Procura-se uma Uchiha
16 Especial 3
Notas iniciais
A chuva era violenta. Relâmpagos e trovões cortavam e reverberavam pelo céu de Tóquio durante aquela noite de quinta, mas nada parecia atingir a mulher silenciosa que encarava seu reflexo no espelho, sem desviar os olhos castanho perdidos em pensamentos apesar dos sons cortantes e ameaçadores que ecoavam pelo ambiente.
Tenten havia acabado de sair de um banho rápido e mecânico após ter chegado em sua casa.
A mulher tinha a pele levemente bronzeada coberta por uma fina camada de água. Seus cabelos soltos e molhados alcançavam até um palmo abaixo de seus ombros, mas alguns fios estavam colados nas laterais de sua face e de seus braços abraçados às suas pernas dobradas.
O queixo fino e delicado apoiava o rosto sem expressão.
O quarto era mediano e simples, com poucos móveis de madeira e um grande espelho de corpo inteiro de sutis detalhes nas laterais.
O reflexo demonstrado na superfície lisa era possível de se enxergar devido às luzes dos raios que cortavam o céu e iluminavam o quarto escuro momentaneamente, sendo seguido de fortes sons que reverberavam nas vidraças.
A morena não se importava com aquilo, seus pensamentos estavam em mais cedo, logo quando saía do trabalho e com desprazer viu quando a mulher do setor de sexologia entrava com um sorriso de satisfação no lado do carona do carro do Neji.
Sua mente vacilou tentando se convencer de que era apenas uma carona inocente, que Neji, apesar de calado e discreto, era um cavalheiro dando carona aos seus colegas de trabalho independentemente se eram altos executivos ou singelos repórteres. Se lhe pedissem e fosse seu caminho, ele acatava ao pedido, mas...
Apesar de conhecer a boa índole de Neji, a morena não podia deixar de se sentir partida, pois fora assim que eles dois começaram com os encontros casuais, com caronas que com o tempo e convivência os levaram para outros patamares.
Tenten não podia se fazer de cega, pois as verdadeiras intenções de Soya estavam estampados em seus olhares maliciosos com segundas intenções.
Ela tentaria... se ofereceria ao moreno de olhos perolados e Tenten sabia muito bem disso.
Perguntava-se se ele aceitaria a oferta de bom grado e se não estaria nos braços de outra nesse exato momento.
Tola... ele é homem e não é nada seu. É claro que estará nos braços daquela ruiva sem sal que recebe produtos de sexy shop para serem citadas em sua coluna. Quem sabe não esteja até passando uma loção comestível no peitoral do Neji nesse exato momento...
Pensou com amargura, sentindo seus olhos embargarem e sua visão turvar, mas como a teimosa que era, fungou, impedindo que alguma gota rolasse sobre sua face.
Seu olhar desviou para o reflexo da cama de casal e a dor em seu peito aumentou gradativamente com as lembranças de suas noites, quando o Hyuuga aparecia em sua porta sem motivos e depois de algumas conversas sobre banalidades e reportagens regadas a taças de vinho, os dois acabavam ali, um nos braços do outro.
Tenten sempre via, apesar da nebulosidade do prazer, o reflexo dos dois sendo retratado ali.
Ela via o corpo sobre o seu, a costa larga, porém não musculosa, do homem acostumado a viver entre cenas de crime, tribunais e paredes pálidas de seu escritório. Até mesmo as singelas linhas que ela deixava em sua costa como uma forma de possessividade, ela encarava com prazer e contentamento, mas, agora... ali... naquela hora...
Ela não via nada. Ela só tinha as lembranças que a machucavam ainda mais.
Tola. Tola. Tola.
Martirizava-se levantando da cama, querendo a maior distância possível daquele espelho que já foi testemunha de muitas noites.
Deixou que a toalha caísse revelando o corpo mediano e por um segundo, ela não pode deixar de comparar com as curvas extravagantes e até artificiais da ruiva.
Praguejou um palavrão vestindo apenas uma camisa de botões e uma roupa íntima inferior.
Ela precisava se distrair e parar de se martirizar pelo outro. Nos últimos tempos havia tido muitas mudanças de humor pela pressão e sucesso que seus artigos faziam.
Seus chefes a pressionavam pela próxima matéria perguntando-a se já tinha um novo material para a edição da próxima semana, mas a verdade é que ela não tinha nada.
Sem um nome ou reportagens que remetessem a mulher no mundo dos famosos, ela não conseguia encontrar a identidade da Dama de Branco, mesmo assim ela mentiu dizendo que já tinha material em andamento.
