Notas iniciais
El Paso, Texas.

Fazenda Rain of Fall.

Outono.

Era por volta das duas da manhã. Chovia densamente.

Raios e trovões caiam constantemente.

Uma árvore alta do meio de um vasto pasto encharcado. Um corpo branco caindo do céu.

Um grito. Um raio caiu próximo ao corpo. Um clarão repentino. E um dos maiores estrondos de um trovão que um ouvido humano jamais tinha ouvido.

O dia havia amanhecido nublado. Era por volta das oito da manhã quando John e Fred, dois peões da Fazenda Rain of Fall cavalgavam em direção aonde um raio havia caído perto de uma árvore para ver se algum bovino havia sido morto por causa da tempestade que ocorreu naquela noite.

John tinha por volta de trinta e oito anos, um cavanhaque meio grisalho e olhos castanhos.

Fred era mais novo, tinha uns vinte anos, pele bronzeada e cabelos negros tais como os olhos.

"Você ouviu um grito quando aquele forte raio caiu?" Fred perguntou olhando para a árvore perto do local onde o raio havia caído.

"Deve ter sido alguém que se assustou com o barulho do raio" John respondeu arrogantemente como sempre. Seus olhos castanhos também olhavam para a árvore.

"Não, foi um grito vindo daqui de fora" Fred insistiu.

John não disse mais nenhuma palavra.

Fred não insistiu mais.

Quando eles chegaram perto da árvore viram que nenhum animal estava morto.

Fred olhou para a direita da árvore e então viu algo branco no meio do capim alto e em volta o capim estava amassado.

"John olhe lá!" Fred disse apontando para a pequena parte branca que estava no meio do capim.

John estalou o chicote, mas o cavalo recuou e não cavalgou. John desceu do cavalo e praguejou enquanto amarrava a corda do cavalo em um galho baixo da árvore. Fred também desceu do cavalo e amarrou o cavalo no mesmo galho que John.

John começou a caminhar em direção a algo branco. Fred caminhava logo atrás.

Quando eles chegaram perto o suficiente para ver o que era, John retirou o chapéu e o apertou contra o peito.

"Deus do céu!" Disse John impressionado com o que estava vendo.

"É impressionante!" Balbuciou Fred boquiaberto.

O espanto deles era pelo corpo de uma garota de pele pálida e cabelos longos num tom loiro, vestia um vestido branco longo de linho de mangas longas. Ela estava dormindo e estava descalço.

"De onde ela veio?" John perguntou olhando em volta para ver algum rastro de onde ela tinha vindo, mas não encontrou nada.

Fred olhou para o céu e disse apontando para ele "Talvez de lá".

"Não fale besteira garoto" Grunhiu John.

"Vamos levá-la até o patrão para que ele possa examiná-la, talvez ela quebrou algo" Disse Fred analisando o corpo da garota que dormia profundamente.

John assentiu.

Fred se agachou e pegou a garota em seus braços. Ele se levantou e caminhou até onde os cavalos estavam. John desamarrou a corda do cavalo e montou em seu cavalo. Fred levantou a garota em seus braços numa altura em que John alcançava e pegou o corpo e o segurou fortemente enquanto batia as esporas na barriga do cavalo fazendo-o correr.

Fred foi logo em seguida.

Eles cavalgaram pelos pastos até encontrarem uma estrada com varias árvores em ambas as margens. A estrada levava até um casarão de arquitetura antiga, mas havia passado por uma reforma há pouco tempo. Era um casarão de dois andares, no andar de cima havia varias janelas quadradas e havia uma enorme escada externa que ficava alinhada no meio da casa e ia direto para o segundo piso onde se encontrava em uma pequena varanda e uma porta dupla de madeira envernizada. No térreo havia uma porta dupla do lado esquerdo da escada e possuía tantas janelas quanto o andar superior.

Fred e John pararam os cavalos ao pé da escada. Fred desceu do cavalo e aguardou enquanto John, ainda de cima do cavalo, colocava o corpo de aproximadamente um metro e sessenta nos braços de Fred.

Fred pegou o corpo e começou a subir a escada.

Alguns peões que estavam por ali ficaram com olhares curiosos para o que Fred carregava nos braços.

Quando Fred chegou à pequena varanda John o esperava para abrir a pesada porta, mas quando ele colocou a mão na maçaneta, alguém de dentro abriu a porta.

