Procura-se uma Uchiha
3 O Gênio das Haruno
Notas iniciais
Sakura...
Um dia antes...
Eu sou diferente? Sou estranha ou anormal pelas minhas escolhas tomadas durante a vida?
Ser eu e fazer o que eu acredito me torna diferente? Melhor ou pior?
Não.
Era o que eu sempre me respondia quando alguém descobria a minha história e me olhava diferente.
Não! Isso não me faz diferente.
Minhas escolhas, minha vida, fazem-me verdadeira comigo mesma e com os meus sentimentos e convicções.
Sou mãe solteira sim, e daí?
Só porque tenho uma filha fruto de uma inseminação artificial, tê-la criado sozinha sem marido ou um pai, me faz ser uma mãe pior ou uma pessoa desnaturada?
Não.
Sabem porquê?
Porque Sarada foi a minha melhor escolha, minha melhor decisão e nunca me arrependi de tal coisa, pelo contrário...
Pensamos que são as mães que nos dão a vida, mas a minha filha, a minha Sarada, foi quem me deu a vida, não o contrário.
Foi ela quem me deu esperanças e forças para seguir em frente e conquistar meu espaço nesse mundo tão conturbado e cheio de maldades.
Ela foi a minha luz no fim do túnel. Meu grande amor. Meu melhor acerto.
Quando eu a recebi no colo ainda na sala de parto eu me senti tão completa, tão preenchida.
Chorei. Chorei de emoção.
Minha filha, repetia em pensamentos encarando a minha pequena pedra de ônix ainda com o rosto muito inchado que mal conseguia abrir os olhos.
Valeu a pena. Valeu a pena ouvir todos os sermões da minha madrinha Tsunade ou de Shizune. Valeu a pena ser motivo de olhares reprovadores dos vizinhos enquanto minha barriga crescia sem uma companhia masculina ao meu lado.
Valeu a pena porque Kami me recompensou com o presente mais perfeito. Recompensou-me com você, Sarada.
O choro tornou-se mais intenso, não por tristeza e sim por felicidade. A felicidade que eu nunca havia sentido antes na minha vida. A felicidade plena. O verdadeiro amor.
Um grande sorriso estampou-se no meu rosto suado com mechas curtas rosadas grudadas nela.
Sorri. Sorri como nunca antes, como nunca havia sorrido para alguém antes, porque esse sorriso era e ainda é só seu, Sarada.
Porque eu te amo e sempre vou te amar.
Foi difícil?
Foi. Mas eu não me arrependo de ter trabalhado, feito universidade, ser dona de casa e mãe, tudo ao mesmo tempo.
Tive ajuda, é claro. Principalmente da minha madrinha, de Shizune e da minha melhor amiga que conheci na universidade, Yamanaka Ino, a qual passou a morar junto comigo naquela época. Dividíamos as contas e as tarefas. Morar comigo foi a oportunidade de uma vida mais independente longe dos pais.
Lembro-me de todo o trajeto que percorri desde a noite que tomei a minha decisão até hoje. Lembro do primeiro passo de minha pequena, da primeira palavra, do primeiro dia da escola, dos seus primeiros óculos de grau (principalmente como foi difícil para que ela aceitasse usar), do primeiro dente arrancado, do primeiro videogame que ela pediu para comprar, nunca vi seus grandes olhos negros brilharem tanto por um bem material como naquele dia...
Foi aí que as diferenças entre nossos gostos começaram, o que achei muito estranho no início e até não saudável. Mas e daí se a minha filha é louca por videogames e robótica, se tem o sonho de se tornar uma programadora de uma companhia famosa ao invés de seguir meus passos na área médica oncológica?
Ela é minha filha e eu a amo do jeito que ela é, isso é o que importa, por mais que ainda sinta uma pontadinha de ciúmes por ela preferir outro ramo ao meu.
O mais difícil foi o dia em que Sarada perguntou pela primeira vez aos cinco anos: "Mamãe quem é o meu pai? Porque eu não tenho pai?"
Eu sabia que aquele dia iria chegar, mas no fundo, toda mãe tem a esperança de que ele nunca chegue. Só que ele chegou para mim e ao olhar para aquele par de onixes curiosos esticando a cabeça para me enxergar nos olhos eu sabia que não poderia fugir.
Foi difícil para que ela compreendesse no início, só que com o tempo ela foi entendendo, por mais que no fundo eu saiba que a ausência dele ainda lhe faz falta.
Mãe sabe. Mãe sente. E eu sinto só de ver o olhar perdido em pensamentos de minha filha quando ela está jogando um de seus jogos na sala e olha para o sofá vazio ao seu lado com se esperasse que ele aparecesse sentado ali e jogasse com ela.
