Proibido Pra Mim

2 Troca de favores


Procrastinação. Ato ou efeito de adiar uma ação ou enfrentamento de uma situação. Também conhecido vulgarmente como encher linguiça, o que eu sempre faço quando estou nervosa. Quando estou nervosa, eu tendo a procrastinar descaradamente, adiando ao máximo a situação que me tira da minha zona de conforto. Então, na manhã seguinte ao flagrante da minha irmã, eu estava enrolando para sair do quarto.

Não me sentia nem um pouco motivada a deixar a minha bolha de segurança a fim de confrontar minha irmã perversa. Inclusive, por causa disso, recusei o jantar e resolvi que me recolheria à cama mais cedo. Só lamentei a hora em que tive de dispensar Ted pela janela do quarto e obrigá-lo a pular do telhado para o quintal. A sorte dele é que havia um leito de folhas amareladas logo abaixo da janela, que acolheu seu corpo, sem lhe ocasionar grande impacto ou produzir um alto ruído que denunciaria sua fuga clandestina.

Exalei uma respiração ruidosa à medida que meu olhar passeava de cima a baixo pela minha imagem refletida no espelho retangular pendurado na parte interna da porta do closet. Era a hora da verdade, não dava mais para adiar, seja qual fosse o espetáculo que Clarke planejava para mim. Talvez, ela me expusesse logo na hora do café da manhã. Aliás, eu até estava surpresa com o fato de papai não ter me acordado aos berros, indagando-me o que eu fazia com um garoto seminu na minha cama enquanto ele se encontrava ausente. Sinceramente, eu temia o que me aguardava vindo da minha irmã, ela podia estar tramando o estopim para a terceira guerra mundial.

O cheiro do pão recém assado invadiu minhas narinas assim que entrei na cozinha. Papai estava de costas para entrada, distraído, ao passo que retirava a forma do forno e a depositava em cima da tábua de madeira na ilha. Como se tivesse intuído que estivera sendo observado, levantou a cabeça e seus doces olhos azuis, da mesma tonalidade dos meus, se iluminaram e enrugaram nas laterais quando ele me recebeu com um familiar sorriso de bom-dia. Eu espelhei seu gesto, contornei o balcão e me coloquei nas pontas dos pés a fim de lhe dar um beijo na bochecha. Esperando por essa ação, ele apenas inclinou o corpo de lado e, logo que me afastei, seus lábios se pressionaram na minha testa, por cima da franja.

— Com fome?

Eu assenti. Sim, eu estava muito mais do que faminta, especialmente depois de ter negado a refeição da noite anterior. Mas era covarde o bastante para suprimir minha necessidade de me alimentar se isso significasse bater de frente com Clarke à mesa. No entanto, o aroma maravilhoso que se desprendia do pão de batata caseiro enquanto papai o fatiava, instantaneamente me abriu o apetite matutino.

A minha intenção era comer o mais rápido possível e sair antes de Clarke descer para o café da manhã, sabendo como ela enrolava para se arrumar, principalmente aplicar a maquiagem e ondular o cabelo com o babyliss. Eu, por outro lado, mal me arrastava para a escola, quanto mais me emperiquitaria àquela hora da manhã. Pelo menos assim nossas diferenças ficavam bem estabelecidas. Ela era a patricinha, e eu, a garota que tinha bom senso. De fato, ninguém com a cabeça no lugar se embelezava como se estivesse indo a um concurso de drag queens às seis e meia da matina, sendo que na verdade o destino era a escola. E essa mania dela só piorou desde que voltara de New York.

Entretanto, eu estava errada com minhas suposições.

Enrijeci na cadeira ao escutar a colisão de calçados nos degraus da escada. Droga! Justamente nesse dia, Clarke decidiu acordar na hora certa. Eu estava sentada de frente para a entrada da cozinha, portanto tive a plena visão da cabeleira castanha da minha irmã caída sobre os ombros quando ela alcançou o corredor, e do seu sorriso de canto, que lhe iluminou rosto, refletindo segundas intenções.

— Bom dia, irmãzinha! Que linda manhã, não?

