Proibido Pra Mim

4 Você sou eu, eu sou você


A hora do jantar foi a mais tensa daquela noite. Ao contrário do que sempre acontecia, eu cheguei em casa sem fome. Apesar da macarronada com almôndegas de papai exalar um cheiro ótimo, que me atingiu em cheio quando cruzei o hall da entrada, nem isso foi suficiente a fim de abrir meu apetite. Clarke comia e cantarolava simultaneamente, empolgada com seus planos, o que só contribuía para maximizar meu ímpeto de me erguer da cadeira e virar o prato cheio de comida na sua cabeça.

Porém, embora me regozijasse com a ideia de vê-la furiosa como um touro levando um banho de molho de tomate, não me agradava a premissa de, no dia seguinte, ter minha cara estampada no jornal da escola como a garota mais rodada da turma dos seniores. Se eu tivesse a certeza de que as fofocas se restringiriam à escola, talvez não me importasse. Mas eu sabia que, uma vez que meu nome fosse jogado na lama, seria questão de tempo para eu me tornar o assunto número um da cidade. Eu não podia fazer isso com meu pai.

— Querida, você tá bem? — Papai cobriu minha mão repousada ao lado do prato com a dele, chamando minha atenção. — Mal tocou na macarronada.

— Tô sim, pai. — Exalei um suspiro pesado e forcei um sorriso. — Eu fiquei na cozinha com a Denise hoje e, entre uma prova de doce e outra, acabei comendo demais, por isso que não tenho mais apetite.

Ele me olhou do seu modo penetrante por um segundo, conferindo se o que eu dizia era verdade. Enfim, sorriu e deu dois tapinhas no dorso da minha mão.

— Hmm. Não quero que se empanturre de doces todos os dias, hein. Você precisa comer comida de verdade para ter energia suficiente para essa cabecinha inteligente funcionar. — Cutucou minha têmpora, me fazendo rir. — É sério, Joey. Vejo que você está se esforçando muito para entrar na universidade, eu te apoio e fico feliz com isso, filha. Mas acho que precisa se alimentar melhor e dormir direito.

Concordei com um aceno de cabeça e aproveitei a deixa para me despedir de papai e me ver livre da companhia da minha muito animada irmã, antes que seus sorrisos cínicos e olhares provocadores me levassem a cometer uma falta da qual me arrependeria mais tarde.

— Tudo bem. Então vou tomar banho e me deitar. — Beijei-lhe a bochecha. — Boa noite, pai.

— Durma bem, querida.

Clarke me acompanhou com olhos enquanto eu me retirava. Ao alcançar as escadas, ouvi o arrastar de cadeira no assoalho e, em sucessão, a voz contundente de papai ordenando que minha irmã lavasse a louça do jantar, seguida da sua reclamação e do velho argumento de estar indisposta. Como isso não colou, ela se utilizou de chantagem emocional, alegando que era a filha desprivilegiada e mais um tanto de desculpas esfarrapadas do seu repertório particular de blábláblás, geralmente usado para se safar das responsabilidades para as quais era designada. Manipuladora era eufemismo em se tratando de Clarke Dunkle.

Não escutei o desenrolar da discussão, porque logo ao chegar ao meu quarto, fechei a porta e comecei a me preparar para o banho. Queria tirar o cheiro de comida do corpo e depois me jogar debaixo do edredom quentinho. À medida que eu vestia o roupão e separava meu pijama, a porta foi aberta num rompante, me causando um sobressalto. Só tive tempo de me virar e assistir à Clarke cruzar o cômodo, se lançando estirada em minha cama, como se fosse muito bem-vinda ali.

— O lance é o seguinte... — ela desatou a falar. — Vou te preparar para se portar como uma garota de verdade, pelo menos pelos próximos três meses.

Apertei os lábios numa linha dura, indignada com a ousadia.

— Eu não disse que ia concordar com sua proposta.

— E você tem alternativa? — Minha irmã arqueou provocativamente uma das sobrancelhas.

— Posso dizer não, mesmo que me ferre depois.

Ela riu, elevando o nível da minha irritação a outro patamar.

