Procura-se uma Uchiha
13 Uma noite em Londres
Notas iniciais
Sakura...
Um suspiro saiu pelos meus lábios enquanto escutava Kabuto, o psicólogo da escola da minha filha, do outro lado da linha.
Meu punho esquerdo, coçou meu olho cansado pela noite em claro que passei fazendo plantão no setor de emergência – algo que todos os médicos eram submetidos a praticar pelo menos uma vez ao mês, com a intenção de manter a qualidade de atendimento e equipe médica disponível para os casos que chegavam durante a madrugada.
– Tudo bem. Eu entendi. Pode liberar a minha filha.
A despedida foi rápida e em poucos segundos estava olhando para o celular de última geração nas minhas mãos.
Quando viramos pais e mães não recebemos um manual de como agir em determinadas situações.
Por mais que o maior desejo de um pai fosse proteger seu filho de tudo e todos, as coisas simplesmente acontecem e muitas vezes apenas podemos deixar que nossas crias, o grande amor de nossas vidas, abra as asas e aprenda a voar pelo mundo a fora.
Eu sempre fui muito ligada à Sarada e sou capaz de cometer loucuras pela minha filha, mas o mundo é mal. As pessoas não compreendem os outros...
A humanidade, infelizmente, é egoísta.
E nada se comparou a minha dor do que ao saber que a minha filha havia se tornado vítima da sociedade.
Eu não podia negar, parte daquilo eu atribuía como minha culpa.
Sarada se tornou alvo de bullying e por mais que eu protegesse minha filha com todas as forças quando estava com ela, ninguém poderia evitar que aquilo ocorresse quando estávamos longe uma da outra.
– Como se lida com o fato de seu filho ser alvo de bullying? – Perguntei para o meu reflexo que denunciava o descuido pelas minhas olheiras e cabelo desalinhado no rabo de cavalo.
Suspirei fundo tentando me acalmar com a notícia do que havia acontecido na escola naquela manhã.
Minhas mãos se apoiaram na bancada de mármore do banheiro dos funcionários, mas nenhuma resposta iluminava meus pensamentos.
Era um procedimento padrão. Os pais eram informados sobre tudo o que ocorria de errado com seus filhos. A diarreia era a menor das minhas preocupações, pois sabia que ela havia sido atendida na enfermaria e estava voltando para casa, o que me preocupava eram os constantes casos de desrespeito pelo outro.
Eu sabia muito bem como era ser vítima de bullying. A minha adolescência não foi das melhores, não tive muito apoio e o pouco apoio que tive foram os errados...
Por esse motivo, eu não queria que a minha filha sofresse a mesma coisa.
Afinal, que tipo de mãe não desejaria o melhor para o seu filho?
Suspirei novamente de olhos fechados, voltando a encarar meu reflexo abatido no amplo espelho.
– Se você fosse um pouquinho mais aberta para discutir sobre esse assunto, Sarada, tudo seria tão mais fácil – balbuciei, antes de desistir de me atormentar com tais pensamentos.
Por mais que meu coração ficasse preso à ideia de Sarada, minha cabeça era obrigada a se ocupar com as tarefas do dia como oncologista pediátrica até que o fim do expediente chegasse.
– Hora de parar de se lamentar e enfrentar a vida Sakura – briguei com o meu reflexo, alterando minha face abatida por uma mais altiva.
Era assim. Era sempre assim.
Minhas amarras e dores se afrouxavam com a minha filha, mas o presente e toda a minha história, faziam-me adquirir um posicionamento altivo.
– Preciso ser forte por mim. Por ela. Por nós! – Bati com uma mão sobre a pia, frisando minha escolha e pose antes de dar as costas para o meu reflexo, indo em direção ao meu armário. – Quando eu chegar em casa, vou fazer a comida favorita da Sarada – sorri com o pensamento, trocando as vestes hospitalares, pelas minhas formais, já que pelo período do dia, minha prática era apenas clínica.
Maquiei-me levemente, ressaltando meus olhos, deixando minha boca nude.
Sorri satisfeita com o resultado obtido. Agora minha aparência estava melhor e mais confiante.
Pus minhas mãos na cintura e inflei o peito de frente ao meu reflexo.
– Essa é a Sakura que eu jurei sempre ser – meu sorriso se expandiu antes de sair daquele lugar atraindo os olhares dos outros seres que transitavam pelos corredores hospitalares.
Meu jaleco aberto voava a cada passo que eu dava sobre meus saltos altos, dando um bom dia gentil a todos que cruzavam meu caminho.
Meu trajeto era certo e em poucos minutos cheguei na ala de oncologia pediátrica, a qual eu era uma das principais responsáveis.
Assim que cheguei, foi impossível não sorrir mais abertamente e até gargalhar com a cena tão comum, sentindo o meu coração suavizar o peso de uma vida de perdas e desilusões.
Fiquei na porta de braços cruzados, vendo os grandes sorrisos que se resplandeciam dos meus pacientes mirins. Muitos estavam fora de suas camas, acariciando o grande cachorro de pelos brancos, outras, gargalhavam e brincavam com a mulher vestida de palhaça que dançava com eles ao ritmo de uma música infantil.
Eram voluntários.
Kiba, o dono de Akamaru, era dono de um dos melhores Pet Shop de Tóquio. Seu talento de adestrador e cuidado com os animais era invejável e muito elogiado.
Akamaru era o cachorro perfeito, dócil e valente nas horas apropriadas.
Há poucos anos, Sai, marido de Ino, apresentou Kiba à mim. Ambos tinham discutido sobre o uso de animais para tratamento de pacientes internados.
A ideia é basicamente humanizar o processo de internação, dando aos pacientes descontração.