Tive vários pretendentes e casos durante esses anos. Sarada sempre odiou esse fato, por mais que no fundo eu soubesse que ela queria um pai, ela não queria aqueles como seus pais, ou melhor dizendo, padrastos. Ela queria o seu pai de verdade, por mais que eu não conhecesse. Ela queria um pai que a segurasse no colo e cuidasse dela desde pequena, não apenas uma mera presença masculina.
No fim, eles eram apenas casos, porque meu coração congelou para eles.
Depois de ser humilhada e magoada por Sasori, eu não consegui voltar a ser aquela garota apaixonada e sonhadora por contos de fada.
Não! Eu cresci. Eu amadureci. Eu virei mulher.
Um homem precisaria bem mais do que uma lábia ou um amiguinho avantajado para me conquistar.
Eu desacreditei no amor no dia que aquele marginal de cabelo ruivo me dispensou dizendo que não queria o filho que eu carregava e que eu era substituível.
Como eu fui tola. Como eu fui ingênua. Como eu fui idiota de me entregar completamente para você, Sasori, acreditando nas suas falsas promessas de amor.
Mas eu te agradeço, Sasori. Sabe porquê?
Porque você me fez crescer e pela dor que você me causou eu encontrei a Sarada.
Muito obrigada por me fazer desacreditar no amor, porque até agora não encontrei um que realmente me fizesse amá-lo, que me fizesse sentir de verdade o que é o amor entre um homem e uma mulher.
Afinal, será que existe algum homem que me faça amá-lo de verdade e ser correspondida?
– Interrompo – despertou-me dos meus devaneios Shizune que colocou uma cabeça para dentro do meu consultório.
– Shizune-san – balbuciei ainda em transe voltando a realidade. Balancei levemente a minha cabeça e abri um grande sorriso para a minha amiga de longa data – Entre! Fique à vontade!
Timidamente a morena entrou e sentou-se na minha frente.
Achei estranho seus modos naquele dia. Ela estava tão pensativa e absorta em pensamentos que parecia nem estar ali na minha frente.
– Interrompo – imitei ela tirando-a dos devaneios esboçando um leve sorriso de conforto.
Sabia perfeitamente sobre o momento complicado, que minha amiga e simplesmente a pessoa que me deu o presente mais importante da minha vida, estava passando.
Câncer.
Uma simples palavra, mas que se torna amarga na boca das pessoas que já experimentaram ou tiveram pessoas amadas tiradas de você por esta causa.
Agora era a vez de Shizune passar por isso...
Eu sou médica. Oncologista pediátrica, para ser mais exata.
Aquele pequeno ser, aparentemente inofensivo que surgi quando menos esperamos e que cresce sem controle, infestando desde as partes mais simples até as mais complexas, era muito familiar a mim.
Muitos oncologistas se tornam aparentemente insensíveis pela rotina massacrante de ter seus amados pacientes de anos sendo postos as durezas do tratamento, tendo às vezes a infelicidade da perda, fazendo-os se sentirem inúteis.
Eles não faziam por mal. Era sua defesa humana querendo impedi-los de sofrer novamente após perder tantos pacientes.
Muitos dos meus colegas de trabalho mudaram de especialidade por causa do Shinigami que às vezes resolvia nos visitar.
Agora era a vez, infelizmente, da Shizune. Diagnosticada há três anos com câncer de pulmão, minha amiga apresenta baixíssimas chances de cura, podendo ser classificada como terminal, já que ele sofreu metástase, ocorrendo uma invasão cerebral.
Foi um choque quando diagnosticamos o tumor na primeira vez. Era apenas uma tosse persistente que foi subjugada por causa da rotina corrida da especialista em medicina reprodutiva, mas que levou ao diagnóstico tardio após uma crise e internação na UTI.
Um choque, já que apesar da rotina corrida, Shizune-san sempre foi uma pessoa de hábitos saudáveis, nunca fumou, sua pré-disposição genética, por outro lado... foi seu maior inimigo.
Poucos meses de vida. Era o que lhe restava. Meses que eram impossíveis de prever com exatidão.
Suspirei com esse pensamento.
Minha maior frustração médica era não poder ter salvo uma das pessoas que eu mais amava no mundo.
– A que devo a honra de sua visita? – Perguntei brincando tentando quebrar o clima tenso. Shizune percebeu minha tentativa e correspondeu-me com um leve sorriso.
– Sabe Sakura, quando estamos no final da vida começamos a pensar no que fizemos no decorrer dos anos...
– Shizune, mas que conversa é essa...? – tentei interrompê-la para tentar animá-la e parar de pensar em coisas mórbidas, mas minha tentativa foi em vão...
– Sakura, – interrompeu-me – não precisa fingir que está tudo bem, eu sei a minha situação, mas...
