Proibido Pra Mim
5 Clarke Dunkle, prazer
— ...mas não tinha a mínima necessidade de se atracar com o meu namorado na frente de todo mundo daquele jeito!
Perdi a parte majoritária da reclamação, minha cabeça pesada beirando uma explosão nuclear depois desse enfadonho ensaio de discurso presidencial. Agora eu podia entender de onde surgia seu poder de persuasão. Se Clarke realmente estivesse concorrendo a qualquer candidatura, eu seria capaz de votar nela somente para fazê-la se calar.
Rolei os olhos pela milésima vez naquela noite. Sentada na beirada da cama, larguei o corpo para trás, sendo amparada pelo colchão macio, e cobri o rosto com o travesseiro, agarrando-me no limite para não gritar. Eu sempre soube que Clarke era um pé no saco, mas ela já tinha extrapolado sua cota de chatice diária. E qual o motivo da bronca? Simples, minha irmã ficou uma fera após ter presenciado a cena do estacionamento.
Não que ela tivesse argumentos dignos para me culpar. A própria decidiu manter o namoro, ainda que estivesse longe e me pressionou a assumir seu lugar, inclusive dando-me carta branca para beijos e amassos com seu namorado. Mas, no fundo, embora eu não estivesse namorando de verdade, entendia que uma coisa era concordar com a traição em prol de um “bem maior”, outra coisa era presenciar a cena. Minha irmã estava com o orgulho ferido e eu temia que isso se voltasse contra mim, porque, quando magoada, Clarke deixava emergir a pior de suas facetas.
— E o que você queria que eu fizesse? — explodi, arremessando o travesseiro para o lado. — Que dissesse “Hey, Jacob, você não pode me beijar, porque ultimamente eu tô numa crise de herpes labial ferrada. Aliás, por precaução, pelos próximos três meses é melhor você ficar bem longe da minha boca.” Assim tá bom? Certamente ele não desconfiaria de nada.
Ela me dirigiu um olhar afetado, injetado de ira. Em seguida, levantou-se do banco em frente à sua penteadeira e passou as mãos nos cabelos, visivelmente conturbada com seus pensamentos.
— Essa merda não vai dar certo — declarou.
— Ah, finalmente estamos concordando em alguma coisa! Termine seu relacionamento antes de viajar e nós duas ficaremos livres. — Suspendi o tronco novamente. — Falando nisso, você ainda não me disse qual desculpa devo usar quando ele quiser fazer sexo.
— Sei lá... — Clarke fez um gesto displicente com as mãos. — Invente uma infecção qualquer.
— Infecção?
— É, Joey — falou com impaciência. — Infecção urinária. Diga que você anda sentindo dores enquanto estão fazendo sexo, então precisam dar um tempo até melhorar.
— Isso não vai afastá-lo por três meses, Clarke!
— A gente arranja outro pretexto depois.
Minha irmã era inacreditável. Quanto tempo costumava durar o tratamento para uma infecção urinária? Uma, duas semanas, no máximo? O que eram quatorze dias em comparação à noventa? Isso não ia conter um cara de dezoito ou dezenove anos, cheio de tesão e que se arriscava quase todas as noites a ser pego em flagrante pelo pai da namorada ao se esgueirar pela janela do quarto a fim de saciar seu desejo carnal. Se ele era capaz de tanto esforço por uma foda, o que seria uma garota lhe dizendo que estava indisposta pro sexo?
Pensei em argumentar sobre isso com Clarke, mas acabei desistindo. De qualquer forma, ela estava pouco se incomodando com meu lado. Bastava saber que eu não transaria com ele, o resto ficava por minha conta, ainda que eu não tivesse ideia do que ia fazer. Talvez devesse comprar um spray de pimenta e guardá-lo na gaveta do criado-mudo ou reforçar o trinco da janela.
— Não se esqueça de que nos falaremos por Skype todas as noites. Todas! Entendeu, Joey? Não quero você por aí solta com o Jake.
— Rá! Até parece que eu sou uma daquelas garotas com quem você anda... — estalei.
Ela não pareceu ofendida, nem ao menos ligava para o insulto às suas amiguinhas rodadas. Verdade seja dita, a má fama as precedia, de modo que minha observação não era exatamente uma novidade.
