Project Lorrain
14 Cap 14 - O fim da viajem
Notas iniciais
–Lorrain
Corro o máximo de tempo que eu posso, meus olhos ainda estão turvos pelas lagrimas que teimam a se acumular de tempos em tempos. Deixei Roney para trás há quase uma hora, uma dor me corta em duas no peito, por dentro cada centímetro do meu corpo se sentia pesado, cada parte do meu cérebro pensava que eu não deveria tê-lo deixado daquele jeito, mas uma pequena parte da minha mente acredita que assim eu tenho mais chances de ajudá-lo. Me agarro a essa pequena parcela dos meus pensamentos, ela me dava forças para continuar em frente e não desabar no lugar onde estou.
A angústia faz um nó na minha garganta que a cada minuto cresce mais, como se fosse me sufocar. Quanto mais eu corria, mais a vontade de voltar e buscar meu amigo aumentava. Comecei a pensar seriamente nisso, mas nesse instante escuto o som de rotores, eles me paralisam, olho para cima e por entre as frestas deixadas pelos picos das árvores, vejo um grande helicóptero com pessoas em suas portas passar por cima de mim, por um instante tive o impulso de correr para a estrada que estava a meu lado e acenar, mas esse impulso foi sufocado quando eu vi o grande leão negro na lateral da fuselagem, esse era o símbolo da Nação do Norte. Continuo contemplando a grande máquina até que não consigo mais vê-la, então apresso novamente o passo para chegar à cidade, aquele helicóptero foi na direção contraria e eu torcia para que não fosse na direção de Roney.
***
Corro por mais um bom tempo depois de ter visto o helicóptero, minhas pernas doem como se fossem se desprender do meu corpo, mas eu ignoro a dor e o cansaço e continuo seguindo a sinuosa estrada que me levaria à cidade. Começo a escutar ruídos e barulho de pessoas, vozes de pessoas, isso era bom, era uma cidade que estava próxima. Continuo no mesmo passo por pouco tempo até ver algumas construções à margem da estrada, se aquela era a cidade, estava bem perto de mim agora.
Avisto uma parede de tijolos e nela um cartaz de alistamento do mesmo exercito do qual eu faço parte, paro um instante para lê-lo, aquilo acende uma chama dentro de mim, no cartaz, com letras de forma, está escrito o nome da cidade e logo abaixo o desenho de um homem segurando uma arma e sorrindo, como se estivesse feliz, em situações normais, acharia aquele cartaz ridículo, mas nessa situação em particular, isso não me incomoda:
–“Blackwood Pines” – leio no cartaz – então esse é o nome da cidade.
Me lembro que certa vez o general comentou sobre uma base com o mesmo nome e isso me anima cada vez mais.
Contorno o pequeno prédio quase correndo e esbarro com toda a força em um homem. Com o impacto, a sacola e a prancheta que ele carregava voam de suas mãos e caem quase no meio da rua. Nós dois caímos e ele se levanta rapidamente protestando:
–Olhe por onde anda sua... Lorrain!? – se assusta ele assim que vê meu rosto. Nesse momento eu olho para ele e também o reconheço, lá estava ele com seu jaleco branco e seu penteado de artista de pop-rock.
–Doutor Shapperd!? – digo estupefata, mas logo me recupero e começo a relatar tudo.
Cuspo as palavras de uma maneira que ele parece não entender. O medo e a angústia se multiplicam no meu peito me sufocando, minha visão fica turva novamente e só então eu percebo que estou beirando o desespero. O doutor segura meus ombros e olha fixamente para mim:
–Acalme-se – diz ele – não consigo entender o que você está falando.
–É o Roney – digo com o nó na garganta querendo sair pela minha boca – ele precisa de ajuda, por favor!
–O que aconteceu? Onde ele está? – ele parece confuso, talvez eu também esteja com tudo o que aconteceu nos últimos dias.
–Ajude ele, ele levou um tiro no abdome e está sangrando muito – digo tentando falar aquilo de uma maneira que as palavras façam sentido.
–Mas como isso aconteceu? – ele pergunta e sua pergunta me enfurece.
–Dane-se como aconteceu, eu quero que você o ajude, não faça a droga de uma ficha idiota – grito para ele com todo o ar que resta em meus pulmões, ele parece se assustar.
–Tudo bem, vamos pra base e lá vamos arrumar um esquadrão de busca – diz ele ainda pasmo com meu tom de voz.
Entramos em um carro do outro lado da rua e rumamos para a base. Em menos de dois ou três minutos estávamos atravessando o portão principal, a cancela levanta e depois abaixa comandada por um guarda apenas tempo o bastante para o carro passar e adentrar a base. O lugar era amplo e continha algumas construções não muito altas como a do QG. O prédio principal tinha apenas três andares e era construído com tijolos de barro que ficavam aparentes em alguns pontos, perto dele, algumas casas menores que deveriam ser alojamentos, ao redor disso tudo, se encontrava uma cerca de arame farpado sustentado por pilares de aço galvanizado, a cerca delimitava a área do quartel, deixando um amplo lote vazio com algumas árvores que servia de estacionamento.
