Project Lorrain
13 Cap 13 - Um Fim Inesperado
Notas iniciais
Roney
O dia começava a clarear, observo meus pés se moverem enquanto estou apoiado em Lorrain. Pareço um velho saindo da cama para ir ao banheiro. Estou andando de uma forma que parece que sou mais arrastado do que apoiado, volta e meia meu pé se arrasta e sinto o corpo de Lorrain se contorcer para não deixar o meu cair, mas ela não fala nada. Seu rosto está perto do meu, então percebo sua expressão de preocupação, ela parece atordoada com tudo que aconteceu nos últimos dias, mas ainda sim se preocupa mais com os outros do que consigo mesma, isso era uma das coisas que eu mais admirava nela.
Percebo na sua mão um brilho metálico, foco a visão e percebo que ela segura minha placa de identificação, me lembro do que eu disse para ela quando saí para derrubar aqueles cinco inimigos. Não me arrependo de ter atacado eles, pois se não fosse isso, estaríamos mortos ou capturados nesse exato momento, mas me arrependo de não ter sido mais cuidadoso, me arrependo de estar dando tanto trabalho para ela, justo pra ela...
Continuamos andando sem falar nada, o nosso avanço é muito lento e já estamos nisso há algumas horas, olho para baixo novamente e observo a minha camiseta, vejo um borrão escuro na altura do meu estômago, então percebo que fazia tempo que não sentia dor, apenas sentia o meu corpo rijo. Também não sentia os meus passos, apenas via minhas pernas se moverem automaticamente, me sentia como uma maquina em que alguém colocou uma inteligência artificial capaz de coordenar, mas não sentir. Com esse pensamento eu rio um pouco, não sei mais nem o que eu penso, será que isso faz sentido?
Com a minha risada, uma tosse vem, e junto com a tosse um gosto de ferro, isso era ruim, parecia que eu tinha colocado uma bateria na boca ou mordido um prego, mas tento esquecer isso e continuar andando. Lorrain me olha e finalmente quebra o silencio:
— Fique calmo, estamos quase chegando – diz ela como tom mais calmo possível.
— Tudo bem, eu só acho que nesse passo não vamos chegar tão cedo lá – falo, mas ainda não sei o porquê.
— Bom, caso o senhor não saiba voar, esse é o único jeito – retruca ela quase que imediatamente, ela não parecia mal-humorada, mas sim preocupada.
— Você pode me deixar aqui e...
— Cale a boca – ela me corta – a bala fez danos ao seu cérebro? A Nação do Norte ta atrás da gente, isso seria suicídio.
— Hey, calma, era só uma idéia – falo ainda surpreso pelo tom da fala dela.
— Uma idéia idiota – ela diz ainda bufando, mas não sei se de raiva ou cansaço.
— E alem do mais – ela começa, mas algo a impede de continuar imediatamente – eu pensei que tinha te perdido lá atrás, não quero que aquela sensação se repita.
— Lorrain.. – eu tento falar, mas nada sai, então me calo.
Continuamos andando por mais um bom tempo, o sol começa a sair timidamente por detrás das árvores, com isso eu posso ver que estamos bem perto da estrada, ainda andando pela floresta de coníferas que não era muito densa. Do meu lado esquerdo, eu podia ver o mar por entre as frestas que as arvores deixavam, mas o esforço de me virar para o lado me esgota, então abaixo a cabeça e olho para baixo, é quando eu vejo a magnitude do ferimento: a camisa que antes era branca, agora está com um tom de vermelho escuro quase vivo desde a sua base até a altura do peito, mais a esquerda, onde minha mão está, o tom de vermelho fica mais escuro ainda, então deduzo que embaixo da minha mão está um buraco, e eu não queria ver isso. Observo Lorrain claramente pela primeira vez desde ontem a tarde quando nos escondemos, ela parece atordoada, mas não muito cansada e isso me surpreende, pois eu deveria estar um lixo.
Pensando nisso, me lembro que ela estava em uma maca e aquele homem tinha seringa e instrumentos, será que ele tinha feito algo a ela? Não, duvido muito, chegamos rápido. Afasto esse pensamento e me concentro em andar, mas outro ataque de tosse aparece e dessa vez não dá pra segurar, algo quente passa pela minha garganta e me faz abrir um pouco os lábios, o suficiente para que um filete de liquido vermelho saia, logo em seguida meu corpo passa a pesar como chumbo e eu desabo de joelhos, levando Lorrain comigo.
Por um instante ela não entende o que aconteceu, mas quando me olha no rosto se contorce em desespero, ela tenta não mostrar isso, mas seus olhos a entregam, ela podia saber mentir, mas seus olhos não:
— Acho que isso é mal – falo forçando um sorriso o máximo que eu posso, eu sabia que eu estava morrendo, mas não queria que ela visse isso.
— Temos que nos apressar – diz ela ignorando o que eu disse.
Ela tenta me levantar, mas eu a seguro e impeço seu movimento. Ela me olha imediatamente e eu balanço a cabeça:
— É como eu disse – começo – vai ser mais rápido se você for sozinha.
— Não – ela diz imediatamente com uma voz que sai um pouco trêmula – eu sei o que você quer e eu não vou deixar você fazer isso.