Resolveu então que abriria a tela do Word e digitaria sobre qualquer coisa até que uma luz iluminasse seus pensamentos e a fizesse esquecer de seus problemas amorosos com um relacionamento a cada dia mais impossível, mas assim que chegou em sua sala, todos os seus pensamentos evaporaram vendo a tela de seu computador ligado, apesar de estar com a tela fechada.
Os olhos castanhos olharam ao redor com suspeita. Ela tinha certeza de não havia ligado seu notebook depois que saiu da empresa, entretanto, a tênue luminosidade que cortava a escuridão quase completa.
Uma sensação estranha passou como um frio cortante por Tenten enquanto ainda encarava aquela fina luz, mesmo assim, a mulher resolveu se aproximar da mesinha de centro esfregando os braços em nervosismo.
Podiam chamar Tenten de tudo no trabalho, até mesmo de bruxa ela era taxada, mas ninguém poderia chamá-la de medrosa, pelo contrário, sua curiosidade aguçada era seu maior perigo e por isso, sentando-se no confortável sofá, Tenten se deixou afundar no estofado, abrindo o notebook apoiado em suas coxas.
A ponta de seu polegar direito logo se alojou entre seus dentes como uma mania que ela tinha desde nova quando apresentava nervosismo.
Uma gota de suor escorreu pela sua têmpora apesar do frio do ambiente, tudo por causa da notificação de um novo e-mail que aparecia no canto inferior direito de sua tela, mas que não mostrava o endereço de e-mail.
Apertou, ciente de que poderia ser um vírus. Tinha consciência de que todos os seus arquivos estavam salvos em HD externo e seus principais nem estavam naquele notebook.
Quando abriu a tela do e-mail, havia apenas um hiperlink que dizia "Aperte aqui se a resposta for sim", abaixo dele havia uma mensagem tentadora:
"Suas matérias são interessantes, Mitsashi-san, mas a curiosidade é um dos maiores erros e acertos do ser humano. O paradoxo nos é inerente e nos leva a um futuro próspero ou permeado de arrependimentos. É como um jogo, onde verdades podem ser reveladas e o sucesso e a desgraça serão as suas duas opções que dependerão de suas ações e senso crítico. Eu sei tudo sobre Uchiha Sasuke e sei tudo sobre a mulher pela qual você está curiosa. Eu posso guiá-la nesse jogo. A escolha é toda sua e seu tempo de resposta é de uma hora antes que essa mensagem desapareça sem seu comando"
O cenho franziu para aquela mensagem e por um segundo Tenten pensou que aquilo fosse uma vingança barata partindo do próprio Uchiha. Ela conhecia muito bem o talento daquela família. Apesar de serem homens de negócios, ela conhecia muito bem a fama e até os elogios de Temari sobre a maestria daquela família com tecnologias, um dos mais citados, mesmo que não fosse comprovado, era o talento de hackear.
Haviam diversos rumores de que eles tinham capacidade de entrar em qualquer sistema operacional que quisesse, mas como eles nunca respondiam tais acusações ou não se conseguia comprovar os rumores, tudo não passava de uma suposição esquecida, tendo, os estudiosos da tecnologia, como maior ambição, estudar sobre a famosa segurança dos sistemas da Companhia feita pelos próprios donos e seus projetos de sucesso no campo do videogame e robótica.
A morena, no início de seu trabalho na revista de fofocas com enfoque na família Uchiha, perguntou para Temari se aquele rumor era verdade. A loira sorriu em desafio e disse que daquela família não se surpreendia com nada, eles eram tranquilos com a opinião pública interessada em seu particular, mas se você quisesse alfinetar um leão, era para estar preparada com o rebote que ele poderia dar.
A mulher de olhos castanhos se perguntou se aquilo não seria uma vingança do moreno por tudo o que ela já havia dito sobre ele em reportagens, no entanto, depois de muitas divagações, a mulher cedeu, pois, só faltava quinze minutos para terminar seu tempo.
A tela ficou inteiramente negra por alguns segundos e por um segundo ela pensou que a intenção toda era uma vingança barata de um hacker meia boca que queria apenas destruir seu material de trabalho.
A mulher já bufava de raiva, cruzando os braços, mas sua atenção foi recobrada quando letras verdes apareceram na tela, formando um comando:
"Olhe o seu celular"
Uma sobrancelha se sobressaltou no rosto da mulher com aquele comando estranho, mas obediente e curiosa, ela olhou para a tela de seu celular jogado em canto qualquer do sofá.