— Nós duas sabemos que você já concordou com a minha ideia, Joey.

— Se por ideia, você quer dizer chantagem... — alfinetei.

— Não tente se passar por difícil agora. — Cruzou uma das pernas sobre a outra, chacoalhando-a no ar, e apoiou as mãos no colchão numa pose confortável enquanto me encarava incisivamente. — Você terá que dormir no meu quarto, cuidar mais desse cabelo e vestir roupas minimamente decentes.

— O que há de errado com as minhas roupas? — indaguei, ofendida.

— Ah, por favor, Joey... A pergunta mais sensata é: O que não há de errado com as suas roupas? — Clarke se pôs de pé, contornou meu corpo e seguiu até o closet, ainda aberto, remexendo nas minhas peças de roupa sem permissão. A cada cabide que ela retirava, contorcia o rosto numa careta de desgosto. — Além da sua imagem, você terá que agir como eu, essa será a parte mais difícil. Terá que sair com meus amigos e com meu namorado quando...

— Como assim? — cortei-a, completamente surpresa por sua recente revelação. — Você não vai contar nem para seu namorado sobre toda essa merda?

Clarke não se abalou com a minha pergunta. Ao invés disso, deu de ombros despreocupadamente.

— Jake é muito possessivo. Se eu disser a ele que permanecerei em New York durante todo o verão, ele vai surtar e arranjar um meio de me impedir. Com certeza contaria para meu pai e estragaria meus planos. Ou, em último caso, terminaria nosso namoro. Honestamente, não estou afim de abrir mão dele ainda. É o melhor sexo que eu já tive até hoje.

— Merda, me poupe dos detalhes. — Fiz uma careta. Contudo, concomitantemente uma previsão um tanto absurda passou pela minha cabeça. — Mas... ele esperaria o mesmo de mim, não é? Quer dizer, assumindo que o Cabeça-de-minhoca vai pensar que eu sou você, ele vai querer fazer... você sabe, coisas de casal.

— É óbvio que vai.

— Eu não vou transar com ele! — bradei, exasperada.

— É óbvio que não vai — ela replicou num tom impaciente e exalou dramaticamente uma lufada de ar. — Você se sentirá tentada a isso, mas eu não vou permitir, é claro. No máximo, beijos, abraços e alguns amassos.

— Não quero beijá-lo, muito menos ficar de pegação com ele.

— Você fala como se fosse algum sacrifício. Muitas garotas dariam um rim apenas para ter a oportunidade de tocá-lo. — Eu estava prestes a perguntar quem eram as loucas, quando fui distraída pela minha irmã iniciando uma caminhada errante, com o olhar desfocado no espaço ao passo que devaneava em voz alta. — Aquelas piranhas estão como urubus rondando a carniça, só esperando a hora que o nosso namoro acabe. Pois elas que esperem sentadas! Quanto a você, Joey... — Subitamente, ela apontou o dedo para mim. — Não esqueça que está nas minhas mãos. Se por acaso pensar em se vingar de mim prejudicando meu relacionamento, saiba que eu fodo de vez com a sua vida!

Dito isso, rumou para o corredor e bateu a porta contra o batente com tanta força que, por um instante, eu temi que a houvesse arrancado das dobradiças. Que diabos dava nela quando tinha esses ataques repentinos? E como entendê-la? Ao mesmo tempo que parecia sentir ciúmes do namorado, pretendia me jogar nos braços dele como se isso não representasse um grande problema no fim das contas.

🍎🍏

A semana sucessora se arrastou e quase todos os dias minha irmã me honrava como uma das suas invasões ao meu quarto depois do horário do jantar. Ela estava mesmo empenhada na intenção de viajar para New York e fazer o tal curso de teatro por lá. Honestamente, nunca a vi tão obstinada e não saberia dizer se isso era bom ou ruim. Talvez, seu plano fosse somente curtir ao máximo as férias num lugar distante sem a supervisão dos nossos pais. Afinal de contas, a escola de artes dramáticas oferecia alojamento aos alunos admitidos de outros estados/países e, pelo que pude entender, era um curso bastante visado, portanto demasiadamente concorrido.