A mão de papai, ocupada com a fatia do pão de batata, parou no ar, e ele interrompeu sua mastigação, evidenciando o bolo de comida acumulada em uma das bochechas ao mesmo tempo em que acompanhava o trajeto de Clarke ao redor da mesa e a pausa que ela fez às costas da minha cadeira para pousar as mãos em meus ombros num gesto supostamente amigável. Logo depois de massagear a região, imprimindo uma sutil ameaça neste ato, ela despreocupadamente ocupou o lugar na cabeceira e imediatamente à minha esquerda.

As sobrancelhas de papai se elevaram, ocultando-se debaixo da sua franja rala. Eu sabia exatamente o que ele estava pensando. Tudo parecia fora de lugar. Minha irmã nunca cumprimentava nenhum de nós dois, visto que seu humor do cão pela manhã não colaborava. Além disso, ela raramente me tocava, muito menos sentava tão perto de mim. E eu certamente agia de maneira divergente ao meu comportamento usual nessa manhã.

— O que deu em vocês duas? — verbalizou papai enfim, intercalando olhares aturdidos entre nós.

Eu fingi ignorar seu escrutínio e ocupei minha boca com mais uma porção do pão com manteiga de amendoim, embora meu estômago parecesse repentinamente ocupado com cimento.

— Nossa, Sr. Dunkle! Por que de tanta desconfiança? Não houve nada, não é, Josephine? — Ela deu ênfase ao meu nome completo, perfeitamente ciente do quanto eu o desaprovava. Apertei a mandíbula, mas preferi me abster de qualquer comentário. — Não há nada que eu esteja escondendo do senhor.

— Eu não disse que estava. — papai objetou, desconfiado. — Mas depois dessa observação, me certificarei de manter meus olhos bem abertos.

Ela deu de ombros e pegou uma fatia do pão, passando geleia de damasco no lado superior. Não era como se algum dia minha irmã se incomodasse de ser pega fazendo algo errado, até porque ela sempre fazia algo errado.

— Preparadas para o último dia de provas? — papai perguntou mais animado. — Daqui a duas semanas vocês estarão de férias.

— Estou certa de que Joey vai arrebentar na prova de hoje. Ela andou estudando bastante com o Ted nos últimos dias.

As sobrancelhas espessas de papai se ergueram de novo e uma carranca substituiu sua expressão complacente.

— Com o Ted? E onde vocês estiveram estudando?

No meu quarto. Sem roupas.

Eu engoli o nó, que desceu rasgando pela minha garganta. De relance, percebi a expressão vitoriosa da minha irmã diabólica.

— Na biblioteca da escola, papai — menti, baixando os olhos para a comida.

— Hmm...

E isso foi tudo. É claro que ele não se deixou enganar. Ele sabia que alguma coisa estava estranha, mas não pretendia me pressionar. Ao longo dos anos, eu conquistei sua confiança, então meu pai pensava que se algo estivesse realmente me incomodando, mais cedo ou mais tarde eu lhe contaria. O problema era que sobre isso, eu não teria como compartilhar, a não ser que Clarke fizesse as honras em primeira instância.

🍎🍏

Ao abrir a porta da frente, meu olhar se direcionou ao céu cinzento, e estranhei que pudesse fazer tanto calor em um dia com nuvens tão pesadas de chuva. Tentei me lembrar se tinha colocado o guarda-chuva na mochila. Bom, independentemente disso, não queria retornar ao quarto para não ter a possibilidade de topar com Clarke, uma vez que sabia que ela estava me rondando, procurando uma brecha para me sondar. E como a boa covarde que sou, eu preferia fugir pela tangente a ter que confrontá-la de vez.

Uma buzina alta me fez saltar no mesmo lugar. Com o coração retumbando contra o peito, avistei Jacob atrás do volante do seu Polo, estacionado bem rente à calçada de casa, e os olhos fixos em mim. Seu rosto, como era de costume, exprimia impassibilidade; olheiras profundas e arroxeadas, que podiam ser vistas a quilômetros de distância, enfeitavam seus olhos e faziam um contraste com as írises castanhas. O capuz do moletom negro cobria o cabelo permanentemente bagunçado. Ele era a personificação do playboy mal encarado e drogado. Só uma garota como minha irmã podia gostar de um cara como ele. Não, isso não era verdade. As amigas cabeça-oca dela também, tendo em vista os tipos com os quais elas saíam.

