Procura-se uma Uchiha
21 Eu tentarei
Notas iniciais
— Hatake Kakashi – repetiu debilmente, como se tentasse relacionar o nome a alguém conhecido, mas nada.
O nada foi a sua resposta.
Uma grande tela em branco se formou em sua mente e nem mesmo o sobrenome do homem de terno o fez relacionar a qualquer ser ou empresa que conhecesse.
Em sua opinião, Hatake não era do círculo social do seu pai, talvez não fosse nem mesmo um dos homens que o visitaram na cadeia, mas provavelmente, devido ao sorriso presunçoso que carregava enquanto analisava o mais novo, ele detinha o conhecimento que Sasori tanto desejava obter desde que tudo aquilo se iniciou.
— Consigo supor que está tentando me reconhecer como alguém do círculo de negócios do seu pai – comentou com calma, ao mesmo tempo que se acomodava confortavelmente na poltrona de frente ao outro homem. – Devo dizer que desista. Não faço parte – antes de concluir, acrescentou com um sorriso irônico. – Não eu.
Sasori permaneceu calado por um momento, tentando decifrar as meias frases que lhe eram ofertadas.
Permaneceram tanto tempo em silêncio, que só quando a primeira gota escorreu de seu rosto machucado, o mais novo notou que era hora de questionar:
— Se você não faz parte do círculo social do meu pai e não consigo relacionar seu nome a nenhum conhecido, devo supor que não é empresário.
— Exato – respondeu, por mais que não houvesse pergunta no ar. Acrescentando logo em seguida: – Sou detetive particular.
Os castanhos se estreitaram para aquela informação.
— Até onde eu sei, detetives se mantém no escuro, descobrindo a verdade sobre os outros para aqueles que o contratam, ao invés de simplesmente abordar alguém e lhe questionar o que quer.
Kakashi riu das palavras ácidas e depreciativas do mais novo, não sendo afetado por nenhuma delas.
— Como eu mesmo disse. Sou um observador curioso. O desconhecido e o que as pessoas escondem, me atraí, mas não estou aqui como detetive particular. Hoje estou aqui apenas como um mediador.
Mediador. Aquela palavra de novo, pensou o ruivo antes de questionar com ironia:
— Então você é um empregado daqueles homens. Um detetive particular que faz bico de garoto de recados quando eles precisam.
O sorriso de Kakashi não se abalou. Permaneceu firme enquanto dizia em um tom baixo e cortante:
— Nenhum de nós é empregado. Estamos aqui porque queremos, porque aceitamos. Acredite, Sasori, somos muitos e estamos onde você menos espera.
Sasori estreitou o olhar com certa fúria.
— Só estou aqui pela minha liberdade, não porque eu quero.
— Tem certeza das suas palavras? – Uma sobrancelha grisalha se ergueu em claro desafio. – Tem certeza que não foi por sua curiosidade que permaneceu aqui depois daquela festa da empresa Uchiha? Ou devo dizer no momento em que te visitaram no presídio?
Sakura.
O nome veio com facilidade em seus pensamentos, aumentando sua fúria ao saber que de maneira tão clara eles sabiam como manipulá-lo, sabiam porque ele continuava ali, porque ele foi até ali.
Ele virou o rosto com certa fúria, abaixando o olhar para o carpete, após ter apoiado seu cotovelo no encosto, aumentando o aperto do frio contra o seu rosto quente de hematomas.
— Me responda, Sasori, o que você pretende fazer em relação à Sakura?
— O que você está insinuando? – O mais novo indagou com a voz baixa e fria, focando os castanhos ferozes no homem calmo.
— Vi seu olhar. Vi sua fúria e vi as filmagens de sua briga com o Sasuke-sama – desviou a atenção para o controle remoto, ligando a ampla televisão.
Sasori não sabia se surpreendia ou se permanecia confuso com a imagem de Sasuke e Sarada sentados no corredor, como se esperassem algo.
Kakashi mudou a tela, mostrando a visão de outras câmeras do prédio, inclusive do saguão onde ele havia brigado com o Presidente da Companhia Uchiha.
Por fim, o homem mais velho desligou a televisão, voltando-se com calma para o ruivo de olhos ainda fixos na tela negra.
— Claro que hackear o vídeo de segurança de um prédio está longe do meu domínio técnico – riu com ironia, chamando a atenção do ruivo.
— Bem que você disse que eram muitos. Aposto que há um hacker entre vocês.
— Pode ser – deu de ombros o grisalho, sem responder de fato ao mais novo. – Porém, o que interessa, por hora, é saber o que você fará em relação à Sakura depois de tê-la reencontrado – torceu a boca antes de continuar – de uma forma não tanto apropriada.
— Ela é só uma interesseira, sempre foi – cuspiu as palavras com desgosto. – Não esperava tanto dela... não aceito me fazerem de idiota e saírem ilesos.
Kakashi voltou a seriedade, erguendo-se da poltrona com elegância, antes de iniciar seu discurso de maneira fria:
— Raiva, traição, fúria, ciúmes, ódio, fervor, são sentimentos que podem destruir um homem se forem cultivadas por um longo tempo. São sentimentos triviais que nos levam a atitudes impensadas e impulsivas, resultando em quase sua totalidade, em arrependimento pós-ato – focou o olhar negro em Sasori no término do discurso.
— Está dizendo que não devo fazer nada? – Gritou, erguendo-se da poltrona com fúria, deixando a compressa cair com rudeza contra o chão, ao mesmo tempo que ele dava largos passos em direção ao mais velho.
— Só estou dizendo que decisões sensatas só podem ser tomadas com calma e depois de muita reflexão, principalmente depois de ter a certeza de ter os fatos verídicos de todos os ângulos possíveis e imagináveis – cruzou os braços, não se intimidando com o homem perigoso, com histórico de tantas brigas ilegais em seu currículo. – Acha mesmo que são homens impulsivos como você que comandam uma grande empresa?
A frase surpreendeu o ruivo, tendo uma ideia do que aquilo significava.
— Foi o meu pai quem mandou você fazer esse discurso de merda sobre o que eu devo fazer ou não? – Gritou com ódio.
— Não, só estou dizendo a verdade – disse simplesmente antes de dar as costas para o homem enfurecido.
— Não dê as costas para mim – ordenou.
Kakashi apenas riu do "garoto", continuando seu caminho até a cozinha.
— EU DISSE...
— Quero chá – moveu a mão com descaso por cima do ombro, continuando seu andar calmo, divertindo-se com o alto grunhido que o outro havia dado.
Foi rápido em buscar uma xícara e voltar para a sala com a calma de analista, típico de seu ofício como detetive.
Sentou novamente em sua poltrona, sorvendo o chá, enquanto seus olhos fixavam-se no homem atordoado pela ignorância.
Viu o outro puxar os fios de cabelo com força, antes de se voltar com mais calma para si assim que reiniciou a fala:
— Você ainda a quer – não foi uma pergunta, mas foi o suficiente para receber um olhar semicerrado do outro que permanecia calado. – Não aceita perder. Isso é egoísmo, mas não posso negar que é um sentimento que todos nós temos. Porém, o que você não pode esquecer, é que o tempo passou... não há como voltar atrás... o tempo não volta, apenas vai para frente.
Sasori não respondeu àquilo. Sabia que era verdade, desde o dia em que romperam no passado, durante uma noite regada de acusações, todas saindo de sua boca em direção à uma garota estática, de poucas curvas e olhos tão verdes e brilhantes devido às lágrimas que escorriam, antes dela correr dali.
Era um caminho sem volta...
Nem mesmo um beijo correspondido poderia significar alguma coisa, já que os olhos demonstravam pavor de si.
— Por que você está falando tudo isso para mim? – Nem mesmo Sasori reconheceu sua voz tão baixa e cansada, sendo ecoada como um leve sussurro sôfrego.
Kakashi repousou a xícara sobre o criado-mudo, antes de pegar a lanterna e caminhar calmamente até Sasori que permanecia de costas para si.
