Project Lorrain

20 Cap 20 - Morbida ironia


Notas iniciais
É gente, acabou-se o que era doce, espero que se emocionem muito nesse ultimo capítulo, ele está mais longo porque caprichei, espero que gostem, abraços!

—Lorrain

Minha cabeça está confusa, isso não era uma novidade nos últimos tempos, subo do no duto de ventilação e antes de fechar a grade, observo Wolfgang caído no chão, ao seu redor um liquido escuro o separava do chão, a cena era para ser confortante, afinal meu pior inimigo tinha morrido pelas minhas mãos, mas eu não me sentia assim, a morte de alguém não traz outra pessoa de volta, não vai me livrar dos meus pecados, mas era algo que tinha de ser feito, para evitar que mais pessoas sofressem, assim como eu.

Me agarro a esse pensamento enquanto saio do lugar devagar e silenciosamente, me admirava ninguém ter ouvido a luta que se seguiu dentro daquele quarto. Assim que saio, sinto uma brisa noturna, me lembro do rifle, mas resolvo não o pegar, não seria mais útil e além do mais, queria sair logo dali, queria voltar para casa e fazer tudo o que eu me prometi fazer. Me encosto em uma arvore e observo tudo, escuto tudo, sinto tudo, nada se movia além das árvores. Dou a volta por trás do esconderijo e apresso o passo, o ponto de evacuação não deveria ser longe dali, bastava um aviso no rádio e em minutos eu estaria fora desse covil de cobras. Era realmente uma pena o lugar me parecer tão ruim agora, em outra ocasião eu o acharia bonito, um curso d’agua passava calmamente ali por perto, arvores altas e floridas enfeitavam a paisagem e nuvens começavam a decorar o céu, escondendo a tímida lua de quando em quando. No chão, flores brancas e vermelhas decoravam a mata, me permiti me perguntar como elas conseguiram sobreviver ali, mas logo afastei o pensamento.

Continuei andando por um tempo em silêncio total, meus passos de tão treinados, não faziam mais barulho nem na folhagem que fazia um tapete natural sob mim. De vez em quando olhava para trás, para algum barulho, mas nada me seguia. Me concentro em lembrar do local da extração, não deveria ser longe e deveria ser uma clareira como a que eu pousei. Me lembro da localização e apresso mais ainda o passo, guinando para a direita e saindo do caminho de flores, entrando na mata mais fechada. A alguns metros de onde entrei, pulo um pequeno riacho e percebo um vulto na mata não muito longe de mim, paro e observo, poderia jurar que algo metálico reluzira, mas não vejo mais nada a não ser flores e folhas molhadas pelo sereno da noite. Isso me perturba, começo a pensar que tinha sido fácil demais, muito poucos guardas, ninguém vindo em socorro do doutor apesar da nossa dança violenta na sala dele. A angústia começa a tomar conta de mim e eu me forço a continuar, o local que eu deveria chegar não estaria muito longe.

Assim que a fraca luz da lua ilumina a clareira, tento evitar o máximo a vontade de correr na direção dela, ainda achava que tinha alguém me seguindo e correr só atrairia a sua atenção, tenho de me controlar e apenas andar rápido até lá, o que me matava por dentro.

Finalmente chego no centro da clareira, tinham algumas pedras grandes ali, mas deveria servir. Pego o rádio e aperto a combinação da rede integrada, logo ele chia e alguém atende:

-Extração requerida, mal cortado na raiz, repito, mal cortado na raiz – digo sem esperar uma reposta de quem quer que fosse do outro lado da linha.

O rádio chia novamente e depois se silencia, era um bom sinal. Finalmente tudo tinha acabado, esses últimos meses tinham sido ruins para mim, tudo que aconteceu, tudo que eu acreditava e tudo que eu amava, tirados de mim de uma vez em uma única missão e por um único homem, como a natureza humana poderia ser tão ruim? As vezes pensava nisso, mas não importava, ela não mudaria e as coisas que aconteceram também não.

Um zunido agudo me tira do torpor dos meus pensamentos no momento em que meu ombro é atingido. O impacto me joga para frente e eu tento inutilmente me equilibrar até cair de costas depois de fazer uma volta ridícula de 180° tentando não cair sobre o que sobrou do meu ombro. A dor me deixa paralisada, eu não sentia meu braço direito e perdia muito sangue, minha situação não era nada boa, mas eu apenas pensava em quem me atingiu. Não via ninguém e imaginava que a qualquer momento outra bala apagaria as luzes.

-Não teve a mesma graça que eu imaginei – diz alguém de algum lugar a minha frente, sua voz me soa familiar, mas eu não sabia como – eu pensei que tinha me visto lá atrás.