— Sai da frente, cara de fuinha! — Fui empurrada para o lado quando Clarke passou como um furacão pela porta. Só assim percebi que ainda permanecia parada, anestesiada por pensamentos.

Sem tempo a perder, já que minha melhor amiga não poderia me dar carona nesse dia, tranquei a porta, ajeitei as alças da mochila nos ombros e tomei o rumo da escola. No início do trajeto, antes de virar a primeira esquina, apertei os passos para me adiantar e não chegar atrasada. Enquanto andava, pensava no que minha irmã reservava para mim. Denunciar meu deslize quando eu menos esperasse? Armar uma cena para papai me mandar embora para New York? Era essa ansiedade que me matava! Provavelmente isso estava incluído no plano macabro daquela víbora... Argh!

— Ei, Josephine! — Não precisei virar o rosto para saber a quem pertencia a voz debochada. Clarke. Será que nossas vozes eram semelhantes também? Esperava sinceramente que não. — Hoje não tem carona daquela perdedora? Quero dizer, da Maya?

Inconscientemente, me peguei acelerando a caminhada, tentando impor maior distância do automóvel, que, aos poucos, se emparelhava comigo. Embora estivesse fervilhando por dentro, não queria causar uma cena em público.

— Não te interessa — rosnei entredentes.

Clarke soltou uma estrondosa gargalhada, que me fez apertar ainda mais minha mandíbula e precisei reunir todo meu autocontrole para não disparar ofensas contra ela ou voar pela janela do carro contra o pescoço da minha irmã.

— Não quer uma carona, coisa estranha? Vai demorar muito para chegar à escola desse jeito.

— Não, muito obrigada. — Forcei um sorriso em sua direção e, de quebra, flagrei o perfil de Jacob, atento ao caminho adiante e totalmente desinteressado na nossa discussão.

— Você quem sabe. Nos vemos mais tarde então. E será bem melhor não continuar se escondendo de mim, porque eu tenho meus métodos para te achar, irmãzinha. Au revoir!

Antes que ela terminasse com a gracinha, o Polo saiu cantando pneus, dando-me apenas a visão da mão de Clarke acenando de modo floreado e sarcástico pela janela, algo muito comum a ela. Mesmo que estivesse com raiva, eu engoli em seco, sabendo que sua ameaça não era em vão. Minha irmã não me deixaria em paz até que tirasse desforra da minha desgraça.

Será que se eu matasse a Clarke, alguém daria falta? Afinal, nós tínhamos a mesma aparência, ela era como a minha duplicata, e papai vivia dizendo que Clarke fora a culpada por sua calvície precoce. A polícia poderia considerar meu ato consequente de um átimo de loucura. Eu podia alegar que estivera passando por um momento de depressão e, num erro muito plausível, na tentativa de me matar, acabei me enganando e matando minha irmã gêmea. Nós somos mesmo muito idênticas, não é? Segundo a margem de erros, isso poderia realmente acontecer. É sério, eu já li alguma coisa a respeito em algum lugar.

Bufei, arrastando as solas dos tênis na calçada. Que pena que tal hipótese só seria possível nos meus sonhos mais reclusos, talvez na realidade paralela que eu criei, onde não existiam irmãs gêmeas e esse calor do Alabama que me fazia suar por orifícios que eu nem sabia que possuía. Saco!

Ao chegar à escola, um veículo escandalosamente colorido e cheio de apetrechos como a Máquina dos Mistérios do Scooby Doo, estacionou bem em frente ao canteiro do pátio principal. Em um lance ligeiro, Maya pulou para fora do banco do carona, ostentando uma cara de poucos amigos. Os patetas do time de futebol e da nossa própria equipe de natação, que ainda estavam reunidos no estacionamento, riam e apontavam para a van de festas da família da minha melhor amiga. Não que ela tivesse vergonha do empreendimento dos pais, porém odiava ter que andar naquela geringonça que chamava atenção – de forma muito negativa – por onde passava.

— Tenha um bom dia, querida! — Ouvi a Sra. Fox desejar, bem-humorada, antes de buzinar duas vezes, acionando a voz ranheta da raposa disposta acima da van.