Para realizar a inscrição, além dos dados básicos pessoais, os candidatos precisavam enviar um vídeo contendo uma encenação caseira. Os selecionados recebiam a resposta de admissão via e-mail ou correio e, para aqueles que não haviam atingido a maioridade, era anexado um formulário que serviria como atestado, cuja assinatura de um responsável legal se fazia imprescindível, especialmente aos que requisitavam a estadia estudantil. Uma vez concluído o curso, receberiam o certificado de muito valor, que, em alguns casos, garantiria o acesso às grandes universidades voltadas às artes.

Clarke me explicou tudo com uma animação acima do normal. Enquanto falava, pela primeira vez vi que ela realmente almejava aquilo. O jeito como gesticulava, vagando de lado a outro no meu quarto, sorrindo amplamente, me pegou desprevenida. Deixou cair sua natural máscara de impassibilidade, transparecendo a satisfação de ter um de seus sonhos mais reclusos a ponto de ser concretizado.

Por vezes, cheguei a refletir seu sorriso, mas rapidamente me recompunha. Caso minha irmã não fosse tão víbora e mesquinha, provavelmente eu pudesse assumir que me achava feliz por ela. Entretanto, em vista das suas chantagens, eu me contentava com a chance de ao menos tê-la longe no decorrer de três meses.

Em contraponto, mesmo que eu estivesse me esforçando para substituí-la, era difícil pensar que não só Clarke, como eu também teria que aprender a ser uma excelente atriz se não quisesse que nos desmascarassem na mentira.

Enfim, o dia do teste final chegou. Contanto que conseguíssemos convencer papai da nossa troca de papéis, possivelmente enganaríamos qualquer um. Bom, qualquer um a não ser nossa mãe. É como dizem, as mães sempre reconhecem os filhos. E mesmo que ela não estivesse presente no nosso dia-a-dia, não ousaríamos nem cogitar a hipótese de ela ser enganada por nós duas. Mas papai já era outra história. Apesar de ser acostumado a lidar com duas filhas gêmeas que se estranhavam desde pequenas, ultimamente ele vivia concentrado no trabalho. Além disso, o Sr. Dunkle se enquadrava num tipo caladão; não puxava muito assunto conosco e, quando estava em casa, preferia passar a maior parte do tempo livre trancado no quarto.

— Droga, isso não vai dar certo! — Comecei a marchar em círculos pelo dormitório da minha irmã, deslizando os dedos através dos cachos recém confeccionados com babyliss. Gotas de suor salpicavam minhas têmporas. — Ele vai nos descobrir, eu sei!

— Joey! — Clarke brandiu, irritada. — Contenha-se, cacete! Vai dar certo, tem que dar certo. E é melhor você fazer meu esforço valer a pena ou sabe que...

— Vai espalhar por aí que eu sou mais rodada que sabonete de quartel — completei num tom monótono. — É, eu já sei disso. Você fez questão de repetir essa merda no meu ouvido ao longo da última semana.

Bufei, consternada, me posicionando ao lado dela diante do espelho da penteadeira. Quem nos olhasse de relance, acreditaria sem pestanejar que eu era a Clarke e que ela era eu. Não havia nenhuma diferença visível, fora uma cicatriz no supercílio que ela adquirira ainda criança, mas que facilmente podia ser disfarçada com maquiagem. No entanto, para mim, eu estava fantasiada para o Halloween.

Definitivamente, ter meus movimentos restringidos por causa daquela calça jeans atarraxada nas pernas, o cabelo modelado aparentando o de uma boneca de pano e preencher cada poro do rosto com maquiagem, não era algo que combinava comigo.

— Estamos ótimas — Clarke disse com regozijo, aprovando nossas aparências invertidas. — Você está uma diva do pop e eu pareço uma sem-teto digna de pena, ou seja, uma autêntica Josephine Dunkle.

— Não dá para cessar fogo pelo menos por enquanto? Até onde eu sei, estou fazendo a maior parte dessa trama e me aventurando numa furada, da qual a única beneficiada será você, caso tudo saia como planejado.

