Proibido Pra Mim
3 Contrato com o diabo
Uma chuva pesada desabou no final da manhã e, mesmo que a quadra da piscina fosse coberta, o treinador Marine por pouco não cancelou o treino de natação. Acho que a reclamação da equipe e as suposições de que nosso rendimento no campeonato intercolegial poderia ficar seriamente comprometido, pesou na sua decisão.
Maya se empenhava para encaixar o coque volumoso, formado por tranças afro, dentro da touca de borracha. Toda vez era a mesma coisa, ela praguejava e dizia que ia cortar o cabelo em estilo Joãozinho por causa do trabalho que seu penteado dava, mas logo desistia da ideia ao sair dos treinos. Eu, por outro lado, estava mais preocupada com os novos maiôs que a cada ano pareciam ficar mais justos e cavados. Minha melhor amiga não se incomodava com isso, porém se eu tivesse pernas bem torneadas e de pele negra, que ajudavam a disfarçar as imperfeições, provavelmente também não me importaria.
— O que vai fazer hoje à tarde? — Maya me perguntou, dando a impressão de que tinha grandes planos em mente.
— Trabalhar, você sabe.
— Caramba, Joey, você não pode faltar nem um diazinho? Parece que o mundo tá ruindo lá fora!
— O Lollipops fica a duas quadras daqui. Mesmo que eu quisesse, não teria nada que justificasse minha ausência. Além disso, tenho que economizar para a universidade.
— Ah, corta essa! — Ela vestiu o roupão com truculência. — Eu sei que você tem uma poupança para a faculdade.
Com a cara enfiada no armário do vestiário, em busca meus chinelos de borracha, eu revirei os olhos sem que Maya pudesse me flagrar. Ela resguardava uma implicância ferrada em relação ao meu emprego na delicatessen, especialmente no que dizia respeito a não poder contar com a minha companhia para suas programações após a escola.
— Mas que possivelmente não cobriria meus gastos com estadia, alimentação, compra dos livros, transporte...
— Você não pode agir como uma adolescente irresponsável às vezes? Tipo, entrar na furada do financiamento universitário, se endividar no decorrer da graduação e depois trabalhar pelos próximos dez anos só para pagar os juros ao banco?
Soltei uma risada alta, invocando a atenção das garotas mais próximas a nós, incluindo Clarke, que, sentada no banco a certa distância de mim e de Maya, pausou o trançado no seu longo cabelo, e desviou o olhar do espelho pendurado na porta do compartimento a fim de nos medir de cima a baixo, transparecendo seu conhecido semblante de desdém antes de curvar uma das sobrancelhas e tornar à execução do penteado.
Em alguns momentos, eu chegava a me esquecer que ela participava da equipe também, embora raramente competisse. Pelo menos em uma coisa eu era melhor, pois integrava o ranking de atletas da natação com uma das melhores contagens de tempo.
Minha melhor amiga, de costas para Clarke, não presenciou o menosprezo da minha irmã e foi melhor assim. Maya não fazia o tipo que levava desaforo para casa e eu, como me encontrava no limite de tolerância em relação à Clarke, preferi não atiçar a combustão.
Assim que deixamos o vestiário, notei o vento gelado circulando em alta velocidade no ginásio, trazendo folhas, sujeira e desviando o curso da chuva. Os alunos, agitando os corpos a fim de dissipar o frio, pareciam arrependidos de insistir que houvesse treino nesse dia tempestuoso. Eu apenas torcia para não começar a relampejar. Não que tivesse medo, era só... bom, eu não era uma grande fã de raios e trovões.
O treinador reuniu os garotos perto da piscina e as meninas foram orientadas a aguardarem o revezamento. Maya e eu nos sentamos no primeiro banco da arquibancada.
— Ted não consegue disfarçar — salientou minha amiga, rindo em seguida e cutucando minhas costelas com o cotovelo, me deixando tensa. — Ele não para de olhar pra cá. Tá na cara que está muito afim de uma segunda chance.
— Maya! — ralhei, tendo a sensação das minhas bochechas pegarem fogo.
— Vocês conversaram depois de... você sabe, do que quase aconteceu ontem?
— Não tivemos oportunidade ainda. Cheguei cinco minutos atrasada para a aula de História da Arte e a turma já estava cheia, então tive que sentar muito longe dele.