Eu e Ino adoramos a ideia e nos encantamos por Akamaru. Todos os procedimentos foram tomados para que o cão não transmitisse alguma enfermidade e desde então, em diversos períodos, o moreno de aparência animalesca, traz o cachorro para as crianças, ficando sempre ao lado de seu eterno companheiro, ajudando e ensinando as crianças a como acariciar o “cãozinho”, como elas chamavam.
Nunca me esquecerei do primeiro dia em que as crianças viram aquela dupla. A maioria se assustou, mas a docilidade e o carisma de Kiba com crianças, conquistaram todas elas, inclusive os idosos do departamento de Geriatria, na qual Ino trabalha.
A palhaça, por outro lado, é alguém muito peculiar, por mais que também seja uma voluntária dando alegria sem esperar nada em troca.
Izumi é simplesmente única. Formada em artes cénicas, é artista de uma companhia de teatro do centro, mas quando menos se espera, pode-se encontrar a eclética artista, fazendo estátua viva nos locais mais inusitados da metrópole. Certa vez, a encontrei dentro do banheiro público feminino do metrô, sua pose era... bem... peculiar.
A palhaça, além de talentosa e energética, era uma ótima amiga. Divertindo todos ao seu redor.
– Sakura – uma voz masculina me tirou dos meus pensamentos, fazendo-me olhar para o ruivo de terno parado ao meu lado. Seu sorriso, como sempre, era gentil, enquanto suas mãos, eram eternamente cobertas pelo bolso da calça.
– Gaara – minha voz saiu como um suspiro encantado.
Pigarreei forte percebendo meu descuido, algo que não passou despercebido pelo homem.
Senti minhas bochechas esquentarem, mas como um perfeito cavalheiro londrino, Gaara, apenas sorriu complacente.
Não consegui negar, sorri de volta para aquele homem alguns centímetros mais altos do que eu, apesar do uso de saltos.
No entanto, meu sorriso falhou ao me lembrar dos últimos acontecimentos envolvendo nós dois.
Havia ficado surpresa e tensa ao encontra-lo na festa empresarial dos Uchiha’s.
Céus, o que Gaara pensaria de mim, após me ver como acompanhante de um homem depois de poucas semanas após nosso último encontro tão mal resolvido?
Amaldiçoei-me por dentro, encarando os sempre tão gentis olhos verdes.
Tão verdes quanto naquela noite...
***
– Na medicina existem quatro tipos de prevenção: a primária, a secundária, a terciária e a quaternária – minha voz saiu alta e imponente, enquanto transitava sobre meus altos saltos pelo grande palco do auditório daquela universidade londrina. Os olhares dos discentes estavam atentos em mim, já que havia conquistado a atenção de todos sem muito esforço. Alguns dividiam-se na tarefa de anotar o máximo de informações que eu pudesse transmiti-los, enquanto outros apenas permaneciam petrificados, observando cada movimento que eu fazia em frente ao imenso slide.
Minhas vestes eram simples e justas. O vestido cinza colado ia até um pouco acima do meu joelho, enquanto o meu jaleco aberto trabalhava em esconder mais partes do meu corpo do que já era escondido pelo vestido sem mangas.
– A prevenção primária tem como objetivo a promoção à saúde, ou seja, por meio da conscientização da população, tentamos diminuir fatores que podem levar à uma patologia com o decorrer do tempo, um grande exemplo são as campanhas contra o uso de cigarro, tendo como vista a prevenção do câncer de pulmão, sendo que nós da comunidade médica sabemos muito bem que o câncer é uma ponta no imenso iceberg dos agraves que o cigarro pode trazer para o nosso paciente – parei de frente à grande plateia, mudando o número um para o dois com os meus dedos. – A prevenção secundária, prima pelo diagnóstico precoce quando o paciente já aderiu a enfermidade. É de suma importância que nós tenhamos a capacidade de diagnosticar uma patologia o mais precoce possível, utilizando o mínimo de meios invasivos para a obtenção do diagnóstico. Aí vemos a importância de uma boa anamnese e um exame físico. Futuros médicos, – pus as mãos na cintura frisando a minha próxima fala – a clínica é soberana na arte médica, não se esqueçam disso! Mais de 70% dos diagnósticos podem ser obtidos com ela, não temos a necessidade de sermos tão dependentes de exames complementares. Não somos formados para ler exames. Somos formados para sermos provedores da saúde. Não se tornem médicos dependentes de exames! Parem e escutem seus pacientes! Nada é superior a anamnese e ao exame físico!
Os alunos moveram suas cabeças de acordo com o que eu havia dito.
Sorri satisfeita com o efeito, voltando a transitar pelo piso de madeira bem polido, mostrando o número três com uma mão.
– A prevenção terciária se aplica à reabilitação do paciente – parei de andar, encarando os estudantes de vários períodos do curso. Alguns, os mais velhos, concordavam, mas os mais novos, pareceram confusos. – Creio que muitos de vocês devem estar pensando “Como eu posso prevenir uma doença se o paciente já está sendo tratado, doutora Haruno?” – muitos, os mais novos, concordaram com a minha suposição. Suspirei cruzando os braços, ao mesmo tempo que encostava o meu corpo na solitária mesa no centro do palco. – Como médicos e profissionais da saúde, temos que ter uma visão ampla e geral do paciente, temos que entender seu passado, presente e prever o futuro. Não estamos apenas no consultório para diagnosticar uma patologia já instalada e passar algum medicamento. Estamos ali para prevenir, diagnosticar e planejar o andamento dos tratamentos. Durante o tratamento, temos que ter em vista o objetivo de evitar complicações que possam vim a acontecer, temos que evitar o aparecimento de novos agraves, piora de casos ou até mesmo sequelas que aquele tratamento possa a vim causar no tratamento.