– Mas... – a encorajei.
– Sabe aquele sentimento incomodo de que algo está errado – assenti concordando – eu acho que fiz uma coisa errada a muito tempo atrás, na verdade, eu não sei se estava tão errada assim.
– Você se culpa por isso? – Ela assentiu – E porque não tenta consertar o seu erro, se isso a deixará com paz no espírito, então, talvez seja a coisa certa a se fazer.
Shizune focou o olhar em mim, um olhar triste e significativo como se quisesse me contar algo.
– Tenho medo das proporções que minhas ações possam tomar. Não quero magoar ninguém que eu ame.
– Shizune, – chamei-a apoiando-me na mesa que nos separava para me aproximar de seu rosto – você está me deixando preocupada. O que exatamente aconteceu?
– Esquece. – Tentou fugir do assunto se levantando – Mas eu acho que vou seguir o seu conselho e tentar reparar os meus erros – sorriu timidamente indo em direção da porta. Assim que estava passando pela passagem, Shizune parou e me olhou uma última vez – Desculpe-me – murmurou me deixando intrigada naquele consultório.
O que a Shizune-san vai fazer?, pensei encarando a porta branca.
***
Sasuke...
Hoje...
Prazer, sou seu pior pesadelo.
Aquelas palavras ainda ecoavam na minha mente enquanto sustentava o olhar de desafio da pequena criatura.
De início eu fiquei confuso e até surpreso com a reação, mas um Uchiha é sempre Uchiha independente de quem esteja na sua frente.
Em resumo, um Uchiha nunca sai por baixo.
A vizinha chata foi uma exceção por falta de tempo, mas essa garota... ah, essa garota!
Ela está me tirando do sério e eu não estou afim de sair por baixo!
O grande problema ocorre quando dois Uchihas resolvem se enfrentar... Aí sim, o "bicho pega"!
Por mais que eu não tivesse um teste de DNA (por enquanto) para comprovar a paternidade, eu conseguia identificar as características de um legítimo Uchiha nela. E sinceramente, eu não estava gostando nada dessa implicância, pois simplesmente não gosto de ser contrariado, principalmente por projetos de pessoa com 12 anos de idade metidas a valentonas e donas do andar.
Esbocei um sorriso de canto debochado o que a fez franzir ainda mais o cenho me analisando.
– Isso deveria ser uma ameaça? – desdenhei.
– Isso não é uma ameaça, pois ameaças são promessas do que pode vir acontecer se você fizer algo. Não, isso não é uma ameaça, Sasuke, isso é um aviso porque é o que vai acontecer – disse firme terminando a frase retribuindo o sorriso de canto debochado.
Tsc, até o meu típico sorriso de canto debochado ela usa também? Quem ela pensa que é para usá-lo e principalmente contra mim?
– Heh. Como se eu fosse levar a sério a birra de uma criança – ergui uma sobrancelha botando as mãos no bolso.
– Aposto que você comprou esse apartamento por um preço abaixo do de mercado. – comentou girando o taco na mão e voltando a apoiar o cotovelo nele erguendo uma sobrancelha. Em resposta eu franzi o cenho porque aquilo era verdade e eu não sabia o porquê – É sempre assim – disse suspirando como se tivesse cansada de dizer aquilo sempre – os caras encontram essa cobertura de classe alta, um ótimo preço, uma boa oportunidade. Tudo ficaria bem se não houvesse o depois – disse a última frase fechando a cara – o problema de tudo é que eu não gosto do depois. Viu o que eu fiz com aquele cara? Pois é, eu faço pior com vizinhos chatos. – cerrou os olhos – Eu nunca mais os vi depois que eles conseguiram vender esse apartamento. Por isso, te dou esse aviso Sasuke, para o seu bem – falou virando as costas para mim entrando em seu apartamento. Assim que se voltou para mim com intuito de fechar a porta completou dizendo antes de fechá-la com força: – fique longe de mim e da minha mãe!
Cerrei ainda mais os meus olhos com raiva e sussurrei cinicamente:
– É o que veremos filinha.
Peguei a minha mala e entrei no meu novo apartamento. Retirei os sapatos ficando só de meia antes de paralisar com a visão da imensa parede de vidro que se projetava na imensa sala.
Eu era rico, já tinha morado em muitas casas e apartamentos luxuosos, mas esse apartamento tinha seu toque único e masculino.
A decoração em cores neutras e escuras me agradavam em seu designer moderno.
Andei até a imensa parede de vidro vertical – mas que se tornava diagonal em seu topo – para observar o imenso emaranhado de prédios ao redor do Parque Municipal em frente ao prédio.