Tive que conter uma risada ao que Maya fechou ainda mais a expressão e, pelo que pude notar, balbuciou uma dezena de palavrões na medida em que se encaminhava a passos largos para a entrada do pátio. Corri para alcançá-la e, ainda que não tivesse me olhado, logo que me pus à sua direita, ela começou a resmungar:

— Eu odeio ficar sem carro, sabia? Detesto andar nessa máquina do terror! — Ela parou de falar e me fitou por um momento. — Desculpe ter te ligado em cima da hora, mas minha carroça resolveu morrer sem mais nem menos hoje de manhã.

Dei de ombros, despreocupada, e enfiei as mãos suadas nos bolsos da calça jeans.

— Tudo bem. A caminhada até aqui não foi tão cansativa. — menti. Na verdade, foi horrível. Ainda mais, por causa do clima abafado. — O Mustang foi para o conserto?

Minha amiga suspirou, negando com a cabeça.

— Papai acha que pode dar um jeito, como sempre. — Maya torceu o canto da boca. — Sabe como ele gosta de economizar. Nunca vi alguém tão pão-duro. Provavelmente, vai mexer nas coisas erradas, destruir algumas peças e depois de muitos gritos da minha mãe, finalmente vai chamar um mecânico meia-boca. Mal espero para que as férias de verão comecem e eu arranje um emprego. Com meu primeiro salário, vou dar uma turbinada na minha lata velha, você vai ver.

Eu sorri e assenti, ainda que não acreditasse muito na sua promessa. Maya fazia o mesmo pacto consigo mesma há mais de três férias de verão, antes mesmo de ganhar seu Mustang 1977 do pai. Ela sempre se comprometia a economizar para determinado fim, mas acabava gastando todo o rendimento em besteiras. Por isso, sua mesada não dava pra nada e ela vivia me pedindo algum dinheiro emprestado.

Passei o braço por seus ombros e a chacoalhei levemente, buscando animá-la.

— Pense que estamos a duas semanas das férias e que hoje teremos nossa última prova do semestre.

A nova perspectiva fez com que sua feição carrancuda se iluminasse e um sorriso se desenhasse em seus lábios cheios. Incrível como as palavras “férias” e “verão” sempre renovavam seu bom humor. Maya deu um pulinho de animação, me fazendo rir.

— Nem me fale! Depois desse castigo de avaliação de álgebra estaremos livres, Joey! — De repente, seu sorriso sumiu e o rosto assumiu uma fisionomia esquisita. Ela levou uma das mãos à boca e seus olhos pretos esbugalharam de tal maneira que quase pularam para fora das órbitas. — Meu Deus! Como eu me esqueci disso? Não foi ontem que você e o Ted trans...

— Shh! — Tampei sua boca com a mão, ao mesmo tempo que olhava em volta à procura de alguém com o bedelho aguçado. Depois de me certificar que estava tudo bem, voltei a encará-la. — Tá maluca? Se eu quisesse que todo mundo ficasse sabendo da minha vida sexual, eu anunciaria no jornal do colégio.

— Ah, meu Deus! Ah, meu Deus! Ah, meu Deus! — Minha amiga quicava e agitava as mãos no ar freneticamente. — Então, rolou mesmo?

Balancei a cabeça, desanimada.

— Não. A Clarke estragou tudo.

— Clarke? — Maya deu um grito de surpresa, contudo, ao perceber meu olhar de alerta, voltou a se recompor e baixou o tom de voz. — O que sua irmã tem a ver com isso?

Deixei minha melhor amiga a par dos acontecimentos do dia anterior. Ao alcançarmos o corredor dos armários, eu já tinha contado praticamente toda a história, incluindo o medo de que meu pai soubesse o que eu pretendia fazer com Ted. Ainda me causava arrepios pensar na decepção em seus olhos, isso sem contar que meu amigo nunca mais poderia chegar a menos de dez metros de mim ou o rifle de papai daria conta de torná-lo aleijado. E não me refiro aos seus braços e pernas!

— Francamente, Joey — Maya pegou o livro de álgebra e jogou a mochila no meio da pilha de bagunça do seu compartimento —, eu sempre odiei aquela emproada da sua irmã, mas dessa vez ela passou de todos os limites! Que... que... cobra peçonhenta! — Seus olhos negros analisaram meu rosto. — O que você vai fazer agora?

Gemi em frustração.

— O que eu posso fazer? Só me resta aguardar a armação da Clarke.