— Mantenha-as longe do Jake também — ela me surpreendeu ao dizer.
Claro que eu estava ciente de que algumas garotas, como por exemplo, Doria Spacey, arrastavam descaradamente uma asa para o namorado da minha irmã. Entretanto, raramente Clarke parecia abalada com isso. Ela era confiante demais para deixar a invejosa e falsa Doria se vangloriar com uma demonstração tola de ciúmes.
— Por que eu não represento uma ameaça, então? — questionei, curiosa. — Quer dizer, eu vou passar três meses sendo você, e você mesma falou que eu ficarei tentada a transar com Jacob.
Clarke riu. Na realidade, não riu; ela gargalhou, com direito a um bater de palmas frenético e uma jogada de cabeça para trás. A meu ver, eu tinha acabado de dar a ela um show de stand up e nem sequer sabia por que. No fim do seu espetáculo, Clarke enxugou algumas lágrimas que rolavam pela face e, ainda ostentando um sorrisinho irritante, me olhou com forjada compaixão.
— Ah, Joey... Ninguém pode acusá-la de não ter bom humor. Querida, você não faz o tipo dele, é muito sem sal. Jake é muita areia pro seu carrinho de mão.
De imediato, não tive uma resposta. Quer dizer, não que ela tivesse condenando minha aparência, já que éramos praticamente iguais. Contudo, havia jogado na minha cara que eu era insossa e incapaz de arranjar alguém minimamente decente que pudesse me desejar. Não que Jacob fosse um protótipo masculino de decência, mas se nem ao menos ele estivesse propenso a me querer, quem mais o faria?
Logo que tal pergunta me veio à mente, não acreditei na possibilidade de estar avaliando esta ideia. Não, de jeito nenhum eu ansiava para que o namorado de Clarke se sentisse atraído por mim. Droga! O que ela estava fazendo com a minha cabeça?
Abri a boca na intenção de retrucá-la, mas era tarde demais; ela já tinha aberto a porta e estava de saída rumo ao corredor. Não antes, contudo, de deixar mais um comentário piadista disperso no ar.
— Ameaça! Essa foi ótima! — Riu mais uma vez ao mesmo tempo que desaparecia de vista.
Cretina.
🍎🍏
Os dias passaram em ritmo tão acelerado que me fizeram ter a impressão de que haviam se aglutinado uns aos outros. Nossos boletins foram lançados – o online; o impresso, entregue aos pais que podiam comparecer às reuniões bimestrais (o que não era o caso do nosso); e aquele que ficava exposto no mural das respectivas classes. E, como já era previsto, minhas notas mostraram-se excelentes e as de Clarke, uma vergonha monumental, exceto nas matérias relacionadas às artes e história. Não que ela tivesse estudado exclusivamente para estas, na verdade, ela não estudava para nada. Nunca.
Eu jamais reparei ou mesmo tive interesse em perceber que ela era realmente boa nisso. Pena que ir bem nessas disciplinas, por si só, não garantiria sua entrada em uma universidade respeitável. Mas a essa conjuntura eu duvidava que este fosse seu real objetivo.
A única diferença foi que, dessa vez ela quem recebeu as congratulações e eu, os sermões de papai, uma vez que já estávamos assumindo os papéis trocados. Juro que, quando deixei a cozinha naquela noite, minhas orelhas estavam quentes e latejantes. Não sei como Clarke conseguia suportar essa espécie de tortura. Provavelmente, desenvolveu ao longo dos anos um escudo acústico, com um controle remoto mental acoplado que a colocava sob estado robótico, apenas para responder sim ou não quando conveniente. Por outro lado, eu não tive a mesma sorte. Admito que após meia hora do monólogo, enquanto meu pai bradava aos quatro cantos e arrancava chumaços do próprio cabelo, eu me perdi em pensamentos, idealizando que, no dia seguinte, minha irmã estaria em New York e eu, no Alabama, de castigo. Será que valeria a pena para mim participar desse rolo?
— ... durante toda as férias de verão! Entendeu? — papai gritou, espalmando ambas as mãos na mesa de jantar.