Assim que ela olhou para a tela com sua foto, não viu nada demais, mas seus olhos se estreitaram quando viu o símbolo de uma nova mensagem.
Abriu a mensagem de número privado se deparando com apenas uma frase que não fez sentido nenhum para a mulher:
"Hospital Central de Tóquio, amanhã, 14h"
Uma expressão de incompreensão saiu pelos lábios da mulher que voltou rapidamente os olhos para a tela do computador, mas para sua surpresa, ele estava normal e o e-mail do estranho havia desaparecido.
Ela não sabia o que tudo aquilo significava, mas tinha a sensação de que não era tão simples como parecia.
***
Ela pensou em ignorar tudo o que havia acontecido na noite anterior, mas depois que viu o largo sorriso de Soya direcionado para ela na empresa, a cólera aumentou e pôs-se a dedicar arduamente no trabalho como chefe do departamento de fofocas, conseguindo sair logo no início da tarde do trabalho. Sua intenção era ir para casa e tomar um bom vinho para se acalmar, mas quando percebeu, já estava estacionando em frente ao grande hospital de referência na cidade.
Ela não sabia o que esperava ou o que havia ido fazer ali, mas resolveu esperar dentro do carro.
Como uma boa repórter do mundo dos famosos, ela estava preparada.
Uma câmera profissional, um binóculo e um bloco de notas estavam no banco do passageiro.
Olhou ao redor e viu que a rua estava cheia de carros de diversos estratos sociais, algo comum para aquele hospital que tinha seu estacionamento cheio.
Suspirou e esperou pacientemente, tentando não pensar em nada além do que havia descoberto até ali sobre o Uchiha.
Seu passado mulherengo e presente de calmaria, aparecendo nos últimos tempos apenas com a mulher de cabelos rosas e em sua empresa, a qual, agora tinha o comando administrativo.
Mordeu o lábio inferior com a sensação de que havia algo errado e tudo o que ela conseguia pensar era naquele estranho trecho:
"É como um jogo, onde verdades podem ser reveladas e o sucesso e a desgraça serão as suas duas opções que dependerão de suas ações e senso crítico"
Depende do meu senso crítico, de meus instintos e conhecimentos, pensou, mas seu momento de torpor foi afastado, assim que ela viu uma figura vestida toda de branco saindo apressada do local, apesar do sorriso doce e aceno gentil que dava a cada um de seus conhecidos enquanto caminhava calmamente em direção ao seu carro, um Jeep Renegade 2015 de cor vermelha.
Tenten com habilidade, tirou diversas fotos em sequência da mulher de cabelos cor de rosa e jaleco branco em seu antebraço até que seu carro desaparecesse no final da rua, dobrando para a direita.
Pensou em seguí-la, mas teve uma ideia melhor...
Arrumou-se e pegou um óculos grande de aro grosso e quadrado. Soltou os cabelos dos dois coques e saiu discretamente do carro.
Caminhou um pouco apressada e aumentou um pouco a velocidade para chegar ao balcão com algumas recepcionistas sorridentes.
Fingiu desespero e falta de ar mostrando que havia corrido, recebendo a atenção de uma das recepcionistas que se apressou a lhe perguntar se estava bem.
Tenten sorriu e mudou o tom de voz:
— Estou bem – arfou com preocupação. – Só estou preocupada. Vi minha médica sair, acho que cheguei atrasada, a... a doutora de cabelos rosas, a... a – fingiu falta de ar pelo esforço, pondo a mão no peito para aumentar a dramaticidade.
— Você está falando da doutora Haruno Sakura que saiu há pouco tempo do hospital e tem cabelo rosa?
Tenten sorriu escutando o nome da mulher, agora ela tinha um nome e sobrenome para dar para a figura exótica e por isso comemorava com fogos de artifício em seu interior, mas resolveu continuar a atuação se acalmando e voltando a respirar normalmente aos poucos.
— Sim, a doutora Haruno. Eu tive problemas com medicamento na farmácia e queria falar com ela, sabe se ela ainda vai voltar hoje? – Perguntou com preocupação.
— Tem certeza que você é paciente da doutora Haruno? – Perguntou com desconfiança a mulher.
Tenten parou por um momento pensando que a Haruno não deveria atender mulheres.
Será que ela só atende homens e é médica do Uchiha? Pensou rapidamente. Será que é realmente verdade que mulheres de jaleco são tão fantasiadas pelos homens?
Balançou levemente a cabeça, voltando para a realidade.
— Na verdade, ela é médica de um familiar meu, a qual sou a responsável – respondeu pensando em usar a desculpa do pai, mas falou familiar para generalizar.
