Procura-se uma Uchiha

17 Chichi no Hi - Parte I


Notas iniciais
Yooooooooooo!!!! Demorei, não é? Bom, como eu avisei na Página do Face, Procura-se uma Uchiha seria um pouco colocado de lado porque eu tenho outras fics para dar preferência para minhas outras longs que estão atrasadas, mas isso não quer dizer que a abandonarei, na verdade, vou aparecer quando puder por aqui e, claro, quando a inspiração quiser fazer uma visitinha hahahah Obrigada pelas favoritações, novos acompanhamentos e pelos vários comentários que chegaram após o último capítulo postado ^^ ainda não pude responder a todos, mas assim que atualizar voltarei a responder aos comentários ^^ Hoje, a playlist que eu escutei enquanto escrevia é justamente Rolling Stones *-* Para quem se interessar, este é o link: https://www.youtube.com/watch?v=DxxBAB6mq68 Divirtam-se com a primeira parte de Chichi no Hi!

Sarada...

— O que você está fazendo aqui? – Uma voz aguda e irritante tirou a minha atenção dos cabos que eu organizava no chão, sob uma das várias mesas do ginásio do colégio.

Levantei o meu olhar para a ruiva que tinha um aquário entre as mãos e me olhava com os olhos semicerrados, em desafio.

— Ah, é só você, Mika – falei com má vontade voltando ao meu ofício.

Ouvi a ruiva bufar enquanto colocava seu pequeno aquário, com um solitário peixe dourado, sobre a mesa metálica coberta por um pano alvo.

A garota de olhos roxos cruzou os braços e começou a bater com impaciência seu pé esperando por uma resposta.

— Quem você acha que é, quatro olhos, para me ignorar dessa forma?

Olhei-a de canto. Não estava com vontade de discutir e Mika não estava com suas seguidoras para me intimidar com a quantidade. Ela estava só e, por isso, estávamos em posições iguais daquela vez.

— Uma pessoa ocupada – debochei com um sorriso de canto, antes de ignorá-la assoviando.

— NANIII? – Esbravejou.

Eu sabia que ela deveria estar com o rosto fervendo com a minha falta de consideração com ela, mas, o que ela já deveria saber de cor, é que eu não era o tipo de pessoa que lambia o chão dos populares ou que me intimidava com suas ofensas quando as situações eram justas.

— Anda muito corajosa para o meu gosto, Haruno – puxou o meu braço esquerdo para que eu a olhasse.

Suas pupilas estavam dilatadas e suas maçãs estavam vermelhas e infladas.

— Mika, por que você não faz algo de útil e me deixa em paz? – Questionei com um levantar entediado de uma sobrancelha. – Não estou com bom humor hoje para bater papo contigo – fui direta.

Seus olhos semicerraram antes de soltar meu braço com brusquidão.

— Que seja – cruzou os braços em posição superior. – Só fiquei curiosa do porquê uma garota sem pai estar em um evento da escola mexendo em cabos – ajeitou os óculos em suspeita, analisando-me por inteira. – Está tentando sabotar o evento, Sarada? – Seus olhos se arregalaram em surpresa com a própria ideia.

Franzi o cenho para aquela ideia dela.

— Ficou louca?

— Olha, se você tentar estragar esse evento, você vai se ver comigo lá nos fundos da escola – apontou o dedo magro para o ponto entre meus olhos.

Tirei seu dedo incômodo com um leve tapa, antes de me erguer do chão e encarar a face raivosa da menina popular.

— Afinal, desde quando você se importa com um evento escolar? – Indaguei sem entender aquele ataque de cólera fora de hora.

— Eu vou contar para a Kurenai-sensei... – começou com a ameaça.

— Vai. Conte – abri os braços. – Corra para os braços da sensei e diga que eu estou fazendo exatamente o que ela me pediu para fazer.

— Como? – Sua expressão se tornou confusa.

Suspirei tentando procurar paciência para explicar a ela o que eu estava fazendo.

— Por mais que eu não participe do evento, tive que vir porque vale como presença. Para não ficar sentada em um canto entediada, Kurenai-sensei pediu para que eu cuidasse da parte de iluminação e controle da demonstração de slides – expliquei tirando minhas luvas de tecido que utilizava para mexer em cabos elétricos.

— A escola está tão decadente que não pode pagar profissionais para cuidar da nossa segurança? – Falou com ultraje, o que me fez bufar.