– Aahhh – um murmúrio de compreensão se espalhou pelo local e não pude deixar de sorrir satisfeita lembrando-me da época em que eu estava na posição deles, no Japão.
– A prevenção quaternária é uma denominação relativamente nova, mas não menos importante do que as outras. Ela visa a prevenção no próprio meio médico – sorri, vendo alguns estudantes se remexendo para prestar mais atenção no que eu informava. – Ela visa evitar iatrogenias e exacerbação de intervencionismo médico. Nós, como profissionais da saúde, podemos levar o nosso paciente a desenvolver enfermidades através de nossos próprios atos e erros, por isso, é de nossa suma responsabilidade, aplicar a prevenção quaternária em nosso meio – observei ao redor. – Hoje, eu sou médica, mas amanhã serão vocês e uma coisa que vocês têm que ter em mente é que temos que pensar no melhor para o paciente. Não somos profissionais da doença, não estamos ali apenas para diagnosticar, somos profissionais da saúde e temos a responsabilidade de cuidar de um paciente até mesmo sem nenhuma patologia, para que assim, mantenhamos ele no estado saudável.
Os alunos me olharam em expectativa e eu sorri envergonhada, vendo o quanto estava dispersa do objetivo primário daquela palestra.
– Como todos sabem, sou oncologista pediátrica em Tóquio e fui convidada para administrar uma aula sobre diagnostico nessa área. Não se enganem, não estou fugindo do objetivo principal explicando sobre os níveis de prevenção, na verdade, é de suma importância que vocês entendam essa diferença para que assim possam compreender como o diagnóstico oncológico funciona.
Tomei um gole de água, antes de voltar a encarar o público.
– Na oncologia geral, frisamos pela prevenção primária – sorri percebendo a compreensão do andamento da aula pelos alunos. – Como eu já disse antes, nos adultos, trabalhamos com a promoção à saúde, trabalhamos em minimizar fatores que podem predispor à um câncer no futuro, como o exemplo que eu já citei e muito popularmente empregado... o cigarro – frisei. – No entanto, na oncologia pediátrica, infelizmente, não podemos usar tal artifício – suspirei. – Criança não fuma e nem tem idade o suficiente para ter desenvolvido um câncer devido ao acúmulo de desgaste orgânico ao longo da vida. Em crianças, não usamos a prevenção primária, mas sim a secundária – apoiei minhas mãos ao lado do meu corpo. – Não há como evitar o câncer, mas há como minimizar e curar o paciente com o mínimo de sequelas se o diagnosticarmos com a máxima antecedência possível e por isso é importante sabermos quais são os principais cânceres que ocorrem nas crianças.
“As formas mais frequentes de câncer na infância e na adolescência são as leucemias, em especial a leucemia linfoide aguda, enquanto os tumores do Sistema Nervoso Central são as neoplasias malignas sólidas mais frequentes”.
Os alunos se remexeram e um leve burburinho se instalou no ambiente, para logo voltarem a atenção para mim.
– Compreendo a reação de vocês, afinal, são patologias gravíssimas e, infelizmente, nossas crianças estão sujeitas a elas – suspirei – mas preparem-se, o mais preocupante está por vim – os alunos remexeram-se em expectativa. – O diagnóstico precoce é complicado devido à sintomatologia apresentada pelo paciente. Os sinais e sintomas encontrados são comuns em crianças dessa faixa etária muito sujeita a enteroparasitoses, ou seja, diferenciar um quadro clínico de uma patologia comum da infância – ergui minha mão esquerda como se segurasse um peso – de um câncer – mostrei a outra mão, como se comparasse ambas – é o maior desafio de um médico, no caso, os generalistas, que é justamente, o que vocês serão quando saírem da faculdade. É de suma importância que vocês tenham em mente que uma febre, palidez, cefaleia, emagrecimento, sangramentos anormais e dor generalizada, não podem ser simplesmente ignoradas pelo médico, é preciso fazer uma boa anamnese e se for algo mais grave, como um câncer, que possamos trata-lo o mais precocemente possível e assim evitarmos problemas futuros para essa criança – frisei reapoiando minhas mãos na mesa. – Compreenderam?
Eles assentiram de acordo e eu sorri satisfeita.
– Então vamos começar a compreender os sinais e sintomas clínicos – sorri voltando-me para o slide.
A apresentação foi longa, mas produtiva.
Os alunos tinham muitas curiosidades que eu respondia com prazer com um perfeito inglês sendo pronunciado.
Em muitas horas, houveram momentos de descontração e risadas eram ecoadas, mas no fim, a palestra havia sido produtiva para mim e para os estudantes que me perguntavam quando eu voltaria à Londres, mas apenas incertezas eu poderia transmiti-los.
Mesmo cansada, fui me despedi do corpo docente e do reitor que haviam me convidado para ministrar a palestra. Eles pareciam encantados e satisfeitos, perguntando-me mais uma vez se eu não queria me juntar ao corpo docente da universidade, porém, como sempre, disse que tinha responsabilidades no Japão, mas quando precisassem de mim, estaria à disposição.
Depois de muitas fugas aos pedidos para que permanecesse com eles, eu consegui me ver liberta descendo às escadarias da tradicional universidade, rumo à larga e quieta rua londrina, mas meus passos estancaram no meio da escadaria, ao ver o carro negro estacionado à meio fio com um homem de negócios encostado nele.
– Gaara – falei animada, indo na direção do ruivo que me recebeu com um abraço respeitoso.
– Como sempre incrível, não é doutora Haruno!? – abriu um largo sorriso que me deixou confusa.
– Você viu?
– Assistir toda a sua aula.
Surpreendi-me com a revelação.
– Como você sabia?