— Relaxa, irmãzinha. Eu só estou brincando. — Ele colocou uma parte do cabelo atrás da orelha e despenteou as sobrancelhas no intuito de transparecer desleixo. O que isso significava? Eu não era tão desmazelada assim. Era? — Bom, vou descer agora. Espere uns dez minutos e faça o mesmo. Demonstre cansaço e mau-humor. Eu detesto acordar tão cedo, acho a escola um desperdício de tempo e energia. Te vejo à mesa. Ah, e não me decepcione.

Antes da porta ser encostada, eu resmunguei, batendo continência:

— Entendido, capitã.

Quando me vi sozinha, finalmente desmontei a postura arrogante e supostamente despreocupada, baixei a guarda e me permiti repensar no que estava prestes a fazer. E quanto mais pensava, mais encurralada eu ficava. Então, era isso. Eu seria mesmo Clarke Dunkle. Encarei meu reflexo no espelho mais uma vez. Na verdade, eu já era Clarke Dunkle.

Suspirei, resignada. Minha última esperança era papai desvendar a mentira. E eu tinha uma péssima sensação acerca disso.

Verifiquei a hora no relógio de pulso e respirei fundo. Puxei um pouco mais para baixo a barra da blusa, mas ao perceber o decote cavado revelando pele demais, preferi deixar tudo como estava antes. Eu ainda não me sentia bem com essas roupas curtas e apertadas, porém não dispunha de tempo para mudanças.

Ok, Joey, hora do show. Faça o seu melhor, garota.

Do mesmo modo entediado e excessivamente mal humorado como minha irmã costumava se mostrar de manhã cedo, eu me arrastei escada abaixo, agradecendo aos céus que pelo menos Clarke não usasse saltos altos para ir à escola. Segundo ela, isso era muito over – seja lá o que isso queira dizer.

Por pouco não dei uma bela mancada ao adentrar a cozinha. No último segundo, mordi a língua e contive o cumprimento de bom-dia ao me deparar com papai sentado à mesa lendo o jornal enquanto bebericava seu café. Fiz minha melhor cara de tédio e praticamente me esparramei na cadeira, comumente ocupada por Clarke na medida em que ela me fitava de frente, estudando cada um dos meus progressos.

— Hoje sairá as notas, não é? — comentou papai, ainda analisando o caderno de esportes.

Um jato de café voou como um chafariz na minha direção. Felizmente, meus reflexos foram eficazes, permitindo que eu arrastasse a cadeira para trás a tempo de evitar o banho. A atenção de papai já não estava no jornal, e sim, assistindo à minha irmã, que agora fora acometida por um acesso de tosse. Ao contrário dele, eu supunha o que a reação da minha irmã significava: seu boletim estava tão vermelho quanto a bandeira da China. A fim de esconder o riso, conduzi minha caneca de café à boca.

— Como o senhor soube disso? — indagou Clarke, tentando se recuperar do engasgo.

Ele sorriu de lado, perturbado com a atitude dela. Nisso, eu murchei. A inocência de papai deixava claro que ele estava convicto de que ela era a Joey. E, bom, eu nunca fui má aluna. Meu currículo acadêmico era imaculado.

— Ora, querida, pra que tanto espanto? — Ele deu dois tapinhas tranquilizadores no dorso da mão de Clarke, como costumava fazer comigo. Enfrentando certa dificuldade, eu empurrei mais um gole de café garganta abaixo. — Não tenho dúvida de que se sairá muito bem. Você sempre fica preocupada à toa. Mas, vamos mudar de assunto. Está tudo certo para a viagem à New York? — Dessa vez, ela aquiesceu, mostrando um sorriso sincero, e ele correspondeu da mesma forma. — Fico contente. Sabe, nunca passou pela minha cabeça que você tivesse interesse em seguir o ramo das artes, achava que a área biológica fazia mais o seu estilo.

Minha irmã deu de ombros.

— Mudança nos planos.

Dois toques familiares de buzina de carro soou defronte à casa. O bom humor de papai foi-se para o beleléu no mesmo instante. Ciente de que se tratava de Jacob, eu continuei tomando meu café da manhã normalmente até ser surpreendida por um chute na canela. Dei um salto na cadeira. Gemendo de dor, eu alisava o local dolorido e fuzilava Clarke, que me devolvia um olhar penetrante. Então, finalmente caí na realidade.