– É, acho que vou gostar daqui – comentei olhando a cozinha americana com mobília inox que se encontrava à minha esquerda depois de uma mesa quadrada de vidro, enquanto que à minha direita ficava a sala.
Dei as costas para a janela e mirei o que antigamente deveria ser um quarto, mas que hoje em dia era um escritório em contato com a sala. Virei para a direita indo em direção ao pequeno corredor com uma porta ao fundo entre a porta de entrada e a cozinha.
Passei pela porta dando de cara com o quarto de casal, tendo a cama grande como destaque encostada na parede ao fundo feita de vidro com cortinas de tecido cinza semiabertas. Por mais que o apartamento tivesse paredes de vidro eu sabia que tinha minha privacidade garantida pois eu poderia enxergar o que estava fora, mas quem estava fora, não me enxergaria, ou seja, nada de paparazzi me perturbando.
Entrei no meu closet a minha direita organizando o que eu tinha trago na mala antes de ir fazer algo para comer na cozinha.
A dispensa como sempre em minhas mudanças estava cheia, uma exigência minha que Karin conhecia bem. Não gostava de perder tempo fazendo mercado.
Assim que terminei minha refeição, ouvi alguém chegar e entrar no apartamento vizinho. Supus ser a mãe de Sarada.
Entortei minha boca com esse pensamento imaginando uma velha, mas que eu tinha que conhecer e tentar me aproximar de qualquer jeito.
Olhei ao redor e meu olhar parou em um pote de vidro vazio. Revirei os olhos com a desculpa clichê que eu havia tido para ir no apartamento vizinho.
– Já que não tenho outra escolha, vai você mesmo – resmunguei pegando o pote vazio.
Sai do meu apartamento e me direcionei à porta de minha vizinha. Assim que ia apertar a campainha paralisei olhando para a porta.
Não vou mentir, estava ansioso.
Será que eu realmente quero fazer isso?
Suspirei amaldiçoando meu pai de novo enquanto me lembrava da cláusula do testamento.
– Muito obrigado pai – murmurei de mal humor apertando a campainha.
– Já vai! – depois de alguns longos segundos ouvi uma voz feminina gritar de dentro sendo substituído por passos apressados.
Ok! Hora de conhecer a..., pensei enquanto ouvia a tranca sendo aberta, vovó?, terminei minha frase confuso assim que visualizei uma moça um pouco mais baixa que eu com a cabeça baixa tentando amarrar apressadamente o cabelo em um rabo de cavalo.
– Desculpe-me a demora em atendê-lo, estava ocupa... – disse sorridente e gentil, mas assim que levantou os olhos esmeraldinos e focou em mim, sua expressão suave foi substituída por surpresa.
– VOCÊ!? – exclamamos ao mesmo tempo.
O que a doida da garagem está fazendo na casa da minha herdeira?, gritava em pensamentos enquanto olhava confuso para ela sem saber o que dizer.
A rosada cruzou os braços de maneira petulante e eu entortei minha boca em desgosto.
Kami, por favor me diga que isso é uma piada! Diga-me que essa louca não tem nada a ver com a minha herdeira!
– O que você veio fazer aqui? Não me diga que veio me cobrar pelo chute que dei no seu carro, nem arranhou...
– Tsc, é claro que não! – interrompi rude a tagarelice que ela já iniciava.
– Então porque você está na minha porta? – perguntou erguendo uma sobrancelha enquanto apoiava o ombro direito no batente da porta.
Sinceramente eu não estava mais afim de seguir com o plano ao ver aquela mulher. Porque simplesmente ela não jogava charme como as outras e eu a manipularia como eu bem entendesse? Se bem que aquelas pernas grossas pareciam bem atrativas sendo expostas por aquele short...
Tsc Sasuke, foco!
Pense no que você vai perder caso não arrume uma herdeira...
Ouvi ela pigarrear impacientemente, fazendo-me erguer o olhar que antes estava focado em seus membros inferiores.
– Vai desembuchar o que tem para falar ou não? – perguntou impaciente, já com raiva pela minha atitude anterior de analisar seu corpo inconscientemente.
Limpei a garganta e troquei o meu peso entre os pés.
Pensa Sasuke, pensa!
Eu tinha que mudar a minha estratégia de ação. Tinha como estratégia anterior usar a boa recepção de vizinhança de senhorinhas de cinquenta anos ao meu favor, mas observando melhor, essa estratégia não ia funcionar muito bem, ainda mais levando em conta nosso nada produtivo primeiro encontro.
Esbocei um sorriso de canto sedutor e apoiei minha mão direita no batente da porta fazendo-a franzi o cenho confusa com a minha atitude, mas sem quebrar sua postura firme.
