Proibido Pra Mim
1 Pega em flagrante
Se existia alguém que eu detestava com todas as minhas forças e que encabeçava a minha lista de arqui-inimigos naturais, essa pessoa era a minha irmã gêmea, Clarke Dunkle. Já tinha ouvido falar ou lido em algum lugar a menção de que irmãos gêmeos dividem um lance de cumplicidade e sentimento sobrenatural que os mantêm emocionalmente conectados. Talvez, Clarke e eu viéramos ao mundo com defeito de fábrica, porque não tínhamos nada nem remotamente parecido com isso. O único sentimento que abundava entre minha irmã e eu era uma absurda vontade de esganarmos uma a outra.
Nossos pais, mesmo após o divórcio, tentaram de tudo para que nós duas acertássemos nossas diferenças e, dessa forma, convivêssemos melhor. E quando digo tudo é tudo mesmo! No entanto, ao perceberem que suas estratégias não surtiam resultados, foram forçados a optar pelo último recurso, que consistia em nos separar.
No decorrer de três – maravilhosos – meses, minha irmã morou com nossa mãe no Brooklin, NY. O problema era que mamãe não tinha meios de tomar conta de Clarke, porque trabalhava em tempo integral como assistente de edição num jornal local pouco conhecido. Quando papai soube, pelo atual marido – fofoqueiro – de mamãe, que Clarke estava andando com más companhias na escola de lá, tratou de ir buscá-la e trazê-la de volta para o Alabama. Mal sabia ele que Clarke não acompanhava más influências, ela era a má influência. De qualquer modo, isso rendeu o maior bafafá.
Mamãe quis tirar satisfações com papai e o acusou do nos mimar demais, alegando que a culpa de não nos darmos bem era dele. Em contrapartida, ele devolveu as acusações, dizendo que tinha sido ela quem abandonara a família para viver seu sonho na Big Apple¹. Ainda havia minha irmã que, dominada por um acesso de ira, xingou nosso padrasto dos piores nomes e, com isso, o irritou a ponto de induzi-lo a expulsá-la de vez, e sem a menor cordialidade, do apartamento onde vivia com nossa mãe. Pronto, o caos fora instaurado!
Em suma, Clarke voltou arrastada para casa com um bico mais protraído do que o de um pato. Algum tempo depois, quando afinal a poeira baixou, papai propôs que fosse eu a mudar para Nova York. Contudo, bati o pé e me recusei a ir para lá. Não que eu tivesse muitos amigos ou pessoas que se importariam com a minha ausência no Alabama. Mas ali era o meu lugar. De jeito nenhum eu iria trocar radicalmente de rotina e forçar uma convivência com minha mãe e meu padrasto, o qual, provavelmente, me trataria com indiferença por causa da Clarke, como se o fato de possuirmos os mesmos traços físicos implicasse que partilhássemos da mesma personalidade, o que, a propósito, era uma suposição totalmente equivocada.
A não ser pela aparência e por termos nascido na mesma família, não havia mais nada em comum entre nós. As discrepâncias iam desde o gosto para comida ou dos tipos de garotos pelos quais nos interessávamos, e se estendiam aos nossos círculos de amizades e estilos, além dos nossos objetivos de vida serem completamente opostos. À medida que Clarke vivia intensamente, pensando no hoje, nas festas às quais lhe choviam convites, na diversão e na fase da adolescência, que ela julgava ser eterna, eu me preocupava com as aplicações para as universidades após as férias de verão e qual parte do país me abrigaria no ano seguinte. Nem ao menos podia idealizar meu ingresso numa faculdade fuleira.
Sobretudo, caso essa tragédia se abatesse sobre mim, seria capaz de eu ainda ter a infelicidade de aturar mais quatro anos de graduação no mesmo campus com Jacob Miller, o namoradinho cabeça-oca da minha irmã. Ugh! Dava-me até calafrios de cogitar tal possibilidade. Não, eu não podia pensar assim. Esta não era uma alternativa de futuro para mim. Ah, não. A Universidade de Yale² ou de Stanford³ me aguardava, baby!
Apesar de tudo, chegou uma hora na qual minha irmã e eu cansamos de tantas retaliações. Possivelmente, isto tenha acontecido devido ao curso normal do amadurecimento ou pelo fato de termos assimilado, simultaneamente, que ambas estávamos perdendo tempo com bobagens. Bem, independentemente da razão, pelo menos instituímos um acordo mútuo, embora não-verbal, de trégua nas discussões. Para que este plano desse certo, interagíamos o mínimo possível, ou seja, em situações cuja comunicação se fazia estritamente necessária, fosse para avisarmos alguma coisa sobre a escola ou referente aos telefonemas, caso se tratasse de uma emergência e, portanto, anotações no bloquinho de recados não representasse um recurso tangível.