— Bom, é hora de ir — declarei a contragosto, depositando a caneca de café inacabada sobre a mesa, e senti meu estômago reclamar de insatisfação. Eu realmente estava faminta.

Papai voltara a abrir o jornal, visando passar uma imagem inabalada, mas eu pude perceber a tensão em sua voz ao se dirigir a mim antes que eu saísse da cozinha.

— Quero tomar conhecimento do seu boletim assim que você pisar nessa casa, entendeu, Clarke? — ele falou rispidamente. — Se não me mostrar bons resultados, ficará de castigo nas férias e pode ir dando adeus a esse rapaz barra-pesada com quem você continua se encontrando.

A ameaça me deixou bem esperançosa e instigou meu lado perverso. Empertiguei o tronco e fiz a minha melhor encenação de Clarke Dunkle.

— Relaxa, Sr. Dunkle. O Cabeça-de-minho... — detive-me ao me lembrar que a referência depreciativa iria levantar suspeitas. — Hmm... Jake e eu estamos indo muito bem na escola. Com certeza, a Notre Dame ⁶ ficará honrada em nos receber no próximo ano.

— Rá! Essa é boa — ele debochou, ainda com o olhar direcionado à leitura. — Aquele imbecil do seu namorado, com muita sorte, vai conseguir um emprego como mecânico. Isso se aceitarem delinquentes viciados na oficina.

De súbito, Clarke se colocou de pé, transtornada. Nos olhos, carregava um ódio eminente, quase transbordante. E eu estava ansiando por vê-la perder o controle, deixando toda a sua raiva vir à tona. Dessa maneira, ela colocaria tudo a perder por conta própria e não poderia me culpar por isso.

— Já não está na sua hora, Clarke? — ela rugiu, dando ênfase ao próprio nome como sinal claro de aviso. — Vai acabar se atrasando pra primeira aula. Aliás, vou te acompanhar até a porta e esperar a Maya lá na frente. Tchau, pai.

Logo que atingimos o corredor e nos encontrávamos longe da vista de papai, Clarke me tomou pelo braço com brutalidade e praticamente me arrastou no trajeto até a porta da frente. Presumindo esse tipo de reação, eu não ofereci resistência, simplesmente me deixei ser conduzida. De certa forma, me deliciava com a raiva dela.

— Que merda foi aquilo? — Clarke sussurrou ao soltar meu braço com um solavanco.

— Nada de mais, irmãzinha — respondi do modo mais cínico possível e destranquei a porta, revelando a imagem do Polo. — Estou apenas agindo como você. Olha, fique atenta ao caminho. O carro da Maya, às vezes, enguiça e debaixo do capô escapa uma fumaça esquisita. Se isso acontecer, você terá que empurrá-lo e sujará suas mãos. Mas uma bobagem dessa não será um problema. Afinal, agora você é Joey Dunkle e não se incomoda com o trabalho pesado, nem em sujar de graxa essas lindas unhas tão bem-feitas, não é?

Tive que reunir toda força de vontade para não romper em gargalhadas no momento em que minha irmã escancarou a boca, mortificada. De imediato, seu foco caiu para as mãos delicadas com unhas pintadas de cor-de-rosa claro, que jamais haviam executado qualquer tarefa bruta. Não dei a ela a chance de retrucar. Já tinha lhe virado as costas quando Clarke me chamou de volta. Eu a ignorei.

Agora, minha concentração estava em outro lugar: no veículo estacionado a poucos metros adiante, ou mais precisamente no seu condutor. De onde eu estava, só conseguia enxergar o perfil de Jacob, parcialmente oculto pelo capuz de um dos seus velhos conhecidos moletons. Ele não me olhava, mantinha os olhos travados na tela do celular em mãos.