Agradeci mentalmente pelo móvel ser daqueles antigos, confeccionados a partir de uma madeira resistente, do contrário, seu tampo teria espatifado em mil pedaços tamanha a força que ele empregou sobre a mesa.
Assenti em resposta, supondo se tratar do ultimato do meu castigo – injusto, por sinal.
— Eu deveria mandá-la para sua mãe! Mas, no fim das contas, você ia ficar bem contente, né? Andar com aqueles pivetes do Brooklin, fumar maconha e... Que Deus me perdoe! Seria capaz de voltar pra casa com uma tatuagem! — ele atirou como se fosse a pior das ofensas.
Meu pai se enquadrava no típico figurão do interior, criado com bases conservadoras, que considerava tatuagens e piercings violações bíblicas ao corpo. Na sua concepção – um tanto deturpada –, ninguém com essas marcas podia ser considerado uma pessoa decente. Somente integrantes de gangues, marginais e arruaceiros se prestavam a macular a pele dessa maneira tão vil. Não era de se estranhar que ele não gostasse de Jacob e seus desenhos distribuídos pelo pescoço, braços e peito.
— Oh, claro, isso seria terrível! — não resisti ao comentário sarcástico.
Este foi um erro crasso. E que me custou mais meia hora ininterrupta de sermão. Cerrei os dentes, certificando-me de manter a boca fechada dessa vez e punindo-me internamente pela minha língua grande assim que papai tornou a discursar e a vagar pela cozinha, indignado devido à minha ousadia em desafiá-lo.
Então, após uma hora inteira, um pai com olhar assassino e uma advertência, eu finalmente fui dispensada. Corri em disparada para meu quarto, onde me recolhi a fim de pensar em quão terríveis seriam os próximos meses. Nada de saídas com meus melhores amigos, nada de passeios ou planos de viagem, e se ainda tivesse a pretensão de participar dos treinos para o campeonato de natação, teria que rastejar aos pés de papai e lhe prometer que estaria em casa logo em seguida, sem desvios no meio do caminho.
Droga. Droga. Droga. Como eu fui me meter nessa roubada? Ah, sim, por causa de uma bendita ideia de debutar no sexo antes que o ensino médio terminasse.
Caso papai tomasse parte dos meus planos para aquele dia em que estive sozinha no quarto com Ted, com certeza a raiva decorrente do boletim tingido de vermelho de Clarke seria fichinha perto da explosão nuclear que se romperia dentro dessa casa. Portanto, era melhor para todos nós que ele permanecesse na ignorância, seu rifle, guardado em segurança dentro do armário, e meu melhor amigo, com todas as partes do corpo intactas.
— O Sr. Dunkle pegou pesado dessa vez, hun? — Clarke irrompeu pelo meu quarto, fazendo com que a claridade do corredor incomodasse minha vista acostumada à escuridão. — Ouvi daqui de cima seus berros. Já estamos no último ano da escola e ele não desiste dessa ideia de me pôr na linha. — Ela revirou os olhos. — Qualquer dia desses terá um colapso nervoso ou um AVC.
— Você também não facilita para o lado dele.
De pé, empertigada ao lado da porta escancarada e segurando a maçaneta, mesmo que minha irmã estivesse contra a luz, presenciei seus traços se contorcerem em notório desacordo com a minha observação.
— Sério que você não cansa de ser a menininha do papai? Cresce, Joey! — Dito isso, ela se pôs para fora, voltando a fechar a porta, todavia deteve o movimento antes de ser concluído e, através da fresta, colocou a cabeça para dentro do cômodo novamente. — Ah, e tenha um bom verão. O meu, com certeza, será magnífico, especialmente por estar bem distante daqui.
A porta chocou-se no limiar e eu fiquei lá, por longos minutos encarando o teto, no qual eram projetadas as sombras da rua. Uma dor de cabeça aguda começou a me espezinhar. Fechei os olhos e tentei esvaziar a mente. Talvez, três meses passassem rápido... ou fosse o período mais arrastado da história! Merda.
Eu não tinha como prever nessa altura, porém esses poucos meses fariam toda diferença e mudariam minha vida para sempre.