A feição da atendente se tornou penosa, o que confundiu a morena que ajeitava os grandes óculos de maneira desajeitada.
— Entendo. Sobrinho?
Tenten ergueu uma sobrancelha.
Sobrinho? Olhou-se e percebeu que não era tão velha para parecer que tinha um sobrinho adolescente.
— Sim. Um menino lindo de 7 anos, filho de minha falecida irmã.
— Sinto muito – disse compreensiva a mulher. – Seu sobrinho está em estágio avançado do câncer? Podemos ligar para a doutora falando sobre sua pressa, já que ela só irá voltar amanhã de manhã para o hospital.
Câncer? O Uchiha está se relacionando com uma oncologista pediátrica?
— Não, não é um caso avançado. Na verdade, está bem precoce o câncer – sorriu para a mulher. – Volto amanhã sem problemas.
Se despediu o mais rápido possível para começar suas pesquisas sobre Haruno Sakura, oncologista pediátrica do Hospital Central de Tóquio.
A morena sorriu satisfeita quando encarou seu reflexo no retrovisor.
Tirou os óculos de grau e pôs óculos escuros enquanto cantava uma música qualquer da rádio, só pensando em uma coisa quando beijou seu celular que tinha aquela pista.
Mitsashi Tenten voltou e veio para ficar!
***
O que Tenten não sabia é que há três carros do seu, um sedã negro caro e bem encerado estava estacionado, também inerte a existência daquela repórter, chegando ali bem antes que ela.
No banco traseiro, um homem de porte alto e físico trabalhado se escondia dentro do terno e gravata caro que apenas grandes empresários ou familiares desses poderiam ter o luxo de usufruir.
Sasori movimentava preguiçosamente o cigarro aceso entre os seus dedos longos e finos, enquanto sua mão esquerda segurava com força o seu celular caro que mostrava a notificação de uma nova mensagem, no entanto, seus pensamentos estavam perdidos à lembrança de tão poucos meses atrás...
Ele estava em um lugar pequeno, tão diferente do que a posse do sangue que tinha poderia oferecer, mas ele não ligava para isso ou para a falta de luxo, apenas se focava na barra de ferro que atravessava aquela pequena cela estreita e particular.
Os olhos castanhos se fixavam no metal frio, enquanto o esforço de mais uma flexão tencionava seus músculos trabalhados dos braços e costa.
O calor era intenso, apesar do ambiente ser refrigerado.
As horas naquele exercício contínuo se mostravam pelas gostas de suor que deslizavam pelo seu rosto, escorrendo preguiçosamente pelo pescoço, seguindo pelo seu peitoral e abdome definido, até se alojarem no cós da parte inferior de seu macacão laranja de detento, deixando a mostra as cicatrizes e tatuagens que o homem havia adquirido durante sua vida.
Nem quando a pesada porta de ferro foi destrancada, com um ruído ensurdecedor, o ruivo desviou o olhar para ver quem adentrada com passos pesados sobre as botas de um oficial.
— Akasuna, visita para você – falou alto e imponente o guarda, o que não amedrontou o detento, por outro lado, apenas o fez revirar os olhos tediosamente.
Sasori soltou a barra alta e caiu com força e maestria no piso de tonalidade verde clara, como tudo ao redor.
Ele odiava aquela cor e esse foi seu primeiro comentário quando chegou naquela prisão sem nem ao menos saber o motivo de tal aversão.
— Visita? – Sibilou calmamente, deixando o corpo ereto e cruzando os braços em frente ao peito. Estreitou os olhos mostrando que sua imponência não se abalava em frente a um mero guarda de penitenciária. – Até onde eu sei, não é horário de visita e não há nenhuma exceção em penitenciária de Cingapura – debochou com um sorriso de canto.
— É uma visita especial que tem pressa. O diretor da instituição abriu uma exceção.
Os castanhos se estreitaram ainda mais tendo uma ideia de quem poderia ser aquela visita por mais que achasse quase impossível que aquela pessoa fosse até ali para vê-lo.
Sasori cuspiu no chão como um ato de desrespeito antes de falar em uma voz baixa e ameaçadora com um leve tom de humor:
— Diga ao meu pai que dispenso sua visita, na verdade, diga para ele voltar para o maldito inferno que é aquela amada empresa dele.
— Não é o seu pai o visitante – o guarda, acostumado com as ofensas do ruivo, comunicou calmamente.
Sasori estranhou aquela notícia.
Quem teria liberdade de visitá-lo a hora que bem desejasse e que não fosse o seu pai?