E tudo seguiria um fluxo benéfico equilibrado para as duas partes, se minha queridíssima irmãzinha não tivesse me pegado no flagra de uma ocasião um tanto... vergonhosa, promovida por um episódio de sorte do destino. Em favor dela, óbvio.
🍎🍏
Enquanto subíamos os lances de escadas rumo ao meu quarto, eu tinha certeza de que Ted conseguia sentir minha mão, da qual os dedos estavam entrelaçados aos dele, trêmula e grudenta de suor gelado. No entanto, como exemplo de bom amigo que ele era, não caçoou do pleno estado de nervos em que me encontrava, tampouco fizera qualquer observação que pudesse me deixar ainda mais nervosa. Nós éramos próximos desde crianças, apesar disso, não me recordava da última ocasião em que ficáramos sozinhos. Aliás, eu acabava de me dar conta de que nunca havia estado a sós, em termos íntimos, com menino nenhum, o que considerando a minha idade, era algo vergonhoso de se admitir.
Quando enfim alcançamos nosso destino pretendido, eu permiti que ele entrasse no cômodo primeiro. Logo depois, apressei-me atrás do meu melhor amigo e fechei a porta às minhas costas. Ted parecia confortável de estar ali, no meu quarto, e examinava tudo ao redor, detendo-se em uma ou outra mudança que eu tinha feito recentemente na decoração. Ao virar-se de frente para mim outra vez, um sorriso se delineou em seus lábios finos, e ele passou os dedos no cabelo extremamente liso e castanho, expulsando a franja que caía diante dos seus olhos. A seguir, estendeu a mão esquerda, que até aquele instante achava-se dentro do bolso da calça jeans, como um convite para eu me aproximar. Não hesitei em aceitá-lo, embora minhas pernas estivessem mais bambas do que antes, e tê-lo olhando para mim com atenção e mordendo o lábio inferior daquele jeito sexy, não me ajudava a relaxar.
Logo ao parar a um passo de distância dele, Ted se precipitou a mim, e segurou meu rosto com suas mãos grandes, de palmas bastante ásperas, um notável contraste em relação à minha pele sensível. Isto não me desagradou, pelo contrário, considerei o toque abrasivo uma característica excitante, ainda mais no momento em que ele deslizou a mão para a minha nuca ao passo que o outro polegar se esgueirou sob meu queixo a fim de erguê-lo e, assim, seus lábios capturaram os meus.
Na medida em que nossas línguas deslizavam devagar, explorando e instigando um ao outro, foi inevitável que eu fizesse uma comparação com a época em que tínhamos treze anos de idade e participamos da brincadeira “verdade ou desafio”. Em decorrência do seu ótimo desempenho desta vez, me deixando completamente ofegante e suplicando por mais, supus que Ted tivesse adquirido experiência nos últimos anos. Bom, de qualquer forma, antes disso já fazia um tempo razoável desde que nos beijáramos.
Naquele dia, Heather Ellis, uma colega da escola secundária, comemorava seu décimo terceiro aniversário no porão de casa. Da mesma maneira como sucedia todos os anos, quando os adultos subiram à sala do térreo para bater papo, reunimo-nos em torno da televisão de vinte polegadas no intuito de iniciarmos as competições de videogame. Todavia, sabe-se lá por que, alguém veio com a estúpida ideia de praticarmos uma atividade diferente, ao que outro – idiota – sugeriu o famoso jogo da garrafa.
Internamente, eu supliquei para Heather ter o bom senso de não aceitar a proposta. Mas, ao invés disso, o sorriso malicioso que se emoldurou no seu rosto me deu a nítida impressão de que a partir dali, eu estava fadada a cometer um grande erro, presumindo que era a única boca virgem naquela joça. Sendo assim, com o aval da aniversariante, todos formaram uma grande roda no chão, sentados em pernas de chinês, e dera-se início à brincadeira.
O pessoal começou pegando leve, e a maioria solicitava “verdade” em lugar de “desafio” até que Lincoln, um garoto franzino de óculos fundo de garrafa, reclamou do tédio por causa daquela dinâmica. Portanto, Heather decidiu agitar as coisas no que o gargalo da garrafa apontou para Kelly Carlsson, uma menina tímida da nossa classe. Tanto ela quanto Ted arregalaram os olhos no momento em que Heather desafiou Kelly a dar um beijo de língua no meu melhor amigo.