Forço o corpo para frente tentando ver quem era, mas apenas vejo um gorro preto, o que não ajudava muito. Escuto passos e a pessoa logo aparece em cima de mim, não consigo ver a sua face, mas consigo ver os seus olhos castanhos, eles não pareciam em nada com o doutor ou com os do outro soldado, pareciam confusos, como se não quisesse estar ali ou como se não soubesse o porquê de estar ali.

-Você deve ser o outro projeto do doutor, não é? – Ele me pergunta olhando por todo o meu corpo, como se me avaliasse – me parece que você também vem treinando, então vou lhe dar a chance de se defender, ao contrário do que ele disse, você não parece tão perigosa assim.

Dizendo isso ele joga o rifle por cima de mim, era o mesmo que eu deixei na mata, um erro que pode ter custado a minha vida. Tento me levantar enquanto penso, eu estava inutilizada praticamente e aguentar até o resgate chegar seria impossível no meu estado, então eu tinha que arranjar uma maneira de vencê-lo, ou eu morreria ali mesmo.

-Quem é você? – Pergunto para ganhar tempo antes de um enfrentamento corpo a corpo.

— Meu nome é Schlange – ele responde – sou um experimento de Wolfgang como você, mas melhor, como você vai perceber.

Dizendo isso ele avança contra mim, desvio do seu primeiro soco, mas o segundo me atinge como uma marreta no rosto e eu tombo de lado. A dor do soco só foi menor que a dor do choque do ombro com o chão. Me levanto com dificuldade enquanto ele me olha, me avalia, procura pontos fortes e fracos em mim, eu podia sentir ele me estudando, porque eu fazia o mesmo, era algo que eu tinha desde criança e foi muito útil no exército.

-Você sabe que não vai sair viva daqui, não é? – Ele pergunta, mas não querendo uma resposta.

Ele me ataca de novo e dessa vez não consegue me atingir em nenhum momento. Assim que ele gira o corpo me abaixo e seu soco passa no vácuo onde antes eu estava, então me levanto e acerto o seu queixo com toda a força possível do meu braço esquerdo. Ele cai sentado. Mas se levanta rapidamente com o um sorriso no rosto.

-Talvez eu tenha subestimado a sua preparação – diz ele – realmente o exército europeu prepara seus soldados, pelo menos os que eles não querem abandonar como eu.

-O que disse? – Pergunto, as coincidências começam a se juntar na minha mente, era impossível, tinha de ser impossível...

-Eles não te contaram? Pois bem, eu era um soldado com você, até ser jogado na mata, fui salvo pelo homem que você matou e vou te matar por isso.

Ele investe ferozmente sobre mim, eu não consigo me defender e nós dois caímos no chão. Ele agarra a minha garganta e a pressiona com toda a força, sinto minha traqueia se rompendo vagarosamente, eu não podia deixar, não agora. Eu o chuto no estômago e ele cai de lado, eu rolo ignorando a grande dor no ombro e me ponho de pé, ele faz o mesmo.

-Você... – minha voz falha, não podia ser ele, ele estava morto, eu o deixei lá para morrer – quem é você?

-Tudo bem — diz ele com um tom decidido – vou deixar você ver o meu rosto, porque será o último que você verá.

Ele fala isso e tira o capuz, assim que eu a vejo, minhas pernas fraquejam, minha garganta se fecha e um peso cai sobre mim. Era ele. ERA ele. Ali na minha frente, com os mesmos olhos castanhos sinceros e brincalhões, o mesmo cabelo curto, o mesmo rosto que a pouco tempo eu desejei ver de novo, ele estava bem ali na minha frente, do mesmo jeito que no chalé, do mesmo jeito que no dormitório, ele estava vivo.

—Roney... — Eu dou um passo em sua direção com os olhos marejados, mas ele se coloca em posição de luta novamente, mas dessa vez, ele retira a sua faca, eu estanco e o olho – porque...?

—Sim esse era meu nome – diz ele em um tom indiferente – mas agora esse homem está morto eu sou o que sobrou dele.

—Não... – minha voz falha, não posso acreditar nisso, eu tinha o encontrado novamente, Roney tinha voltado dos mortos, mas não se lembrava de nada, não se lembrava...de mim – isso não é verdade!