— Porque coisas fascinantes podem ser feitas por uma mente sã, ao invés de uma mente em fúria – pôs a mão direita sobre o ombro do rapaz, antes de acender a lanterna e mirar o grande painel cheio de fotos, fios e anotações.
Sasori levou algum tempo para compreender, mas logo reconheceu alguns rostos das pessoas fotografadas à distância, principalmente dos três moradores da cobertura do Edifício Palace Tóquio.
Ele suspirou, vendo uma foto sua com um fio interligado à foto da Sakura, deixando claro que os fios eram ligações, tanto do passado quanto do presente.
— Vocês são loucos – ponderou.
— Quem inventou tudo isso deve ser louco, mas é um louco são que tem a minha curiosidade.
— Então já há tudo esquematizado do que vai acontecer? – Perguntou.
— Há. Mas as pessoas são voláteis, não há roteiros, então existem muitas possibilidades. Você, por exemplo, foi o gatilho do passado, mas era algo incerto, pois você é humano e teve a chance de escolher, mas creio que saiu como gostariam.
— Como eles podem saber o que vai acontecer?
— Se você conhecer bem uma pessoa, pode saber o que ela vai fazer a seguir.
— O que vai acontecer a seguir?
— Não sei de tudo, só me informaram que Sasuke vai me ligar pedindo informações suas e eu vou dar, no dia seguinte – apontou para uma pasta ampla sobre uma mesa abaixo do grande mural.
Sasori caminhou até ela, abrindo a pasta parda, para logo ver uma foto sua e seus dados pessoais, assim como detalhes de sua vida e até mesmo atos ilícitos, no decorrer das páginas.
***
Sasuke...
— Ai – resmunguei, afastando um pouco o meu rosto das mãos de Sarada.
A menina bufou, desistindo do curativo que tentava fazer em mim.
— Quem é a médica aqui é a minha mãe. Não tenho talento para isso, ‘tá legal?
Acabei suspirando antes de massagear o meu rosto dolorido.
Percorri meus olhos pela sala, agora arrumada e sem cactos espalhados pelo chão.
Demoramos a entrar, mas assim que entramos, em um acordo silencioso, começamos a arrumar a bagunça em que havia se transformado aquela sala.
— O sangue já parou de escorrer e o gelo vai melhorar os hematomas – dei de ombros. – Vai ficar tudo bem.
Tentei soar confiança, confortar a garota que insistiu em me ajudar nos curativos, mas em vão.
Ela apenas assentiu, ficando de braços cruzados, olhando para o nada.
— Está tarde, Sarada. Vai tomar banho e depois dormir. Você tem aula amanhã.
A menina ergueu uma sobrancelha para a minha ordem, mas como estava falando sério, acabei recebendo um rolar de olhos e uma garota resmungona se arrastando para o seu quarto como se estivesse indo para a pena de morte.
Suspirei mais uma vez. Estava me sentindo exausto – meu corpo estava dolorido e minha roupa, ainda molhada – mas ainda havia algo para fazer, antes de poder trocar a minha roupa em casa...
Ainda tinha que verificar como Sakura estava.
Praguejando um pouco, me ergui e caminhei até a porta do quarto de Sakura.
Não havia ruídos vindo dali desde que entramos no apartamento, porém, nenhum de nós dois havia se atrevido a invadir o espaço que aquela mulher precisava.
Tudo o que não precisávamos era de uma Sakura ainda transtornada.
Antes mesmo que eu percebesse, a maçaneta girou sob a minha mão, dando uma visão do seu interior silencioso.
Tomei coragem e adentrei completamente o quarto de meia luz, caminhando sorrateiramente para o closet de portas abertas, encontrando Sakura, completamente estática, enquanto seus olhos estavam fixos no seu reflexo da penteadeira.
Ela não se movia, apenas o movimento suave da sua respiração me dizia que ela estava viva; porém, os olhos inchados, apesar da penumbra, denunciavam o quanto ela havia chorado.
Parecia como uma boneca...
Inerte. Sem vida.
Completamente perdida no mundo dos seus pensamentos, enquanto seu corpo permanecia ereto naquela cadeira estofada.
— "A nova Imperatriz não é boneca de porcelana" – sua voz saiu perdida, recitando o título da matéria de capa daquela semana, antes de um sorriso, sem humor, estampar-se no rosto dela. – Mal sabem que a tal "Imperatriz" é mais frágil que a mais fina porcelana. Sou como aqueles cactos. Sou meros fragmentos remodelados infinitas vezes, nunca podendo voltar a ser o que era antes. Sujeito a mais quedas – o sorriso desapareceu, permanecendo apenas a inexpressividade, tão incomum àquela mulher que sempre tinha uma resposta, uma atitude irritante na ponta da língua.
Então era aquilo? Sasori tinha todo esse controle sobre ela? Capaz de transformá-la em nada?
Onde está sua coragem?
Sua boca que vive me chamando de idiota?
Cadê os olhos verdes brilhantes que estavam tão divertidos poucas horas atrás?
Cadê a Sakura?
— E eu odeio isso – murmurou, mais para si do que para mim, um mero espectador do seu reflexo. – Odeio mostrar fragilidade. Odeio ser essa pessoa, pois ela é justamente a pessoa que eu jurei que nunca mais seria – seus olhos se encheram de lágrimas e sua voz aumentava em fúria. – Medrosa, estúpida, digna de pena...
— Pare – ordenei segurando em seus ombros.
Ela se calou, mas as lágrimas rolaram, uma a uma, de maneira solitária pelas maçãs rosadas.
— Você não precisava ter visto aquilo. Você não deveria nem estar aqui – empurrou minhas mãos com rispidez, mas com certa fúria, segurei seus braços mais uma vez, prendendo-a de encontro ao encosto da cadeira.
— Não foi você mesmo quem disse que não vale a pena viver no passado, hoje mais cedo?
Seus olhos se abriram um pouco ao se lembrar do que havia dito, notando o próprio paradoxo de suas palavras.
— Como você pode ver, o passado não me deixa – falou com amargor, desviando o olhar do meu reflexo.
— É você quem não deixa o passado para trás – minha voz saiu ácida e a incredulidade se espalhou pelos olhos verdes mirando meu reflexo duro.
— Como se fosse fácil – debochou com asco.
— Então você prefere agir como uma medrosa toda vez que o passado volta a te atormentar, ao invés de enfrentá-lo de uma vez? – Minha voz se elevou, mas Sakura não respondeu, permaneceu calada. – Isso sim é digno de pena – finalizei soltando-a, antes de dar as costas e ir em busca da caixa de medicamentos que uma vez havia encontrado ali.
Olhei o nome de vários, antes de encontrar um calmante.
— Aqui – pus em sua frente, esperando que ela reagisse.
Sakura ainda estava paralisada desde a minha última fala, mas sorrateiramente, ela se moveu para agarrar o pequeno frasco amarelo de medicamentos.
Ela não foi até a cozinha pegar um copo de água, apenas engoliu um comprimido seco, antes de me olhar pelo canto do olho, como se estivesse em dúvida das minhas próximas atitudes.
Só quando a expressão de dor se fez presente em seu rosto, logo após se erguer, foi que eu entendi porque ela demorou tanto a se erguer.
— Droga. Por que você não me avisou? – Repreendi pegando-a no colo, apesar do meu tronco latejar de dor.
Grunhi, levando-a para a cama.
Sakura já havia tomado banho e cuidado do seu ferimento devidamente, mas por ser um corte no pé, ela não conseguiria andar direito por um tempo.
Depositei-a com cuidado, antes de dar atenção ao pé enfaixado por um pano limpo.
— Não foi profundo – tentou justificar-se.
— Da próxima vez que resolver quebrar vasos, lembre-se de calçar um sapato antes.
Ela bufou aceitando o cobertor que eu colocava sobre ela.
Assim que eu me aproximei do seu rosto, ela segurou a minha gola para que eu não me afastasse.