Os outros ovacionaram e a menina desafiada colocou-se de pé em questão de segundos, retrucando que havia escolhido “verdade”. Mas, a essa altura, ninguém estava dando bola para sua indignação. Eu vi, do lado oposto ao meu do círculo, Ted liberar um longo suspiro antes de se erguer a fim de cumprir sua parte no jogo. No entanto, a garota recuou e os olhos já naturalmente grandes, tornaram-se ainda mais esbugalhados. Sem que pudéssemos ter previsto, ela se aproveitou da sua posição perto da escada e desembestou a correr em direção ao andar de cima.
Todos começaram a rir e a zombar de Kelly, exceto Ted e eu. Ainda de pé, ele conjurou as sobrancelhas de tal modo que chegou a gravar um vinco profundo entre elas enquanto encarava os outros com visível repreensão, e eu, cruzava e descruzava meus dedos no colo, sentindo a pulsação bater com força nos meus ouvidos. Alguma coisa me dizia que eu seria a próxima a pagar um tremendo mico.
— Ela com certeza é B.V., coitada. — A voz de uma das garotas sobressaiu às gargalhadas remanescentes em um misto de deboche e desprezo, como se alguém que ainda não tivesse dado seu primeiro beijo se transformaria em um pária social.
E para não deixar dúvidas do seu menosprezo, acompanhado da ofensa, ela levou as costas da mão à testa, formando um “L” com os dedos polegar e indicador. “L” de loser⁴.
E caramba, a maioria de nós tinha apenas treze ou quatorze anos!
Depois disso, eu queria defender a pobre garota e até podia fazê-lo em prol de motivos pessoais, mas minha boca ficou tão seca que já era bem difícil engolir, quanto mais falar. Durante este período de antecipação, no qual eu tentava me decidir se iria dizer alguma coisa sobre aquela falta de respeito com a colega ou permanecer quieta no meu canto antes que sobrasse comentários maldosos para mim também, Ted me flagrou olhando para ele. Sua expressão mudou de inconformidade para quase pena. Ele sabia muito bem que eu nunca tinha beijado.
Então, o que ele fez a seguir, atualmente ainda faz com que eu tenha um sentimento dividido entre querer abraçá-lo por ser o melhor amigo do mundo ou espancá-lo até que ele beire a inconsciência. Talvez um dia eu decida por uma das alternativas. E pelo bem da saúde de Ted, espero que ele esteja bem longe de mim quando esse dia chegar.
— Já que houve essa desistência, então eu devo escolher uma pessoa para cumprir o desafio, não? — disse meu amigo, displicentemente ocupando seu lugar no chão. Essa era uma das regras? Bom, provavelmente não, mas como ninguém contestou, ele prosseguiu. — Eu desafio a Joey a ir comigo para o armário por cinco minutos.
O quê? Oh, ele não fez... Dezenas de cabeças viraram para mim. Oh, ele fez!
Eu abri e fechei a boca algumas vezes, mas nenhum argumento foi confabulado. Ao passo que eu dava as costas para o grupo e me encaminhava para o pequeno closet oculto debaixo de um dos lances da escada, pisando duro como protesto, ouvi assovios e cochichos acerca do pedido inusitado de Ted. Onde raios ele estava com a cabeça?
Ao puxar a corrente que acendia a pequena lâmpada suspensa sobre nossas cabeças, percebi que o lugar era ainda menor do que parecia por fora, uma vez que prateleiras empilhadas ocupavam as três paredes do fundo e, nelas, achavam-se amontoados materiais para pesca, artigos esportivos e ferramentas, além de várias caixas marcadas com pilot ⁵ preto a inscrição “Mark”. Mark era o irmão mais velho de Heather que tinha se mudado para o alojamento da universidade onde era calouro. A meu ver, o cubículo servia praticamente como um depósito de quinquilharias sem utilidade, porém que a família não desejava se desfazer.
Quando a fechadura produziu um clique atrás de mim, soube que Ted e eu partilhávamos de um momento de privacidade. Bom, isso também ficou explícito pelo fato do corpo dele estar a menos de um passo de se colar completamente ao meu, de modo que eu sentia sua respiração na lateral do meu pescoço, pois o precário perímetro interno não nos dava a opção de não invadir o espaço pessoal um do outro. Em parte, eu estava aliviada, em parte, tive que conter o impulso de saltar no pescoço dele.