— E se você, sabe... contasse pro seu pai primeiro? — Arregalei os olhos, incrédula. — Eu sei, eu sei, parece uma péssima ideia, mas se ele vai saber de qualquer jeito... — Maya encolheu os ombros, como quem se desculpava.

Eu sabia que minha amiga tentava me ajudar de alguma maneira, no entanto eu não só não via saída para o meu problema, como também tinha certeza de que Clarke estava se deliciando em me levar à beira da insanidade.

— Algumas horas, acho que minha irmã só quer me enlouquecer, me fazer surtar e ficar de fora vendo o circo pegar fogo.

— Então não dê esse gostinho a ela. Deixa essa cobra provar do próprio veneno. Quanto mais te provocar, mais cara de paisagem você faz, como se não se afetasse pelas ameaças dela.

— O problema é que eu me afeto!

— Eu sei, mas ela não sabe, bobinha. — Maya deu uma piscadela marota.

Não que eu fosse seguir seus conselhos, mas eu sorri a fim de tranquilizá-la. Maya era uma ótima amiga, sem dúvida, porém uma péssima conselheira na maior parte das vezes. Não que ela não se esforçasse, eu sabia que sim. Mesmo ciente de que eu não acataria sua fala, ela me enlaçou de lado pela cintura e apoiou a cabeça no meu ombro, de modo que suas tranças nagôs fizeram cócegas na minha pele.

— Não importa o que aconteça, você sempre pode contar comigo, Joey.

🍎🍏

Chegamos à sala no exato minuto que a sineta tocou. Para meu alívio, o exame de álgebra ocorreria logo no primeiro tempo de aula. Era um suplício ter que esperar horas e aguentar aulas intermináveis até o horário de uma prova. Dessa vez, eu me veria livre o mais cedo possível. De qualquer forma, eu estava tranquila, já que minhas notas na grade de cálculos iam muito bem, tal qual as demais matérias e, ainda que estivesse preocupada com o lance do Ted, consegui me concentrar nos estudos na noite anterior.

Sentei-me na primeira carteira de uma das fileiras ao centro e Maya ocupou o lugar atrás de mim. Enquanto o prof. Stephen não aparecia, a turma se dividia entre aqueles que revisavam a matéria, os desesperados que não estudaram, os que pareciam nem saber que se encontravam em dia de avaliação e os repetentes, que, em sua maioria, dormiam sobre o braço, alheios ao falatório dos outros.

Maya e eu conversávamos sobre um assunto aleatório quando Clarke, Jacob e a turminha de idiotas que orbitavam em torno do casalzinho insuportável adentraram a sala. O braço de Jacob estava pendurado no ombro da minha irmã e, como era de se esperar, seu olhar desfocado vagou pelo ambiente, sem se deter em nada ou ninguém em específico. Os caras do time de futebol soltaram uma piadinha sem graça e as garotas deram suas famosas risadas estridentes e notoriamente forçadas.

— Não sei como eles suportam a si mesmos. — Maya cochichou com azedume. — Eu teria atirado nos meus próprios miolos.

Ela encostou o dedo indicador na têmpora, fingiu puxar o gatilho com o polegar e simulou um desfalecimento. Eu ri da sua encenação, compartilhando intimamente da mesma opinião da minha amiga. Ao desviar os olhos para frente de novo, encontrei Jacob nos encarando com o cenho franzido. Sustentei seu olhar, um pouco incomodada que ele estivesse nos monitorando, entretanto o momento não durou, uma vez que ele se voltou para Clarke, sussurrou algo em seu ouvido e logo após se encaminhou ao fundo da sala.

Maya e eu acompanhamos o namorado da minha irmã se instalar no assento, jogar a mochila jeans puída no chão, ao pé da carteira, e ainda com o capuz enterrado na cabeça, ocultar o rosto ao debruçar-se em cima do braço. Ele, assim como os demais repetentes, sempre dormia durante o horário de aula.

— Esse daí também deve ter puxado um baseado dos bons hoje. — Maya disse, fazendo uma careta de desagrado. — Viu os olhos vermelhos?

— Eu também preferia estar completamente alienado se namorasse a Clarke.

— O-oh! Mandou bem nessa, garota!