Ele me ataca novamente. Ele não era o mesmo, até seu estilo de luta mudou, a sua voz não é mais tão doce como antes, apenas seus olhos, olhos de uma pessoa que sofreu muito, que ainda procura seu lugar no mundo. Minha mente não está mais ligando para a luta, eu tinha vontade de ficar ali, morrer pelas mãos dele, ir para onde a sua antiga alma foi, para o lugar que o Roney que eu conhecia e amava está. Mas eu não faço isso, preciso continuar vivendo, pelo menos alguém precisa se lembrar de você, assim como você é a minha única família, eu sei que também sou a sua única família. O mundo para ao meu redor, sinto a arma em meu coldre e calculo o movimento e a hora certa de atirar, deveria ser apenas o necessário para fazê-lo partir sem dor. Me lembro de todas as brigas e de todas as coisas boas que passamos e sorrio involuntariamente “eu nunca te disse isso, mas eu te amo, obrigado por tudo” penso. Então me movo, minha mão pega a arma e depois se volta para a direção dele. Dois disparos que poderiam ser ouvidos a muita distância e o som de um corpo caindo. Eu não olho. Estava acabado. O silencio toma conta de tudo, mas por pouco tempo. Escuto uma tosse e volto o rosto para a direção em que ele estava, as balas não atingiram a sua cabeça ou o seu peito como eu imaginara, uma atingiu o seu abdome e a outra entre os músculos do peito, ele morreria de esgotamento.

—Lorrain... – Sua voz era baixa e quase morta, ele tinha se lembrado – Lorrain, me desculpe, eu não esperei lá como você me pediu, não é? – Ele sorri, com o sorriso, um filete de sangue sai de sua boca e ele tosse.

Eu corro para o seu lado e pressiono os seus ferimentos, ele não podia morrer agora.

—Não – diz ele segurando a minha mão que estava em seu peito – acabou.

—Não diga besteiras – falo, minha voz sai enrolada e engasgada, junto com ela lagrimas.

—Eu sou uma péssima pessoa não sou? – Ele tosse – eu prometi que não te faria chorar novamente e olha só.

—Estou chorando de alegria seu idiota, eu te encontrei de novo.

—Você nunca foi boa com mentiras – ele sorri e a sua cabeça tomba para trás, parando de me encarar – pode me fazer um favor?

Eu sabia o que era, eu não podia fazer isso, não eu.

— Não me peça isso, não... – mais soluços saem de minha garganta, eu aperto mais ainda a sua mão.

— Por favor Lorrain, a morte, ela dói muito, eu quero que seja você a fazer isso, não outra pessoa.

Eu assinto em meio a soluços e lagrimas caem pelo meu rosto, eu pego a arma que jazia do meu lado, eu estava tremendo. Então aponto a arma para a sua testa, não queria que ele sofresse mais.

— Não chore – ele coloca mão com um pouco de sangue no meu rosto limpando as lagrimas, mas o sujando com o seu sangue – lembra que eu procurava o meu lugar? Então, eu encontrei, é com você, uma pena eu nunca ter dito isso antes, mas... eu te amo Lorrain, sempre te amei.

Eu o olho vivo pela última vez, ele estava sorrindo, mas lágrimas caiam de seus olhos, era a primeira vez que eu o via chorar em toda a minha vida.

—Eu também te amo Roney, sempre foi assim.

Viro o rosto de leve e puxo o gatilho. Um estalo seco e uma luminosidade. Sinto a mão de Roney despencar de meu rosto e cair sobre o meu colo, um turbilhão de lágrimas e soluços brota de mim, junto com eles gritos de pura dor, me deito sobre ele, ele ainda estava quente, nunca senti algo assim antes, e nunca sentiria de novo. Perder a pessoa que amo duas vezes pelas minhas próprias mãos, isso era um fardo que apenas eu irei carregar.

Som de rotores começam a se aproximar, mas eu não os vejo, apenas choro inconsolavelmente sobre o que sobrou de Roney, homens aparecem e me arrastam mas deixam o corpo dele lá, sem que eu pudesse fazer nada.

***

Uma semana depois

Olho pela janela o carro do capitão se afastar, ele ia para mais uma reunião chata. Meu braço depois da cirurgia foi colocado em uma tipoia, mas não doía mais pelo menos. O que mais doía era não poder falar nada a ninguém, pois aí Roney seria chamado de traidor, eu não queria isso.

São em momentos assim que eu acho que fiz a escolha correta, eu vou me lembrar dele para sempre. Abro o bolso da minha farda social e pego algo metálico, nesse pedaço de metal estava escrito o seu nome, eu o aperto e guardo novamente, esse é o último pedaço dele que me restou além de uma cova vazia, talvez esse fosse mesmo meu destino, talvez esse fosse o destino do Project Lorrain.

Notas finais
Acabou !!! Que pena, tomara que me acompanhem nas próxima que eu postar e na outra que ainda está em andamento, vale pelo apoio e vejo vocês nas próximas, abraços
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!