Aquela questão o intrigou e atiçou sua curiosidade.
Sem transparecer nenhuma dessas emoções, ele assentiu e enxugou o suor com uma pequena toalha, antes de vestir a parte de cima do macacão que antes estava suspensa em suas pernas.
Não fechou todo o zíper. Odiava aquela roupa e por isso deixou metade aberto, deixando à mostra a camisa branca que ele vestiu por dentro.
Sasori estendeu os punhos entediado, sabendo de todo o protocolo de segurança do local.
Saiu de sua cela algemado, tanto nos pulsos como nos calcanhares.
Sabia que ele não tinha um crime horrendo para ter tal tratamento, mas seus ataques aos oficiais logo que seu pai o botou ali, renderam-lhe algum tempo na solitária e prevenção à novos ataques.
O ruivo revirava os olhos pensando o quanto aqueles guardas eram fracos e poderia derrubá-los mesmo que estivesse algemado.
O caminho era longo para a sala de visitas e tudo ao redor parecia resplandecer aquele verde incomodo.
Tentou se concentrar no rangido das correntes como se fosse uma música para se distrair, mas antes que ele percebesse, já estava de frente para uma porta metálica de cor azul marinho em um longo corredor vazio.
Sasori estranhou que o ambiente do outro lado estivesse escuro, já que uma janela quadrada na porta dava a visão de dentro, mas a única coisa que conseguia ver, era a cadeira onde ele se sentaria sendo iluminada pela luz do corredor que entrava pela janela que ele olhava.
O ruivo ergueu uma sobrancelha em desconfiança para o guarda, mas o oficial apenas assentiu e voltou à posição de alerta na frente da porta, segurando a grande arma caso fosse necessária e Sasori sabia que se fosse necessário, aquela bala só o acertaria e não quem quer que estivesse lá dentro.
O homem deu de ombros antes de entrar. Estava tudo silencioso, apenas o rangido das correntes ecoavam pelo lugar.
Sasori se sentou na cadeira iluminada e esperou que sua visão se acostumasse com a penumbra, reconhecendo a silhueta de dois homens de estatura alta, um estava sentado à sua frente e o outro em pé, mais atrás do primeiro.
Por um segundo pensou que o segundo homem poderia ser um guarda ou segurança particular, mas o cheiro de perfume caro e amadeirado que exalava dos dois homens retiravam essa dúvida e lhe dava a certeza de que aqueles dois eram do "mundinho" do seu pai.
— Akasuna Sasori – falou o homem que estava sentado, mostrando que tinha uma voz grossa, forte, porém baixa e controlada. – Estava ansioso por conhecê-lo.
— Quem é você? – Falou dispensando formalidades.
O homem riu um pouco do descaso do mais novo.
— Tenho negócios a tratar com você.
— Eu perguntei...
— Em breve você saberá – o cortou.
O rosto se tornou duro pela repreensão, mas Sasori queria saber o que dois homens como eles, de terno e gravata, estariam fazendo ali, naquele lugar.
— O que você quer comigo? – Falou baixo e controlado depois de alguns segundos.
— Quero fazer um acordo, um tipo de troca com você.
— Acordo?
— Sim – foi lacônico. – Sei que odeia esse lugar e sei que só está aqui como uma repreensão de seu pai que não permitiu que pagassem a fiança por te pegarem com porte ilegal de armas e drogas, algo tão facilmente camuflado por pessoas que têm posse e mais ainda por um grande empresário de indústria bélica como é o caso do seu pai.
— Olha aqui – levantou furioso, socando a mesa de ferro com os punhos e correntes como uma ameaça. O barulho foi estridente o que fez o guarda entrar em velocidade, apontando a arma para a cabeça do ruivo, mas, mesmo com estalido da destrava da arma, Sasori não recuou, continuou olhando ferozmente para o ser na sua frente, porém não continuou a falar.
O homem não se surpreendeu com aquela reação, na verdade, já esperava, por isso apenas suspirou cruzando os braços depois de fazer um movimento com descaso para o policial voltar para fora da sala. Pedido esse que foi prontamente atendido.
— Sente-se, Akasuna. Eu explicarei tudo – falou calmo e só continuou quando o ruivo sentou relaxadamente na cadeira metálica, como se aquilo fosse uma afronta ou desrespeito consigo, mas isso não importava. – Conversei com o seu pai e ele concordou que você pode sair da cadeia antes do término da sua pena.
Os olhos de Sasori se estreitaram para a sentença suspeita.
— E por que ele deixaria?