– Sou um dos empresários que bancam o incentivo à pesquisa nessa universidade que é a mesma em que eu me formei. Conheço o reitor e alguns membros do corpo docente. Quem você acha que foi um dos seres que mais a encheu de elogios quando citaram a possibilidade de trazê-la para ministrar uma palestra?
Sorri sem graça, tentando conter os fios do meu cabelo que estavam descontrolados devido ao vento frio que me arrepiava.
– Está sendo modesto, senhor Sabaku.
– Estou sendo sincero – sorriu minimamente.
– Obrigada – correspondi. – Creio que também está por trás do constante pedido para que eu faça parte do corpo docente – cruzei os braços piscando um olho em brincadeira.
– Não posso negar que também apoio essa ideia – pôs as mãos no bolso –, mas devo dizer que essa foi uma decisão da universidade, não minha.
– Tudo bem. Vou fingir que acredito – brinquei e ele sorriu. – Bom, acho melhor eu ir indo – olhei para a lua prateada e imponente no centro do negro céu de poucas nuvens.
– Seu avião sai hoje? – Perguntou e eu senti a ponta de tristeza em sua voz.
– Na verdade, ainda não agendei o retorno porque não sabia com certeza que dia ocorreria a palestra, mas devo ir amanhã ou depois de amanhã – o brilho voltou ao olhar do homem iluminado pelos poucos postes ao nosso redor.
– Então não há desculpa – sorriu e eu percebi que ele planejava algo. – Você gostaria de jantar comigo doutora Haruno como um meio de comemorar sua majestosa palestra?
Ri levemente percebendo que mais uma vez Gaara me chamava para sair.
– Seria uma honra comemorar uma palestra com o senhor – brinquei e o homem correspondeu abrindo a porta traseira como um perfeito cavalheiro.
Sorri com as atitudes dele e adentrei o veículo, percebendo o motorista à postos no volante.
– Para onde vamos? – Perguntei curiosa para o ruivo, assim que ele sentou ao meu lado.
– Surpresa – sorriu.
Como confiava em Gaara, apenas assenti para logo iniciar uma conversa animada sobre coisas diversas com o empresário, nem ao menos percebi que saíamos de Londres.
Devido ao tratamento de sua filha, Akemi, acabei me tornando muito próxima de Gaara. Sempre mantivemos o profissionalismo e nunca nos envolvemos, mesmo após o término do tratamento, mantendo só os retornos para ver se o câncer havia retornado, mantemos nossa ligação próxima.
Gaara, sempre me chamava para sair quando ia para Tóquio e eu aceitava. Mesmo sendo um empresário de sucesso, conseguíamos manter a discrição, indo jantar em restaurantes pouco movimentados ou até mesmo no hotel em que ele e a filha ficavam hospedados, para que assim, a pequena Akemi também participasse do jantar.
Sarada, por mais que gostasse dos Sabaku, mantinha sua posição de filha superprotetora sendo desconfiada com a possibilidade de eu vir a ter algo a mais com o ruivo, mas eu apenas a tranquilizava.
Anos de convivência e nada de relevante acontecendo, deram a confiança para que ela acreditasse que houvesse apenas amizade, não tramando nada contra o pobre ruivo como eu desconfiava que ela fazia com os meus outros possíveis pretendentes.
– Estamos chegando – anunciou em determinado momento da nossa conversa.
Só então percebi os frondosos bosques que adornavam ambos os lados da pista. Fiquei confusa, tentando encontrar algum restaurante, mas a entrada em uma trilha de pedregulhos, fez-me compreender que iríamos para algum lugar mais particular.
A surpresa foi instantânea ao ver a imensa, imponente e iluminada mansão creme à luz do luar, em meio à imensos jardins bem cuidados.
– O-onde estamos? – Perguntei entorpecida pelo encantamento sobre a arquitetura vitoriana de amplas janelas.
Gaara prontificou-se a sair do carro e abrir a porta para mim, antes que o motorista pudesse fazer.
Aceitei sua mão como apoio, ainda encarando a grande construção de três andares.
– Essa é a casa de campo da minha família – falou constrangido pelo meu olhar risonho sobre si.
– Casa de campo? – Ri pelo termo e ele me compreendeu.
Aquilo não era uma casa e estava bem distante do meu poder econômico.
– Venha – segurou minha mão esquerda com propriedade, levando-me para longe da casa. – Nosso jantar já está servido.
Fiquei curiosa pelo que ele estava aprontando, mas apenas me deixei guiar por entre a trilha sob a copa das árvores que formavam um arco sobre nós dois. As folhas secas rangiam ao serem pisadas sobre nós dois.
Estava tão encantada com a harmonia das plantas silvestres da Grã-Bretanha em conjunto às trepadeiras postas intencionalmente ao redor do tronco, que nem percebi que havíamos parado de andar.
– O que acha? – Perguntou e só então meu olhar caiu sobre o trapiche amplo, iluminado por algumas tochas, na borda de um lago calmo e brilhante pela luz da lua.
No centro do trapiche havia uma mesa de tamanho mediano que comportava utensílios de porcelana e taça de cristais.
Olhei encantada para o homem ansioso ao meu lado, mas que por nenhum segundo soltava a minha mão.
Sentia sua mão suar levemente e apertar inconscientemente a minha. Seria engraçada a situação se eu não estivesse tão absorta com aquele lugar simples, mas ao mesmo tempo belo e feito especialmente para mim.
– Está incrível, Gaara – balbuciei com dificuldade para raciocinar, encarando os violonistas a postos em canto à minha direita. – Você fez tudo isso sem saber se eu viria? E se eu tivesse meu retorno agendado para hoje?
– Foi um risco que eu quis arriscar – deu de ombros tentando cobrir o constrangimento que seria se fosse dispensado.