— Ei, calma, Joey. — Meu amigo suspendeu as mãos num movimento defensivo ao que me virei abruptamente de frente para ele, cruzando os braços e olhando-o fixamente com os olhos semicerrados. — Respira.
— Respirar? — quase gritei. — Como você pede para eu respirar? Eu tô surtando!
— A gente não precisa realmente beijar, sabe disso, né? — De repente, meu semblante zangado aliviou e transformou-se em duvidoso. Em reação, ele revirou os olhos, impaciente. — Eu só dei a ideia de virmos para cá porque, quando chegasse a sua vez, alguém poderia te desafiar a beijar o Brandon ou o Lincoln. — Fiz uma careta de desagrado.
Lincoln era um cara muito esquisito; inegavelmente inteligente, mas igualmente cretino. Autojulgava-se um grande conquistador, ainda que não dispusesse de atrativos físicos impressionantes e, sobretudo, possuísse uma personalidade de dar dó. Em contrapartida, Brandon exibia uma boa estampa, porém seu interior era mais oco que o do violão. Além disso, carregava a má fama de denigrir a imagem das ex-namoradas. De jeito nenhum eu daria o meu primeiro beijo em qualquer um dos dois.
Ted aquiesceu, como se lesse meus pensamentos.
— Agora, você só precisa me dar um selinho. — Suas bochechas adquiriram uma coloração mais avermelhada e ele olhou para o chão enquanto enfiava as mãos nos bolsos da calça. Este era um dos sinais de quando ele estava nervoso. — Sabe, para marcar minha boca com o seu batom e ninguém desconfiar de nada.
Eu podia fazer isso. Quer dizer, não era nada demais unir meus lábios aos dele, não é? Inclusive, caso relevasse a acne, comum à nossa idade, e pensasse que dentro de poucos anos ele se livraria do aparelho dentário, sem dúvida Ted poderia ser referido o garoto mais atraente da turma, sem contar que era a única pessoa daquele grupo que valia a pena. Sendo assim, guiei minhas mãos aos ombros dele e, logo que ele levantou a cabeça, desajeitadamente eu selei nossos lábios.
Tão rápido como eu eventualmente o beijei, também me afastei. Pelo menos o tanto quanto era possível naquele aperto. Estive vagamente consciente de que Ted abriu os olhos de imediato assim que impus a risória distância, um pouco espantado pela minha iniciativa anterior. Contudo, a maior parte da minha atenção se concentrou em sua boca, para a qual meu batom cor-de-rosa claro mal havia sido transferido. Eu praguejei baixo antes de surpreendê-lo com outro beijo, desta vez, aplicando mais pressão. Entretanto, reparei que meu propósito surtiu um efeito diferente quando as mãos de Ted serpentearam para minha cintura e, no momento sucessor, uma estrutura macia e molhada deslizou pelos meus lábios ocluídos. Demorei um par de segundos para perceber que se tratava da sua língua, persuadindo-me a abrir os lábios. Meus dedos se fecharam com mais força nos ombros dele ao mesmo tempo em que eu finalmente cedi ao desejo do meu melhor amigo. Como eu não sabia muito o que fazer e como fazer, apenas segui seus movimentos, torcendo para que estivesse agradando em vez de parecer uma idiota.
🍎🍏
Decorridos cinco anos, ali estávamos nós dois, no meu quarto, quase completamente despidos; o casal de amigos que sempre inspirou bochichos não só na escola, como na nossa vizinhança, visto que Ted morava a duas quadras de distância da minha casa, e inclusive uma torcida dos pais dele para que chegássemos a assumir um namoro e a aversão declarada do meu pai em razão dessa mesma ideia.
Com Ted, tive o meu primeiro beijo e, em virtude do curso como as coisas se desenvolviam entre nós dois, ele acabaria sendo o primeiro cara da minha vida também. Poucos dias antes, numa das nossas conversas de rotina, despropositadamente explicitei a ele o meu desejo de não ir para faculdade sendo virgem e, dada a minha ausência de interesse em me envolver com qualquer garoto das redondezas, nós levantamos a hipótese da minha primeira vez acontecer com ele. Eu confiava nele, embora soubesse da sua ressalva de se envolver em um relacionamento sério, ainda mais no último ano da escola, assumindo que dali a pouco poderíamos estar em localizações diferentes, provavelmente opostas, do país.