— Ahn, sei. — Maya me fitou, totalmente descrente.
Tudo bem, eu nunca me atrasava. Não gostava de entrar na sala depois de todos, tampouco ouvir as reclamações dos professores, porém excepcionalmente neste dia fui assaltada por uma necessidade inadiável de beber água e a fila de espera do bebedouro estava enorme. Então, precisei recorrer ao do segundo andar e por isso...
Ok, eu estava mesmo fugindo do Ted.
No fundo, eu temia e estava quase certa de que nossa próxima conversa seria um tanto constrangedora.
— O que eles fazem aqui? — Maya me trouxe de volta ao presente com sua indagação de surpresa ao passo que fixava o lado oposto do ginásio.
Segui o rumo do seu olhar para me deparar com duas presenças inusitadas: Jacob e o grandalhão, seu fiel escudeiro, Gale Maison. Entretanto, não fomos só nós duas que os viram, porque no instante posterior, Clarke já se aproximava e se pendurava no pescoço do namorado, iniciando um beijo pra lá de escandaloso, que precisou ser apartado pelo apito estridente do treinador Marine.
— Jake conseguiu ingressar na equipe, não é o máximo? — Doria, localizada a alguns metros à direita de Maya, comentou em êxtase com a amiga. Com uma rápida inspeção na fileira em que estávamos, notei que praticamente todo mundo mirava o casalzinho meloso. — Clarke disse que ele nem gosta muito de esportes, mas que entrou na natação só para ficar perto dela.
— Nossa, que romântico! — exclamou uma outra abobalhada. — Jake está mesmo de quatro por ela.
Maya debochadamente rolou os olhos e enfiou o dedo na boca simulando náusea, e eu tive que pressionar os lábios na intenção de não deixar escapar uma gargalhada.
— Ela é uma tremenda sortuda, isso sim! — Suspirou mais uma garota.
Os suspiros e cochichos referente ao namoro da minha irmã e Jacob se prolongaram até o início do treino masculino. Quando os quatro primeiros rapazes se organizaram nos respectivos pódios, a conversa tomou um novo rumo, e não poderia ser outro assunto senão o físico dos garotos. Ainda que alguns possuíssem corpos magricelas e braços em estágio de definição, a maioria deles tinha o corpo atlético bem desenvolvido, como era o caso do meu melhor amigo. Ted se posicionou em uma das vagas ao centro e rapidamente seus olhos correram pelo primeiro banco, detendo-se em mim por apenas um segundo. Maya discretamente me acotovelou mais uma vez e ao me ouvir bufar, soltou uma risadinha.
— Quem poderia acreditar que o nerd de aparelho nos dentes viraria um pedaço de mau caminho? — Nádia falou nem tão baixo. Talvez sua intenção era que Maya e eu escutássemos.
— De quem está falando? — Doria indagou.
— Do Ted, obviamente. Olha aqueles músculos! Sem contar aquela bundinha linda.
As duas hienas riram do jeito mais histérico e irritante possível. A verdade era que essas meninas atiravam para todas as direções. Quem estivesse na mira e se deixasse ser capturado, ganhava de brinde Barbies humanas com muitas curvas e nenhum vestígio de cérebro. Se o objetivo da “presa” em questão era apenas fazer sexo, elas serviriam bem ao propósito, do contrário, era melhor partir pra outra.
Não me leve a mal, não era como se eu sentisse ciúmes do Ted, mas também não apreciava o fato de garotas tão fúteis o tratarem como uma casca, como se ele não tivesse nada a apresentar além de um corpo tonificado, uma estrutura óssea perfeita, um par de olhos de tirar o fôlego...
E eu não deveria estar pensando essas coisas!
🍎🍏
Enquanto secava o cabelo com a toalha, depois de uma ducha fumegante, eu olhava apreensivamente para o basculante superior que dava para o pátio externo, onde os grossos pingos de chuva batiam no vidro sem dó. O treino fora interrompido mais cedo, pois a ventania impossibilitou a equipe de permanecer no ginásio. Ainda que a piscina fosse devidamente aquecida pelo eficiente sistema de calefação, quando saíamos da água, nossos corpos oscilavam com uma tremedeira intermitente. Péssimo dia para um treino de natação, realmente. O pior estava por vir para mim, no entanto: enfrentar a tempestade a fim de chegar ao trabalho.