– Um risco lindo – frisei para relaxá-lo.
Senti a mão grande que cobria a minha relaxar juntamente com o dono dela.
– Venha – conduziu-me até um dos assentos, afastando ele para mim.
Sorri agradecida com todo aquele cuidado, encarando a pequena embarcação, amarrada em uma das pilastras do trapiche.
O som foi logo invadido pela melodia calma e baixa do violino a medida que começávamos a jantar.
Como sempre conversamos amigavelmente, mas eu não conseguia parar de me impressionar com cada detalhe pensado com tanto cuidado.
O vinho era de melhor qualidade e a comida era deliciosa.
Depois de terminarmos com a nossa refeição, permanecemos na mesa saboreando algumas doses de vinho enquanto erámos acariciados pela leve brisa noturna.
Gaara estava mais à vontade, para falar a verdade, ele havia tomado algumas doses a mais para se acalmar na minha presença.
A gravata já estava frouxa e dois botões da camisa estavam abertos, revelando aos meus olhos, o prenúncio do peitoral com poucos pelos do ruivo.
Não poderia negar, também havia me deliciado com o bom vinho e sentia o calor inundar minhas bochechas, por isso, aceitei de bom grado a mão que se estendia para mim em um pedido silencioso para uma dança.
Não me intimidei em logo contornar o pescoço masculino com os meus alvos e finos braços. Gaara não se importou com a minha ousadia, pelo contrário, sorriu com satisfação contornando a minha cintura fina com seus braços fortes cobertos pelo terno.
Afundei meu rosto em seu peito aspirando o perfume masculino caro, enquanto o mesmo, alisava a linha da minha coluna aproximando-me o máximo de si.
Ele aspirou o perfume dos meus cabelos curtos antes de suspirar, procurando a curva do meu pescoço com a ponta do seu nariz.
Assim que se acomodou, tentei manter a minha atenção nos movimentos lentos dos nossos pés, pois, a respiração forte provocava eventuais arrepios na minha nuca, mas foi impossível não retornar a minha atenção, quando Gaara mordiscou levemente a minha pele.
De olhos fechados, permiti que ele continuasse com as carícias gentis de suas mãos e boca.
Os lábios e dentes percorreram minha pele, até sentir a respiração entrecortada próxima aos meus lábios.
Houve um momento de hesitação, sabia que ele encarava meu rosto tão próximo ao seu, mas permaneci com os olhos fechados e um sorriso mínimo estampado em meus lábios, esperando ansiosa pelos próximos movimentos do homem.
Ele entendeu a permissão, por isso não hesitou em tomar meus lábios para si com a mistura de desespero, desejo e gentileza, tudo mesclado com um encontro de corpos, mãos desinibidas e uma melodia que parecia cada vez mais distante a medida que minha concentração se fixava nos lábios quentes e molhados em uma batalha feroz contra os meus.
Naquele momento, percebi que aquela noite seria bem mais longa do que eu imaginara à princípio...
***
Minha consciência foi recobrada aos poucos. O calor dos raios solares e dos braços ao redor de mim eram reconfortantes, ao mesmo tempo que a superfície macia sob mim me tentava a não me mover e ficar ali, naquele casulo, o máximo de tempo que eu pudesse.
Meu ombro nu esquerdo foi logo acariciado pelos lábios masculinos em movimentos lentos para que não me acordasse.
Permaneci em minha mentira, aproveitando aquela situação com a devoção voltada para mim ao mesmo tempo que sentia o olhar analisador sobre o meu rosto.
Suspirei profundamente quando ele beijou o meu pescoço, como se eu estivesse acordando.
Senti os lábios se afastarem e o corpo masculino ficar tenso percebendo que havia me acordado.
– Dormiu bem? – Perguntou depois de um longo momento em silêncio.
– Perfeitamente bem – balbuciei sem abrir meus olhos. – Acho que vou sequestrar a sua cama e levar comigo Gaara. Ela é tão confortável – brinquei com um sorriso nos lábios, enquanto me aconchegava melhor na superfície macia.
Eu tinha problemas para me apaixonar verdadeiramente pelos homens, mas aquela cama estava ganhando o meu coração.
– Só a cama? – Perguntou risonho como se estivesse ofendido.
– Acho que posso levar um brinde com ela – fui deliciada com a gargalhada espontânea e tão rara de se tirar do empresário.
– Vou ficar honrado de ser esse brindezinho no seu sequestro à minha cama – sussurrou sedutoramente ao pé do meu ouvido, apertando-me contra o corpo nu atrás de mim.
– Quem disse que você era o brinde? – Perguntei abrindo os olhos, focalizando nele com uma falsa seriedade, deixando o ruivo confuso. – Estava falando dos lençóis, travesseiros... – apertei o lençol contra mim – mas até que não é má ideia te levar de brinde também – sorri piscando um olho e ele me correspondeu rindo, afundando seu rosto em meu pescoço, depositando ali um longo beijo.
Ele inspirou profundamente antes de soltar o ar com uma declaração sôfrega:
– Eu te amo, Sakura.
Toda a leveza e felicidade estampada em meu rosto sumiu instantaneamente. O sorriso se foi e só conseguia fixar um ponto qualquer sem qualquer reação, enquanto as últimas palavras do homem reverberavam pelos meus pensamentos.
– Sakura – pisquei voltando a encarar o homem que me sacudia levemente.
– O quê? – Perguntei.
– Você ficou imóvel e quando eu te chamei, você não respondeu.
– Ah me desculpe – tentei inutilmente sorri, mas falhei no processo, sentando na cama para fugir dos braços do homem confuso. – Fiquei distraída – disse a meia verdade, segurando com força o lençol contra mim, enquanto meus olhos procuravam pelas minhas roupas.