— Por que em troca de sua liberdade você fará um pequeno serviço para mim.
— Serviço? – Ficou confuso. Sabia que não seria nada ilegal porque seu pai odiava o passado de ilegalidades do filho, mesmo assim, sentia que não gostaria do que vinha a seguir e se seu pai resolveu ceder seu próprio filho para as asas de outro, sabia que era alguém importante. – Que tipo de serviço?
— Por hora isso não importa, só quero saber se você aceita e para entrar você precisa me responder uma pergunta simples.
— E qual é a pergunta? – Perguntou com descaso, por mais que estivesse confuso com toda aquela conversa.
O homem suspirou alto, antes de apoiar os antebraços na mesa metálica e falar em um tom baixo:
— Você se lembra de Haruno Sakura?
A surpresa foi instantânea e mesmo que ao longo dos anos tenha aprendido a demonstrar descaso em qualquer situação, aquele, definitivamente, não era o caso.
Há quantos anos não ouvia ou sequer pensava em tal nome?
Tantos que nem sequer se lembrava ao certo.
Tentou formular alguma frase, mas a única coisa que pensou foi na primeira vez em que viu a garota de estranhos cabelos rosas e olhos verdes...
Foi no final de sua adolescência e início da fase adulta. Para ser mais exato, foi durante seus dezenove anos.
Sasori já havia reprovado três vezes e sido expulso de muitas escolas o que levava uma má reputação para a família poderosa nos negócios naquela Cidade-Estado, não que tivesse dificuldades em aprender, mas sim por fazer de propósito, para atingir seu pai e sua reputação.
O pai que quase nunca viu e que traía sua mãe sem qualquer respeito ou remorso, até um dia em que a mulher não aguentou mais e se matou enforcada no próprio quarto da mansão com lençóis de linho.
Sasori tinha 12 anos e foi o primeiro a encontrar o corpo de sua mãe suspensa sobre a cama em um movimento lentamente rotatório, enquanto de seus pulsos cortados jorravam o sangue que manchava os lençóis alvos e centenas de fotos espalhadas.
Em choque, Sasori pegou com as mãos trêmulas o bilhete que mostrava o ódio direcionado ao seu pai e todas as fotos que retratavam as provas das aventuras de seu pai com inúmeras mulheres.
O garoto tinha lágrimas de ódio nos olhos e quando seu pai entrou no quarto viu todo o ódio de sua mulher pelos olhos do próprio filho que de doce, transformou-se em uma criança que sentia asco pelo pai, mesmo que esse mesmo homem se derramasse em lágrimas em frente ao corpo da mulher ou se trancasse em seu escritório todas as noites para beber, enquanto em frente às câmeras, se mostrasse imponente nos negócios.
Sasori não se importava com a fama, poder ou qualquer outra coisa, apenas queria que seu pai sofresse tudo o que sua mãe havia sofrido, mas com os anos, aquele jeito desinteressado passou a ser inerente à Sasori para o desespero do homem que tinha como o ruivo, o único herdeiro de seu império.
Aos dezenove, o pai o mandou para que estudasse em Tóquio para afastá-lo do mundo ilegal que o jovem estava se metendo naquela grande metrópole no estreito sul de Malaia.
Sasori não teve escolha e acabou indo, sentindo até um pouco de liberdade por ficar longe daquele mundo que ele odiava, além de que em Tóquio ele poderia ser um jovem qualquer já que seu pai garantia que seu rosto não saísse nas revistas.
Já na cidade nipônica, escolheu por uma escola de classe média, onde ninguém suspeitaria que ele estaria, além de ter escolhido uma casa simples ao invés de uma cobertura.
Mesmo assim, o jovem se sentia entediado durante as aulas. A transferência inesperada de alguém de fora do país e de jeito peculiar, atraiu a atenção para si e isso o fazia pensar em que horário ele fugiria daquela escola e procuraria alguma droga nas periferias da cidade nipônica.
O garoto era calado e misterioso, o que atraiu a atenção das garotas de lá com seus cochichos e olhares com segundas intenções, principalmente de uma ruiva que usava óculos e parecia ser a chefa do local.
Os botões de sua blusa aberta, mostravam o decote exagerado e o cós de sua saia dobrada para deixá-la mais curta, davam ao jovem a exata ideia do que ela queria conseguir.
Sasori ignorou a presença ou os olhares, permanecendo na última cadeira daquele lugar que lhe parecia tedioso.
Não se meteria com uma garota daquelas que parecia que iria grudar caso ele fizesse algo. Deixaria quieto aquele assunto e caso sentisse vontade, foderia ela nos fundos da escola de maneira descompromissada, não dando nenhuma esperança de algo a mais.