Entrementes, o Sr. Stephen irrompeu pela porta mais apressado do que o natural, com uma camisa bege toda amarrotada, os óculos redondos meio tortos no rosto e a ponta da gravata xadrez – quem usa gravata xadrez, pelo amor de Deus! – arrastando na braguilha da calça social. Segurava um bolo de papéis amassados numa das mãos e sua pasta de couro na outra. Logo ao acomodar os pertences na espaçosa mesa, tentou centralizar o nó da gravata e passou as mãos pelo cabelo espigado. Não fez um grande efeito, afinal. Ao contrário da sua calma costumeira, ele parecia prestes a ter um surto de pânico.

Os burburinhos cessaram e os alunos se acomodaram nos lugares sem precisar de nenhuma ordem. Provavelmente tinham feito os arranjos de passar cola e estavam ansiosos para que a prova começasse logo e, dessa forma, pudessem colocar seus planos em prática.

— Vamos reorganizar seus assentos, senhores. — ditou o Sr. Stephen, arrancando murmúrios desanimados da classe.

Minha amiga e eu nos entreolhamos, cúmplices, suprimindo a vontade de rir. Aparentemente, o professor não se achava tão aéreo a ponto de permitir ser passado para trás de maneira tão descarada.

— Joey, troque de lugar com a Samantha.

Minha vontade de rir foi-se para o beleléu. Samantha rapidamente despertou do seu sono de beleza, arregalando os olhos, como se tivesse acabado de ser pega em flagrante. Era óbvio que não estava nem um pouco satisfeita de se mover para a primeira cadeira da fila, bem diante da mesa do Sr. Stephen. Por outro lado, eu também não queria ficar no fundão, próxima do pessoal que andava com Clarke e ao lado de Jacob, que nessa altura do campeonato permanecia inerte sobre o braço, como se tivesse entrado no estágio Reiki do sono.

— Jake! — Um grandalhão do outro lado esticou o corpanzil a fim de alertar o comparsa do jeito mais sutil quando o Sr. Stephen começou a distribuir as avaliações. — Cara, acorda, porra!

Enfim, Jacob suspendeu a cabeça e todo seu corpo estremeceu, como se tivesse sido atingido por uma descarga elétrica altíssima e, desorientado, averiguou o perímetro ao redor.

— Tenta ficar acordado pelas próximas duas horas, cara — recomendou Gale, sustentando um meio sorriso ao que Jacob chacoalhou a cabeça em afirmação. — Tá tudo bem?

Mais uma vez, Jacob assentiu e murmurou alguma coisa semelhante a um agradecimento.

— Aproveita que está sentado perto de uma nerd pra se dar bem nessa. — o idiota grandalhão completou em voz baixa, como se eu fosse incapaz de ouvir seus grunhidos de ogro.

Por intermédio da visão lateral, notei Jacob se virar no sentido indicado pelo parceiro, dando-se conta da minha presença na fileira vizinha a dele. O panaca parecia mais perdido do que nunca. Ele que ousasse tirar proveito do meu esforço! Eu seria capaz de denunciá-lo ao Sr. Stephen ou... Tá, eu não sou tão ruim a esse extremo, mas com certeza não deixaria o pescoço dele espichar para o meu lado. Respeite meu espaço pessoal, camarada!

— O prazo para entrega termina às 9:20 em ponto — avisou o professor, com os olhos fixos no relógio dependurado acima da lousa —, sem mais nem um minuto de atraso desta vez. Choros, resmungos, xingamentos, desenhos pornográficos na folha de avaliação e tentativas de suborno serão ignorados por mim. — Alguns alunos riram da observação e outros tantos falaram gracinhas e forjaram choros histéricos. — Façam uma boa prova.

A partir disso, o único som preponderante era o do relógio, cujo tique-taque, comumente ignorado nas aulas, reverberava na minha cabeça semelhante a uma britadeira. Alisei a folha amassada sobre a minha mesa e friccionei as palmas das mãos suadas, sentindo o nervosismo se agitar em meu interior. Com uma análise superficial, constatei que saberia solucionar todas as questões, contudo isso não me impedia de ficar tensa. Ou seja, toda a minha tranquilidade de antes se transformou em ansiedade à medida que eu mordiscava a ponta do lápis.

Tudo bem. Não precisa desse desespero, Joey! Você vai se sair bem.