– Foi alguma coisa que eu disse?
– É claro que não – dei um sorriso nervoso. – Está tudo bem – frisei na tentativa de acalmar o homem de feição desconfiada.
Gaara desviou o olhar do meu, enquanto se sentava, revelando o peitoral alvo. O fino lençol recobria apenas as suas partes íntimas.
– Então por que você não me respondeu?
– Respondeu? – Fiz-me de desentendida. – Tenho certeza que você não perguntou nada – balbuciei procurando o meu vestido que tinha desaparecido.
Céus, onde foi que eu tirei esse vestido? Perguntei-me em pensamentos.
Eu tenho certeza que eu cheguei nesse quarto vestida...
– Você não gostou que eu tenha dito que te amo? – Ouvi a voz confusa e me martirizei percebendo que eu não poderia fugir daquele assunto.
Voltei lentamente o meu olhar para ele, suspirando profundamente.
– Não é isso... é só que, acho um pouco precipitado denominar algo como amor.
– Você não sente nada por mim?
– Eu gosto de você, Gaara – acariciei gentilmente o rosto dele, sentindo os finos prenúncios de pelos, arranharem levemente a minha mão – só não posso responder algo do tipo por hora.
– Não vou obriga-la a responder agora – segurou minha mão em seu rosto – você tem o tempo que precisar.
Sorri agradecida e como resposta, Gaara abaixou nossas mãos, enquanto se aproximava para me beijar, mas o toque de um celular interrompeu.
– Droga – praguejou o ruivo procurando o celular em meio aos lençóis.
Permaneci na mesma posição, sentindo um sorriso brincar com os meus lábios por causa da cena divertida.
Gaara estava desesperado atrás do celular desaparecido, senti-me até vingada pelo meu vestido também desaparecido.
O ruivo saiu da cama sem se importar com a nudez e pôs-se a procurar o celular debaixo da cama, deixando-me com a visão privilegiada de uma bunda redondinha e branca.
Deu até vontade de morder agora...
– Eu sei que você está olhando, Sakura – o ruivo praguejou com uma voz abafada, antes de exaltar feliz – Achei!
– Eu não estou olhando nada – resmunguei desviando o meu olhar.
Gaara saiu da posição anterior e pôs-se a iniciar uma conversa de negócios sentado no chão.
Afundei-me no colchão macio, inerte àquela conversa que eu não compreendia.
Será que o homem de negócios do outro lado da linha se quer imaginava que estava conversando com um empresário nu e sentado despojadamente no chão? Pensei risonha antes de ser interrompida.
– O que te faz rir?
– Nada – mordisquei meu lábio inferior.
Ele suspirou engatinhando para sentar ao meu lado.
– Vai ficar de segredinho agora?
– Aham – confirmei como uma criança.
Ele sorriu gentil antes de acariciar meu rosto e pedir:
– Perdão, Sakura.
– Pelo o quê? – Perguntei confusa.
– Problemas na empresa. Preciso voltar para Londres imediatamente, mas você pode ficar à vontade. A casa é toda sua e o motorista ficará de plantão para lhe servir.
– Tudo bem, não precisa se preocupar, eu te entendo. Pode ir trabalhar, eu ficarei bem – sorri e fui correspondida.
– Promete que vai pensar sobre aquele assunto?
Droga...
– Claro – menti.
O homem sorriu e me deu um beijo antes de se apressar em se arrumar.
Não demorou muito para que eu ficasse sozinha naquele imenso quarto, encarando o teto, até escutar a melodia do meu celular.
Franzi o cenho tentando imaginar quem me ligaria àquela hora da manhã.
Pensei em ignorar e voltar a dormir, mas a minha médica interior que sempre corria para o hospital quando recebia uma chamada de emergência, falou mais alto e por isso, esgueirei-me pela lateral da cama encontrando o meu vestido e minha bolsa lá em baixo.
– Como é que vocês pararam aí? – Resmunguei pegando o meu celular, vendo uma foto vergonhosa da Ino no meu celular – Por que você me acordou tão cedo, Porca? Não é todo dia que eu posso dormir até altas horas numa cama padrão king – joguei-me de volta na cama.
– Queridinha, se você não sabe, nossos horários são bem diferentes. A manhã já passou faz tempos aqui.
Dei língua para a foto no celular.
– E se está achando que eu não sei que você acabou de dar língua para aquela foto ridícula que você colocou no meu número de celular, está muito enganada, dona Sakura – ouvi ela gritar.
Suspirei pondo o celular de volta no meu ouvido.
– Mas pera lá... cama padrão king? – Demorou para pensar loira, pensei rolando meus olhos. – Seu hotel é tão chique assim?
– Ai porquinha, eu não estou no hotel não.
– Arrumou um londrino tão rápido Sakura? Cadê aquele papo de conhecer bem antes de ir para cama?
– Para sua informação eu conheço muito bem esse londrino.
– Quem?
– Última chance... ele é ruivo.
– GAARA?
Afastei o celular para poupar os meus tímpanos.
– Acertou.
– Ai meu Kami-sama! Finalmente! Eu sabia! Aquele corpo ruivo não poderia ser ignorado por mais tempo – gritou feliz – mas, então, como foi? Ele é bem mais gostoso sem terno do que ele aparenta ser com aquela roupa de Poderoso Chefão?
Revirei os olhos.
– Seu marido sabe que você está falando isso de outro homem?
– Ei! Não meta o meu Sai no meio da conversa para fugir da responsabilidade de me contar os detalhes sórdidos dessa noite de loucuras em uma cama nível king.
Não aguentei, gargalhei com a imaginação da loira pervertida.