🍎🍏
Papai realmente ficou emocionado quando deu o último abraço apertado de despedida em Clarke. Claro, pensando se tratar de mim. Jamais o havia visto com os olhos marejados e isso me deixou um pouco emotiva também. Ele parecia ansioso com a ideia de não ter seus olhos sobre ela por um tempo demasiadamente extenso e ao mesmo tempo contente e orgulhoso por ver uma das suas filhas dando o primeiro passo para a independência.
A voz no alto-falante anunciou a última chamada para o voo sem escalas com destino à New York. Clarke mostrava-se impaciente com tantas recomendações de papai, mas manteve-se firme no seu personagem e até sorriu à medida que ele lhe instruía a não cair na conversa de estranhos e telefonar assim que o avião aterrissasse.
Clarke se adiantou em direção ao portão de embarque, arrastando duas malas enormes de rodinha e, nas costas, carregava a mochila, que eu costumava usar na escola – sim, ela pensou em todos os detalhes para evitar dar bandeira –, repleta de roupas novas e um laptop, especialmente comprados para a viagem. Nem queira saber quanto papai teve que desembolsar nesta brincadeira, fora as passagens de avião, as mesadas que ele prometeu lhe enviar, e as despesas com o curso de teatro e estadia. Convenientemente – para mim, pelo menos –, ninguém cogitou mexer nos fundos da poupança para a faculdade. De qualquer modo, Clarke tinha noção de que eu nunca ia concordar que ela chegasse tão longe.
Limite rígido, Grey.
Já na borda do corredor, após entregar o bilhete para uma comissária sorridente, ela virou-se e acenou mais uma vez, possivelmente calculando que papai estaria com os olhos fixos nas suas costas. Se foi isso que ela pensou, não estava errada. Prontamente, ele agitou o braço no ar, acenando de volta, então minha irmã sumiu da nossa visão.
— Ela vai ficar bem, Sr. Dunkle. — Dei dois tapinhas no braço do meu pai, surpresa depois de ouvi-lo fungar ao meu lado.
— Espero que sim — ele disse com voz embargada. Em seguida, sorriu, ainda olhando na direção aonde Clarke se encaminhara. — Mas sabe de uma coisa? Se fosse você lá, embarcando naquele avião em vez da Joey, eu acho que não teria paz um minuto sequer enquanto estivesse fora.
Eu ri, contagiada com o humor da sua colocação, embora estranhasse tais emoções contraditórias e absolutamente incompatíveis com a sua personalidade. Será que papai também tinha um irmão gêmeo com o qual trocou temporariamente de lugar? Isso daria um reality show dos bons no fim das contas.
— Nós estamos muito perto de completar dezoito e não há nada que possa fazer a respeito disso.
— Há uma coisa. — Ele abriu um sorriso triste na medida em que avaliava meu semblante.
— Ah, é? E o que seria? Nos trancar no porão e jogar a chave fora?
— Não. Melhor que isso. Guardar as lembranças da infância das duas. Ainda que estejam em estágio quase completo de mulheres formadas, pra mim, sempre serão minhas garotinhas briguentas, que faziam da nossa casa um campo de guerra. — Ele riu e, por conseguinte, expirou pesadamente. — Mesmo que não acredite, Clarke, eu não amo sua irmã mais do que a amo; apenas ajo de acordo com o comportamento que cada uma apresenta. Joey é mais carinhosa e responsável e você, teimosa e criativa, sempre precisando de uma dose extra de disciplina. Mas eu não mudaria nada em nenhuma das duas; amo cada parte do que são. Sem a sua personalidade forte, você não seria Clarke Dunkle.
Ele deu uma piscadinha e encaminhou o braço para mim, dando a entender que sua intenção era me envolver num abraço, entretanto se deteve no meio da ação e recolheu o braço, limitando-se a sorrir outra vez. Deu meia volta e começou a caminhar noutro sentido, para as portas de saída do aeroporto, diante das quais deixou sua caminhonete estacionada.
Não havia dúvidas de que ele conhece muito bem suas filhas. Clarke não era adepta a afeto explícito. Por outro lado, me coube lamentar não ser confortada em um abraço de tudo-vai-dar-certo.
🍎🍏
Ao chegarmos em casa, papai se isolou em seus aposentos e, mesmo mais tarde, na hora do jantar, notei seus olhos tristonhos varrerem ao redor da mesa, buscando pela terceira pessoa ausente.