Um homem de aproximadamente uns quarenta anos, mas de aparência conservada, olhos num tom castanho-escuro e cabelos cor de chocolate.

Ele ficou espantado quando viu o que Fred tinha em seus braços.

"Nós a encontramos perto de onde o raio deve ter caído esta noite" Disse John rapidamente.

"Venha!" Disse o homem abrindo caminho para Fred passar.

De frente a porta dupla de madeira havia uma enorme sala de estar com sofás beges e uma Tv de plasma pendurada na parede, do lado esquerdo havia uma mesa de madeira com dezoito cadeiras de madeiras pesadíssimas e depois da mesa havia um pequeno hall onde havia três portas, ainda atrás da mesa do canto direito havia uma escada aonde ia para o térreo. No lado direito da sala havia um corredor cheio de portas.

O homem de cabelo cor chocolate caminhou no corredor cheio de portas até a última porta do lado esquerdo do corredor. Ele pausou a mão sobre a maçaneta da porta e deu um suspiro antes de abrir a porta. Ele abriu a porta. Fred entrou no quarto e colocou a garota sobre a cama.

No quarto havia uma cama de casal com uma colcha rosa pálida, na parede esquerda havia uma cômoda de madeira pintada de branco e com umas bonecas de louça e um abajur sobre ela, e do lado direito havia um guarda-roupa com portas de correr e espelhadas que ocupava toda a parede.

O homem cabelo cor chocolate entrou no quarto com uma maleta preta.

"Eu irei examiná-la, me aguardem na sala que logo irei levar noticias" Disse o homem colocando a maleta sobre um canto da cama.

Fred e John saíram do quarto e fecharam a porta.

O homem examinou a garota que permaneceu dormindo o tempo todo.

Quando ele terminou de examiná-la e guardou seus aparelhos médicos dentro da maleta ele começou a olhá-la. Ele começou a se lembrar de sua filha que se parecia muito com aquela garota.

Ela moveu seu braço direito. Ela estava acordando. Antes de abrir os olhos ela levou suas mãos até eles e os coçou como se estivesse se acostumando com a luz. Ela abriu os olhos em uma pequena brecha e os coçou novamente e depois abriu os pequenos olhos. O homem ficou impressionado quando viu os olhos dela e viu que eles eram violeta.

"Q-quem é você?" Ela perguntou com a voz mais doce e calma que poucas pessoas tiveram a chance de ouvir.

"Eu me chamo Marck. E você, como você se chama?" Marck perguntou ainda em estado de choque por causa dos olhos violeta e pela doce voz.

"E-eu acho... é... hmmm... é Christine... S-Smanthy".

"Christine, você sabe onde está?".

"Não".

"Nem se lembra de como chegou aqui?".

"Não. Eu não me lembro de mais nada".

"Você está sentindo alguma dor?".

"Dor!? Hmmm... acho que não".

"Vamos ver se consegue ficar de pé" Marck disse estendendo a mão para Christine.

Christine estendeu a mão direita até a mão de Marck e olhou nos olhos castanho-escuros e viu algo branco esfumaçado com dois enormes buracos negros. Ela recolheu a mão rapidamente.

"O que houve?" Marck perguntou assustado com a reação de Christine.

"E-eu vi a sua... alma" Ela ficou impressionado com o que acabou de dizer, ela nem mesmo se lembrava de onde era e já sabia que aquilo era uma alma. Ela estava assustada.

"Minha alma é assustadora?".

"Ela possui dois buracos negros... duas enormes feridas".

Marck olhou para o chão e disse "Tenho certeza que não faltará oportunidades para lhe contar o motivo das feridas".

Christine se sentou na cama e em seguida se levantou. Ela se balançou para frente e para trás e se não fosse Marck, que a segurou, ela com certeza tinha caído no chão.

"Obrigada! Mas agora acho que consigo sozinha" Disse Christine dando um passo para trás.

Marck caminhou até a porta e a abriu e disse "Quero que conheça algumas pessoas".

Christine caminhou até a porta e quando apareceu no corredor e virou para olhar onde Marck apontava com o dedo indicador viu uma sala cheia de pessoas com suas almas brancas esfumaçadas, umas com buracos e outras com cicatrizes.

Ela e Marck começaram a caminhar em direção a sala. Quando chegaram à sala, Marck caminhou até perto de uma garota de uns dezessete anos, cabelos negros num tamanho médio, ela tinha a pele pálida e o mesmo tamanho de Christine e olhos num tom caramelo.