Vesti meu casaco reserva e vasculhei a mochila à procura do guarda-chuvas. Não que eu tivesse esperança que ele pudesse me ajudar, uma vez que os jatos de água pareciam seguir múltiplas direções devido ao vento desgovernado. Que falta de sorte! Estávamos a uma semana do início do verão, sendo essa estação uma das mais secas do ano no Alabama.
Despedi-me da minha melhor amiga, que acabara de sair do chuveiro e me encarou como se eu me julgasse uma louca por insistir em ir trabalhar. Ela abriu a boca para dizer algo, mas se deteve no último segundo e apenas acenou de volta. Dessa forma, fiz meu caminho para fora do confortante ambiente quentinho e acolhedor.
Ao atravessar a porta da entrada do colégio, abri o guarda-chuva, que imediatamente envergou com a violência do vento. Xinguei baixo quando senti a perna da calça molhar. Eu sabia que não ia ser fácil. Ô diazinho...
No entanto, nada seria mais surpreendente do que eu estava prestes a ver.
Mesmo que a cada segundo eu ficasse mais encharcada de chuva, não consegui esboçar reação ao reparar em Ted e Clarke papeando debaixo da cobertura do estacionamento. Mas o pior, na minha concepção, era que eles riam à medida que mantinham uma conversa amigável. O que estava acontecendo com o Universo? O que o Ted, meu Ted, meu melhor amigo Ted, poderia estar falando tão descontraidamente com minha inimiga número um, chantagista dos infernos? Nada fazia sentido!
Somente quando ele se virou na minha direção e me flagrou os observando que o sorriso do meu amigo se fechou. Ted dirigiu a atenção à Clarke novamente, lhe disse alguma coisa em ritmo apressado e, logo em seguida, praticamente correu para o lugar no qual eu continuava parada igual um dois de paus. Obriguei minhas pernas a reagirem e recomecei a andar. A voz de Ted alcançou meus ouvidos, entretanto eu não parei. E, como se tudo estivesse propenso a dar errado, algumas hastes do guarda-chuva arquearam para baixo e não havia nada que as fizessem voltar para o lugar. Irritada, joguei a porcaria do guarda-chuva no latão de lixo, aceitando de vez meu destino de chegar encharcada ao trabalho.
— Joey! — Ted gritou pela... sei lá, quinta vez? — Joey, você pode parar, por favor?
Acelerei o passo, intuindo pelo impacto cada vez mais alto do tênis na calçada que em breve ele chegaria até mim. Meu braço direito foi envolvido por um aperto de ferro e, antes que eu pudesse reagir, fui girada para ficar cara-a-cara com o garoto ofegante, ostentando uma cara confusa e um olhar chateado.
— O que deu em você? Não me ouviu te chamar, por acaso?
— Sobre o que você e Clarke conversavam? — disparei.
Ted deu um passo cambaleante para trás como se atingido pela minha pergunta repentina ou impactado pelo meu olhar injetado de raiva. Ele abriu e fechou a boca algumas vezes sem emitir nenhum som audível. Por fim, passou a mão na nuca e desviou os olhos de mim. Ninguém precisaria conhecê-lo tão bem quanto eu o conhecia para ler seus sinais de nervosismo. Porém, eu aguardei, subitamente disposta a ouvir seja lá o que ele tinha para falar.
— E-eu falava sobre nós dois e...
— Sobre você e ela? — Arregalei os olhos.
Ele me mirou, mortificado.
— Não, não! — negou ansiosamente, enfatizando com um balançar de cabeça. — A respeito do que aconteceu entre mim e você ontem à tarde.
Ruborizei. Minha postura mudou drasticamente. Nós estávamos mesmo começando esse assunto? Sobretudo, por causa do meu ataque de histeria? Que grande bosta, Joey! Encaramo-nos, sem graça, pelo que pareceram muitos minutos de silêncio. Meu amigo entrelaçava e desentrelaçava os dedos, gradualmente mais apertado, e eu pude constatar os nós ficando brancos. Na sequência, soltou as mãos, sem saber o que fazer com elas, nitidamente tão desconfortável quanto eu. Como eu não disse mais nada, ele retomou de onde tinha parado.
— Eu pedi à sua irmã que não nos dedurasse para o seu pai. Eu sei que o Sr. Dunkle nunca perdoaria meu deslize e impediria minha entrada na sua casa.