Saí do banheiro após uma boa chuveirada, que levou ralo abaixo um pouco da imundície das mentiras impregnada em mim. Enrolada na toalha, automaticamente virei para o lado do meu quarto quando me lembrei que, durante três meses, aquele cômodo ficaria desocupado. Suspirei pesadamente, refazendo a trilha em direção ao dormitório da minha irmã, respigando água, que gotejava do meu cabelo encharcado no carpete do corredor. Ao me ver naquele dormitório com vista para os fundos da casa, uma sensação de perda de identidade me acometeu. Eram muitos bibelôs de anjinhos espalhados pela cômoda, luzes coloridas enfeitando o espelho da penteadeira, flores, velinhas aromatizadas... Frufru demais pro meu gosto.
Ponderei a possibilidade de dar uma driblada nas regras e me refugiar no meu quarto, com as minhas coisas; vestir meu pijama confortável com a calça de moletom e calçar minhas pantufas de dinossauro. Descartei imediatamente esta ideia. Isso seria totalmente não-Clarke. Se porventura meu pai me visse usando minhas roupas, com certeza sacaria a mentira na hora e sabe-se lá Deus o que aconteceria em seguida. Claro que eu levaria a descarga da sua fúria em primeira mão, uma vez que minha irmã já estava em outro estado. Mas, vendo por outra ótica, até que seria engraçado vê-lo irritado, indo buscar a Clarke em New York pelos cabelos.
Uma risada me escapuliu.
A rajada de vento frio da noite entrou pela janela e me pegou em cheio. Estremeci, apercebendo-me sentada na beirada da cama, nua e segurando o nó da toalha. Desanimada, caminhei até a janela, fechei-a, passando o trinco e estacionei de frente para a cômoda. Minha boca abriu-se em um bocejo. Nem sequer tinha me dado conta do meu cansaço. Acho que o primeiro dia fingindo ser outra pessoa demandou mais esforço da minha parte do que eu inicialmente havia me atentado.
Abri a primeira gaveta, intuindo se tratar do lugar onde estavam guardadas as roupas íntimas. Não que eu planejasse usar as calcinhas da minha irmã, mas já que eu possuía carta branca para xeretar, por que não?
Percebi, por intermédio do espelho, minha boca se abrindo em um quase perfeito "O" ao que suspendi no indicador uma tira minúscula de cetim preto com uns babados de renda nas laterais. Puta merda. Isso certamente não era uma calcinha, não podia ser. Desatei a gargalhar, quase me engasgando com a minha própria saliva.
Revirei mais algumas peças, notando que quase todas seguiam o mesmo padrão mínimo, justo e sexy. Tenho que dizer, não usaria uma coisa dessas nem em um milhão de anos! Além de parecem extremamente desconfortáveis, tinham uma pegada muito vulgar. Entre um fuxico e outro, um papel escorregou de cima de um sutiã e caiu aos meus pés. Ao abri-lo, as letras maiúsculas deixavam bem claro seu recado: FIQUE LONGE DAS MINHAS LINGERIEIS OU EU QUEBRO SEU PESCOÇO QUANDO EU VOLTAR!
Fiz um muxoxo e guardei de volta os pedaços de trapos que provavelmente custaram meu salário inteiro. Como ela se deu a esse luxo não saberia dizer, porém conhecendo-a tão bem poderia afirmar que não foi com um dos cartões de crédito do papai ou a essa altura eu seria filha única.
Após conferir e atestar que o corredor achava-se vazio, andei, pé ante pé, até meu quarto a fim de vestir uma calcinha. Ao retornar, catei uma calça de dormir larga – a única que Clarke possuía – e uma blusinha de alça na última gaveta, aquela na qual ela guardava roupas velhas, as que ganhava de aniversário mas não usava e as que ficaram pequenas demais, especialmente depois que começou a levar a academia a sério.
Sequei o cabelo apenas com a toalha e penteei para trás de qualquer jeito. No dia seguinte, teria que modelá-lo como Clarke costumava fazer, pois dormindo com ele molhado, eu acordaria com uma juba de leão colada à cabeça. Não que eu me importasse, no máximo faria um rabo de cabelo ou coque. No entanto, Clarke sempre vivia impecável e por ora eu era ela. Infelizmente.