Meu coração disparou no momento em que eu pus a mão na maçaneta do Polo. Não podia evitar o nervosismo sabendo que testar a percepção de Jacob era um ponto crucial. Ele podia intuir a farsa se prestasse um pouco mais de atenção às sutis diferenças, ainda que eu acreditasse piamente que, na maior parte do tempo, o namorado de Clarke vivia viajando no seu mundo particular.

— Oi — ele saudou, desviando-se do celular ao me ver entrar no veículo.

A seguir, se aproximou para um beijo. Enrijeci no assento, tomada pelo pânico. Olhei à volta, buscando algum pretexto no qual pudesse me agarrar e impedir que ele chegasse mais perto. De relance, reparei no cigarro, consumido pela metade, preso entre seus dedos indicador e médio quando ele ergueu a mão esquerda e a encaminhou ao meu rosto. Uma ideia impulsiva se apoderou da minha mente e, no momento sucessor, eu já havia tomado o cigarro de sua posse e arremessado através da janela aberta, torcendo para que isso fosse suficiente a fim de afastar meu suposto namorado.

Funcionou.

— O que... Clarke! — Jacob censurou, surpreso, e recuou.

— Parece que acabei de entrar numa sauna de alcatrão — repliquei com simplicidade. — Aquela porcaria pode te matar em menos de dez anos. Eu te fiz um favor.

Jacob se remexeu no banco, inquieto, avaliando-me com o cenho franzido. Seus olhos examinaram minha expressão por alguns instantes. A intensidade da sua análise me deixou um tanto apreensiva.

— Que porra deu em você hoje? Está no seu período ou brigou com seu pai de novo?

— Nem uma coisa nem outra — tentei soar casual. — Só não sou obrigada a passar o dia exalando um cheiro horrível de carne defumada.

Dessa vez, suas pálpebras se estreitaram.

— Pois a dondoca esteja certa de que, se não quiser ir andando para a escola, da próxima vez é melhor não jogar meu cigarro fora sem meu consentimento.

— Eu não jogarei seu cigarro fora se você não fumar perto de mim. É um acordo bem justo, não acha?

A julgar pela ira transbordante na sua fisionomia e seu olhar afiado em resposta à minha colocação, eu já estava me preparando para a hora em que Jacob ameaçaria pular no meu pescoço. Quando pensei que ele ia desferir insultos cabeludos a mim, Jacob me surpreendeu ao inspirar profundamente e, sem dizer mais nada, virou-se para frente, arremessou o celular em cima do painel e girou a chave na ignição, trazendo vida ao motor. Eu, por outro lado, resolvi me calar. Sabe-se lá quão instável podia ser seu humor. Além disso, incitar a ira de um sujeito com o qual eu estaria obrigada a coexistir pelos próximos minutos e em ambiente fechado, não era um ato muito são.

Fazíamos uma viagem silenciosa. Ele, com as mãos firmes ao volante e o foco na estrada, sustentava traços enigmáticos, mas igualmente inexpressivos, não me dando nada de graça. Eu não tinha ideia do que se passava nos seus pensamentos. Na realidade, Jacob parecia estar longe dali, como se minha companhia fosse algo irrelevante.

Em determinada altura, ainda aéreo, ligou o rádio e sintonizou em uma estação conhecida por cavoucar de tempos passados clássicos do rock’n roll. A voz enrouquecida de Bon Jovi entoava Always, uma das minhas canções favoritas.

— Amo essa música — comentei baixinho comigo mesma em meio a um suspiro emocionado.

Por intermédio do meu olhar de canto, notei Jacob se voltar para mim. Ele me ouviu, e essa não tinha sido minha intenção. Senti as bochechas corarem quando o encarei.

— O quê? — questionei num sopro.

Ele sorriu, o que me surpreendeu, porém não o bastante para que eu ignorasse a beleza de tal ato. Ou eu não estava acostumada a vê-lo sorrir, ou simplesmente nunca tinha reparado nisso até então.

— Nada — respondeu com ar brincalhão. — É que... bom, eu nunca te vi tão emotiva por causa de uma música. Na verdade, nem sabia que curtia rock antigo. Chutaria Lady Gaga ou Katy Perry.

— Gosto delas também. E, como é de se esperar de alguém nascida e criada no Alabama, de um bom country.

