Caminho com dificuldade pelos corredores do QG, por sorte a ala de dormitórios é próxima da enfermaria e o meu, especificamente, fica no mesmo andar, então rapidamente estou na sacada onde meu dormitório ficava. Assim que dou meus primeiros passos por ela, avisto o local do acidente. As barras de ferro maciças que serviam de parapeito à minha direita estavam estranhamente retorcidas e amassadas, como se tivessem sido vítimas de uma marreta enfurecida que queria descontar a raiva em alguém. Do meu lado esquerdo, havia um buraco na parede onde antes estava uma porta, fitas amarelas interditavam o lugar para que ninguém entrasse.
Aproximo-me vagarosamente do local da explosão. Assim que chego perto o bastante para olhar para dentro do que um dia foi um dormitório, fico paralisada. As palavras do antigo morador entram em minha mente como um dilúvio de frases, palavras e risadas histéricas que ressoam em ecos intermináveis, como se eu estivesse dentro de um salão. Minha cabeça dói como se dezenas de mãos estivessem tentando diminuir o tamanho do meu crânio à força, empurrando-o para dentro, meu estômago embrulha como se estivesse com algo vivo dentro dele se debatendo desesperadamente. Minha visão passa de clara para turva e em seguida para escura.
A muleta escapa e sinto meu corpo desabar sem que eu pudesse impedi-lo. Porém, algo me segura pela cintura impedindo que eu caísse, o que projeta uma dor aguda em minhas costelas feridas. Não vejo o que está acontecendo, mas sinto que me puseram no chão e encostaram minhas costas à parede. Levanto a cabeça e olho na direção de quem me segurou, a pessoa está agachada ao meu lado, mas não vejo seu rosto, minha visão apenas me deixa perceber que seu braço esquerdo está enfaixado, como se estivesse ferido, esse detalhe me chama a atenção, uma sensação de impotência e felicidade cresce de dentro de mim, tento falar, mas tudo que consigo fazer é com que o ar saia dos meus pulmões na forma de um grunhido.
—Hey, você está bem?- Pergunta a pessoa, sua voz soa de diferentes maneiras e tons na minha cabeça, impedindo que eu a reconheça. Tento responder, mas desmaio antes que minha boca se abra.
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