Tentei me distrair com um livro, entretanto, muito embora a leitura fosse cativante, o sono me venceu cerca de meia hora mais tarde. Só tive tempo de desligar o abajur e me encolher em concha debaixo do edredom, largando meu exemplar de Persuasão da Jane Austen na mesinha de cabeceira.
A sensação era de que haviam se passado apenas uns cinco minutos desde que fechara os olhos, talvez eu já estivesse sonhando. Escutei um barulho baixo vindo do lado da janela, mas minhas pálpebras estavam demasiadamente pesadas para que eu viesse a conferir o que acontecia. É o ruído do vento, pensei. Ou um galho da macieira trepidando contra o vidro da janela. Ou, quem sabe, apenas fruto da minha imaginação.
Liberei uma respiração prolongada e apertei os braços um pouco mais ao redor do travesseiro que eu tinha encaixado também entre as pernas. Às minhas costas, o colchão cedeu. No momento seguinte, um corpo se moldou ao meu e um braço forte contornou a minha cintura, puxando-me de encontro a um peito firme e quentinho. Um murmúrio deixou meus lábios quando dedos suaves afastaram os fios de cabelo do meu pescoço a fim de que um beijo fosse plantado na região. Então, uma sequência de pequenos toques de dedos e lábios escorregaram pela minha pele da nuca, descendo devagar para as costas... O braço se estreitou possessivamente à minha volta. Inconscientemente, me peguei empinando a coluna e, com isso, esbarrando num volume rígido.
— Clarke — A voz enrouquecida soou ao pé do meu ouvido como um ofego de excitação.
Abri os olhos. Abri não, ejetei um palmo de olho. Fiquei de pé em dois tempos, pulando da cama como um gato escaldado, apalpando a mobília em busca de qualquer objeto à mão que pudesse arremessar contra quem quer que fosse que estivesse me encoxando dentro da minha casa, na minha cama e...
A luz do abajur foi acendida.
Eu me encontrava de pé, espremida contra a parede e segurando, com mãos trêmulas, um livro(?) na frente do peito. Jacob, sentado no meio do colchão, me encarava com o cenho franzido. Eu estava a ponto de lhe perguntar que porra ele fazia na minha cama quando percebi a cortina balançando com a brisa devido a janela estar escancarada. Cacete! O marginalzinho arrombou o trinco?
— Desculpe ter te assustado desse jeito. — Jacob parecia confuso e envergonhado. E, bem, ele deveria estar mesmo. — Eu só queria te surpreender.
— Surpreender? — Minha voz se projetou, refletindo minha descrença e, enquanto passava uma das mãos gelada na testa, um riso nervoso me sacudiu. — É sério isso? É claro que me surpreendeu! Quase tive um ataque cardíaco, porra!
— Ei, ei! Calma, não é para tanto. — Um sorriso cafajeste se configurou em seus lábios e ele deu tapinhas no lugar vago ao seu lado. — Vem cá, delícia.
Delícia? Esse mané só podia estar tirando uma com a minha cara. Por que minha irmã tinha que namorar um sujeitinho tão... tão... Argh! E agora? Como eu me safaria dessa enrascada? Deitar na cama com ele? Ah, mas nem fodendo! (Com o perdão do trocadilho).
— Jacob, já está bem tarde... — disse pausadamente, dando a deixa para seu raciocínio lento assimilar minha fala e ele dar o fora.
— Eu sei. E o que que tem? — O namorado da minha irmã mantinha aquele sorriso insolente na cara enquanto se arrastava para fora da cama e começava a avançar para mim, segurando meu olhar ao dele e andando com genuína lentidão, como um felino cercando sua presa. Ao falar novamente, sua voz era propositalmente baixa. — Você nunca reclamou das minhas visitas noturnas. Além do mais, seu pai deve estar no décimo terceiro sono a essa altura e eu estava louco de saudade de você. — Seus braços contornaram minha cintura e, num solavanco, fui arremetida de encontro ao seu corpo firme.