— Primeiro, eu só estou verificando o trabalho deles e controlando a iluminação. Segundo, – aproximei-me erguendo uma sobrancelha em deboche – não tenho culpa se sou melhor com eletrônicos do que muito profissional em ação – cruzei os braços com confiança, enquanto lançava um sorriso de canto vitorioso para a ruiva raivosa. – Mexer com cabos elétricos deve ser muito complicado para uma garotinha que mal sabe trocar a bateria do celular com medo de quebrar a unha – ri debochadamente da garota que parecia prestes a explodir em ofensas, mas não proferiu nada quando ouviu seu nome ser proferido alto por uma voz masculina, chamando a atenção de nós duas para a entrada do local.

Ergui uma sobrancelha sem entender direito o que aquilo significava, mas tinha que admitir, aquela visão era bem...

Exótica.

Se eu já estranhava o fato da minha mãe ter cabelos cor de rosa, o que dizer do homem que por inteiro era extremamente excêntrico e chamativo?

— Papai! – Gritou alto e feliz, Mika, fazendo com que eu ficasse confusa com aquela atitude incomum da ruiva.

Vi ela sorrir largamente antes de correr em direção ao homem, enquanto seus longos cabelos cor de sangue esvoaçavam-se atrás de si.

O homem de estranhos cabelos brancos de pontas azuis – vestindo uma bermuda marrom-esverdeada, uma blusa havaiana amarela de grandes flores vermelhas e uma sandália simples, escura – tirou os óculos escuros e pendurou no vértice do grande decote de sua camisa, deixando à mostra seu peitoral trabalhado e bronzeado de poucos pelos, antes de estender seus braços em um convite aceito sem pudores pela garota que se jogou em seus braços.

— Minha sereia – falou enquanto afagava os cabelos de uma Mika completamente diferente do normal.

Eu não conseguia disfarçar, aquilo não era normal de se ver. Mika estava feliz e abraçada ao pai como uma criança pequena e feliz que acaba de ganhar um presente de Natal.

Minha boca estava aberta e meus olhos semicerrados, enquanto a única coisa que eu pensava era...

Quem é essa garota e o que ela fez com a Mika?

Assim que a sessão de pai e filha terminou, Mika pulou para fora do colo do pai, arrastando o homem pela mão em minha direção.

Por um momento eu pensei que ela estava seguindo aquela direção por minha causa, o que me deixou extremamente confusa, só me fazendo voltar ao meu normal quando Mika me afastou para o lado com um empurrão leve, revelando a nós três o peixinho dourado e solitário que meu corpo ocultava.

— Olha papai! Sauchi cresceu bastante – bateu palminhas animadas, trocando o olhar entre seu peixinho e seu pai.

— Ariel – exclamou surpreso, apoiando-se em um joelho para ficar da nossa altura e do peixinho que nadava tranquilamente no pequeno aquário. – Ele está com uma ótima aparência. Você cuidou muito bem dele, Ariel – sorriu para a filha que pareceu resplandecer em orgulho pelo feito.

Enquanto eles sorriam cúmplices, eu tentava entender aquele tal "Ariel", só então me lembrando de uma princesa ruiva que a minha mãe tentava fazer com que eu gostasse na minha infância, só que depois de muitas caretas para todas aquelas bonecas e vestidos de princesa, ela aceitou que eu gostava mais de camisetas de dois números maiores que o meu e short jeans, tudo acompanhado de um all star de cores diversas.

— Ariel – murmurei observando as características de Mika, tão semelhante àquela princesa.

Não pude deixar de me sentir diminuída ao notar a mala de ferramentas e as luvas de tecido que mantinha em minhas mãos.

Eu não era a garota bonita e popular com um pai carinhoso que lhe dava apelidos de princesa. Eu... era apenas Haruno Sarada e princesas da Disney passavam bem longe de poderem me definir.

— Se lembra, papai, que você trouxe Sauchi bem novinho e debilitado da sua viagem? Você disse que ele não sobreviveria muito e eu bati o pé dizendo que ele ia sobreviver sim. Viu, eu estava certa! – Apontou feliz para o peixinho de aparência saudável inerte à nossa existência.

— Vi sim, estou impressionado – falou fascinado o homem de aparência de surfista de ilhas tropicais – pelo visto minha filha vai ser uma bióloga marinha melhor do que eu – sorriu para a menina que pulou de felicidade.

Mika? Cuidando de um peixinho? Sendo bióloga marinha? Oi?

Não pude evitar, comecei a tossir convulsivamente com aquela notícia sem sentido para mim. O homem notou a minha existência e sorriu tentando me ajudar batendo as minhas costas com o pensamento de que eu tinha me entalado com algo.

— Ei, cuidado aí gatinha. Vai com calma.

Eu assenti corada, tentando controlar a tosse com um sorriso constrangido pela cena.