Por outro lado, eu também não tinha a menor pretensão de me apaixonar, ainda que admitisse – ao menos para mim mesma – uma quedinha pelo meu melhor amigo. Quer dizer, qual é!? Nos últimos anos, Ted tirou o aparelho e ganhou um sorriso perfeito, branco e alinhado, desenvolveu músculos invejáveis, e o estilo do seu corte de cabelo tinha sofrido uma mudança radical, passando de um tipo certinho “oi, eu sou um nerd” para um propositalmente desleixado “oi, eu sou um nerd escondido na pose de um badboy gostoso pra caralho”.
Por isso, mesmo que no nosso percurso cambaleante, tropeçando aqui e ali, até a cama – que aliás nos rendeu boas risadas –, eu tivesse tomado a providência de ligar o ventilador de teto, o quarto parecia absurdamente calorento. E isso nada tinha a ver com o clima geralmente quente do Alabama, devia-se mais à boca de Ted – sem camisa e com o cinto e zíper da calça aberto – fazendo maravilhas ao trilhar beijos molhados, os quais se iniciaram na minha mandíbula, passaram pelo pescoço e colo, velado somente pelo sutiã de renda preta, e seguia o caminho descendente, sem pressa. De vez em quando, eu me remexia ansiosamente embaixo do seu corpo, e sentia-o rir de encontro à minha pele febril, satisfeito por arrancar tais reações de mim. Suas investidas proporcionavam uma conexão direta com a minha intimidade, e eu já podia sentir minha calcinha molhada nessa conjuntura.
Tudo fluía maravilhosamente bem, mas subitamente eu comecei a me sentir desconfortável e, pela primeira vez em minutos fui sacudida por um choque de realidade do acontecimento que estava prestes a ser estabelecido na minha casa, no meu quarto, na minha cama e com o meu melhor amigo de infância. Não, não, não!
Inferno! Tudo isso soava tão inapropriado...
Espremi as pálpebras com força quando as mãos de Ted estacionaram nas laterais do meu quadril, mais precisamente com os dedos indicadores deliberadamente encaixados em ganchos nas tiras da calcinha. Entre as fendas dos meus olhos, testemunhei sua cabeça, que pairava sobre a minha pélvis, voltar-se para cima, de forma que os olhos castanhos encontraram meu rosto. Seu semblante excitado, em questão de segundos, fora substituído por pesar, o que me deixou mais vulnerável e, involuntariamente, todos os músculos abaixo da minha cintura enrijeceram.
Francamente, eu pensava que as meninas exageravam ao referir o momento de perder a virgindade como um evento terrivelmente penoso. Bem, eu acabara de descobrir que elas não estavam aumentando em nada seus relatos. Nesse meio tempo, a realidade caiu como uma bigorna na minha cabeça. Eu não estava pronta.
Ele liberou uma respiração pesada ao passo que eu senti suas mãos deixarem o contato com meu corpo. Vagarosamente, engatinhou no colchão até planar sobre mim, depositando a maior parte do seu peso nos antebraços encaixados ao meu lado. Por fim, eu abri os olhos, sentindo minhas bochechas pegarem fogo quando dei de cara com o rosto do meu amigo repleto de indulgência.
— Ted... — choraminguei quase sem fôlego. — Eu não consigo.
Droga, eu estava prestes a chorar!?
— É que eu... — “É que eu sou uma completa idiota. Humpft!”, tive vontade de completar, porém me silenciei e cerrei as pálpebras de novo, escondendo o rosto com as mãos, igual a uma garotinha patética.
Ted retirou minhas mãos do lugar e, mesmo que eu ainda estivesse de olhos firmemente ocluídos, ouvi uma risada baixa, que também fez seu peito nu vibrar. Apesar de tudo, ele conseguia achar a situação engraçada, embora eu estivesse a ponto de explodir de vergonha.
— Joey, abra os olhos — pediu ele, sua voz soando calma. No que eu neguei com a cabeça, Ted começou a espalhar beijos na ponta do meu nariz, nas minhas pálpebras, no meu queixo e em todas as áreas do meu rosto ao seu alcance. Finalmente, eu me rendi e desatei a rir. — Eu não vou te forçar a nada, você sabe. — Eu assenti, agora de olhos abertos, atenta. — Então, tenta relaxar um pouco. Se você continuar tão tensa, certamente sentirá muita dor. Confia em mim?