Não me movi, apenas deixei que as mãos femininas abrissem os botões da minha camisa, mesmo não compreendendo o que ela queria.
Sua mão quente deslizou com afinco pelo meu tronco nu, como se procurasse alguma coisa em particular.
Só quando a dor se tornou insuportável e meu corpo retesou de dor em sua direção, que eu compreendi o que ela queria.
— Por que você não me avisou? – Imitou-me em um tom seco, mas apenas dei um sorriso torto, endireitando-me na cama. – Achou mesmo que eu não notaria sua cara de dor quando me carregou?
— Não é nada demais.
— Tire a blusa – ignorou o meu argumento.
Bufei tirando o resto da minha camisa, deixando-a cair no chão antes de voltar a minha atenção para a mulher que logo voltou a analisar meu tronco.
Apoiei minhas mãos ao lado do seu rosto fixo no meu corpo, com a expressão profissional.
Ela tocou com delicadeza em cada ponto do meu tronco antes de segurar meu rosto com as duas mãos, observando cada machucado.
— Você não quebrou nada – ficou calada, antes de falar num murmuro. – Não se meta mais em uma briga com o Sasori, já vi homens maiores do você saírem de uma briga desacordados – havia clara preocupação em sua voz, mas Sakura não se alongou em suas palavras, apenas soltou o meu rosto e se virou na cama, dando-me as costas.
Porém, permaneci ali, vendo seus olhos ainda abertos, esperando que o calmante a levasse para uma longa noite de sono.
Antes que ela cedesse aos olhos pesados, murmurou:
— Pode usar o meu banheiro se quiser.
Assenti, por mais que ela já tivesse caído no sono.
Antes mesmo que eu percebesse, meu rosto já estava afundado em seu pescoço e meu braço já a rodeava em um meio abraço, estático, apenas inalando seu cheiro de banho recente.
— Só queria te entender, irritante – resmunguei, apoiando meu queixo em seu ombro.
Senti um olhar atrás de mim e de súbito eu me virei, encontrando uma Sarada confusa paralisada na porta entreaberta.
Antes que eu pudesse dizer alguma coisa, a garota saiu correndo para o seu quarto.
— Sarada! – Chamei, mas foi em vão, ela já havia fugido. – Problemas e mais problemas – suspirei com cansaço, antes de vestir minha camisa social, já saindo do quarto.
Dei três batidas no seu quarto me anunciando, antes de entrar.
— Sarada, vamos conversar – mas a garota escondida de baixo do lençol não se moveu. – Sarada – cantarolei me sentando na cama, cutucando a elevação que se remexeu.
— Vai embora – a voz saiu abafada por causa do lençol.
— Só vou depois que a gente conversar.
Ela bufou e ficou em silêncio.
Entendi isso como uma permissão, liberando seu rosto emburrado para os meus olhos.
— Quer perguntar alguma coisa? – Indaguei erguendo uma sobrancelha.
Seus lábios franziram com o aperto e seus olhos vagaram pelo quarto, permanecendo calada.
Acabei revirando os olhos, voltando a minha atenção para as fotos sobre o criado-mudo.
Uma em especial, chamou a minha atenção.
Era de Itachi e Sarada na última feira, com um autógrafo do meu irmão.
Peguei com cuidado, analisando aquela Sarada sorridente ao lado do tio, sem ao menos imaginar a relação sanguínea que ela carregava com o seu ídolo.
— Não vou sair daqui até você falar comigo – sussurrei com os olhos fixados na foto.
O silêncio perdurou por alguns segundos antes dela murmurar de maneira incerta, enquanto suas bochechas ficavam rosadas:
— Você e a mamãe estão tendo alguma coisa?
Voltei meu olhar para ela, mas Sarada deu as costas para mim.
Deixei o porta-retratos de volta ao local de origem, antes de me inclinar sobre a garota, puxando devagar seu ombro para que ela me olhasse.
— Você não ia gostar se isso acontecesse, não é? – Sarada não respondeu, apenas abaixou o olhar para os seus dedos inquietos que brincavam com um pedaço do lençol.
Mordi meu lábio inferior, antes de admitir:
— Sua mãe já me negou tantas vezes que já perdi a conta – acabei rindo da minha fala, vendo um princípio de um sorriso divertido em seu rosto. – Sério, foi horrível e é melhor você não contar isso para ninguém, tenho uma reputação a zelar – brinquei.
— Ah claro, bela reputação, oh grande Uchiha Sasuke, o galanteador número um das melhores festas nipônicas que nem ao menos consegue chamar sua vizinha para sair se não for por meio de uma aposta.
— Assim você me magoa, pimentinha – baguncei os cabelos da garotinha risonha.
— Só estou dizendo a verdade – ergueu as mãos em defesa.
Dei de ombros, antes de olhar o quarto dela, prestando atenção nos detalhes.
Era um quarto com detalhes masculinos, mas nunca deixando o toque feminino de lado. Havia inúmeros posteres, prateleiras com DVD’s dos jogos da companhia, consoles e até alguns modelos robóticos em diferentes estágios de construção.
Havia também um mural com recortes de notícias sobre a companhia da minha família, alguns antigos, remontando à época do meu avô, enquanto outros eram mais novos, misturando-se em meio a desenhos infantis e fotos dela com a sua mãe.
— Você gosta mesmo da Uchiha's Company, não é? – Sorri de canto me erguendo para ler as reportagens.
— Desde pequena – admitiu, antes de perguntar com certa preocupação: – Na primeira vez em que você entrou aqui em casa, você deu a entender que não me contrataria – desviei meu olhar para a menina que mordia o lábio inferior em apreensão – isso ainda é verdade?
Dava para sentir o medo em sua voz.
Era o seu sonho no final das contas e só então eu notei que nunca fui um garoto sonhador, a única coisa que eu sabia é que um dia trabalharia na empresa da minha família.
Sarada, por outro lado, cresceu longe daquele mundo, longe de toda a tecnologia e pressão que a empresa impunha sobre um herdeiro, mesmo assim, ela tinha o sonho de entrar lá, trabalhar na companhia, que por ironia do destino, ela era uma das donas e herdeira daquele império todo.
Ela era a mais velha da sua geração. A única bisneta de Uchiha Madara, logo, após a mim, ela era a cotada como a futura Presidente daquela empresa quando me aposentasse.
Entretanto, ali estava ela, temerosa em não poder ser nem uma simples funcionária no campo da programação dos games porque havia aprontado muito com o cara que assinaria seu contracheque, apenas para não chegar perto da sua mãe.
— Apesar de ter me pintado de rosa e até mesmo, destruído o meu carro, o que importa é talento, se você mostrar competência o emprego será seu – dei de ombros, indo até uma prateleira com peças eletrônicas, claramente para construir um protótipo robótico.
— Sério? – Perguntou incrédula, erguendo-se em um sobressalto na cama.
Os olhos negros brilharam com a possibilidade e acabei sorrindo, voltando a observar um protótipo de perna robótica pequena, tão pequena que parecia uma pata.
— O que isso vai ser? – Indaguei a garota que parecia ainda em torpor pelo que eu havia dito antes.
Ela piscou três vezes antes de ver a pata na minha mão.
— Ah, isso é a pata posterior esquerda do Kurama – respondeu ajeitando os óculos.
— Kurama?
— Meu projeto de ciências com o Boruto.
— Filho do Naruto?
— Sim.
Ela parecia na defensiva e nervosa por eu estar analisando por tempo demais o seu novo projeto, logo após eu ter afirmado que tudo dependia do seu talento, mas o que me intrigava, era o entrelaçamento da fiação, sempre quando eu ligava a bateria, a pata fazia um pequeno movimento dificultado.
— Ele ainda está em fase de produção – defendeu-se com a voz alta quando franzi o cenho para aquela pata.
— Cadê o projeto? – Simplesmente perguntei, indo me sentar na cama da garota, enquanto a mesma se arrastava, insegura, até a escrivaninha, abrindo uma gaveta, tirando de lá inúmeros papéis.