O pai de Mika sorriu com os dentes levemente afiados – parecido com os dentes do tubarão tatuado em seu braço esquerdo e da serpente marinha que rodeava por toda a extensão de seu membro superior direito. – Ele afagou os meus cabelos antes de voltar os olhos para sua filha de bochechas infladas e olhos cerrados para mim como se fosse um ultraje eu pegar a atenção de seu pai.

— Princesa, quem é a sua amiguinha?

Ergui uma sobrancelha e segurei uma risada por ele ter usado aquele termo para me referir sendo de sua filha.

Amiguinha?

— Ai, papai, ela é a Haruno Sarada, estudamos juntas na mesma turma – limitou-se a aparentar ser a boa filha perto do pai.

— Prazer, Sarada. Meu nome é Hozuki Suigetsu, o pai da Mika – estendeu o braço com a perigosa serpente para me cumprimentar.

— É um prazer conhecê-lo também, Suigetsu-san – sorri contida, apertando a mão de aperto forte, sentindo a pele quente e calejada do biólogo marinho. – Aliás, gostei das tatuagens – apontei sem graça assim que nossas mãos se soltaram.

O homem de sorriso fácil coçou a cabeça antes de se animar com o que eu havia dito:

— Gosta de animais marinhos? – Perguntou interessado.

Desviei o olhar rapidamente para o furioso de Mika, antes de responder:

— Na verdade, prefiro mais coisas eletrônicas do que animais vivos – apontei para a minha mala aos meus pés, constrangida pela risada sem pudores do homem.

— Você me faz lembrar de alguns amigos meus – ele não continuou a falar sobre os amigos, apenas continuamos a falar de poucas banalidades antes de conseguir fugir da dupla perfeita de pai e filha que me angustiava ficar perto por mais que o homem fosse muito receptivo.

Eu não queria estar naquele evento, vendo todos aqueles sorrisos e abraços. Vendo todos aqueles objetos que representavam uma ligação entre as crianças e seus pais. Eu simplesmente não queria estar, mas era obrigada a estar e também porque me oferecera a ajudar Kurenai-sensei com os aparelhos eletrônicos que ela se enrolava.

Suspirei pesadamente carregando a mala cheia de equipamentos que havia pegado no suporte, revirando os olhos para cada frase clichê que as patricinhas da escola diziam.

— Sarada! – Ouvi meu nome ser chamado alto e procurei ao redor daquele imenso ginásio pelo dono da voz, parando vergonhosamente no garoto sorridente e loiro que acenava para mim.

Apressei-me em sua direção com a intenção de não ter que presenciar outro grito de chamado ou constrangimento caso eu fingisse que não o havia visto.

Já estava ofegante por ter carregado a mala quando cheguei próximo de Boruto e seu estranho amigo frequentador de matos alheios, mais conhecido como Mitsuki.

O filho do diretor me olhava com um largo sorriso que fazia seus olhos virarem duas tiras estreitas e negras.

Forcei um sorriso torto para o estranho antes de me voltar para um animado Boruto.

— Já que vocês dois estão aqui, posso finalmente mostrar minha obra-prima – sorriu coçando a nuca. Notei suas maçãs ficarem vermelhas com aquele comentário enquanto ele pegava um quadro retangular coberto por um pano. – Estão prontos?

Eu não sabia o que esperar, apenas assenti contidamente, enquanto meu acompanhante assentia com vigor para o amigo em forma de estímulo.

Boruto voltou a olhar para mim quando puxou o pano branco revelando o quadro de bordas simples e marrons, deitado na horizontal, mas o centro daquele objeto me tirou olhos arregalados.

Se eu já havia visto outro desenho de Boruto, nada se comparava ao esplendor que esse demonstrava, tanto pelas suas vivas cores como pela vivacidade de seus traços perfeitos e nítidos.

Era o retrato do parque em que nos encontramos e conversamos. Por um segundo, ao olhar aquele quadro, parecia que novamente estava sentada naquele banco admirando o pôr-do-sol e famílias esporádicas que curtiam um fim de tarde em uma pacata praça em meio à uma cidade tumultuosa, como era Tóquio.

No entanto, havia algo de diferente naquela imagem, algo que não tinha na vida real e era justamente a visão das costas de dois loiros, um alto e outro aparentando ter doze anos.

Eles riam e se divertiam com a tarefa de pintar a tela que havia posicionada na frente deles com poucos traços do que no final seria aquela obra.

— É você e o seu pai – sussurrei hipnotizada com os traços da tela feita de tinta.

— É – falou constrangido, coçando a nuca enquanto também observava o quadro segurado em seu outro braço. – Eu queria demonstrar o que nós dois sempre fazemos por meio de um hobby que compartilhamos – seu rosto corava mais desviando esporadicamente as bagas azuis em minha direção como se esperasse que eu dissesse algo, mas eu estava apenas sem palavras.