– Sabe, eu acabei de me mudar para o prédio, – comecei a falar com a voz rouca tentando soar o mais sedutor possível – mas ainda não tive a oportunidade de fazer o mercado – falei mostrando o vidro vazio que estava na minha mão esquerda – será que você poderia me salvar dessa, emprestando-me um pouco de açúcar, senhorita? – encerrei dando um sorriso irresistível.
Nossa, a minha desculpa não poderia ser mais clichê? Pior é que eu nem gosto de açúcar ou de coisas doces!
Inesperadamente o máximo que eu conseguir da rosada foi um estreitar de olhos e um entortar de boca em desgosto para a minha atitude de cafajeste barato.
Depois de longos segundos me fitando, vi-a revirar os olhos e abrir a porta de seu apartamento entediada, algo bem estranho para atitude de uma mulher na minha frente.
– Entra aí – assenti entrando no apartamento amplo de cores alegres e bem arrumado, um pouco diferente do meu.
– Aliás, meu nome é Sasuke – estendi a minha mão a contragosto, dando-lhe um sorriso falso.
– Sakura – correspondeu-me com outro mínimo sem ânimo que logo desapareceu de seu rosto, enquanto ela entrava na cozinha americana comigo ao seu encalço.
– Belo nome, combina com você – tentei novamente atrair sua atenção para mim e iniciar um novo canal de conversa.
– Obrigada – limitou-se a responder de costas para mim, enquanto pegava o pote de açúcar e uma colher, o que me fez contorcer o rosto para ela, mas logo voltei a minha expressão anterior assim que ela se voltou para mim – Aqui está! – pôs sobre o balcão de mármore negro o pote cheio – Pode pegar o quanto você quiser, Sasuke.
– Obrigado, Sakura – falei começando a encher o meu pote. Assim que vi sua intenção de sair da cozinha, reiniciei: – Aliás, você mora aqui sozinha, Sakura?
– Não, eu moro com a minha filha – congelei no lugar engolindo em seco ao ouvir sua resposta.
Droga! Sarada é filha da louca do estacionamento!
Kami o que eu fiz de errado para merecer isso???
Olhei a rosada de cima a baixo pelo canto do olho, enquanto ela se direcionava à sala, a qual eu tinha completa visão, já que ficava a minha frente.
Ela aparentava ser mais nova do que eu, talvez ter no máximo a minha idade. Era inacreditável que ela tivesse uma filha de 12 anos de idade e por meio de uma inseminação!
– Ela deve ser uma criança pequena, suponho.
– Na verdade, não tão pequena assim...
– Mamãe, seu celular está tocando no quarto – gritou a pequena vindo pelo corredor que ficava entre a sala e a cozinha, mas assim que me viu congelou no lugar incrédula.
– Sarada, esse é o Sasuke, nosso novo vizinho. Sasuke, essa é a minha filha, Sarada.
– Prazer em conhecê-la, Sarada – cumprimentei fingindo nunca a ter visto.
– Prazer, Sasuke – cumprimentou fuzilando-me com o olhar que sua mãe não pôde ver para repreendê-la, já que a pequena estava de costas para a mãe.
– Com licença, Sasuke. Preciso atender o celular – falou desaparecendo pelo corredor.
– Sem problemas – sorrir de canto ao atingir o meu objetivo. Sem querer dei uma analisada no corpo feminino que se afastava.
Não é que aquele algodão doce tinha até um corpo bonitinho!, sorri de canto desviando o meu olhar assim que ela entrou no quarto.
Voltei a tarefa de encher o meu pote de açúcar assobiando como se não ligasse para a miniatura de gente que me fuzilava pelos olhos.
– É sempre a mesma desculpa – comentou sentando-se no banco a minha frente – ou é o chá ou o arroz ou como dessa vez, o açúcar. Tsc, que clichê.
– Pode ser clichê, mas funciona – provoquei-a entrando em seu joguinho.
– Sasuke, Sasuke. Sua mãe nunca lhe ensinou que você não deve brincar com fogo?
– Sarada, Sarada. Sua mãe nunca lhe disse que você não passa de um isqueirinho? – vi a morena retorcer a boca em desgosto, sem saber como retrucar – Porque você não deixa os adultos resolverem os assuntos entre si enquanto você brinca de boneca?
– Um, eu odeio brincar de boneca e dois, prefiro afugentar vizinhos iludidos metidos a garanhão com o meu taco de beisebol.
– Aposto que sua mãe não conhece essa sua preferência por esporte... como posso dizer... alternativo – estreitei e foquei meus olhos em desafio na morena assim que terminei de pegar o açúcar que precisava.
– Está me ameaçando, Sasuke? – estreitou os olhos também.
– Ainda não sei bem como classificá-lo – fingi está pensativo enquanto batia com o meu dedo indicador nos meus lábios – Qual você prefere, Sarada? Aviso ou ameaça?