— Esse é o modelo que almejamos, esses são os desenhos das partes e os cálculos que eu já fiz. Boruto ainda vai me entregar os outros desenhos que ele está fazendo, das visões que eu pedi, mas decidi tentar construir uma pata e, bom...
— O movimento não saiu como você planejou nos cálculos – supus encarando todos aqueles papeis.
— Sim – admitiu com pesar, jogando-se na cama.
Era um projeto mais simples ao que eu estava acostumado a analisar na empresa, mesmo assim, ambicioso para jovens de 12 anos. No entanto, eu não poderia negar que o meu afilhado tinha o talento nato de Naruto e Sarada sabia cálculos avançados envolvendo eletricidade e mecânica, mas...
— As peças são de segunda mão.
— Dá licença que eu não tenho uma empresa de robótica para produzir peças para mim. Pego peças de um fornecedor do ferro velho.
— Isso é menos econômico que uma peça nova, além de... – mexi mais uma vez naquela fiação.
— O quê? – Aproximou-se de mim com velocidade ao me ver mexendo na fiação que ela havia feito. – Ei, eu levei tempo fazendo isso! – Gritou quando eu retirei o primeiro fio, tentando tirar o seu robô de mim.
— Quem foi que te ensinou a fazer esse tipo de fiação? – Ela parou repentinamente.
— Aprendi no YouTube e nos livros universitários – disse o óbvio. – Não sei se você já percebeu, mas ninguém da minha família sabe robótica.
— Na UC fazemos diferente – apontei para os fios, mudando-os de lugar.
— Você vai bagunçar – disse em apreensão.
— Sério que você confia mais no que você aprendeu na internet do que no cara que comanda uma empresa de robótica? – Indaguei calando-a de vez.
— Ok, vai em frente – rendeu-se, prestando atenção nas minhas mãos.
— Como o seu equipamento é de segunda mão, tem que dispor a fiação de um modo que economize o máximo possível para efetuar o movimento que você deseja. Na UC usamos um jeito próprio, assim – apontei para o que eu estava fazendo. A garota assentiu concentrada, colada em mim. Mudei com velocidade mais alguns padrões e liguei mais uma vez a pata, mostrando como o movimento estava mais vigoroso e semelhante ao que ela queria. – Voilà!* – Anunciei em francês.
Sarada esbanjou um largo sorriso feliz enquanto analisava de todos os ângulos possíveis a pata que se movia com vigor.
— Que legal! – Falou animada e esbanjou mais um de seus sorrisos para mim. – Você tem outro macete usado na UC para me ensinar? – Falou com animação pura, dando pequenos saltinhos de alegria na cama.
— Tenho, mas está tarde e você tem aula mais tarde – apontei para o relógio em formato de foguete no criado-mudo.
— Qual é! Só mais um! Por favor, Sasuke! Preciso desses macetes para o meu projeto de ciências.
Sarada já se agarrava ao meu braço para que eu não fugisse dela.
Só naquele momento descobri o verdadeiro significado de "Pais não conseguem dizer não para os filhos".
Grunhi por dentro, pegando mais uma vez a pata robótica.
— Só mais um macete e depois cama – anunciei recebendo uma dancinha de vitória da pequena morena.
Essa noite vai ser longa...
Pensei antes de ensiná-la mais um truque.
***
Sakura...
Meus olhos se abriram sorrateiramente. A claridade era incômoda e o movimento monótono da superfície tentava-me para voltar para os braços de Morfeu, mas de alguma forma contraditória, meus olhos pesados venceram o sono e a tentação de permanecer ali, sob o sol fresco da manhã, ouvindo pássaros cantando e o som das folhas chocando-se ao vento.
— Você gosta mesmo da natureza, não é filha?
Acabei sorrindo inconscientemente daquela voz arrastada e envelhecida, com o leve tom irônico, típico do meu pai.
— Existe lugar mais perfeito do que esse, pai? – Perguntei, erguendo-me na canoa em que estávamos. As varas de pescas não denunciavam nenhum novo peixe preso em nossos anzóis, dando-nos a oportunidade de aproveitar o ar fresco daquela clareira.
— O melhor lugar do mundo é onde somos mais felizes, Sakura. Isso pode se alterar com o tempo – comentou ajeitando o chapéu de palha que parecia pequeno demais para sua cabeça cheia de fios de cabelos em um penteado engraçado.
— Então, nesse momento, esse é o melhor lugar do mundo para mim – exaltei-me abrindo os braços para englobar todo aquele paraíso que aquele lugar significava para mim desde tão tenra idade.
Meu velho pai riu da minha atitude, antes de reiniciar a fala com divertimento:
— Parece que a minha menina está muito feliz hoje, será que finalmente terei a "felicidade" de conhecer o meu genro, o homem com quem vou ter que dividir a minha menininha?
Meu rosto ficou rubro.
— Pai! – Ralhei com vergonha, ajeitando meu próprio chapéu desalinhado.
— Qual o problema, Sakura? Você já tem 15 anos e é uma menina linda. Sua mãe disse que as amigas dela sonham que algum dia você namore com algum dos rapazes da nossa rua. Só não concordo com esse final. Nunca gostei daqueles garotos quebrando nossas janelas quando davam um forte chute na bola de maneira errada – acabei rindo com a lembrança da minha infância, enquanto meu pai continuava o seu discurso. – Eles sempre gritavam "Desculpa aí, Tio Kizashi" antes de saírem correndo para se esconder em suas casas.
Meu riso aumentou de intensidade, fazendo-me gargalhar e me encolher pela dor na barriga.
— Ah pai, eram só crianças!
— Crianças crescem e agora são vários mini homenzinhos para atormentar minha vida de pai de uma menina – massageou as têmporas.
— Pode ficar tranquilo, não há ninguém de especial – dei de ombros, lembrando-me da escola e todo o grupinho de populares que zoava do meu cabelo estranho.
— Nem alguém que você se interesse? – Quis ter certeza, mas eu apenas sorri minimamente, negando com a minha cabeça.
O homem suspirou com alívio de maneira teatral, tirando-me mais um riso.
— Ótimo, tenho mais alguns anos da minha menininha só para mim!
— Kizashi! Sakura! Andem logo com os peixes, a fogueira já está pronta!
Olhei para a mulher nas margens do rio, acenando freneticamente para nós dois.
Sorri e acenei de volta para a minha mãe que botava as mãos na cintura como uma repreensão ao marido demorado.
— Tá bom amor! Só estava garantindo que nenhum moleque estava se aproveitando da nossa menininha, mas agora está tudo bem, ela não tem ninguém!
— PAI! – Gritei, rubra, com uma vontade imensa de me jogar no lago e não ter que ouvir a risada eufórica do meu pai por causa do meu rosto em chamas.
— Ora, Kizashi! Pare de dizer besteiras para a Sakura, tenho certeza que ela tem algum namoradinho escondido da gente. Ela é minha filha, claro que ela tem os seus fãs – vangloriou-se a minha mãe, fazendo meu pai ri mais alto e me fazer desejar sair correndo daquele lugar e daqueles dois que me constrangiam, fazendo-me ser o alvo de suas conversas e brincadeiras.
— Mamãe! – Gemi para a mulher que ria...
O lugar se desfez em uma nuvem de fumaça, voltando a nitidez com velocidade...
Tocava baixo, um jazz qualquer na rádio, enquanto um livro de romance de época estava aberto sobre o meu colo.
A luz provinha apenas de fora, mas eu não me importava, apenas continuava absorta por aquela leitura romântica, fazendo-me questionar se haveria homens tão perfeitos quanto o daqueles livros e se algum dia eu me apaixonaria por alguém, assim como meus pais e nossos amigos Dan e Tsunade, se amavam.
Um movimento no meio do banco chamou a minha atenção, eram as mãos dos meus pais unidas.
Aquilo não era incomum a mim, na verdade, já havia testemunhado momentos carinhosos entre eles diversas vezes, mas como todas as vezes, eu me peguei sorrindo ternamente, botando uma mecha longa do meu cabelo atrás da orelha.