Desço do carro como um zumbi, todas as minhas forças foram empregadas na corrida até a cidade, não sei quanto tempo eu corri, mas o terreno acidentado acabou com minhas forças. Entramos no pequeno prédio principal e logo entramos no quarto que foi feito de escritório que ficava no primeiro andar. Assim que entrei, tive um susto, Coronel Case estava lá me olhando por detrás de seus ridículos óculos escuros grandes demais, mas não estava usando uniforme militar, mas uma farda diferente, escura e com medalhas no peito. Ele me olha e seu rosto se contorce em um sorriso:
–Vejam quem resolveu aparecer, você está ótima, andou brigando com um urso e levou uma surra? – diz ele me analisando de cima para baixo, então ele para na mancha de sangue na minha blusa e seu sorriso de desfaz – esse sangue...
–Não, não é meu, é do Roney, ele foi ferido tentando salvar a minha pele já que vocês foram muito filhos da puta e nos deixaram para morrer lá – digo com toda a minha raiva explodindo dentro de mim – agora ele está caído na floresta esperando ajuda, dane-se como vocês vão ajuda-lo, mas vocês vão.
O coronel se espanta e olha rapidamente pro doutor antes de me olhar. Por um instante eles não falam nada e isso me faz explodir ainda mais, principalmente quando me pedem calma. Minha visão nesse momento fica rodeada de vermelho, minha cabeça gira e eu soco a mesa com toda a minha força, sinto minha mão atingindo a madeira e um rangido como se algo se quebrasse, mas não vejo se era a mesa ou meu braço. Lentamente escuto a voz do doutor me chamando e eu recobro a minha consciência sã, sinto meus dentes doerem, então percebo que estou pressionando o maxilar e cerrando fortemente os dentes. Olho para o Coronel Rabugento e tento me acalmar pelo menos um pouco, ele me olha assustado e depois escarra como se estivesse desconcertado.
–Muito bem soldado – começa ele voltando a se sentar em sua mesa que agora estava com um uma rachadura em seu tampo – onde está o ferido?
Sinto como se um peso em minhas costas saísse no exato momento em que ele disse essas palavras, começo a contar onde eu o vi pela ultima vez com o máximo de precisão possível. Assim que eu acabo, ele ainda me encara por um tempo e depois se dirige ao doutor:
–Doutor, leve a nossa hóspede esquentadinha para um dos quartos do alojamento e depois venha à minha sala, vou tratar de organizar o esquadrão de busca.
Saímos então os três da sala, inicialmente andamos na mesma direção, mas no primeiro corredor Coronel Case vira e desaparece, eu e o doutor continuamos por um tempo até sair do prédio. Andamos em campo aberto por mais um tempo em silêncio até chegarmos a uma construção mais baixa que o prédio principal. Ele abre a porta e me guia até um pequeno quarto no final do corredor, então me entrega as chaves:
–Entre e descanse, depois da conversa com o Coronel, venho ver como você está, sua mão...
–Ela está bem – respondo um pouco ríspida demais, talvez pelo cansaço ou pela raiva que ainda borbulhava em meu estômago – obrigada.
–Tudo bem então, seu alojamento tem um pequeno freezer, deve ter algo para tomar ou comer, cuide-se.
Não o respondo e entro no alojamento. Olho o lugar e sinto uma pitada de nostalgia, era bem parecido com meu primeiro alojamento. O beliche à esquerda, o guarda roupas à direita espremendo o pouco espaço do lugar e uma pequena escrivaninha, a única diferença era que o banheiro era maior e o lugar contava com um freezer.
Sem pensar duas vezes entro no banheiro para me lavar, precisava tirar aquilo que estava impregnado em mim, mal tiro a roupa entro na ducha, a água é fria, mas eu não noto, minha mente está longe dali, contemplando a água que escorre em um ralo abaixo de mim, circundando e depois sumindo. Ela não tinha cor de água, era de um marrom bem claro, que lentamente ia mudando de cor, se tornando mais viva, mais...vermelha. Meus olhos não se mechem e eu não sinto mais a água cair sobre mim, é como se eu estivesse fora do meu corpo, olhando para baixo e vendo aquele sangue misturado com água saindo da minha pele, mas o mais aterrorizante era que não era meu, era de outra pessoa, mas eu me sentia como se fosse. Outra dor no peito me atinge e eu deixo um soluço escapar, como uma torrente, uma enxurrada de lagrimas saem dos meus olhos, pela primeira vez eu cogitei a hipótese de ele estar morto, o que aconteceria depois? Como seria a minha vida sem ele? Me acostumei tanto com ele no meu pé que agora essa idéia me apavora.
Saio do banho tentando me recompor e me enrolo em uma toalha, me deito um pouco na cama antes de me trocar e acabo adormecendo antes que eu perceba, naquele dia eu não sonhei com nada, meu sono parecia uma escuridão vazia.
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