Ino sempre fora minha confidente de todos os meus casos e me estimulava a ter relacionamentos sérios, por mais que conhecesse todo o meu passado. No entanto, permanecia só com os casos esporádicos e conversas aumentadas da loira sobre as minhas noites quando ela confidenciava os detalhes para as nossas outras amigas na minha frente.
– Nem todo mundo tem o Kama Sutra como livro de criado-mudo, Porca! Não é nada disso que você está pensando.
– Testuda, – revirei os olhos, imaginando o sermão pelo tom de voz dela – escute a voz da razão. Sou uma mulher muito bem resolvida pessoalmente e profissionalmente. Tenho um filho de onze anos e um marido em um emprego de linha em uma grande empresa. Meu corpo dá inveja em muita modelo internacional e a minha vida sexual dá um show na vida de muita mulher, por isso não venha criticar o meu Kama Sutra. Aliás, devo lhe informar que aprendi mais três posições novas essa noite.
– Kami! Ino! Eu não quero saber o que você faz com o Sai entre quatro paredes!
– Isso mesmo! E você não vai saber, porque agora escutaremos e analisaremos o que você fez com aquele ruivo.
– Não vou conseguir fugir de você mesmo, né!? – Resmunguei.
– É claro que não! Vamos, comece a falar... quantas camisinhas vocês usaram?
Revirei os olhos, antes de procurar as embalagens no chão.
– Duas femininas e duas masculinas.
– Uau! Foram duas rodadas de segurança dupla! Gostei desse cara, tem fogo, mas sabe se prevenir.
Assenti de acordo, mas minha frustração voltou com todo o questionário que a loira listou.
Respondi a todas as fantasias que a loira questionava. Existiam posições que ela me indagava que eu nem sabia que existia, mas quando perguntei o que era aquilo, arrependi-me amargamente, pois se tinha uma coisa que Ino sabia detalhar, eram posições anatômicas.
Não era surpresa que anatomia era a matéria preferida daquela médica na época da faculdade, quando ela era uma pervertida encubada em uma loira de vestes negras e maquiagem pesada.
Quando Ino estava fazendo um monólogo, suspirei e cuspi a bomba de uma vez:
– Gaara disse que me ama.
O silêncio foi sepulcral e por um momento pensei que a ligação havia caído, mas o suspiro do outro lado, denunciou que Ino estava procurando as palavras certas para me dizer.
– Agora entendo porque sua voz estava tão desanimada, mesmo depois de duas rodadas de sexo quente – suspirou dramaticamente e eu rolei os olhos, encarando um ponto qualquer das longas cortinas bejes. Nem minhas tradicionais conversas com Ino me animaram. – O que você disse?
– Nada – admiti. – Perdi a noção do tempo e fiquei paralisada. E-eu...
– Não diga que não pode, Sakura! – Brigou.
– Mas é a verdade, Ino! – Levantei a voz.
Outro suspiro ecoou pela linha telefônica.
– Olha, eu sei que você não quer se envolver, mas... é o Gaara! Ele é diferente dos outros homens. Se ele disse isso é porque quer algo sério! Toda vez que eu vejo o Gaara te olhar, vejo um cara completamente apaixonado e que seria um companheiro ideal para você! Ele cria uma menininha linda sozinho, é um paizão...
– Sarada não quer um pai – cortei.
– Não foi isso que eu disse. Só estou dizendo que o Gaara respeita seu espaço e sua filha. Ele seria um ótimo marido e um bom padrasto para a Sarada.
– Ino... – suspirei.
– Sakura, por favor, pensa na proposta dele. Uma oportunidade dessa não se recebe duas vezes na vida e eu sei que você gosta do Gaara...
– Gosto, mas não amo. Ele é só como um amigo para mim.
– Um amigo que acaba na cama?
– Você me entendeu, Ino. Somos adultos, não adolescentes.
Ino suspirou desistindo.
– Não adianta, não é? Você já se decidiu a tempos.
– Sim – levantei, sentando-me na cama, segurando o lençol para esconder meus seios nus.
– Só não sai correndo, ok?
– O quê? – Parei, confusa, o meu movimento de sair da cama.
– Eu te conheço, dona Sakura. Aliás, antes que você pergunte, o seu paciente Konohamaru teve uma piora de quadro, mas já foi estabilizado.
– Konoham... Ai – tropecei no longo lençol, caindo com força no chão – Kuso!
– Ainda está tonta, Testa? – Provocou a loira rindo, enquanto tentava me levantar e ir para o banheiro.
– Até mais tarde, Porca!
– Sakura voc...
Ela não terminou de falar, desliguei na hora e decidi desligar meu celular, pois sabia que ela tentaria retornar.
Suspirei fundo, antes de me arrumar o mais rápido possível.
Saí do quarto arrumando meus cabelos. As empregadas cochicharam algo entre si ao me verem, mas logo me seguiram preocupadas pois estava indo em direção à saída.
– Onde é a garagem? – Virei para as duas mulheres com roupas de empregada.
– A... a senhora está indo embora? – Perguntou a da esquerda.
– Sim – respondi laconicamente, remexendo na pequena bolsa que eu carregava. – Vocês podem, por favor, me dizer onde fica a garagem? – Pedi cansada.
A da direita assentiu compreendendo a minha pressa.
– Por aqui senhora – guiou-me.
– Se a senhora desejar, o motorista está a sua disposição – arriscou a outra que me seguia apressada e ofegante.
– Prefiro ir dirigindo – menti. Na verdade, não queria que Gaara dissesse para que o motorista desviasse a rota quando descobrisse que eu estava indo embora.
– Aqui, senhora – a que me guiava parou acendendo as luzes da ampla garagem.
Assoviei vendo os carros de luxo que a família Sabaku tinha em sua "casa" de campo.