Aquilo era o amor, o companheirismo e a amizade, e sempre acabava me perguntando se algum dia, alguém faria aquilo comigo. Se eu encontraria um rapaz divertido, me apaixonaria, namoraríamos, iríamos na faculdade e depois de formados iríamos construir nossa vida como um casal, casados e futuramente com filhos. Envelhecendo juntos até que estivéssemos rodeados por netos.
Aquilo era simplório. Era um grande clichê sem o glamour que os outros jovens almejavam alcançar, mas eu, como aquela garota criada por aqueles dois seres tão amáveis, desejei e desejava ter algum dia.
Mas toda a minha imaginação foi cortada por um grito desesperado da minha mãe:
— KIZASHIIII!
Tudo aconteceu rápido demais para que eu pudesse acompanhar o raciocínio...
Um farol.
Uma buzina.
Um impacto.
Vidros estilhaçados.
Metal sendo amaçado.
Três capotamentos.
Dor.
Escuridão.
Sakura. Sakura. Sakura.
Alguém me chamava, mas era tão baixo que parecia apenas o sopro do vento.
Sakura.
A voz se tornava mais nítida, assim como a dor começava a se tornar real.
— Sakura – o chamado era real e parecia não muito longe de mim.
Tentei falar, mas parecia que estava sufocada e minha cabeça doía.
— Sakura, minha filha, por favor acorde – ele implorou.
Era o meu pai.
Queria dizer algo, mas minha voz não saia mesmo que eu tentasse, por isso, por mais doloroso que fosse apenas conseguir mover meu pescoço que parecia estar em um ângulo desconfortável.
— Graças aos céus, Sakura! – Sua voz era sofrida, mas aliviada. – Abra os olhos minha princesa, você precisa permanecer com os olhos abertos até que eles cheguem.
Dói. Quis dizer a ele sobre a minha dor, mas, mais uma vez, a voz não saiu.
— Apenas abra os olhos, Sakura. Abra os olhos para o seu velho pai.
Forcei minhas pálpebras para fazer o que ele me pedia, mas pontos negros ainda dançavam em minha vista. Demorei alguns segundos para finalmente conseguir abri-los de fato, só então notando porque o meu pescoço doía tanto, pois meu rosto estava voltado para o teto e o carro, de cabeça para baixo.
Sufoquei o ar, vendo o teto todo amaçado tão perto de mim.
Estava escuro, mas conseguia ver o brilho de milhares de cactos de vidros ali espalhados e meus braços, ali jogados e cortados.
A dor nos meus braços era alucinante.
Não sabia se movia ou se deveria manter meus braços paralisados, de encontro aos cactos que penetravam a minha pele ensanguentada.
Meus sentidos se tornaram mais alertas assim que vi a ponta dos meus dedos tocando uma poça de sangue que não me pertencia.
Eu sabia que não deveria olhar, mas segui o gotejamento sem ritmo, descobrindo que vinha do banco à minha frente, mais precisamente da minha mãe.
— Mãe – minha voz saiu arrastada e dolorida. Minha garganta queimou, ao mesmo tempo que as lágrimas inundaram meus olhos. – Mãe – mais um gemido inaudível.
— Sakura... não – meu pai já dizia sem fôlego, chamando minha atenção para si, no entanto, assim que meus olhos se grudaram em seu banco, as lágrimas ficaram mais ininterruptas, nublando aquela visão que eu não queria ter. – Sakura se acalma... você precisa se acalmar.
Como ele poderia que eu me acalmasse enquanto uma barra de ferro atravessava seu corpo e o banco, acertando o local onde eu sempre me sentava em nossas viagens, mas que hoje, por obra do destino, havia decidido sentar atrás do banco da minha mãe?
Balancei debilmente a minha cabeça, antes de balbuciar continuamente, apesar da dor na minha garganta:
— Eu vou morrer. Eu vou morrer. Eu vou morrer.
— Você não vai – tentou dizer, apesar da dor e da perda de sangue preocupante do meu pai.
Tentei manter os olhos abertos, mas a escuridão me abraçou quando balbuciei:
— Eu te amo, pai...
Desistindo de tudo.
Desistindo da dor.
Desistindo da vida.
Desistindo de mim.
Não sei quanto tempo durou a escuridão, mas aos poucos, vozes distantes se tornaram nítidas e próximas demais de mim.
Eram desconexas as frases, mas me fizeram reabrir os olhos mais uma vez com dificuldade.
O frio era intenso, mesmo assim, movi meu rosto em direção à luz do meu lado direito.
Era frenética, mas aos poucos, comecei a distinguir que a tal luz provinha de uma lanterna, mas subitamente, o movimento parou, focando-se em meu rosto, para o desespero dos meus olhos acostumados à escuridão.
Um grito eufórico de anúncio se perpetuou pelo ambiente, mas a dor nublava meus sentidos e eu não conseguia relacionar aquele "Tem uma garota viva aqui!" comigo.
Tudo aconteceu rápido demais, ou os lapsos de inconsciência me levavam momentaneamente de volta a escuridão, mas antes que eu percebesse, eles haviam me tirado dos destroços do carro destruído e me colocado em uma maca dura, correndo para uma ambulância enquanto me ofertavam oxigênio por meio de uma máscara portátil.
— Tudo vai ficar bem. Vamos cuidar de você! Meu nome é Capitão Yamato e eu não vou sair do seu lado – um homem ao meu lado disse para mim, enquanto paramédicos cuidavam do meu corpo machucado.
Não consegui dizer nada... apenas deixei que a escuridão me vencesse e a dor fosse postergada, nem que fosse só por algumas horas...
***
Acordei em um sobressalto.
Minha respiração estava acelerada, meu peito doía e antes mesmo que eu percebesse, já esfregava meus braços com fúria, como se tentasse tirar aquele sangue que há anos não estava mais na minha pele.
Só quando recobrei a consciência do presente, parei, olhando para os meus antebraços vermelhos pela fricção repentina.
— Foi só um sonho! Foi só um sonho! Um maldito sonho – murmurei, amaldiçoando meu coração acelerado e meus olhos embargados.
Aquilo estava acontecendo de novo.
Toda a revoada de dores do passado, voltando como uma grande onda pronta para me engolir e me levar novamente para a escuridão do fundo do mar, onde por muito tempo permaneci.
Só então percebi, que tudo ainda estava ali, guardado dentro de mim, enquanto vivia a falsa ideia de que tudo havia ficado para trás, enquanto eu vivia a minha fantasia de vida feliz com a minha filha.
Não!
Aquela Sakura frágil de tantas horas no psicólogo na adolescência antes de me afundar no mundo de Sasori, achando que aquilo era o melhor para mim, ainda vivia dentro de mim.
Hibernando.
Completamente em silêncio.
Só esperando a hora de voltar à tona.
— Não – neguei com a cabeça, saindo da cama, mas assim que o meu pé machucado latejou, meu corpo retesou e um gemido de dor saiu pelos meus lábios.
Mesmo assim, apesar da dificuldade, continuei caminhando.
Tudo o que eu queria era fugir daquela escuridão, sair daquele lugar, fugir daquelas lembranças.
Só queria voltar para o meu presente. Para a minha vida perfeita entre aspas.
Só queria fingir que aquilo não existia mais.
Eu o beijei.
Meu inconsciente denunciou e as lembranças de mais cedo inflaram a minha raiva
— Merda – xinguei tentando conter as lágrimas assim que cheguei na escura sala e me apoiei na estante, onde tantas fotos esbanjavam meus momentos felizes com a minha filha. – Merda, merda, merda! – Murmurei com a voz embargada.
Meu pé gritava de dor, mas eu sabia que a dor emocional poderia ser pior do que a física.
Fechei meus olhos com força.
Meus dedos tamborilaram com força sobre a madeira bem polida, mas tudo perdeu foco quando uma voz baixa indagou, assuntando-me:
— Sakura, você está bem?