Rir por dentro ao ver a pequena apertar o maxilar em frustração sem saber como rebater.
Essa pirralha ainda tem muito o que aprender até conseguir calar Uchiha Sasuke.
Sarada fez menção de falar algo, mas sua mãe voltou para a sala.
– Hn. Vocês já estão conversando? – Perguntou desconfiada ao nos ver.
– Claro. Estamos conversando bastante – comentei com um mínimo sorriso de canto ao ver os olhos negros da pequena revirarem para mim.
– Sarada, eu não já falei para você não deixar o seu notebook jogado em cima do sofá – reclamou apontando para o objeto preto sobre o sofá marfim.
– Qual é mãe!? Eu estava usando ele – defendeu-se.
– Para estudar? – Indagou irônica. A morena ficou com a bochechas vermelhas.
– Eu estava jogando – admitiu em um sussurro envergonhado.
A rosada suspirou.
– Só espero que isso não afete o seu desenvolvimento escolar.
– Pode ficar tranquila, eu sou um gênio.
Uau, como ela é humilde! Revirei os olhos.
– Que seja – falou a rosada ligando a televisão bem na hora que estava passando a reportagem sobre a feira da Uchiha's Company de mais cedo. Engoli em seco, com certeza eu iria aparecer – Olha filha, não é aquela empresa que você gosta?
– Mãe, entenda, a Uchiha's Company não é uma empresa qualquer e sim A empresa!
– Concordo – falei involuntariamente chamando a atenção das duas Haruno.
– Você gosta de joguinhos? – Perguntou cruzando os braços a rosada.
Depende... De que tipo de joguinhos você se refere?, indagou minha mente pervertida rapidamente.
– Jogos eletrônicos da Uchiha's Company não são joguinhos – rebati cruzando os braços.
– Uau, por um segundo pensei ter ouvido a versão masculina da Sarada falando! – Falou teatralmente.
– MÃE! Não me compare a esse aí!
Esse aí? Desde quando Uchiha Sasuke é designado como esse aí?
Ergui uma sobrancelha para a pirralha de quatro olhos.
– Garota, você sabe com quem você está falando?
– Isso importa?
– Pois, deveria prestar mais atenção no telejornal – elas me olharam intrigadas, mas instintivamente olharam para a televisão bem na hora que eu era entrevistado por Nara Temari, a esposa do meu conselheiro na empresa.
Nunca quis gargalhar tanto na minha vida do que ao ver a expressão surpresa da Sarada.
Ela perdeu completamente a cor ao se dar conta de que eu era, nada mais, nada menos, que o Presidente e um dos donos da empresa que ela tanto idolatrava.
Seus orbes negros pararam em mim completamente surpresos, suas bochechas começaram a se avermelhar de vergonha.
– Prazer, Uchiha Sasuke! – Provoquei enfatizando meu sobrenome, fazendo-a querer se enterrar – Pelo visto você admira bastante a minha empresa e gosta de jogos eletrônicos e robótica. Uma pena que sou eu que assino o contracheque – falei com falso sentimentalismo.
– Ai! – murmurou a mais velha. Até ela sabia que quem tinha vencido o bate-boca tinha sido eu. Vi um pequeno sorriso divertido querendo ser contido no canto de sua boca – Acho que você acabou de perder o emprego dos seus sonhos, Sarada!
– Mamãe! – Repreendeu sua mãe que caiu na gargalhada.
– Sabe, tem um lado positivo nisso tudo – começou a mãe. Pronto, agora começa a jogada de charme pra cima do milionário!, pensei revirando discretamente os olhos – Assim eu pelo menos já sei para quem eu devo pedir satisfações quando esses jogos violentos começarem a afetar a minha filha – focou um olhar raivoso em mim.
Hello! Milionário a vista e você pensa na saúde mental da sua filha?, fiquei indignado por ser ignorado.
Oh mulherzinha difícil!
– A Feira também recebeu visitantes das mais variadas idades... – narrava Temari bem na hora que passava imagem dos visitantes, inclusive da...
Sarada!
– Ferrou – murmurou a morena perto de mim.
– Quer uma dica? – sussurrei para ela ouvir – Da próxima vez você troca de roupa ao invés de ir com uniforme da escola, chama menos atenção. Um boné para esconder essa sua testona seria uma boa também – falei rápido me segurando para não rir da expressão de pânico e de raiva no rosto infantil.
A mãe dela estava estática olhando para a televisão.
