Project Lorrain

19 Cap 19 - O Fim de um pesadelo


Notas iniciais
Fala galera, espero que gostem do penúltimo capítulo dessa historia, abraços!

Minha respiração parece devagar, como se tudo ficasse em câmera lenta, vejo detalhes dos meus movimentos, minha mão tirando a faca de campanha da bainha, o movimento semicircular da outra puxando o futuro cadáver para trás, a faca descendo empunhada e a sensação de perfurar um bife de porco, dizem que a carne de porco era a mais parecida com a humana, agora eu sei o porquê. A faca penetra a pele do pescoço do Dr. Sternchen Wolfgang com alguma facilidade, ele solta um gemido molhado como se engasgasse com algo borbulhante, o sangue mancha seu jaleco branco e eu observo a cena, que deveria ser de uma fração de segundo, mas que para mim foram minutos inteiros.

Mas então algo acontece, uma mão forte demais segura meu braço com a faca enquanto um cotovelo me atinge na altura das costelas, o que me faz fraquejar apenas o tempo suficiente para ele me girar por cima dele e me arremessar sobre a mesa a sua frente. O impacto faz a minha visão periférica se escurecer e estrelas dançarem diante de meus olhos, gosto de ferro invade a minha boca e eu só consigo pensar em sair dali rápido. Como um reflexo, rolo pro lado ainda com as costelas doendo e escuto a madeira da mesa se quebrar sob um soco sobre-humano que só uma máquina conseguiria repetir. Me levanto e vejo o tampo da mesa em formato de “v”, não acredito que alguém com uma faca no pescoço a beira da morte teria tanta foça.

É quando ele se vira para mim e sorri, seus dentes muito brancos estão agora machados de vermelho, ele parece mais lunático do que nunca, suas orbitas vermelhas agora se misturavam com a tonalidade do seu jaleco, o que dava a impressão de que a cor de seus olhos escorresse para a sua roupa. Seu olhar era de ódio e sua expressão não era de dor, mas de prazer. Como se não fosse nada, ele coloca a sua mão no cabo da faca presa à sua pele e a puxa, o movimento faz um filete de sangue voar até uma parede próxima enquanto outro sai de sua boca, mas ele parece não se importar, seus olhos brilham de pura maldade enquanto me fitam por completa, um tremor me percorre, mas minha determinação me impede de fraquejar.

–Está na hora de testar a minha obra prima – diz ele enquanto cospe o sangue acumulado na boca – venha para o papai Lorrain.

A última frase me desperta para a realidade, eu enfrentaria um homem com o dobro da minha força, isso sem contar com os membros mecânicos, mas eu não posso desistir, eu tinha uma missão, eu precisava vingar a pessoa que eu amo, era a única maneira de tentar retribuir o que ele fez por mim.

Ele avança sobre mim e move o braço como um pêndulo tentando me acertar com a faca na altura do abdome, desvio pro lado e a lâmina se quebra na parede atrás de mim, viro o corpo e meu cotovelo acerta a face dele, que recua um passo, mas ainda se mantém em posição de combate. Chuto alto para acertar sua têmpora mas ele se desvia facilmente, quase ao mesmo tempo que investe contra mim usando o ombro, cruzo os braços em frente ao meu corpo para me proteger, mas ele ainda consegue me arremessar na parede atrás de mim. Dessa vez o choque não foi tão grande, então pude armar a guarda novamente, mas isso não impediu que ele conseguisse agarrar a minha garganta e me levantasse.

Naquele instante eu imaginei que tudo estava perdido, me lembrei do meu sonho, de Roney me acordando, como gostaria que ele estivesse aqui, eu me sentia mais segura com ele, de uma maneira ou de outra, queria que ele me acordasse novamente, só pra eu ver o seu rosto, é quando o doutor resolve cuspir algo em minha direção, algo mais pesado que palavras:

–Você está imaginando o seu namoradinho? – diz ele com uma risada, arrastando a pronuncia do “r” quando fala em “namoradinho”, como ele sabia? – ele não existe mais, por sua culpa, é isso mesmo, por sua culpa seu “der amiguinho” deixou de existir, e por sua culpa, ele não será vingado.