Elevei a cabeça para me deparar com meus colegas configurando aparências tão desesperadas quanto a minha, os que obviamente se preparam para o exame e até mesmo aqueles que não estudaram uma teoria sequer. Havia também os que demonstravam semblantes de derrota, já entregando a batalha mesmo antes de completar uma hora de prova. Mas o que me surpreendeu de fato foi olhar para a minha direita e dar de cara com meu vizinho praticamente babando sobre o exame de álgebra. Os braços pendiam amolecidos em ambos lados da carteira ao passo que seus olhos fechados se ocultavam debaixo do capuz. Nesse meio tempo, enquanto eu o observava, suas costas se ergueram com o suspiro profundo que Jacob liberou. Sinceramente, ele conseguiu se superar.

Neguei com a cabeça antes de me concentrar nas equações à minha frente. Meia hora mais tarde, a primeira pessoa se levantou para devolver a prova. Uma hora e quinze no total. Faltavam quarenta e cinco minutos para o fim. Apenas uma questão para eu me livrar daquilo. No entanto, não podia focar nos cálculos e fórmulas completamente, porque ainda tinha a visão parcial de Jacob ressonando. Será que só eu estava vendo ele dormir? É, parecia que sim. Minha irmã e os imbecis que a acompanhavam estavam espalhados pela sala, absortos e tentando recuperar um semestre inteiro perdido.

— Jacob! — eu chamei aos sussurros.

— Algum problema aí atrás, Joey? — O vozerio do Sr. Stephen ecoou pelo recinto silencioso.

— Não, senhor.

Tirando um dos seus alunos que está encharcando sua prova com a própria baba.

Voltei a baixar a cabeça, sem obter o resultado esperado.

— Charles! Charles! — Megan, a subsecretária, entrou de rompante minutos depois, com as bochechas vermelhas, e sacudindo as mãos num alvoroço. Dessa maneira, capturou a atenção de todos. — Sua esposa acabou de telefonar para a secretaria. Disse que não conseguiu contato pelo seu celular e mandou te avisar que o filho de vocês já vai nascer!

O Sr. Stephen tirou o celular do bolso da calça e praguejou ao perceber que o aparelho havia descarregado. Ele caminhava de um lado para outro, dividido entre guardar o material na pasta, pedir um substituto para nos monitorar durante o resto do tempo da avaliação e gritar sobre os ombros para um ou outro espertinho que se aproveitava da situação no intuito de passar ou pegar cola de alguém próximo.

Em menos de vinte segundos, ele desapareceu no corredor; alguns papéis voavam pelo ar enquanto o Sr. Stephen saía aos atropelos.

— Jacob! — falei um pouco mais alto. — Jacob! Ô inferno! Parece que tá morto.

Como meus chamamentos não fizeram diferença, o único jeito que encontrei de despertá-lo foi arremessar a borracha, que acertou em cheio seu nariz. Levei a mão à boca quando ele levantou a cabeça de supetão, gemeu e cobriu o lugar atingido, fazendo uma careta de dor. Em seguida, seu olhar carrancudo se prendeu em meu rosto com uma indagação implícita.

— Só te resta quarenta minutos. — Indiquei o relógio com a cabeça. — Anda.

— Silêncio todos vocês! — bradou Megan, estapeando a mesa dos professores. — Estou provisoriamente responsável por esta turma e se continuarem de conversa paralela serei obrigada a confiscar a prova dos envolvidos, entenderam?

A paz voltou a reinar instantaneamente. Jared levantou-se e seguiu em direção à subsecretária, que já aguardava a devolução da folha com a mão estendida.

Sobressaltei ao sentir o impacto de um objeto na lateral da minha cabeça. Minha borracha caiu e rolou no meu colo até eu ampará-la com a mão livre. Rapidamente passei os olhos à volta para me certificar de que ninguém tinha reparado. Megan continuava quieta e seus olhinhos miúdos por detrás da armação de tartaruga vagavam pela sala de aula, sem se fixarem em mim.

Foi então que respirei aliviada. Ao depositar a borracha na mesa, vi que ela tinha adquirido uma inscrição de caneta, onde se lia um simplório “obrigado”. Todavia, ao me virar para o lado novamente, Jacob, pela primeira vez na manhã, achava-se focado nas equações, embora seu perfil denunciasse aturdimento. Bom, eu fiz a minha parte. Ninguém poderia me culpar pela burrice alheia.