– Qual desses é do Gaara e do Kankuro?
A empregada apontou para a maioria e acabei escolhendo um conversível vermelho da Mercedes Benz.
Peguei as chaves e adentrei o carro.
Nunca fui fã de conversíveis ou carros de luxo. Sempre gostei dos carros de estrada de terra, mas o vermelho do conversível me conquistou na escolha dele.
Os empregados me olharam com pavor ao me verem partindo com o conversível do patrão deles, mas seja lá o que Gaara disse para eles, ninguém, nem o motorista de plantão, com o dobro do meu tamanho, entrou no meu caminho.
Eu e Gaara éramos amigos há tantos anos que sabia que ele confiava na minha habilidade de direção com seus carros. Inúmeras vezes, no Japão, Gaara me dava as chaves do carro para dirigir em estradas desertas pelas madrugadas com a falsa ilusão de que eu mudaria de ideia sobre carros de luxo.
Uma perda de tempo, pois minha opinião não mudou, mas havia melhorado minha opinião com aqueles carros, ao sentir os ventos nos meus cabelos, algo que nunca diria ter feito para Sarada, pois sabia que o sonho dela era andar em um desses e ter uma Ferrari negra no futuro, algo que eu negava por ser perigoso.
Não demorei para chegar em Londres e estacionar na frente do Hotel que a faculdade havia me hospedado.
Os recepcionistas ficaram confusos com a minha chegada com um carro, mas apenas disse para esperarem com o carro pronto, que logo desceria e foi o que eu fiz.
Minhas malas já estavam quase totalmente prontas, o que me poupou tempo.
Em minutos estava de volta ao carro, dirigindo para o aeroporto.
Estacionei o carro e entreguei as chaves para os responsáveis com o aviso de que o Sabaku no Gaara viria buscá-lo.
Comprei a passagem para o próximo voo e adentrei a sala de embarque. Só quando estava próximo da minha chamada, resolvi ligar meu celular e como eu esperava, haviam inúmeras ligações da Ino e apenas uma do Gaara.
Ignorei a minha amiga loira, que eu sabia que estaria querendo gritar comigo, para ligar para o Gaara.
Ele atendeu no primeiro toque e não disse nada.
Respirei fundo antes de dizer a única coisa que vinha na minha cabeça:
– Peguei seu carro emprestado, mas pode ficar tranquilo que eu não arranhei – mordi meu lábio inferior sentindo a tensão percorrer meu corpo, mas relaxei e ri um pouco, assim que ouvi a risada desacreditada do outro lado da linha.
– Tudo bem. Confio em você. Fico mais tranquilo em saber que está bem, onde quer que você esteja no momento...
– Estou no aeroporto. Meu voo é o próximo.
Ouvi um suspiro cansado do outro lado e me martirizava por estar fazendo aquilo com o Gaara, mas seria errado permanecer, estaria lhe dando esperanças. Mentindo para mim e para ele. E como eu bem sabia, um relacionamento não verdadeiro não terminava bem...
– Creio que essa é sua forma de me responder.
– Gaara... – sussurrei, mas fui cortada.
– Sakura, não tente mentir, eu sei que essa é a verdade. Creio que sempre soube, mas tinha uma leve esperança que...
– Eu também – admiti sorrindo um pouco, olhando para um casal apaixonado à minha frente –, mas como nós dois sabíamos, um de nós não estar preparado para isso – sussurrei sem tirar os olhos da loira no colo do moreno rindo de coisas bobas.
Seria hipocrisia minha dizer que não queria sentir algo do tipo. Sorrir de coisas bobas e acordar todas as manhãs abraçada com alguém que eu amasse, mas no fundo eu sabia que Gaara não era esse homem e permanecer nessa mentira, só machucaria alguém que eu gostava.
– Perdão – minha voz saiu arrastada enquanto uma lágrima solitária rolava pela minha bochecha esquerda, a qual aprecei-me a enxugar.
– Não peça – sussurrou depois de um momento longo em silêncio. – Você não tem culpa.
Sorri tristemente, seria tudo tão mais fácil se eu simplesmente me apaixonasse por aquele ruivo de olhos gentis.
Maldita vida, por que você fez isso comigo? Amaldiçoei-me.
– Sakura, eu espero que um dia você possa encontrar alguém que seja dono do seu coração. Quem sabe no nosso próximo encontro você não tenha encontrado alguém... – tentou soar esperançoso, mas eu sabia que aquilo era só da boca para fora.
– Passageiros do voo 3467 com destino à Tóquio, se dirijam ao portão de embarque número 14 – anunciou uma voz feminina no alto falante, fazendo-me suspirar enquanto levantava para partir de Londres.
– Não me odeie, Gaara – fiz meu último pedido, direcionando-me para o portão de embarque, onde uma comissária com roupas bem alinhadas recebia a documentação necessária para permitir a entrada para o avião.
– Você sabe que eu nunca te odiaria por uma coisa dessas.
Sorri agradecida recebendo meus documentos assim que a minha entrada foi autorizada.
Meus saltos batucavam de encontro ao piso do tubo vazio.
– Adeus Gaara. Obrigada por tudo – desliguei o celular antes que começasse a chorar por culpa.
Respirei fundo entrando no avião, achei com facilidade meu assento ao lado da janela, acomodando-me no processo, mas assim que eu olhei pela pequena janela, vi algo que eu não esperava...
Atrás dos vidros da sala de embarque, um homem ruivo de ternos negros e mãos eternamente nos bolsos encarava a minha janela com um sorriso gentil.
Gaara acenou e balbuciou uma frase inaudível, mas que pude traduzir como:
"Até breve, Sakura"
Continua...
Fale com o autor