Para a minha sorte, Mitsuke se apressou em exclamar todos os elogios para o amigo, antes de anunciar que mostraria o que ele havia trazido para a exposição.

O garoto foi rápido para a minha sorte que já estava fixando o meu olhar em meus sapatos negros para não ter que olhar para o loiro tão próximo de mim.

— Eu trouxe uma cobra – falou feliz.

— Nani? – Perguntei confusa.

— Kami, Mitsuke! Não me diga que você trouxe seu animal de estimação para a exposição – exclamou desesperado Boruto, puxando-me pelo meu braço para ficar o mais longe possível da caixa de papelão que o garoto carregava.

— Animal de estimação? Cobra? – Perguntei confusa olhando para aqueles dois garotos de atitudes estranhas.

Boruto olhava fixamente para a caixa suando frio.

— Relaxa, Boruto – falou o garoto de eterna voz calma e sorriso largo, puxando algo grande e comprido de dentro da caixa. – É uma cobra feita papel – mostrou a longa cobra feita pela união de inúmeros discos coloridos de papel sulfite, interligando-se por fios de arame muito parecido com as pipas gigantes de dragões chineses.

Boruto suspirou aliviado voltando a cor normal antes de soltar o meu pulso.

— Pensei por um momento que você tinha trazido o Manda – observou desconfiado o loiro.

— Eu não seria louco de trazer uma cobra viva para a escola – falou dando de ombros o que me assustou.

Pera lá, o garoto estranho e filho do diretor tem uma cobra em casa?

Olhei furtivamente para o homem com aparência estranha que transitava calmamente pelos presentes.

Orochimaru sempre me parecera estranho e mais estranho ainda pensar que ele tinha um filho...

Desviei o meu olhar assim que o reptiliano encontrou com os meus negros.

— Papai não deixou eu trazer o Manda – falou com calma colocando sua grande cobra sobre três mesas, antes de ajeitar sua plaquinha.

Olhei horrorizada para o loiro que me lançava um olhar de desculpas pelo amigo estranho que logo se afastou para procurar algo, deixando-me mais tranquila.

— Você não gostou do quadro, não é? – Perguntou em um tom baixo assim que organizava sua exposição.

— Não! – Apressei-me a dizer quando ele voltou um olhar cabisbaixo para mim.

— Então, por que você não disse nada? – Ficou confuso.

— Não, é que... – abaixei meu olhar para a mala, ajeitando convulsivamente meus óculos pelo nervosismo por dizer algo. – Seu quadro ficou incrível, Boruto. Tenho certeza que seu pai vai adorar, é só que... – levantei o meu olhar para o garoto que esperava a continuação com curiosidade – é um pouco incômodo estar no meio de tudo isso – sussurrei e ele logo compreendeu fazendo uma careta.

— Eu deveria saber que isso ia te incomodar – bateu na própria testa. – Eu te chamei porque você disse que queria ver naquele dia e eu prometi que te mostraria só na exposição – tentou se desculpar.

Sorri pela tentativa dele de se desculpar.

— Obrigada, Boruto – ele parou de se lamentar e fixou os olhos em mim. – Gostei muito de poder ter visto o quadro e ele ficou maravilhoso, mas eu preciso ir agora.

Não esperei uma resposta, apenas peguei a mala e saí daquele ginásio que parecia a cada momento mais claustrofóbico.

Andei por um corredor azulado, pertencente ao prédio da escola que se ligava ao ginásio, não olhei muito ao redor, apenas para a imensa prateleira de fotos e troféus de diversas épocas e esportes.

Resolvi parar quando eu senti a mala pesar demais. Só então percebi que algumas lágrimas estavam escorrendo pelo meu rosto.

Martirizei-me deixando a mala no chão enquanto eu enxugava minhas lágrimas e tentava normalizar minha respiração, só que toda aquela angústia e mal-estar de estar naquele ginásio transbordou de mim e eu agradeci por ter conseguido fugir antes de Boruto.

Encostei minha testa e minha mão direita no vidro frio, fechando meus olhos. Minha respiração se normalizava, mas assim que eu reabri meus olhos, decidi continuar na mesma posição, olhando ao redor, todos aqueles adereços brilhantes que a escola tanto se orgulhava.

Alguns eram antigos, desgastados e pequenos. Outros, atuais, brilhantes e altos.

Não importava, olhei todos e acabei parando meus olhos em uma fotografia peculiar, mas que nunca havia percebido antes.

Dei dois passos e, separada apenas pelo vidro fino, vi uma fotografia um pouco antiga e amarelada de um time de beisebol, mas não era o time heterogêneo de idades ou o grande troféu que exibiam, mas sim os integrantes da foto que chamavam a minha atenção.

