Profundo Azul
3 Capítulo 3
Notas iniciais
Dizem que não é possível se lembrar de muita coisa do que acontece antes de ficar inconsciente. Posso afirmar que é uma das maiores mentiras já afirmadas.
Pois eu me lembro de cada detalhe.
Após milhares de pedidos por parte de todos no navio, eu resolvi ceder e trocar de turno com o Ben para poder descansar um pouco. De acordo com eles, eu precisava de pelo menos uma boa noite de sono para continuar disposto o bastante para o restante da viagem, que jamais saberíamos quando acabaria. Se eles imaginassem que não teríamos mais uma madrugada comum como as outras, talvez eles não tivessem insistido tanto em algo que acabou se tornando inútil.
Acordei assim que ouvi gritos vindo lá de cima. Pulei da cama sem pensar duas vezes, sai do quarto e quase esbarrei em Edson enquanto subia as escadas:
—Diego! Eu estava...
— O que houve? – Nem ao menos permiti que Ed completasse a frase.
—É melhor você subir.
Subimos correndo as escadas o mais rápido possível. Não foi necessário muitas explicações. Todas se tornaram inválidas perante a presença do grande navio que pairava ao nosso lado.
—Vocês deveriam se considerar loucos de estarem navegando neste mar. Não sabe que até mesmo as águas possuem dono?
A voz rouca e estrondosa vinha do homem apoiado em uma das beiradas do navio. Ao seu lado, vários homens se posicionavam. Homens de todos os tipos, de todas as cores e tamanhos. Sujos, limpos. Porém todos com uma expressão muito estranha no olhar, e um sorriso muito incômodo.
—Olha, não queremos confusão. Estamos perdidos! – Ben tentou argumentar, com muita calma. Hellen estava atrás de mim, e não permiti que ela se aproximasse mais.
—Estão perdidos? Oh! Porque não disseram antes! Ouviram homens?! Eles estão perdidos! – O homem cuspia as palavras da forma mais irônica possível enquanto os demais fingiam estar comovidos com as palavras dele. – Sendo assim, talvez devêssemos fazer uma apresentação mais digna, não acham?
Todos permaneceram imóveis, e o tempo pareceu escorrer lentamente. Um vulto até agora escondido pela estrutura do navio acabava de sair de trás do leme e se juntava ao restante da tripulação. Ele ainda estava encoberto pelas sombras, e a má iluminação do navio não auxiliava muito.
O homem que até então se dirigia a nós deu um leve impulso e agarrou-se a uma das cordas presas no mastro de seu navio, a mais externa. Ele saltou e pousou sobre nosso navio. O restante da tripulação permanecia imóvel.
Nós também.
—Acho que terei que me apresentar. As regras de etiqueta dizem isso, não? meu nome é Jones. Aliás, Capitão Jones – Ele apontou para o chapéu de couro preto e gasto que levava em sua cabeça.
O capitão estendeu a mão para Ben, que retribuiu o cumprimento. Ele prosseguiu:
— Como um bom capitão, eu deveria lhes advertir dos perigos que estas águas trazem, vocês sabem. Mas há dois grandes problemas aí. Eu não sou um bom capitão – Jones puxara Ben contra seu corpo, enquanto usava um dos cotovelos para atingir seu estômago – E acredite, Nós somos o perigo! – Ele finalizou o golpe acertando a nuca de Ben, que caiu inconsciente ao mesmo tempo.
Toda a tripulação levantou suas armas ao mesmo instante, e uma guerra começou no pequeno convés do navio. Reprimi o grito de pavor de Hellen puxando-a para longe de toda a confusão enquanto dava ordem para que dois de nossos tripulantes resgatassem o Ben, ainda desacordado. A cada minuto passado, mais marujos de Jones se jogavam de seu navio para o nosso. Alguns tinham sucesso, dificultando a batalha corpo a corpo, enquanto outros eram jogados na água enquanto tentavam passar para o nosso lado do navio. Encontrei Ed um pouco afastado, perto das escadas.
—Leve Hellen para o quarto de Haley, rápido! –Empurrei Hellen na direção de Ed assim que percebi um dos marujos vindo em nossa direção com uma machadinha. Desembainhei uma das espadas que carregava comigo e travamos uma rápida batalha. Ele não possuía grandes habilidades com aquela arma, uma pena para ele.
Porque eu sabia muito bem como usar minha espada.
Não foi preciso muito para derrubá-lo. Apenas uma bora mira e uma espada bem afiada.
Não tive tempo de aproveitar da morte certa do oponente, pois outros já se aproximavam de mim. Retirei minha espada ainda bem fincada na garganta do primeiro marujo e segui para os demais.
A batalha parecia nunca ter fim, assim como o número de marujos que invadiam nosso navio a cada minuto. Não adiantava mais evitar que chegassem até nós. Já estava quase do outro lado do convés quando avistei Jones bradando palavras torpes e distraído de minha presença, tão próxima a ele. Não pensei duas vezes quando avancei contra ele.
Senti minha espada sendo repelida por outra. Mas não era Jones quem estava do outro lado. Era um vulto. O mesmo vulto que vi no navio dele, saindo de trás do leme e escondendo-se nas sombras. Ele estava debaixo da luz, entre fogo e aço, mas pouca coisa mudava. Usava um sobretudo e uma capa tão pesados capaz de esconder todo o seu corpo e rosto. Era bem menor que eu, e bem mais fraco. Mas habilidoso o bastante para conseguir me desarmar. Me perguntei como o tecido pesado não atrapalhava seus movimentos.
Não foi difícil analisar as técnicas de batalha de meu oponente. Mas acima de tudo, não foi difícil analisar contra quem lutava. Após desarmá-lo também, quando finalmente consegui imobilizá-lo, trancei seus braços e torci seus pulsos. Ele não se mexeu, não se contorceu. Não parecia sentir dor, ou ao menos, não parecia demonstrar. Usei então o peso de meu corpo contra o dele, sabendo que eu era bem mais forte. Quando prendi seus braços atrás de seu corpo, ele se jogou contra mim, de costas, roçando nossos corpos. O sobretudo e a capa realmente cobriam muito bem sua aparência.
Mas eu sabia reconhecer muito bem o corpo de uma mulher.
Ela foi muito rápida ao conseguir inverter nossas posições, pulando por cima de mim. Senti quando o golpe chegou sobre minhas costas, e senti as consequências dele sobre minha coluna vertebral. Não pude controlar meu corpo de sucumbir e cair ao chão.
Eu reconhecia aquela sequência de movimentos. E sabia o que viria a seguir. Mesmo de joelhos, consegui me defender do próximo golpe. Mas ela tinha um plano B.
Não senti onde foi o próximo golpe.
Senti apenas a escuridão.
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