Sobressaltei-me, virando com velocidade em direção ao grande sofá, onde um Sasuke de roupas leve, endireitava-se, observando-me com certa preocupação.
— Por que você ainda está aqui? – Perguntei sem pensar, tentando secar meu rosto com as costas das mãos, mesmo que soubesse que ele já havia visto e ouvido meu choro, mais do que devia.
— Achei melhor passar a noite aqui, mas não consegui dormir – respondeu baixo, antes de dizer o que tanto seus olhos denunciavam que diria. – Por que você estava chorando?
— Nada demais – recuei um passo antes de xingar um palavrão qualquer por causa do meu passo errado sobre o meu ferimento.
— Você e seus segredos – comentou em um sussurro, antes de se deitar, voltado para mim. – Vem cá – bateu no espaço livre do largo sofá.
Não me movi, permaneci parada.
— Que droga, Sakura. Vem cá logo, ou você prefere ficar aí em pé, reclamando de um corte? – Ele não falou com grosseria, apenas cansaço.
Não pensei muito, apenas me arrastei pelo pequeno espaço que nos separava, antes de mergulhar sob o cobertor do Sasuke, permanecendo meus olhos fixos no teto, sem coragem de olhar para o homem calado, o qual, sua respiração, acariciava o meu rosto.
Ficamos em silêncio, ninguém tendo a coragem de romper o silêncio a que nos submetemos.
Sentia o olhar dele em mim e isso fazia minhas mãos ficarem inquietas.
Eu parecia uma criança pequena indo se refugiar na cama dos pais depois de um pesadelo e essa constatação fez minha cabeça balançar em negativa, evitando essa analogia.
Não sei o que se passava na cabeça de Sasuke, mas antes mesmo que eu percebesse, ele já envolvia minha cintura com carinho, aproximando meu corpo do seu, como se em forma de proteção e uma pergunta silenciosa.
— Você tinha razão – comecei, mas ele não disse nada, apenas permaneceu calado, esperando que eu continuasse. – Eu sempre fugi. Fingi que não existia, ao invés de enfrentar a verdade sobre mim.
— Do que você tem medo?
— De sofrer por amar.
O silêncio nos calou mais uma vez e foquei no som das nossas respirações para não sufocar na minha raiva sobre mim mesma.
— Por que você estava chorando? – Perguntou mais uma vez, com calma, ao mesmo tempo que aninhava seu rosto próximo ao meu ouvido.
— Sonhei com o dia da morte dos meus pais – sussurrei e permaneci calada por mais alguns segundos.
Sasuke não perguntou mais nada, apenas permaneceu ali do meu lado, dando o espaço para que eu falasse apenas o que eu quisesse.
Ele não me forçaria a nada, por mais que soubesse, principalmente pelas suas falas anteriores, que eu era complicada de se entender.
O silêncio era a sua maneira de dizer:
"Você quer conversar sobre isso?"
Não pensei muito antes de suspirar e começar a desabafar:
— Sabe, eu não era uma garota que tinha tudo o que eu queria, mas era feliz. Vivia numa casa mediana, tinha pais presentes sempre que podiam. Almoçávamos e jantávamos juntos. Éramos felizes – minha última frase saiu quase inaudível. – Eu não me relacionava muito com os garotos. Era esporádico. Eu não era o tipo de garota que atraía olhares, na verdade, acho que a única coisa chamativa no meu corpo reto era o meu cabelo rosa – ri sem humor. – Mesmo assim, era feliz.
"Todos os anos, no Chichi no Hi, íamos acampar sempre no mesmo lugar. Meu pai amava aquele lugar e ele era especial para mim. Foi o meu pai quem me fez ter gosto pela natureza".
Virei meu rosto com um sorriso mínimo para Sasuke, vendo uma pequena covinha se formar entre as suas sobrancelhas.
— Então foi ele quem te deu esse gosto por mato – comentou com certo humor.
— Foi ele quem me ensinou a acampar, pescar, fazer trilha, andar de cavalo e ver beleza em tudo o que as garotas da minha idade não gostavam.
— Entendo.
— Mas quando eu tinha 15 anos e estávamos voltando de viagem, um acidente aconteceu. Um motorista jovem e bêbado acertou nosso carro com velocidade na contramão – todo o humor sumiu do meu rosto. – Eles não sobreviveram e eu... – desviei o olhar para o teto, antes de continuar a contar – acabei ficando sob a guarda da Tsunade, amiga da nossa família. Porém, eu estava muito machucada do acidente, tive que ficar um tempo longe da escola e para piorar, tinha que ficar indo à psicólogos por causa dos meus surtos quando eu estava dormindo. Era horrível, principalmente quando meus surtos ocorriam na escola ou na sala de aula. A frequência diminuiu com o tempo, mas a oportunidade de zoarem comigo não.
"Eu era vítima de zoações na escola e as "populares" – fiz aspas com as mãos para enfatizar – adoravam me ter como brinquedinho delas, inclusive – parei subitamente me lembrando de algo – Karin, a sua secretária, era líder delas – dei de ombros, vendo a confusão do moreno. – Acho que agora você sabe porque parecemos não nos dar tão bem assim – dei um sorriso amarelo me lembrando da minha briga mais cedo com a ruiva. – Tudo mudou quando o novo aluno chegou na escola.
"Era Sasori e logo a fama do garoto transferido de outro país se espalhou pelo colégio. Eu não ligava para ele. A primeira vez em que ouvi sobre ele logo imaginei que teria mais um aluno para zoar da cor do meu cabelo, mas, de maneira estranha, na primeira vez em que nos encontramos, ele simplesmente disse que meu cabelo não era tão estranho como as pessoas diziam".
Enfatizei a minha confusão, antes de iniciar a parte que eu não me orgulhava em nada de ter vivido:
— Os dias foram se passando e eu não falava com ele. Na verdade, ele ignorava com facilidade a existência de qualquer ser, mas tudo mudou em um dia em que as garotas resolveram aprontar comigo. Não entrarei em detalhes nos nomes depreciativos que elas me intitulavam, mas entre as inúmeras vozes enquanto elas me arrastavam pelos corredores pelos meus cabelos, eu pude entender que elas estavam fazendo aquilo por causa do fato de parecer que a chicletinho parecia muito feliz e exibicionista com seu cabelo cor-de-rosa para o novato – bufei audivelmente, revirando os olhos com aquela lembrança.
— O que fizeram com você? – Sua voz tinha um teor de mal presságio.
— Depois de terem destruído o meu cabelo longo e cor de rosa na frente de toda a escola em risos? – Desdenhei. – Bom, elas me trancaram dentro de armário claustrofóbico e escuro, ao mesmo tempo que batiam no metal com força – fechei os meus olhos com pesar, antes de explicar. – Eu ainda tinha muito medo de locais fechados e escuros, barulho de metal me lembrava do acidente. Eu comecei a gritar e ficar com falta de ar. Implorei para me tirarem dali, mas ninguém parava de rir para me tirar dali. Eu já estava chorando, desistindo de bater naquela porta, quando ela abriu de repente e todos haviam se calado, tudo por causa de Sasori que havia mandado eles calarem a boca, enquanto abria o armário para que eu saísse.
— Ele virou o seu herói, aposto – bufou o homem com desdenho e eu apenas assenti em concordância.
— Talvez devido ao medo das histórias de ilegalidade de Sasori, eu não sei, mas as pessoas se calavam e não faziam nada comigo quando eu estava perto dele depois daquele dia. Acredite, Sasuke, eu usava o mesmo caminho que ele na escola para que eu pudesse ter algum momento de paz...
— Você quer alguma coisa? – Indagou sem tirar os olhos do seu armário aberto.
O rubor preencheu minhas bochechas.
— Acha mesmo que eu não ia notar você me seguindo por toda a escola?
— Go-gomen – gaguejei sem jeito, desviando o olhar para os meus pés quando o ruivo se virou com o olhar duro para mim. – Eu só queria agradecer por aquele dia – disse a meia-verdade.