Muitos eu não conhecia, mas outros...

— Suigetsu-san, Kiba-san, tio Sai, tio Naruto e... – arregalei os olhos e tampei minha boca ao reconhecer o garoto de sorriso largo e de aproximadamente 14 anos que era erguido pelos companheiros e exibia o grande troféu de campeão, o mesmo troféu que era exibido atrás da foto – SASUKE?

***

Sasuke...

— Finalmente terminei – falei espreguiçando meus braços cansados de ficar na mesma posição desde manhã cedo.

— Você parece bem cansado – observou Karin abraçada a algumas papeladas.

Apenas assenti em um suspiro como resposta, antes de desviar o olhar para a minha mesa como claro sinal de que eu não queria nada com segundas intenções vindo dela.

Por mais que fizesse algum tempo que eu não me saciasse e Sakura não tenha facilitado nada para o seu vizinho, relacionamentos entre funcionários eram proibidos na empresa. Uma norma feita pelo meu pai após ter me flagrado em uma festa particular com duas recepcionistas em cima de uma impressora abandonada em um quartinho no setor da gráfica.

Na época, havia acabado de ingressar na empresa como funcionário, fazendo companhia para Naruto que havia descoberto recentemente que sua namorada havia engravidado e ele teria que assumir responsabilidades.

Eu era jovem e inconsequente na época, estava na empresa só pela diversão de ver meu melhor amigo tendo que trabalhar e pelo salário que eu recebia por trabalhar nas criações, salário esse que me deu independência desde muito cedo.

No entanto, meu pai, um homem não tão presente na minha vida, não via meu momento de diversão com as recepcionistas como meros hormônios juvenis à flor da pele, mas sim como um péssimo exemplo para o nome da tão aclamada família Uchiha.

Foi com rudeza que o tão poderoso Fugaku-sama me arrastou pela orelha pelos corredores da empresa de tecnologia, enquanto seu próprio filho tentava ajeitar as calças, no fim, dando o ultimato que atitudes semelhantes ao do filho resultariam no mesmo destino que a das recepcionistas...

A rua!

Nunca mais repeti aquela atitude na empresa ou com funcionários, mesmo que nos encontrássemos fora do ambiente de trabalho. Todos tinham medo do que meu pai faria contra elas já que certamente seriam flagradas pelas revistas de fofocas.

No máximo, eram leves flertes e insinuações que eu fazia na empresa, deixando meus casos esporádicos para as mulheres que encontrava pelos lugares que frequentava ou pelas empregadas que se jogavam sobre mim.

Nunca me faltou possibilidades...

O som de documentos sendo postos com força sobre a minha mesa me tirou dos devaneios, fazendo com que eu erguesse minimamente meu olhar para a mulher que apoiava as mãos ao lado dos documentos, realçando o decote grande e proposital que usava.

Desculpe-me sociedade, mas eu sou homem e reparei no vale dos seios expostos, sendo presos pelo sutiã vermelho sangue que a mulher usava, deixando claro as reais intenções que ela tinha.

Ergui uma sobrancelha para o sorriso de canto que a minha secretária me mostrava, além das pernas moldadas pela saia secretária sendo friccionadas uma contra a outra na clara intenção de ressaltar com movimentos lentos e sedutores, sua bunda empinada atrás de si.

— Talvez você precise relaxar, você trabalha demais e quase não o vejo se divertindo – falou com falsa inocência enquanto jogava uma mecha para trás, dando-me uma visão mais clara de seus seios.

Acabei sorrindo de canto com toda aquela situação antes de dizer:

— Sabe Karin, você tem razão – falei dando de ombros, recostando-me em minha poltrona de couro. – Procurarei uma massagista quando sair do trabalho hoje – fiz-me de desentendido antes de me erguer para contornar a mesa e a ruiva, dando passos largos em direção a saída.

Sorria de canto imaginando a expressão de choque da ruiva ao ser recusada dessa forma, afinal, segundo as más línguas, "sou um garanhão sem escrúpulos e sem coração", a ovelha negra da família que pensa mais em sua satisfação sexual do que em seus afazeres.

— Nã... não... foi isso... que eu quis... dizer – gaguejou apressada, voltando-se para mim.

Voltei a seriedade e pus minhas mãos nos bolsos antes de parar de andar e voltar meu olhar para a ruiva envergonhada e desconcertada, próxima a minha mesa.

— Então o que você quis dizer? – Falei com cinismo, mantendo minha voz séria e entediada para a minha secretária.

Os olhos castanhos avermelhados se arregalaram enquanto vagavam pelo nosso redor, buscando uma resposta que sua boca, que abria e se fechava continuamente, não conseguia proferir.