O nariz de Jacob deslizou pelo meu pescoço ao mesmo tempo que suas mãos desciam para minha bunda. Desvencilhei-me antes que a iniciativa atrevida se desenvolvesse.
— É que... — Pensa rápido, Joey! — Eu não tô me sentindo muito bem hoje.
— O que você tem? — Toda a diversão pervertida em seu rosto fora substituída por preocupação.
— Cólica menstrual. — Fiz uma careta a fim de reforçar a encenação. — Ugh, um horror! Parece que está descendo o Mar Vermelho do alto das minhas pernas.
Segundo minha previsão, ele faria uma cara de nojo e arranjaria uma desculpa para se mandar, já que, na minha limitada experiência com o mundo masculino, eu sabia que eles detestavam a simples menção da palavra ‘menstruação’ e toda a situação constrangedora que a envolve. Contudo, me enganei. Em vez de desconforto, Jacob demonstrava certa desconfiança. Alternou olhares entre minha barriga, seios e rosto. Eu já estava achando tudo isso muito estranho. De repente, ele estreitou os olhos e cruzou os braços em frente ao peito.
— Engraçado... pensei que você havia dito que tomava pílula, porque tinha endometriose. E não podia menstruar, porque sentia dores horrendas. Além disso, nem sua barriga nem seus seios parecem inchados.
Por fora, eu era a impassibilidade em pessoa. Por dentro, meu queixo despencou. Caso eu estivesse sozinha, a seguir teria um ataque de histeria, com direito a chutes e socos no ar. Merda! Ele sabia que minha irmã não podia menstruar. Até eu tinha me esquecido desse diagnóstico que ela recebera por volta dos quinze anos, depois de passar por vários médicos e sofrer a cada período menstrual com dores insuportáveis. Agora me recordava de ser arrancada da cama por papai às altas horas da madrugada para levarmos Clarke ao pronto-socorro. Mas o que mais me impressionava nessa história toda é que Jacob sabia exatamente como se comportava o corpo feminino durante o período menstrual. Merda dupla!
— E-eu me descuidei esse mês e acabei não tomando o remédio direito. Sabe como é, a tensão das provas e o semestre acabando...
Larguei-me meio de lado ao pé da cama, passando a mão na altura do útero na finalidade de ser mais convincente quanto a minha encenação. Como complemento, um rosto retorcido em agonia e um biquinho manhoso. Isso sempre funcionava com papai e com Ted, talvez tivesse o mesmo efeito em todos os homens. Aparentemente, deu certo. Jacob descruzou os braços e, mesmo desconfiado, agachou-se diante de mim e esfregou minhas pernas num movimento de vai-e-vem relaxante.
— Hmm, acho que entendo. Como se sente agora?
— Tô bem — respondi rápido demais e dei de ombros, indiferente, o que não condisse em nada com alguém passando mal. Então, precisei reformular minha resposta no segundo em que as sobrancelhas de Jacob se ergueram. — Quer dizer, tô meio cansada e com um pouco de cólica, mas já tomei um remédio pra dor antes de me deitar.
Ele deu prosseguimento à massagem nas minhas coxas, agora com os polegares, e eu estaria mentindo se dissesse que a sensação não era agradável. Quase podia relaxar com esse carinho, embora houvesse a tensão por causa da minha mentira deslavada.
— Você quer comer algo quente, tipo uma sopa? Posso cozinhar pra você. Ouvi dizer por aí que ajuda a melhorar.
— Tá maluco? Não! Se meu pai te ver andando pela casa, é capaz de cortar suas bolas fora e arremessá-las pela janela!
Os olhos castanhos de Jacob arregalaram por um breve período e então ele caiu na gargalhada. Surpreendi-me com sua reação e não pude conter minha risada também. Em seguida, cobri sua boca com uma das minhas mãos ao passo que a outra escondia a minha própria, abafando o som.
Aos poucos, nossa vontade de rir foi passando e Jacob tirou minha mão sobre seus lábios. Com os olhos marejados e brilhantes, ele se aproximou. Um sorriso divertido elevou suas comissuras ao mesmo tempo que ele afastava a minha mão da minha boca. Segurou meu queixo, puxando-me sutilmente para ele.