O dia passou rápido e algumas vezes escutava conversas alheias sobre os seres dali, uma em especial parecia se repetir diversas vezes pelo grupo de garotas próximo de sua cadeira, o mesmo grupo liderado pela ruiva.
Era de uma tal garota estranha e horrenda que as pessoas xingavam sem pudores contando histórias que até mesmo Sasori sabia que eram mentiras.
Uma semana havia se passado e ele nunca vira a tal garota de cabelos rosas que o grupo de garotos que se aproximou dele contou.
Até que no último dia da semana, quando a aula o entediava, ele decidiu fugir com a desculpa do banheiro, mas assim que transitava pelos corredores acabou escutando um choro baixo vindo do banheiro feminino.
Decidiu entrar e finalmente ver do que tanto aquelas pessoas falavam.
Abriu a porta destrancada da cabine em um rompante, fazendo a garota se encolher com um grito assustado.
Sasori estreitou o olhar para a garota de longos cabelos rosas e brilhosos olhos verdes embargados pelo choro. Algumas espinhas eventuais espalhavam-se pelo rosto vermelho pelo esforço do choro.
Suas roupas eram colegiais e comportadas, mostrando que a garota não tinha tantas curvas e deveria ter 15 anos.
O pânico era palpável naquele olhar, esperando que ele fizesse alguma coisa contra ela, mas o ruivo nada fez, apenas deu dois passos se aproximando da garota que se encolhia cada vez mais e pegou uma mecha cor de rosa.
Os fios eram macios e deslizavam com sutileza entre seus dedos.
Quando Sasori desviou seu olhar para encontrar os verdes com uma mistura de surpresa e confusão, ele sorriu de canto – um sorriso que ficou típico em seu rosto quando estava perto de Sakura.
— Não parece tão estranho quanto as pessoas falam – disse simplesmente, deixando-a ainda mais surpresa, antes de dar as costas e partir em sua fuga para fora do colégio.
***
— Sasori – a voz imponente o despertou de seus devaneios, mesmo assim, Sasori olhou para o verde além da passagem de vidro, agora sabendo por que ele odiava aquele lugar rodeado daquela cor.
Não sabia o que aquele tipo de homem queria com aquela garota que nunca nem citou para os seus familiares, mas se pegou falando:
— Sim.
Com aquela resposta, ele estava dentro do jogo.
Levou um pouco mais de um mês para que sua liberdade fosse oficializada. Recebeu roupas caras e empresariais e um sedã preto de vidro fumê o esperava do lado de fora com um motorista.
No banco traseiro tinha um pacote com seus documentos, passagem e um celular.
Não foi levado para visitar seu pai e agradeceu por aquilo. Mesmo que o Senhor Akasuna já fosse um homem de idade e arrependido de seus atos, os dois não conseguiam manter uma boa relação devido suas vidas com tantos atritos.
O aeroporto logo apareceu no campo de visão do ruivo e ele sabia o que tinha que fazer naquele momento, por mais que não soubesse o que lhe esperava com esse retorno à Tóquio, já que nada mais foi dito ou explicado depois do "Sim".
A única coisa que sabia é que era algo relacionado àquela garota do seu passado e ele pensava nisso enquanto via a grande cidade tecnológica e iluminada ficar para trás de sua poltrona na primeira classe.
Sua hospedagem foi feita em um dos melhores hotéis de Tóquio, sendo acomodado em um apartamento espaçoso e de vários cômodos.
Ele não sabia quem estava bancando tudo aquilo, se era seu pai ou os homens que haviam ido procurá-lo, mas sabia que todos tinham condições de pagar aquilo por mais que ele não se importasse em ser posto em um lugar menos luxuoso, até porque tinha acabado de sair de uma prisão.
Ninguém o procurou ou entrou em contato, a única coisa que tinha para homem era um convite para uma festa de gala em seu nome sobre a cama. Reconheceu o emblema da empresa como sendo um dos principais do campo de videogame e robótica, mas não entendia o porquê se ser colocado nesse evento, apenas compreendeu quando aquela data chegou e com surpresa viu a mulher que Sakura havia se tornado ao lado do novo presidente da empresa Uchiha.
Ele não acreditou na hora, mas as características tão inerentes a ela, não deixaram dúvidas, era Haruno Sakura na sua frente sendo admirada e invejada pelos seres ao redor.
A surpresa estava estampada na fase de todos e ele se perguntou o que estava acontecendo de fato.