— Nada demais, Sasuke-sama – sorriu sem graça, procurando sustento para se manter em pé, em minha mesa à sua costa.

— Ótimo, repasse todos esses documentos para os conselheiros devidamente e para os chefes dos departamentos, sem erro ou troca – frisei a última sentença. – Estarei no setor de Design caso precise de mim.

Ela assentiu antes que eu voltasse meu caminho sem ser interrompido mais uma vez.

Peguei um elevador vazio pensando o quanto era dor de cabeça ter como secretária a ex-mulher de um amigo de longa data.

Karin se tornou secretária do meu pai poucos meses antes de ele falecer. Ela estava se divorciando de Suigetsu, um biólogo marinho que passava muito tempo em seu barco de vela, viajando pelo mundo, sempre envolvido em diversas pesquisas e até documentários sobre a vida marinha.

O problema de tudo é que envolvidos em uma batalha judicial e seus temperamentos voláteis os levaram à um término civil, mas não pessoal.

Tendo uma filha como fruto do casamento conturbado dos dois, ambos continuam se encontrando esporadicamente.

Entre tapas e beijos, o relacionamento complicado continua sobrando aos amigos, em especial Naruto, para escutar as reclamações do azulado que xinga até à décima quinta geração anterior da ruiva, mas no fundo não esquece a mulher problemática.

Daí surge outra situação: Karin se insinua para mim e, respeitando as leis impostas do meu pai e também dos amigos de nunca tocar na mulher do outro, a ruiva é a primeira a ser descartada de qualquer lista de envolvimento que eu possa pensar em ter, mesmo que seja apenas para um sexo casual.

Mulheres não me faltam e com certeza eu não me meteria em tal problema, apenas continuaria com a última secretária do meu pai, vaga essa, ofertada por ele ao saber da situação do divórcio, não ligando para a falta de experiência da mulher, mas com a desculpa de que se ela se ocupasse com algo, problemas e dores de cabeças poderiam ser evitados para o biólogo frustrado no amor.

Com eficiência e alguns erros no início, ela aprendeu a função com louvor ficando no cargo até com a inusitada troca de Presidente.

Suspirei pesadamente, tentando tirar toda aquela confusão e pensamentos que se amontoavam em minha mente junto com as diversas planilhas e relatórios que resolvi nos últimos dias.

Nunca pensei que me privar de um dia de trabalho faria acumular tantos documentos...

Planilhas, valores, acordos, mercado financeiro, cotação do dólar, vendas, filiais, conselheiros, secretária problemática... tudo desapareceu dos meus pensamentos quando o elevador se abriu para o andar que reverberava pelo ambiente uma música em baixo volume do Rolling Stones.

Sorri de canto saindo para o corredor vazio, mas logo detive meu passo quando ouvi um grito:

— Cuidado!

Desviei a tempo de um rapaz que andava de skate pelo corredor.

Ergui uma sobrancelha para o jovem de blazer aberto que se afastava ruborizado por me conhecer.

— Desculpa, chefinho!

Suspirei voltando o meu olhar para o imenso grafite que identificava o setor de Design da Uchiha's Company.

Abri uma das imensas portas duplas, antes de visualizar o caótico andar de criadores, a qual estava muito acostumado.

Como as outras tão aclamadas empresas de tecnologia, a UC dava liberdade aos seus funcionários. Por olhos de fora, trabalhadores muito bem vestidos de ternos e gravatas entravam pela porta da frente e transitavam pelos salões comuns, mas toda a seriedade continuava apenas nos andares superiores na qual eu trabalhava tediosamente tentando administrar e cuidar de todo aquele Império multimilionário e Conselheiros de olhos desconfiados para a minha promoção à Presidência.

No entanto, nos outros andares e setores, o trabalho era totalmente diferente e despojado.

Não era por menos que tantos jovens de diversas partes do mundo quisessem trabalhar na empresa após uma visita pública pelos estabelecimentos, assim como a minha própria filha queria entrar em todo aquele universo.

O setor de design comandado por Naruto e Sai, por exemplo, tem as paredes coloridas e no teto estão desenhadas em grafite todas as bandeiras que representam as nacionalidades de todos aqueles seres que trabalhavam ou já haviam trabalhado ali.

O ambiente era alegre e te contagiava com a playlist escolhida ou indicada por qualquer um daqueles seres excêntricos em suas criações artísticas ou decorações de mesas.

Cada criador tinha uma mesa particular separada das demais. Sobre elas, você poderia colocar qualquer objeto de seu interesse. Era extremamente fácil encontrar porta-retratos com fotos de família ou objetos de suas religiosidades ou de seu país natal.