— Só por isso? – O tom da ironia era palpável e aquilo me envergonhou ainda mais.
— Não – admiti.
— Para de ser covarde e erga essa cabeça, Sakura!
O fato dele pronunciar o meu nome me surpreendeu de tal maneira que ergui minha cabeça para encará-lo em confusão.
— Você sabe o meu nome? – Antes mesmo de perceber, as palavras já haviam saído.
— Não é difícil descobrir o nome da única garota de cabelo rosa da escola e que é xingada por todos – disse como fosse óbvio, tirando um cigarro do maço.
— As pessoas me chamam de chicletinho e creio que 80% delas nem sabem que eu tenho um nome de verdade – minha tagarelice não tinha controle, ainda mais por estar ansiosa. – É... não é permitido fumar na escola.
— E quem vai me impedir? Você? – Desdenhou acendendo o maço antes de começar a se afastar.
Eu não o seguiria, mas ao ver pelo caminho oposto, Karin se aproximando, acabei aceitando minha covardia e vergonha para seguir o ruivo despreocupado que apenas ergueu uma sobrancelha questionadora para mim.
Sorri amarelo, remexendo nas mechas curtas do meu cabelo.
— Posso te acompanhar só dessa vez? Juro que vou ficar bem longe de você na próxima – falei com certo desespero, vendo por cima do ombro que a ruiva lançava um olhar raivoso para mim.
Sasori ficou me observando pelo canto do olho, antes de soprar uma lufada de nicotina para o desespero dos meus pulmões.
— Não estou indo para a aula. Estou indo para um lugar que com certeza você não está acostumada a ir – disse com ar desinteressado, descendo o olhar pelo meu corpo sem pudores.
Meu rosto ferveu. Tentei dizer alguma coisa, mas o gaguejo foi inevitável, por fim, foi ele quem finalizou nosso diálogo:
— Pode vir se quiser.
— Aquela foi a primeira de várias fugas da aula que eu fui com ele. O tempo passou da mesma forma que as pessoas a quem eu deveria confiar, se afastaram de mim. Eu passei anos com Sasori. Não havia um compromisso de fato, ele nunca me pediu nada oficial, mas eu me sentia bem e mais confiante quando estava ao seu lado, por isso, acabei brigando com as pessoas que queriam cuidar de mim. Pensei que ele era a minha cura para a tristeza e joguei-me em seus braços com a inocência de que era correspondida.
"Ele nunca havia levantado a voz para mim, nunca dito para me afastar. Ele simplesmente deixava que eu permanecesse ali, ao seu lado, sem dizer nada.
"Antes mesmo que eu percebesse, já havia fugido para a casa onde meus pais moravam. Vivia sozinha. Evitava Tsunade, Dan e Shizune que sempre me procuravam. A única pessoa que eu pensava que me compreendia era Sasori, a única pessoa que me fazia sorrir, por mais que ele nunca contasse uma piada ou me esbanjasse algo além de um sorriso de canto esnobe.
"Eu havia me entregado de corpo e alma, crendo que aquilo era real. Havia o acompanhado à lutas e festas ilegais, regadas a drogas, apostas e bebidas alcoólicas.
"Eu havia me afastado do meu antigo mundo ou da minha aspiração para o futuro, crendo que aquele presente era o mais importante.
"Ledo engano. Mal eu imaginaria naquela época, que aquele rosto que eu sempre admirava enquanto dormia após ter me entregado mais uma vez, seria a minha maior decepção.
"Eu era uma pobre crente. Ignorava as vozes alheias, as más bocas, apenas confiava nele e seguia em frente, até que um dia, a minha menstruação atrasou e aquilo me preocupou.
"Fiz quatro testes de gravidez diferentes e todos deram o mesmo resultado. Dois riscos.
"Eu estava grávida e eu tinha certeza que era de Sasori. Já tinha 18 anos e uma renda razoável advinda dos meus pais, mesmo assim, fiquei preocupada, com medo, mas acreditei que tudo ficaria bem. Que Sasori me amava e que enfrentaríamos aquilo juntos. Minha mente tola e fantasiosa acreditou que ele poderia até sair daquele mundo de ilegalidade por causa do nosso filho, mas ao chegar na casa dele e contar a verdade, recebi as piores ofensas e acusações que poderia esperar.
"Sua face enraivecida, sua voz levantada e seu dedo apontado para mim doeram mais do que todas as ofensas que os alunos da escola proferiam para mim.
"Todo o meu castelo de cristal se partiu em cactos mais uma vez. Toda aquela pose e alegria que eu conquistei com os anos, se partiu, virou frangalhos, ainda mais minúsculos do que aqueles cactos que perfuravam a minha pele no acidente.
"A dor e a incredulidade quando ele disse para tirar aquela criança, me impediu até mesmo de falar algo.
"Eu estava muda mais uma vez. Minha garganta não respondia e ardia da mesma forma que aquele acidente.
"Sentia-me sufocada. As imagens se confundiram e eu comecei a ver embaçado antes de sair correndo por aquela chuva.
"Nem os soluços eu conseguia proferir, apenas parei de correr quando alguém riu alto e chamou pelo meu nome. Era Karin, sob um guarda-chuva. Eu sabia que ela morava naquela rua, só não acreditava na má sorte de encontrá-la naquela hora...
— Que foi chicletinho? Foi dispensada? – Falou com humor se aproximando de mim. – Eu bem que te avisei.
Tentei correr, mas ela já estava próxima demais para alcançar o meu braço e com pouco esforço, me derrubar no asfalto encharcado.
— Achou mesmo que ele se importava com você? – Foi cortante e debochada.
— Não ligo para o que diz – tentei me erguer, mas nem forças eu tinha, só queria permanecer ali no chão e desistir.
— Liga sim, porque você sabe que é verdade.
— Por que você está fazendo isso? – Balbuciei soluçando, apoiando minhas mãos no chão.
— Você ficou tão soberba depois que conseguiu se aproximar dele. Sorrindo tanto que enojava a todos. Não sei como ele te aguentava. Ah, claro – riu maldosamente – ele não aguentava. Ele sempre transava nos fundos da escola com uma garota qualquer, enquanto você ficava como uma idiota estudando, guardando sua virgindade.
— Isso não é verdade! – Gritei.
— É sim, pois até eu provei um pouco daquele corpo pecaminoso – estalou a boca em provocação, assim que meu olhar incrédulo a alcançou. – E posso afirmar que aquele cara é insaciável.
— Vai a merda – gritei.
— Ora, ora, ora. A chicletinho tem boca suja? – Brincou puxando o meu braço para me erguer. Não disse nada, apenas permaneci encarando os castanhos avermelhados sob os óculos. – Você só foi um brinquedinho, Sakura. É tão tola e medrosa, que só serve para ser usada e descartada. Não ache que é melhor do que eu, pois você não é – disse com frieza antes de me empurrar de volta ao chão.
Gemi baixo, sabia que havia cortado minhas mãos e joelhos com a queda, mas isso não foi o suficiente para ela se compadecer do meu estado. Apenas deu as costas satisfeita com a sua vingança barata de me ver como ela sempre me denominava. Um lixo.
— Assim que eu cheguei em casa naquela noite, Tsunade, Dan e Shizune estavam na sala, me esperando ao redor de quatro testes positivos de gravidez. Eu não tentei me defender, apenas permaneci de cabeça baixa enquanto eles me levavam para o hospital onde trabalhavam. Fiz testes e a gravidez foi confirmada por meio laboratorial.
"Tsunade virou uma fera, dando-me o maior sermão de toda a minha vida, mas era inútil, pois eu não escutava, apenas olhava para o nada depois que voltamos para casa. Foi Shizune quem a interrompeu e me levou para o meu quarto. Deu-me banho e me pôs para dormir sem me julgar, a única coisa que disse foi a promessa que eles cuidariam de mim, independente do que acontecesse e independente do nosso passado, e ela cumpriu.