Ele não sabia o que fazer, não havia script ou alguma ordem a seguir.
Sasori se sentia como a marionete que gostava de brincar com a sua avó na infância, inventando longas histórias enquanto movimentava com habilidades o instrumento.
No entanto, naquele momento, ele era uma marionete colocada em um lugar, mas sem um enredo a seguir.
Se perguntou o que aqueles senhores queriam que ele fizesse e vez ou outra olhava para os lados para ver se encontrava algum empresário lhe fitando com um olhar diferente e desafiador, mas não existia nada, era apenas uma aparente festa inocente.
Por isso, resolveu permanecer no escuro, decidiu não se aproximar do casal que recebia os convidados da elite nipônica.
Sasori permaneceu distante conversando, vez ou outra, com alguns empresários que reconheciam seu sobrenome, fazendo com que ele tivesse que aguentar os tediosos projetos de negócios caso se aliassem às Indústrias Akasuna ou os olhares maliciosos e interesseiros de algumas solteiras e até casadas ao associarem seu nome à sua fortuna.
O ruivo suspirava se lembrando do porquê odiava tanto aquele mundo. Ser rico e famoso não lhe trazia a felicidade, na verdade, lhe colocava em um ninho de cobras e um baile de máscaras. Todos sorriem e te elogiam tendo em mente seus próprios interesses, mas no fim, desejam sua desgraça secretamente.
Era assim que Sasori via aquele evento, um baile de máscaras de serpentes, enquanto ele era a marionete que não sabia o que tinha que fazer.
Com as conversas descobriu que ninguém sabia quem era a mulher de cabelos rosas e nem fez questão de dizer que sabia.
Na verdade, viu todo o espetáculo e os olhares de inveja para a mulher que parecia não pertencer àquele mundo por mais que se portasse como uma dama.
Por um momento o ruivo pensou se ela também não era uma marionete sem rumo, mas depois sua dúvida voou com a ideia de que não faria sentido botar eles dois ali sem um propósito.
Divagou e caminhou pelo salão vendo sempre o que a moça fazia e principalmente vendo seu acompanhante que parecia ter uma aura e atenção voltada para ela.
Ele se perguntava que tipo de relacionamento eles tinham e por um segundo foi distraído por um grupo de empresários, mas quando sentiu um olhar em si, pensou que a sensação fosse vinda dos homens que o colocaram ali, mas quando se virou, não pode evitar a surpresa de encontrar Sakura encarando-o, também surpresa.
Só ali perto, ele pôde ver o quão bela e diferente ela estava e sem ao menos perceber, sorriu como na primeira vez em que se viram, mesmo que conscientemente ele não quisesse, entretanto, o horror se tornou palpável no olhar dela, antes que a mesma se afastasse dali.
O semblante de Sasori ficou confuso e pensou em seguí-la, mas viu de relance que o moreno, um dos anfitriões da festa, já estava seguindo-a sem se importar com os empresários que ele deixou no meio do salão.
Ele não esperou nada. Discou para o seu motorista e partiu daquela festa sem saber o que estava fazendo ou o que pensar sobre tudo e, principalmente, sobre a Sakura que encontrara ali, doze anos depois.
Depois da festa, nada mais aconteceu e ele permaneceu no Hotel sem saber se ele havia feito algo de errado ou se estavam planejando algo para ele.
Decidiu naquele dia sair e vê-la com os próprios olhos.
Pesquisou sobre ela e descobriu a médica renomada que ela era atualmente, o que o surpreendeu já que sabia que ela almejava medicina, mas não sabia que chegaria tão longe.
Passou horas com um cigarro esperando do lado de fora do hospital, sem saber o que fazer, apenas encarar a mulher que saia esbelta daquelas alvas paredes e desaparecia de sua vista dentro de um veículo por ela dirigido.
O celular vibrou, tirando-o dos pensamentos e mais uma vez ele se sentiu uma marionete.
O comando era um endereço, uma data, um horário e uma sucinta instrução que o que seria necessário já se encontrava sobre sua cama no Hotel.
— Kisame, você sabe o que fica nesse lugar? – Perguntou ao motorista de aparência selvagem.
Os pequenos olhos demoraram-se poucos segundos antes de responder ao seu senhor:
— É a Sede da Uchiha's Company, senhor Akasuna.
O ruivo franziu o cenho e respirou profundamente apoiando a mão do cigarro sobre o joelho.
— Pelo visto vamos nos conhecer em breve, Uchiha Sasuke – sorriu de canto. Rindo de sua própria condição de marionete humana sem script.
Continua...
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