— Escute Lorrain, você quer ser responsável pela minha morte? – pergunto tentando parecer calmo.
— É claro que não – ela responde em um tom elevado – que pergunta idiota é essa agora?
—Então me escute, por favor, você vai conseguir chegar à cidade mais rápido sozinha do que se estivesse comigo nessas condições.
— Mas a Nação do Norte...
— Esqueça aqueles idiotas! – Eu falo e mais tosse sai dos meus pulmões, junto com mais gosto de ferro e sangue, me recomponho e continuo — eles não vão me encontrar se eu ficar dentro da mata assim, então vai dar tempo de você ir à cidade e voltar com reforços.
— Não, eu não vou deixar você aqui sozinho – ela fala sendo mais enfática dessa vez.
— Escute, eu não vou morrer aqui, eu prometo, mas você tem que me ajudar também, por favor. Do mesmo jeito que você não quer ser responsável pela minha morte, eu não quero ser responsável de mais nenhuma lagrima sua, então... Por favor, faça isso.
Ela para por um instante e abaixa a cabeça, acho que eu fui convincente o bastante. Ela me olha e eu vejo tristeza no seu rosto, então eu tive certeza naquele momento que ela entendeu tudo, eu acho que não fui tão convincente assim.
— Só me promete uma coisa? – ela pergunta.
— Claro, mas o que? – eu pergunto também.
— Que você não vai estar morto quando o resgate chegar.
— Prometo – eu digo – e você também me promete uma coisa? Na verdade duas?
— O que seria? – ela pergunta limpando os olhos.
— Uma é que vai ser menos mandona comigo depois disso.
Ela ri:
— E a segunda? – ela pergunta virando o rosto para apagar o sorriso.
— Que um dia desses vai me dar um beijo daqueles que eu te dei no chalé.
Ela cora e ri mais um pouco, então tenta reprimir uma lagrima e finalmente fala:
— A primeira coisa eu não posso te prometer, já que você adora me encher muito, mas a segunda... quem sabe? Por que não?
— Vou esperar esse dia chegar – eu digo e ela sorri.
Então ela se levanta e começa a andar, eu me encosto em uma arvore com dificuldade e a observo andando e olhando para trás de vez em quando, suas palavras ainda estão vivas na minha cabeça “não morra”, isso fica martelando meu cérebro sem parar, junto com a minha promessa. Eu odeio fazer promessas vazias, mas era necessário. Me ver morrer seria muita dor pra ela, e eu não queria isso.
Enquanto penso nisso tudo, um som atinge meus ouvidos, olho pra cima e na árvore bem a minha frente um pássaro canta alegremente. Sua canção é bonita e pacífica, ela me acalma e minha mente que estava obscura começa a clarear. Começo apensar em como eu e Lorrain nos conhecemos: eu me lembro que eu soltei o meu bulldog de estimação em cima de um grupo de garotos, mas o idiota foi pra cima dela, eu fiquei com medo de ele a machucar então fui ao seu socorro, acho que nunca contei isso a ela porque ela provavelmente me mataria se soubesse, ela pode não admitir, mas ficou muito assustada naquele dia. Pensando nisso eu sorrio e com o sorriso uma dor no estômago me trás à realidade. Olho à minha volta e tudo começa a mudar de novo com o canto do pássaro, agora eu me vejo na cerimônia de ingresso na Força Européia, nela eu descobri que ficaria no mesmo quarto de Lorrain, isso me animou muito, ao contrário dela que foi contra, mas acabou se acostumando.
As memórias começam a vir a mim, as boas e as ruins, então eu percebo algo e acabo dizendo isso em voz alta:
— Dizem que quando a alguém está pra morrer, ele vê a sua vida toda diante de seus olhos, será que é assim que acontece? – Então outra tosse com sangue aparece, dessa vez é mais sangue e isso me dá uma sensação de sufocar.
Eu a ignoro, não importava mais. Então continuo pensando em voz alta:
— Engraçado que a Lorrain sempre estava em tudo, acho que ela é bem importante pra minha memória.
Tudo na minha cabeça começa a ficar turvo novamente, o som do pássaro agora está dentro da minha cabeça, juntamente com um tambor que está tão longe que parece uma vibração. Olho pra cima e tudo começa a ficar rapidamente claro demais, isso irrita meus olhos e eu os fecho, sinto que meus membros não me respondem mais, então me concentro no som do pássaro e no tambor, logo o som do pássaro fica distante, se distanciando cada vez mais e mais, vagarosamente. Em alguns instantes, começo a ouvir apenas o tambor... tum, tum tum, tum,... ele parece distante também, e começa a falhar, não sei o que significa ao certo, mas imagino que não seja bom.
Queria ter feito tanta coisa ainda, como viajar, tentar saber de onde é minha família e talvez o mais importante: saber se a pessoa que eu amo sente o mesmo por mim, mas acho que agora é tarde demais pra isso, o meu tambor está cada vez mais lento, “eu te amo Lorrain”, minha mente para nessa frase, eu tento abrir os olhos mas não vejo nada, então tento falar o que pensei novamente, mas as palavras parecem presas na minha garganta me sufocando cada vez mais.
A tensão foge do meu corpo e eu relaxo antes mesmo de fechar a boca ou os olhos... o “ eu te amo” não sai da minha cabeça... não sai...
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