Respirei fundo e, a seguir, acabei rindo da situação, da minha bobeira momentânea, do meu ciúme tosco, de imaginar meu pai expulsando Ted, aos berros, de casa empunhando um rifle. Caramba, que loucura! No entanto, meu riso logo esmoreceu ao me lembrar de que Clarke nunca daria o braço a torcer e jamais perderia a oportunidade de se regozijar por cima do meu deslize, como Ted tão convenientemente se referira ao nosso quase sexo casual entre amigos.
— Só não quero perder sua amizade, Joey — ele disse enfim, ignorando minha crise de riso inapropriada em nítido desacordo com as circunstâncias.
O que dizer após essas palavras? Pois é, nada. Dei um passo adiante, meio insegura. Ted percebeu minha intenção e, com um sorriso sincero, cobriu a distância entre nós e me enlaçou num abraço apertado e me chacoalhou de um lado para outro como um boneco de pano desmilinguido. Não nos importávamos com a chuva torrencial, nem com as buzinas do pessoal que passava tirando sarro do nosso “momento ternura”.
Mas nem tudo é perfeito, não é?
— Sabe, ainda bem que a gente não transou. — Ted falou com alívio, ainda me segurando em seus braços, e soltou um suspiro profundo. — Talvez as coisas estivessem esquisitas entre nós agora.
Um aperto angustiante atingiu meu peito. Tentei ignorar a ardência no canto dos olhos, indicando o ímpeto de chorar. Mas o que eu tinha a perder? Aproveitei-me do mau tempo e liberei as lágrimas, que desceram quentes pelas minhas bochechas e fundiram-se instantaneamente com a chuva fria. Aumentei a força do abraço em volta da cintura do meu melhor amigo, encaixei o rosto na curva do seu pescoço, inalando seu perfume fraco mesclado com o cloro da piscina, e tentei me convencer de que suas palavras não me afetaram tão dolorosamente como aconteceu na verdade.
🍎🍏
O tilintar da sineta acima da porta da frente do Lollipops anunciou a minha chegada. Desfiz-me da mochila antes de prosseguir para o interior da loja, jogando-a no canto, e chacoalhei o corpo como um cachorro peludo encharcado.
— Atchim!
— Eita, garota! – Denise, a cozinheira do estabelecimento, exclamou, dando um passo para o lado a fim de se desviar do jato de perdigotos recém liberados por mim. – Mau dia?
— Péssimo! — Funguei enquanto esfregava os braços, na esperança de esquentá-los um pouco.
Minha colega de trabalho me analisou da cabeça aos pés.
– É, tô vendo. Vou arranjar alguma coisa pra você se secar ou vai acabar gripando desse jeito.
Eu assenti, grata, quando mais um espirro foi expelido, sacudindo todo o meu corpo e me arrepiando por inteira.
No fim das contas, fui designada à cozinha, ocupando o lugar do ajudante de Denise que tinha faltado devido ao mau tempo, já que do jeito como eu estava vestida – com o moletom largo de Felix, o garoto que fazia as faxinas, e uma calça jeans surrada que Denise havia me emprestado – era inapropriado que eu assumisse minha função costumeira atrás do balcão, no atendimento direto à clientela. Eu não via problemas em ajudar a fazer as sobremesas e até gostava de cozinhar. De vez em quando, me aventurava na cozinha de casa, reproduzindo alguma receita que aprendia com a nossa talentosa doceira.
Fora que era bom passar um tempo com a cozinheira baixinha e bem-humorada, que sempre animava a equipe e tratava os mais jovens, assim como eu, como se fossem seus filhos ou estimados pupilos. Ela tinha muita paciência para ensinar e um amor enorme pelo seu trabalho; raramente era vista de outra maneira que não sorrindo ou liberando suas contagiantes gargalhadas.
Além disso, estar na cozinha me livrava da obrigação de lidar com o pessoal da escola, que quase todos os dias aparecia por volta do fim da tarde. Pelo fato do salão ser espaçoso, ter um ambiente descontraído e duas jukeboxes, que eram a sensação do estabelecimento, o Lollipops se tornou um dos pontos de encontros da galera adolescente.
E era dessa turma, em especial, dos mais populares, que eu estava tentando me esconder. Mas, como era de se esperar, meus planos foram por águas abaixo perto do final do meu expediente.