Buda, crucifixo, deuses indianos, símbolos maçônicos... tudo estava ali e se misturava em perfeita harmonia.

O choque de cores e informações além das línguas diversas que se misturavam e riam nas conversas era instantâneo para pessoas novas naquele ramo.

Eu, por outro lado, muito acostumado àquele universo multicultural e fluente em sete línguas diferentes, apenas caminhei tranquilamente com minhas mãos no bolso, observando os grupos que se acomodavam em algumas salas de vidro ao fundo, de encontro com a paisagem e luminosidade que adentrava pelas janelas. Haviam salas de jogos, de criação em grupo ou apenas de conversa e descanso.

Eventualmente respondia a alguns desejos de bom dia direcionados a mim em pelo menos três línguas que eu tinha influência e duas que eu não fazia ideia se estavam me xingando ou apenas desejando algo de bom.

Dei um tapa leve na cabeça de um designer jovem que assistia relaxadamente um anime comendo pipoca. Ele riu sem graça ao me reconhecer e deu a desculpa de estar só procurando inspiração para o design dos futuros personagens da Companhia.

Ri de canto dando de ombros, não me importando com a mentira de um funcionário antes de sorrir um pouco mais vendo a mulher que passava dos quarenta anos e vestia apenas um tênis surrado, uma calça larga negra e uma camiseta simples cinza, tendo como chamativo principal, o seu eterno cinto de ferramentas em seu quadril, até mesmo martelo aquela mulher carregava para todo lado em seu cinto para eventualidades ou dar uma lição caso algum machista fizesse algum comentário mal intencionado sobre sua profissão ainda hoje tão masculina.

Seus cabelos castanhos estavam amarrados em um rabo de cavalo, dando-me a visão do semblante crítico da engenheira mecânica que também era responsável pelo setor de robótica e amor problemático do meu tio Obito, o sempre viajante Uchiha responsável pelas filiais no exterior.

— Tia Rin! – Chamei com os braços abertos, recebendo a atenção da mulher.

— Até onde eu me lembre, eu não tenho filhos ou sobrinhos para ser chamada de "tia", Sasuke-san! – Pôs as mãos na cintura mostrando a expressão repreendedora de sempre quando a chamava de "tia".

— Você é praticamente da família se levarmos em conta o seu caso de amor com o meu tio – dei de ombros observando o desenho de um cachorro robótico do designer que nos olhava com receio e preocupação, aliás, não é todo dia que seu trabalho é observado pelo Presidente e por uma das melhores engenheiras mecânicas tão perto de si.

— Somos apenas amigos, aceite, Sasuke!

Olhei-a de canto antes de sorrir e por isso levar um soco fraco da mulher respeitada e aclamada em muitas universidades daquele ramo.

Nohara Rin não precisava de roupas caras para chamar a atenção de um Uchiha.

Uchiha Obito caiu de amores pela garota nascida em uma fazenda que amava roupas largas e vivia suja de graxa quando colocava a mão na massa, em suas amadas criações desde a época da faculdade, onde ambos se conheceram.

Hatake Kakashi, melhor amigo do meu tio, que descobriu seu talento para detetive particular naquela época, era o responsável para conseguir informações sobre a mulher que chamava atenção do tio Obito.

Entre relacionamentos e términos, eles nunca chegaram a se casar por mais que meu tio sempre a pedisse. Rin, por outro lado, dizia que nunca abandonaria seu amado trabalho para acompanhá-lo nas infindáveis viagens que fazia, bancando a esposa exemplar e "dondoca" nas festas empresarias.

Meu tio apenas ria e batia nas minhas costas dizendo que os Uchiha's tinham a maldição de apaixonarem por mulheres complicadas e sem correção. Itachi sempre concordava lembrando-se de seu próprio romance com sua esposa falecida.

Eu sempre negava dizendo que não seria tão tolo como eles e que nunca ficaria na mesma situação que eles.

No entanto, hoje em dia, olhando para tia Rin, só conseguia pensar no quanto aquela maldição era verdadeira colocando Sarada e Sakura na minha vida de maneira tão inesperada e inusitada.

As duas eram, sem sombra de dúvidas, complicadas e problemáticas.

Suspirei pesadamente com aqueles pensamentos voltando-me para o cachorro metálico representado.

— É o projeto de acessibilidade idealizado por você e pelo meu pai?

— Sim – falou com animação. – É o cachorro mecânico que vai auxiliar dependentes à serem mais independentes, não só em sair de casa, mas com algumas instruções na vida doméstica – sorriu largamente, sendo correspondida por mim ao me lembrar de quanto tempo a empresa passava tentando tirar dos papeis as ideias geniais e úteis de seus criadores, além de surgirem com qualidade superior às concorrentes, principalmente aquela ideia que tinha sido projetado até mesmo pelos cálculos do meu pai, sempre estando nas mãos confiáveis de sua engenheira mecânica e cunhada.