"Todos os dias eles iam me visitar, cuidar do ser inanimado que eu havia me tornado. Aquela pessoa que não fazia nada além de olhar a chuva cair pela janela, acreditando finalmente em tudo o que já haviam dito para mim.
"Dia após dia, uma parte de mim esperava que Sasori aparecesse por aquela porta, que me pedisse para esquecer nossa briga, que tudo ficaria bem e que ele estaria ali para cuidar de mim, mas como todos os dias, ele não veio.
"Certa noite, quando estava encolhida sob o chuveiro ligado, vi o vermelho manchando o chão. Só naquele momento, alguma reação saiu de mim depois de dias naquele estado mórbido.
"Eu estava com medo. Estava perdendo o meu filho, o filho que eu já tinha prometido que iria cuidar apesar de tudo. Eu gritei, mas não havia ninguém naquela casa à noite. As linhas telefônicas estavam mudas devido à última forte tempestade, transformando o meu desespero em dor, porque eu sabia que já era tarde demais. O piso do meu quarto e minhas pernas, já tinham o rastro de sangue, mesmo assim, enfrentei a chuva e fui até o hospital mais próximo, eles me atenderam e disseram o que eu já esperava.
"Eu chorei sem parar, enquanto eles faziam os procedimentos necessários. Não pensei em ligar para ninguém, só queria ficar sozinha com a minha dor de perder mais uma vez.
"Dias depois, fui até Sasori, mesmo envergonhada da minha atitude de ir atrás dele depois de tudo, eu cheguei até onde ele morava, abri a porta com a minha chave. Queria chorar e contar tudo, principalmente meus medos, mas tudo o que eu vi ali só fez com que eu me afundasse ainda mais no poço de amargura que eu já estava".
— O que aconteceu? – Indagou depois de um longo silêncio apenas me escutando.
— Ele estava na cama com duas mulheres nuas e assim que me notaram, rebaixaram-me até que Sasori perguntou se eu não queria me juntar a eles.
— Sakura – ele sussurrou me abraçando com mais força, ao perceber que eu começava a lagrimar.
— Eu corri, corri em desespero, rumo ao único lugar que havia em minha mente. Chovia tanto, mas só parei quando esbarrei em alguém. Era um rapaz, eu não o conhecia – continuei falando, apesar de não lembrar com tantos detalhes da sua feição, apenas me recordando que eu o havia achado intimidador e lindo. – Ele não me ajudou, apenas me ignorou antes que eu adentrasse a clínica de Shizune, foi lá que eu tomei uma decisão, lá que eu decidi que eu não poderia continuar como eu estava. Eu queria uma nova vida, não queria mais sofrer, só queria ser feliz mais uma vez e o primeiro passo que eu tomei foi fazer uma inseminação in vitro – sussurrei desviando o meu olhar para Sasuke que permanecia paralisado, encarando-me perdido em pensamentos. – Pode me julgar, Sasuke, eu não me importo, durante toda a minha vida, foi apenas julgamentos que eu escutei, mas ninguém pode me tirar a certeza que assim que eu vi o rosto da minha filha pela primeira vez, eu sabia que ela era a minha luz e eu amaria como eu jamais tinha amado. Daquele amor, eu não sofreria.
— E quanto aos seus problemas com relacionamentos?
— De início, me foquei tanto em cuidar de Sarada, estudar e trabalhar para nos sustentar, que posterguei relacionamentos. Anos depois, Ino me estimulou a começar a me envolver. Eram casos esporádicos, mas assim que se tornavam sérios, eu bloqueava. No início não dei importância, mas com os anos e as repetições, Ino desconfiou, o auge de sua fúria por não aceitar que havia algo de errado comigo, foi quando fugi de Gaara depois que eu me envolvi com ele em Londres – suspirei abaixando o meu olhar para as minhas mãos inquietas.
— Você criou um bloqueio para não sofrer sem nem perceber – ponderou e por mais que não fosse uma pergunta, assenti sem conseguir encará-lo.
— Parece que sim, no fim das contas.
— Sakura, as pessoas não são todas iguais. Há pessoas que querem o seu bem, não querem te machucar.
Não respondi, permaneci calada, pois sabia que aquilo era verdade.
— Você foi o pior, sabe. Desde a primeira vez em que você apareceu. Todas as suas atitudes. Tudo me lembrava Sasori, até mesmo suas falas. Às vezes eu via ele, não você, mas até quando você parecia ser um cara legal, eu gritava internamente para ficar longe de você, pois eu sabia que poderia acabar gostando de você e sua reputação me deixava ainda mais insegura, tendo certeza que deveria manter distância.
— Espera. Você gosta de mim? – Perguntou confuso.
— Eu disse que eu poderia acabar gostando de você – o corrigi, focando meu olhar nele. – Pensei que Sarada se livraria de você, mas até ela começou a gostar de você como amigo – grunhi por estar admitindo tudo aquilo para um homem que permanecia paralisado me olhando. – Pensei no início que isso fosse uma tentativa barata de chegar em mim, mas eu vi sinceridade nas suas atitudes por ela, por mais que Sarada já tenha me dito que você chama ela de anã.
"Eu permiti que você pudesse se aproximar da minha filha, a pessoa que eu mais amo na minha vida, porque isso faz ela feliz. Fiz isso e tentei me manter distante de você, sendo apenas uma amiga, mas você não facilita – admiti – você tenta, tenta e depois tenta de novo, e sabe o que é pior, Sasuke? – foquei o meu olhar nos negros que esperavam a minha resposta – é saber que talvez eu esteja começando, nem que seja um pouco, a gostar de você da maneira que eu não quero gostar!".
— Sakura... eu não sou o Sasori!
— Eu sei, Sasuke. Hoje eu sei. Mas, você viu o que aconteceu nessa sala, viu que eu correspondi a ele, viu que por mais que eu avance nem que seja isso – fiz um sinal de pouco avanço com os dedos – essa maré me arrasta para trás mais uma vez. Mostra que eu não sou tão inquebrável quanto eu imaginava que eu era. E para o seu próprio bem, Sasuke, você tem que parar de tentar.
— Você está dizendo para que eu pare depois de você admitir que eu finalmente estava conseguindo algo mais de você do que só amizade? Ok, tenho um passado e você tem. Todos nós temos, Sakura, mas como o próprio nome diz... é passado e deve permanecer onde está, não nos limitar! Não sou eu quem deve parar, mas sim você quem deve tentar mais um pouco, só mais um pouco antes de decidir morrer na praia e deixar que esse manto negro te abrace mais uma vez.
— Está dizendo para que eu me relacione com você? – Ri desacreditada pelo que eu estava escutando.
— Só estou dizendo que você tente superar isso. Só quero que você pare de se lamentar quando o que aconteceu, acontecer de novo. Só quero que a Sakura que eu conhecia, não seja uma máscara que você diz ter criado com os anos, mas que seja a verdadeira Sakura, a Sakura que você quer ser!
Me calei. Não sabia o que dizer.
Apenas permaneci encarando os traços poucos visíveis naquela escuridão.
Não havia o que questionar.
Não havia o que dizer.
Aquela era a verdade.
Como todos diziam, eu era medrosa e permanecia na minha covardia.
Tudo o que ele dizia era...
Dê o primeiro passo.
Primeiro passo, pensei, abaixando o meu olhar, ao mesmo tempo que mordia meu lábio inferior.
— Ei – ele chamou com certa dúvida, enquanto seus dedos acariciavam a minha costa.
— Você não é o Sasori, Sasuke. Você é muito melhor do que ele – sussurrei levantando o meu olhar, podendo admirar os negros com uma mistura de surpresa e felicidade.
Os lábios finos se repuxaram em um pequeno sorriso de canto verdadeiro e pela primeira vez, o achei tão diferente do ruivo do meu passado. Gostei daquele sorriso e antes que ele percebesse, selei meus lábios aos seus, em uma clara promessa de que...
Eu tentarei.
Continua...
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