Eu acabara de retirar uma fornada de muffins de baunilha e chocolate e os arrumava nas bandejas para expô-las no balcão, quando Felix irrompeu pela cozinha, avisando que minha irmã tinha chegado com seus amigos e estava esperando para falar comigo no salão. Congelei na mesma hora. O que ela queria? Ora, isso era óbvio. Me espezinhar, é claro. A pergunta certa era: O que ela faria para alcançar seu objetivo?
Agradeci a Felix pelo recado, terminei de organizar os bolinhos nas travessas, limpei as mãos no avental e segui para a frente da loja, ciente do meu estado nada atraente e nervosa com expectativa do que me aguardava vindo de Clarke.
Conforme me aproximava da mesa onde ela se encontrava, percebia pelo canto dos olhos os clientes das mesas vizinhas me encarando com surpresa. Eu deveria estar pior do que imaginei, e como se não bastasse, apostava que meu cabelo estava sujo de farinha dos cupcakes que ajudei Denise a fazer. Porém, não dava para voltar atrás, então respirei fundo e apressei os passos, tentando ignorar as dezenas de olhares curiosos na minha direção.
De costas para mim, minha irmã foi a última a notar minha presença, denunciada pelas risadas, algumas contidas, outras escrachadas, da sua corja de seguidores inúteis, composta principalmente de líderes de torcida e atletas do time de futebol. Depois de uma rápida vistoria na roda, reparei que nem Gale nem Jacob estavam presentes, aliás como de praxe. Dificilmente eles eram vistos em companhia dos outros após às aulas, o que sempre rendia um acréscimo de mau humor em Clarke por não ter seu namoradinho por perto para que ela pudesse ficar se esfregando nele em público.
Falando em Clarke, ela se virou na cadeira imediatamente ao ouvir meu nome ser emitido com deboche por uma das garotas, e estudou-me dos pés à cabeça, fazendo uma careta de desagrado no fim. Bufei, expulsando uma lufada de ar que afastou minha franja, e postei as mãos no quadril, esperando seu comentário desnecessário, o qual não tardou.
— Onde você estava? Dentro de uma caçamba de lixo? — Os retardados que a acompanhavam explodiram em gargalhadas. — Você me envergonha, Josephine. — Ela riscava o dedo no ar, indicando minhas roupas. — Qualquer um te vendo desse modo jamais iria supor que é minha irmã gêmea.
— Em dias normais, ela já não se parece muito com você, gata — afirmou um bobalhão, dando um risinho sarcástico em seguida.
— Bom, isso é verdade. — Clarke lançou o cabelo para trás dos ombros, exultante com o elogio referente à sua beleza e suntuosidade, antagonizadas em relação a mim.
Expulsei o ar dos meus pulmões com impaciência.
— Se a sessão “humilhe a nerd” já terminou — eu disse, séria —, tenho muito trabalho a fazer. Coisa que vocês desconhecem, já que são um bando de inúteis desocupados. Com licença.
Os babacas começaram a rir e a tirar sarro do que eu tinha dito ao mesmo tempo que me virei e saí pisando duro em retorno à cozinha. No entanto, nem ao menos consegui contornar o balcão, sendo impedida por um aperto nada gentil em torno do meu cotovelo. Girei, dando de cara com Clarke me observando com uma expressão fechada e quase impassível, salvo o canto da sua boca levemente retorcido. Até então, eu não sabia se isso significava que ela estava irritada por eu tê-la dado as costas ou se tratava de uma demonstração de desfrute de uma piada interna. Mas quando abriu a boca, minha dúvida foi sanada.
— Continua tentando fugir de mim, irmãzinha? — Ela sorriu de lado.
Puxei o braço, desatando-o do seu contato indesejado.
— O que você quer? — praticamente rosnei.
Minha reação a divertiu, fazendo seu sorriso aumentar ainda mais. Eu quis esmurrar minha cabeça na parede por causa disso.
— Fazer um trato contigo. Simples, rápido e direto. Se você concordar, eu guardo seu segredinho pervertido do meu pai.
— E se eu não concordar...
— Eu não só te delato, como também espalho para a escola toda que você é uma piranha da mais baixa qualidade.