– HARUNO SARADA! QUE MERDA É ESSA? – Explodiu a rosada nos encarando com olhos raivosos que davam medo até em mim – VOCÊ FUGIU DA ESCOLA PARA IR EM UMA PORCARIA DE FEIRA? – Sarada permaneceu calada. Só digo uma coisa, quem cala, consente! – JÁ PARA O SEU QUARTO! AGOOORA! – Não precisou de repetição, a menina em pânico saiu correndo pelo corredor – E você... – apontou para mim.
– Eu?
– A porta é serventia da casa! – Falou com raiva dando passos pesados na mesma direção que a menina seguiu.
Suspirei e resolvi me retirar do local assim que começou o sermão (vulgo, gritos) da Sakura.
Peguei o meu pote de açúcar e resolvi sair, só que vi algo interessante na tela do notebook da Sarada que me deixou surpreso e com um sorriso de canto.
Assim que entrei no apartamento, deixei o pote em qualquer canto e disquei o número que eu sabia de cor no meu celular.
– A MINHA FILHA É UMA VÍBORA E A MÃE DELA É UMA BRUXA! – Esbravejei assim que atenderam o telefone.
– Pelo visto ela faz jus em ser filha de Uchiha Sasuke – ouvi o riso abafado do meu melhor amigo pela linha.
Revirei os olhos.
– Rá rá rá – fingir rir – Cala a boca, dobe! Aquelas Harunos tem o cão incorporado no corpo delas e ainda por cima gostam de rebater o que eu digo. Tsc, aquela petulante cor de algodão doce chuta o meu carro, fala poucas e boas e ainda se faz de indiferente diante mim, enquanto que aquela quatro olhos se acha a dona do mundo!
– Cor de algodão doce? Quatro olhos? De quem você está falando, Teme?
– Das Haruno. A cor de algodão doce é a mãe, Haruno Sakura, e a quatro olhos é a minha filha, Haruno Sarada – expliquei.
– Haruno Sakura? – Ouvi ele murmurar baixo para si mesmo – HARUNO SAKURA??? – Gritou no meu ouvido tendo que me fazer afastar o aparelho da minha orelha para não ficar surdo.
– Ficou doido? Para de gritar no meu ouvido!
– Sasuke, por favor me diz que você não está falando da Haruno Sakura que tem cabelo rosa e olhos verdes, mãe da Haruno Sarada que tem cabelos negros e olhos cor de ônix – implorou.
– Como você sabe como elas são? – Perguntei receoso.
Afastei o aparelho novamente para não ter que escutar todos os nomes de baixo calão que ele proferia aos gritos e só parou assim que escutei Hinata mandando ele lavar a boca do outro lado da linha.
Rir de canto. Só Hinata mesmo para fazer aquele loiro escandaloso se comportar.
– Haruno Sakura é uma das melhores amigas da Hinata...
– O QUÊ? – Esbravejei surpreso.
– E, bom... Ela é minha amiga também.
– O QUÊ? – Repeti sem acreditar – Com assim aquele algodão doce é sua amiga e eu não sei?
– Se lembra do jantar que eu te chamei para vir aqui em casa e que até uma amiga da minha mulher também viria e que nós (eu e Hinata) queríamos te apresentar só que você bateu o carro, na verdade, uma doida bateu no teu carro e você aproveitou o interesse da "acidentada" em você para leva-la ao motel?
– Sim...
– Era a Haruno Sakura que queríamos te apresentar – admitiu e meu queixo caiu.
– É a algodão doce, a mulher pelo qual você está enchendo o meu saco a meses para conhecer. Dizendo que ela é a mulher ideal para me fazer sair da minha vida boemia? Tá de sacanagem com a minha cara! Conheci ela e não vi nenhum dos adjetivos bons pelos quais você a descrevera em prática hoje.
– A Sakura é legal Sasuke. Só não inventei de fazer outro jantar em casa para apresentá-los porque eu sei que ela merece um homem muito melhor que você.
– Até parece! Não existe homem melhor do que eu! – Sabia que ele deveria estar revirando os olhos naquele exato momento – Mas... – recomecei – ela é muito nova para ser mãe por meio de uma inseminação artificial de uma garota de 12 anos de idade.
– Acredite, minha mulher é próxima a ela e eu posso te afirmar que a Sakura fez inseminação artificial quando tinha 18 anos...
– Louca.
– Eu chamaria de corajosa.
– Que seja. Não fui com a cara dela.
Ouvi o loiro cair na gargalhada.
– Sasuke, Sasuke. Todos os homens se apaixonam pela Sakura quando a conhecem, ela é incrível, só que não dá bola para ninguém, é muito feminista e independente, bem diferente da mulher que você idealiza. Não seria nenhuma surpresa se um dia você me dissesse que está apaixonado pela Haruno, só que ela te deu um fora.
– Impossível!
– Quer apostar?
– A última aposta que fizemos resultou em uma criança de 12 anos – lembrei.