Ele cospe as palavras a queima roupa, ele sabia que isso me afetaria muito. A pressão de suas mãos contra a minha garganta obstruía cada vez mais minha respiração, mas não tinha como resistir, ou talvez não quisesse...

Mas não podia deixar tudo dar em nada, não podia partir sem pelo menos vingar o meu amigo de infância, a pessoa mais próxima a mim que existia, ainda mais depois do que ele disse, eu sabia que ele estava certo, que tinha sido minha culpa e por isso não podia me dar ao luxo de morrer ali. Abro um olho e vejo a ferida, sem pensar duas vezes soco ela com os dedos em riste, meus dedos penetram a ferida e ele urge como como um animal e fraqueja o tempo suficiente para meu joelho acertar o seu queixo, com o impacto ele cambaleia e me solta, então eu empunho a pistola e me preparo para atirar, mas ele a arranca com um soco que faz a arma voar da minha mão e deslizar pelo chão até algum lugar, eu só consegui alvejar o armário atrás dele, agora estava totalmente desarmada, mas a raiva que eu tinha dele me fazia avançar, a vontade de acabar com ele era maior que o meu medo.

Ele agora tossia com mais sangue, ele sabia que não sairia dali, mas queria me levar com ele para onde quer que fosse. Seus movimentos também estão mais lentos, mas ainda são o suficiente para apagar a minha existência facilmente. Eu mantenho distancia, ele precisava de proximidade para agir, sem isso ele não poderia fazer muita coisa, olho para os lados disfarçadamente para procurar a arma, a encontro perto da mesa, fora da linha de visão dele, o que era bom, mas eu não poderia correr ou ele perceberia, me contento em ficar parada, mantendo a distância, ele me olha e tenta falar, mas não consegue, ele ainda sorria como se estivesse revivendo novamente tudo aquilo e saboreando cada reação ou expressão que eu esboçava. Minha raiva ainda pulsava dentro de mim, queria fazer ele pagar por tudo, minha visão ficava cada vez mais vermelha, minha respiração pesada e minha mente turva. Eu o ataco sem perceber, apenas observo enquanto desvio de um de seus socos e acerto a sua face com o meu punho, seu nariz se quebra e ele dá dois passos para trás.

Não acredito no que fiz e não sei como eu consegui fazê-lo, mas meu momento de triunfo foi curto, ele se recupera e me acerta no estômago, e depois no rosto, sinto o sangue escapar pela minha boca e depois o chão se chocar contra as minhas costas, mas não vejo nada além de um breu e luzes passando como raios, minha mão esbarra em algo pequeno e metálico, eu sabia o que era, então apenas peguei e disparei, minha visão estava escura, não vi o que acertei, mas não escutei o ricochetar da bala nas paredes, nem seu choque contra algum objeto, simplesmente o silencio se seguiu.

Minha visão começa a voltar, ainda turva, mas percebo a figura parada diante de mim, de pé, me olhando. Me pergunto por que não me ataca, mas vejo o motivo rapidamente, uma mancha começa a se formar em seu peito, pouco abaixo do bolso do jaleco, uma mancha de um vermelho escuro, morto, que se espalhava devagar. O homem me olha fixamente, mas agora não era um olhar de ódio, era de... felicidade. Ele parecia orgulhoso daquilo tudo.

–Milha filha... – começou ele, mas não terminou, o brilho dos seus olhos sumiu e ele desabou sobre os joelhos, depois caiu de costas em uma posição estranha.

Eu quase tive pena dele, mas não sentia, nem poderia, depois de tudo que ele fez, esse era o destino dele, que ele escolheu, mas talvez a maior ironia tenha sido ele morrer pelas mãos de quem ele criou, as mãos de quem ele tanto fez mal, agora eram as mãos que tinham seu sangue. A pessoa que ele tanto amou no passado agora se alivia com a sua morte, não há nada pior do que isso, pelo menos, eu achava, até aquela noite.

Só pensava em sair logo dali, não queria ficar nem mais um minuto com essa pessoa, só queria voltara para o quartel, finalmente descansar e visitar a cova do meu amigo, contar para Roney que eu o vinguei, que eu fiz de tudo para compensar a sua morte, para agradecer o que ele fez por mim e me despedir em definitivo, essa era a única coisa que eu pensava.

Notas finais
E então, prontos pro ultimo? Até lá então, abraços