Certo, eu tinha que admitir... assim, de pertinho, Jacob não era tão mau. Ele não usava um daqueles moletons horrorosos com capuz, nem estava sério ou sonolento como as vezes em que nos vimos anteriormente. Enquanto eu me distraía com esses pensamentos, seu rosto chegava bem perto, numa lentidão calculada; o hálito de pasta de dentes já batia em minha face. Meus lábios se separaram, ele os fitou. E meus olhos tornavam-se gradativamente mais pesados...
Batidas fortes na porta interromperam o quase beijo. Subitamente nos afastamos. Jacob se pôs ereto, olhando em torno de si, provavelmente procurando um esconderijo. Propus, aos sussurros, que ele pulasse pela janela. Ele fez uma cara engraçada, como se eu fosse maluca e negou veementemente com a cabeça.
— Clarke! — O vozeirão alterado de papai chamou do outro lado, seguido de mais uma sessão de pancadaria impaciente. — Clarke, abra essa porta!
Fuzilei Jacob com o olhar. Ele não me deu muita bola. Abaixou-se na intenção de se esgueirar para debaixo da cama. Prevendo sua ação, eu o segurei pelos ombros a tempo. Que porra de esconderijo mais manjado era esse? Ele pirou? Empurrei-o para o closet, tomando o cuidado de não fazer nenhum barulho. O segundo esconderijo mais manjado. Mas também... Como eu conseguiria raciocinar com clareza, se meu pai estava prestes a colocar a porta abaixo?
Ajeitei minha roupa e passei a mão no cabelo no intuito de não parecer tão afoita ou desesperada. Graças a Deus Clarke teve o bom senso de exigir uma tranca para seu quarto. Eu a considerei exagerada e mimada na época, mas na atual conjuntura veio muito a calhar. Se eu fosse tão persuasiva quanto minha irmã, em primeiro lugar não estaria inserida nessa confusão.
— Pap...? — Pigarrei, mudando de postura. Apoiei o antebraço no batente e fiz uma cara de tédio, como Clarke costumava agir ao falar com nosso pai. — O que você quer comigo a essa hora, Sr. Dunkle?
Ele não respondeu. Em lugar disso, empurrou a porta, me obrigando a liberar a passagem, e atravessou meu caminho como um touro bravo, soltando tufos de fumaça pelas ventas, à medida que checava superficialmente os cantos do cômodo.
— Onde ele está? — rugiu.
— Onde está quem?
— Não se faça de besta, Clarke! Cadê aquele moleque do seu namorado?
— Até onde sei, na casa dele.
Finalmente o pescoço de papai torceu na minha direção e seus olhos afiados me escrutinaram com raiva.
— Jacob não está aqui, se é isso que quer saber.
— Eu ouvi você conversando com alguém e rindo. Com quem estava falando então?
— Comigo mesma. Estava me olhando no espelho e falando, gosto de pensar alto. Mas se não acredita em mim, faça uma verificação você mesmo.
Contornei a cama e me sentei confortavelmente, montando uma expressão de quem não escondia nada. Sim, eu estava blefando descaradamente. O problema é que, só quando dei a volta, me dei conta da mochila jeans jogada no chão. Meu coração foi à boca. E papai continuava no quarto, eu conseguia ouvir sua respiração pesada e sabia que ele estava considerando a minha proposta da inspeção geral. O nervosismo não me deixou sossegar por muito tempo. Ergui-me, chegando mais perto da mochila e tentei movê-la com o pé para debaixo da cama, mas não dava para mexer a perna sem que meu pai, que olhava atentamente para mim, percebesse o mais discreto dos movimentos. Portanto, joguei minha cartada final e esperava que desse certo dessa vez.
— Já que vamos continuar nesse impasse — falei —, eu vou descer para beber água.
Depois de jogar a frase no ar, me dirigi à saída.
Percorri o corredor, iluminado apenas pela luz da rua, o mais depressa que minhas pernas bambas estavam dispostas a obedecer, torcendo mentalmente para que papai seguisse no meu encalço. Não tardou e suas passadas truculentas se fizeram ouvir na escada logo que alcancei o primeiro piso. Agora restava saber se Jacob era mais esperto do que eu o julgava.
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Christian Grey, personagem da trilogia Cinquenta Tons de Cinza.
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