Dei um passo para trás, desnorteada com a segurança contida em suas palavras difamatórias sem sentido. Pelo visto, a conversa com Ted não a dissuadiu do seu objetivo de me humilhar, da forma como eu já previra. Mesmo assim, me recuperei a tempo de perceber uma raiva inumana me invadir, substituindo, aos poucos, minha perplexidade inicial. Semicerrei as pálpebras ao respondê-la:
— Só porque eu ia ter relações com um cara, isso não faz de mim uma pervertida.
— Não, é claro que não — disse ela com calma, fazendo um gesto displicente no ar. — Conheço muitos que fariam muito mais jus a essa fama.
Comprimi os lábios para não deixar escapar “incluindo você” como resposta. Em vista das circunstâncias, não seria uma boa ideia atiçá-la.
— Mas... as pessoas não sabem disso, não é? — Clarke completou, piscando sugestivamente na sequência. — E digamos que eu tenho muitos amigos dispostos a me ajudar a contar algumas... mentirinhas. — Ela olhou por cima do ombro para seu grupo, que agora jogava farelos de tortas uns nos outros. Meu estômago se contorceu. — Eles seriam facilmente persuadidos a dizer que já pegaram de jeito a nerd com carinha de santa e até repassariam todos os detalhes mais sórdidos das suas transas, pode acreditar.
Por um mísero segundo, pensei em dizer “você não seria capaz”, mas logo desisti e engoli a frase. É claro que ela seria.
— O que você quer? — repeti.
— Ir para New York — respondeu simplesmente, dando de ombro.
Não pude evitar o riso em decorrência do absurdo dessa “exigência”. No que dependesse da minha vontade, ela podia viajar até para o Tuvalu, do outro lado do Pacífico, e eu ainda lhe seria muito agradecida por sua decisão. O problema era que seu suposto acordo, com certeza, demandaria meu esforço em ajudá-la a embarcar no avião com a autorização do nosso pai. E, de fato, seria mais fácil eu ensinar um porco a falar alemão.
— Espera que eu convença papai a te deixar ir? — Eu ainda sorria, descrente. — Você está maluca se acha que posso convencê-lo a de dar permissão para essa viagem. Sem contar que você teria que ficar com a mamãe e sabe que Carl não quer te ver nem pintada de ouro.
Clarke bufou e revirou teatralmente os olhos, como sempre fazia quando me julgava idiota.
— É claro que não. Tenho a pretensão de me matricular em um curso de verão na cidade. A resposta de admissão chegou ontem pelo correio. — acrescentou, orgulhosa de si mesma. Com isso, lembrei-me do envelope do FedEx em sua mão no momento em que ela invadiu meu quarto no dia anterior e flagrou a mim e ao Ted naquela situação constrangedora. — Para isso, assumirei o seu lugar e irei como Joey. E você ficará aqui, no Alabama, se passando por mim.
Senti meus olhos se arregalando. Que porcaria de ideia era essa?
Porra, isso não era certo de jeito nenhum!
Nossas rotinas eram diferentes. Eu tinha um emprego, ela não. Eu tinha um lugar na equipe titular de natação, portanto era imprescindível que eu comparecesse aos treinos durante o verão. Eu tinha meus próprios amigos, que, por sinal, eram muito diferentes dos amigos da minha irmã, e, meses antes, já fizera planos para as férias com eles. Além do mais, nossos pais logo notariam a diferença entre nossos comportamentos. Afora que, embora fôssemos gêmeas idênticas, fazia anos que não mantínhamos o mesmo corte de cabelo ou usávamos o mesmo estilo de roupa. A propósito, até nossas maneiras de nos expressarmos era diferente.
— Troca de lugares? Isso nunca dará certo. — Neguei com a cabeça, reforçando o que eu pensava a respeito desse desvario. — Não poderíamos enganar ninguém com isso, nem que eu topasse me passar por você. Todos perceberiam rapidamente a farsa.
— Deixa essa parte comigo, tolinha. — Clarke abriu um largo sorriso convencido. — Como eu sempre soube, sou a gêmea mais esperta mesmo. Já pensei em cada detalhe da nossa operação conjunta. Te vejo no jantar, Josephine. Tchauzinho.
Ela deu mais uma piscadinha irritante, certa de que havíamos firmado um acordo secreto e, sem me dar sequer o direito de resposta, se afastou, indo ao encontro dos outros palermas à sua espera.
E foi a partir daí que, mesmo que eu ainda não soubesse, tinha acabado de assinar um contrato com o diabo.
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