– Está com medo de perder, Sasuke-chan? – Provocou.
– Claro que não. Aposto que faço ela ficar aos meus pés e ainda consigo levar ela pra cama – disse convicto.
– Iludido... Você pode até conseguir levá-la para a cama, afinal a Haruno tem relacionamentos, mas eu aposto que você vai se apaixonar por ela e a rosada vai te dar um pé na bunda quando você menos esperar.
Cai na gargalhada com a ilusão do meu amigo.
– Apostado!
– Apostado! Aliás vou te avisando logo que a Sarada é coleguinha de classe do Boruto, ou seja, vamos ser vovôs do mesmo neto – disparou antes de cair na gargalhada e desligar na minha cara.
– Mas é nunca que eu ia deixar um absurdo desses acontecer! – Esbravejei jogando o meu celular ao meu lado no sofá.
Fiquei um tempo jogado no sofá olhando para o teto do apartamento iluminado só com as luzes da cidade até que me lembrei do que havia visto no notebook da minha herdeira.
Busquei o meu notebook no quarto e voltei para a mesma posição entrando em um dos meus jogos que eu havia programado e liberado anonimamente na internet.
Posso até ser da parte administrativa da empresa, mas eu sou de uma família de programadores de jogos, logo, eu, assim como Itachi, produzo jogos por hobby. Alguns de meus jogos são vendidos pela companhia, mas alguns eu libero na internet de graça de forma anônima e faz grande sucesso, assim como os meus jogos vendidos pela companhia.
Por grande coincidência, Sarada estava jogando um dos meus jogos de RPG.
– PrimaveraEscarlate – digitei o codinome que Sarada assumia naquele jogo e eu a encontrei online. Se aquela era a minha filha mesmo, com certeza estava jogando escondido da mãe mesmo depois de ter ficado de castigo.
Analisei seus dados e me surpreendi ao ver o quão bom jogador ela era, estava bem avançada.
"Que tal uma partida, PrimaveraEscarlate?", convidei-a via bate-papo do jogo.
"Só se for agora, NoctisCaelum", respondeu-me rapidamente.
Jogamos por longas horas, até ela ter que sair, com certeza para dormir.
Tenho que admitir, tirando Itachi, ela foi a pessoa que eu mais tive que ser cauteloso na hora do jogo, mas claro que não deixei que ela ganhasse.
– Tinha que ser filha do mestre! – Vangloriei-me já pronto para dormir.
Assim que fechei os olhos, fui levado a um sonho que eu não tinha a muito tempo...
Estava frio e escuro. Apenas o choque das gotas de chuva no chão frio do asfalto ecoava em meus ouvidos até que o som do soluço choroso baixo chegou aos meus ouvidos.
Olhei para a pequena mulher caída na minha frente que me olhava surpresa.
Ela não se desculpou por ter esbarrado em mim, apenas ficou me encarando com os olhos verdes cheio de lágrimas.
Sua roupa simplória grudava em seu corpo assim como a minha no meu corpo de 18 anos.
"Porque eu estou de novo nesse sonho?", perguntava-me encarando a menina na minha frente de mesma idade.
Foi aí que eu vi os cabelos rosas grudados na face bonita, moldando de forma irregular o rosto que guardavam olhos verdes brilhantemente tristes.
Assustei-me ao reconhecer a moça, ia chamá-la, mas tudo ficou escuro no instante seguinte...
Abri preguiçosamente os olhos. Os feixes de luz já adentravam o quarto pelas beiradas descobertas da cortina denunciando que já era um novo dia.
Sentei-me ainda com o sonho na minha cabeça.
Por muito tempo eu havia tido o mesmo sonho todas as noites, mas sempre que ia tomar uma atitude ele se dissolvia em uma nuvem de fumaça.
Sempre tive aquele rosto gravado em minha memória, admito que a procurei por um tempo, sempre olhando discretamente pelos lugares verificando se havia uma cabeça rosa, mas nunca a encontrei, convencendo-me que aquilo foi só ilusão minha, que não existia garotas de cabelo rosa.
Ao longo dos anos esqueci do ocorrido, mas por ironia do destino, eu a encontrei, agora eu sabia o seu nome e que ela era a mãe da minha filha.
Que ironia do destino!
Como eu desconfiaria que aquela noite, pagando uma aposta idiota e esbarrando em uma garota que nunca havia visto na vida, mudaria minha vida para sempre...
Afinal, se eu pudesse voltar no tempo, o que eu faria?...
Ouvi barulhos baixos vindo do apartamento vizinho anunciando que elas já haviam acordado, tirando-me completamente dos meus devaneios.
Abri um pequeno sorriso de canto antes de murmurar:
– Que comecem os jogos!
Continua...
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