"Pessoal, está é Christine!" Disse Marck em voz alta e gesticulando para Christine.

Christine sorriu angelicalmente.

"Esta é a Nic..." Disse Marck apontando para a garota que estava ao seu lado, "... Está é Charlotte, a mãe da Nic...", continuou ele e apontou para uma mulher de aproximadamente trinta e cinco anos, cabelos como o da filha, olhos pretos e uma pele bronzeada, "... Aquela é a Elly...", uma mulher de cabelos grisalhos, de uns cinqüenta e dois anos e olhos azuis, "... Aquele é o Fred, namorado da Nic... e aquele é o John. Foram eles que te encontraram dormindo no meio do pasto".

Christine olhou para a porta dupla de madeira e olhou a bela estrada que levava até a casa.

"É lindo!" Disse Christine para si mesma.

"Ok! Agora todos voltem as suas devidas tarefas" Disse Marck.

Christine olhou para Marck enquanto todos voltavam para seus afazeres. Apenas Nic e Fred ainda permaneciam na sala ao lado de Marck.

"Elly..." disse Marck para a senhora que estava começando a descer a escada que ia para o térreo, "Faça uns biscoitos e um chá de ervas e leve para Christine".

Elly assentiu e deu uma última olhada em Christine antes de retomar a sua descida.

"Nic, a acompanhe até o quarto, por favor!" Disse Marck olhando para Nic.

Nic caminhou até a entrada do corredor e aguardou Christine chegar perto dela. Christine e Nic caminharam até a porta do quarto onde Christine estava antes. Ambas entraram no quarto, Christine sentou-se no lado direito da cama, o lado espelhado.

"A sua alma é feliz. Você é bem amada" Disse Christine olhando para Nic através do espelho.

"Você vê almas?" Nic perguntou impressionada e se sentou do lado de Christine.

Christine se sentou de um jeito para ver Nic melhor.

"Sim, eu posso vê-las" Respondeu Christine sorrindo.

"Que legal! Agora eu não serei a única estranha" Comemorou Nic.

"Estranha!? Você também pode ver as almas?".

"Quase. Eu vejo anjos! Sabe, aqueles seres de brilho prata que cuidam das pessoas".

Christine olhou para o espelho e se viu com um brilho prata envolta de seu corpo. Nic também olhou para seu reflexo no espelho.

"Eu sou um anjo?" Christine perguntou por fim.

"Bom... eu não sei. Os anjos que eu sempre vi eram apenas constituídos de um brilho prata e tinham um esboço borrado de asas, mas você possui o mesmo brilho que eles, e... e você não tem asa".

Christine olhou para o chão e perguntou "Por que o Marck possui duas feridas na alma?".

"Devem ser por causa da morte da Sra. Jane, a falecida esposa dele e da filha Margaret. A Magg era muito parecida com você".

Christine voltou a olhar para Nic.

"Por qual causa que elas morreram?" Perguntou Christine.

"O Marck tinha uma casa de praia na Califórnia. Ele e a família iam pra lá nos fins de semana de verão. No verão de 2010, como de costume ele e a família foram para a Califórnia e por lá eles foram jantar num restaurante da cidade e quanto voltavam para a casa, o caseiro que morava numa edícula a uns cem metros da casa do Marck veio até eles pra conversar sobre um assunto da filha dele que iria ter um filho na semana seguinte..., enfim, um assunto que não interessava a Jane e Magg, então elas foram para casa caminhando. Aproximadamente uns vinte e cinco minutos depois houve uma grande explosão na casa do Marck... e a filha e a esposa morreram carbonizadas. A perícia diz que a explosão ocorreu por causa de um curto circuito na fiação elétrica perto do fogão e também estava ocorrendo um pequeno vazamento de gás" Discursou Nic com os olhos cheios de lágrimas.

"Ele teve ter sofrido muito!".

"Não só ele, mas todos por aqui".

Toc. Toc.

Houve duas batidas na porta.

Nic se levantou para abrir a porta. Era Charlotte, sua mãe com uma bandeja onde havia biscoitos de chocolate e uma xícara de chá de ervas. Ela entrou e entregou a bandeja para Christine que estava sentada no meio da cama e escorada em várias almofadas brancas.

"Obrigada!" Disse Christine ao pegar a bandeja.

Charlotte saiu do quarto.