— Ah, não! — Ele riu. — Assim você me decepciona, gata.

Sem que eu previsse, uma das suas mãos deixou o volante e migrou para minha coxa. Apertou levemente a região antes de tatear à procura da minha mão e, ao encontrá-la, entrelaçou nossos dedos. Imaginei que era sua maneira subjetiva de dizer que estávamos bem e que eu fora perdoada. Não que isso fosse um bom sinal. Eu preferiria que ele continuasse zangado e mantivesse distância de mim. Tanta proximidade repentina me deixava desconfortável e em sobrestado de alerta.

Com a chegada ao nosso destino, me apressei em desfazer o contato entre nós, joguei a mochila sobre o ombro e desembarquei rapidamente do carro. Contudo, não rápido o suficiente. Jacob me prendeu pelo cotovelo e, ao olhá-lo, ele parecia tenso, com o semblante carregado de expectativa.

— Espere um segundo. Preciso falar com você antes da gente entrar.

Já do lado de fora, passei os olhos pelo estacionamento, observando-o encher conforme a aproximação do horário de início das aulas. Alunos sonolentos e ao mesmo tempo contentes em função da contagem regressiva para as férias de verão, caminhavam com seus grupos de amigos, entre piadas e bocejos, rumo ao prédio da escola.

Jacob acionou o alarme, contornou o veículo e postou-se à minha frente. Baixou o capuz do moletom, expondo os fios do cabelo bagunçado apontando para múltiplas direções. Do bolso dianteiro da calça jeans, tirou um tablete fino e retangular envolvido com papel laminado. Arregalei os olhos, momentaneamente preocupada com a possibilidade de se tratar de papelote de entorpecente, mas logo me acalmei – e fiquei constrangida – ao reconhecer o pacotinho de chiclete, que, de acordo com a cor, supus ser de menta.

Jacob o colocou na boca, mastigou algumas vezes, e então começou a falar:

— Não quero começar o dia brigado com você, gata. — As pontas dos seus dedos deslizaram, fazendo uma trilha da minha bochecha até o queixo, onde pressionou suavemente. — Vamos esquecer o que aconteceu mais cedo, tudo bem?

Limitei-me a balançar positivamente a cabeça. Depois disso, ele dizimou a distância que nos separava e dessa vez eu não pude fugir do beijo. O sabor refrescante de menta em seu hálito disfarçava a nicotina. Uma coisa eu tinha que admitir: os lábios carnudos de Jacob eram muito mais macios do que eu podia imaginar. Não que a textura dos lábios dele fosse um tema frequente dos meus devaneios.

Uma das suas mãos segurou minha nuca ao passo que a remanescente espalmou-se em minhas costas, puxando-me para mais perto. Mesmo que eu permanecesse relutante, era gradativamente vencida por sua insistência. Mais um pouco e nossos corpos se fundiriam.

Um som intermitente e irritantemente alto de buzina e o grito de “procurem um quarto”, muito provavelmente advindo de algum engraçadinho do time de futebol, fez com que Jacob findasse o beijo.

— Esses caras são uns malditos estraga-prazeres — ele disse com uma mescla de chateação e humor.

Ajeitei a alça da mochila no ombro, envergonhada, enquanto mirava a ponta dos meus tênis na esperança de que meu desconserto não estivesse tão evidente quanto eu achava que estaria.

— Ah, qual é? Clarke Dunkle tímida? — Jacob disse, divertido, e roçou os lábios em minha têmpora, abraçando-me de banda à medida que começamos a andar em direção ao pátio. — Essa é novidade pra mim.

Ainda que a observação dele houvesse me preocupado, não reprimi o impulso de rir. Realmente, timidez não combinava com a minha irmã. A propósito, falando no diabo... No momento em que ergui a cabeça, meu olhar travou com o dela, e a dita cuja não parecia nada feliz. Instintivamente, me encolhi, como se tivesse acabado de levar um soco no estômago.

Ah, que maravilha!


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⁶A Universidade de Notre Dame é uma das mais famosas instituições de ensino superior privado do mundo, localizada na cidade de Nova Iorque.