Como dizer a ele que eu não estava mais nem um pouco a fim de transar? Deus! E ele estava sendo tão fofo e compreensivo...
Nós iniciamos outro beijo, um pouco mais lento, e não demorou muito para Ted dedicar ao meu pescoço uma análise exploratória com seus lábios divinos, murmurando quanto apreciava meu perfume e minha pele macia. Minhas mãos criaram vida própria e resolveram se perder no emaranhado em que se encontrava o cabelo dele. Em resposta, Ted gemeu baixinho contra o ponto sensível logo abaixo da minha orelha e o volume apertado sob sua calça foi pressionado na minha coxa. Aquilo foi o fim para mim. Estremeci, definitivamente excitada outra vez.
— Joey, o papai... Oh!
Ao escutar a voz de uma terceira pessoa no quarto, eu agi no impulso e empurrei Ted, que despencou no colchão. De rompante, ergui o tronco, com o coração pulsando forte, e meus olhos arregalados se embateram com a minha própria imagem em pé do lado oposto do dormitório, segurando a maçaneta da porta e ostentando um ar de surpresa e a sombra de um sorriso maldoso. Engoli em seco.
— Clarke, cai fora daqui! — Lancei um travesseiro na sua direção, que, sem dificuldade, ela pegou no ar. — Quantas vezes já te disse para bater antes de entrar na droga do meu quarto?
Minha irmã, sem se abalar pela hostilidade em meu tom de voz, cruzou os braços e apoiou o ombro no batente, demonstrando toda a sua satisfação em me ver tão encabulada. Nisso, eu avistei um papel de carta e um envelope Fedex na sua mão. Provavelmente era sobre isso que ela pretendia falar quando irrompeu pelo meu quarto, me abordando em um momento tão... íntimo. De qualquer maneira, não importava mais. O fato era que Clarke parecia presunçosa ao passar mais um olhar humorado de mim para Ted, estatelado à minha direita e entregue ao mais absoluto silêncio. Eu não podia culpá-lo. Minha irmã conseguia ser uma cretina quando desejava. Na verdade, ela fazia disso seu programa de entretenimento favorito.
— Meu pai vai adorar saber que a garotinha ajuizada do papai estava transando com o melhor amigo. Eu só quero ver a cara dele.
Saltei da beirada da cama, sem sequer me preocupar que estivesse somente em uma minúscula calcinha e sutiã.
— Você não ousaria! — rosnei, empunhando o dedo em riste.
— Ah, não? — Sua sobrancelha bem delineada arqueou, desafiando-me. — E eu posso saber por quê?
— Porque... porque... porque você deixa seu namoradinho cabeça-de-minhoca, que o papai desaprova, escalar a jardineira e entrar pela janela do seu quarto altas horas da madrugada — acusei, empinando o queixo com certa petulância. Com isso, notei os cantos dos seus lábios tremerem, embora seu sorriso se mantivesse intacto. A-há! — O que foi? Acha que não escuto seus gemidos? “Ai, Jake, mete com mais força. Isso aí, me faz gozar gostoso”. — A mandíbula de Clarke travou e Ted emitiu uma risadinha abafada às minhas costas. Nesse momento, senti que obtinha o controle nas minhas mãos. — Se por ventura não queria que ninguém soubesse dos seus atos sórdidos, vocês deveriam tentar ser mais discretos.
Mas, para o meu azar, essa sensação vitoriosa não perdurou. Tão logo terminei de falar, a porta da frente foi destrancada. Clark espichou o pescoço para o corredor e ao voltar-se para mim novamente, havia um sinal claro de aviso no seu olhar.
— Fique sabendo que essa nossa conversinha ainda não acabou, Joey — ela falou baixo, de modo que somente eu pudesse ouvir.
Em seguida, desapareceu ao fechar a porta do quarto. Segundos depois, houve ruídos de passos firmes aproximando-se do segundo piso pela escada e, logo após, Clarke conversando com nosso pai. Ainda por cima, ele tinha chegado mais cedo do trabalho!
Deixei a cabeça pender para frente, minha testa encostando na porta e minhas mãos espalmadas nela.
Puta merda, puta merda, puta merda!
Se eu acabara de foder de vez com a minha vida? A resposta é um redundante “sim”.
____________________
¹ Referência à cidade de Nova York.
²Yale e ³Stanford são duas das maiores universidades dos Estados Unidos, estando aquela localizada em Connecticut e esta, no estado da Califórnia.
⁴ Perdedor(a).
⁵ Marca de caneta de tinta permanente.
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