— Espero poder vê-lo transitando entre nós em breve – falei contido, mas um entortar da mulher me fez ter uma ideia do porquê ela parecia tão crítica com o designer. – O projeto está com problemas?

— Não exatamente, na verdade, só alguns detalhes na aerodinâmica do design – apontou para alguns traços do desenho enquanto o designer responsável engolia em seco. – Mudanças que o senhor Todoma fará para proporcionar mais leveza e facilidade de locomoção do cachorro robótico, não é? – Olhou sugestivamente para o homem que parecia ser um pouco mais velho do que eu.

— Claro, Nohara-sama! – Prontificou-se para a alegria da mulher.

— Prontinho, agora está tudo certo, Sasuke-san – sorriu para mim que apenas lhe respondi com um de canto antes de me despedir e seguir para a porta nos fundos da lateral esquerda daquela longa sala.

Abri a porta com brusquidão sendo recompensado com o forte cheiro de tinta.

— Que bagunça é essa? – Perguntei com os olhos arregalados, vendo a bagunça que estava a ampla sala dos dois chefes de departamento.

Os móveis haviam sido afastados e amontoados próximo da grande parede de vidro com vista para a cidade nipônica.

As paredes com os eternos grafites de Naruto e Sai agora esboçavam cores diferentes como azul, branco e amarelo.

O chão da maior parte da sala estava coberto de jornais sujos com respingos de tinta.

Baldes vazios e pinceis diversos estavam amontoados em um canto à minha direita, enquanto os dois homens estavam posicionados em cada parede lateral fazendo novos grafites na parede.

Sai estava com roupas sociais, mas havia tirado o terno e sua camisa de botões negra estava enrolada até os cotovelos, dando-lhe praticidade em manusear os infinitos sprays que suas mãos enluvadas usavam.

Naruto, por outro lado, havia retirado a camisa de botões ficando apenas com a regata de algodão alva, deixando exposto seus braços nus de veias sobressaltadas, que movimentavam com vigor e firmeza os sprays em um desenho elaborado.

O ambiente estava um pouco quente e com cheiro enjoativo de tinta, reverberando alto a música dos Rolling Stones.

Os homens de máscaras e óculos de proteção se viraram para mim quando fechei a porta com força, ainda surpreso pela bagunça daquele lugar.

— Teme! – Gritou Naruto arrancando a máscara para esbanjar seu largo sorriso cheio de dentes enquanto acenava para mim com um spray como se aquela visão fosse a mais normal do mundo de se encontrar dentro de uma empresa particular de tecnologia.

Não era tão incomum o pessoal de Design esbanjar suas artes e decorações pela empresa. Naruto e Sai eram os primeiros a se prontificarem em botar a mão na massa e grafitar o máximo de setores que lhe eram permitidos, no entanto, minha estranheza era para o simples fato de não ter chegado nenhum protocolo pedindo autorização para uma mudança na decoração daquela sala.

— O que vocês estão fazendo? – Desviei meus olhos entre Naruto e Sai, que esbanjava um sorriso calmo, tão diferente da minha feição confusa.

— Ué? Não está na cara? Estamos mudando a decoração da sala – informou Naruto dando de ombros.

— Eu e Naruto estávamos entediados, conversando sobre novos tipos de arte das ruas que estão sendo noticiados em revistas de renome em Design – começou Sai.

— Finalmente estão dando o prestígio que o grafite merece, Teme – completou animado o loiro antes de continuar. – Finalmente estão parando de assemelhar o grafite às pichações ilegais – falou com desgosto o que o chateava desde quando era apenas um adolescente que adorava grafitar, mas era repreendido quando diziam que aquilo era só pichações.

— Ainda estou tentando entender como esse diálogo nos faz chegar ao fato de vocês estarem pintando as paredes de uma empresa particular sem autorização – ergui uma sobrancelha.

— Ah... isso Teme – balançou uma mão com descaso no ar – não é nada demais. Resolvemos que queríamos mudar o ambiente e resolvemos competir para ver quem fazia uma melhor representação de sua família – só então notei as pessoas que estavam sendo representadas nas paredes com grande realismo, porém, ainda apresentando traços modernos.

Naruto representava ele, sua mulher e filhos, na frente de um grande "Uzumaki" desenhado com um design moderno, enquanto Sai desenhava ele, sua mulher e seu filho, entre eles, na frente para um grande Yamanaka de parede inteira.

— Sabíamos que teria de fazer todo um protocolo que passaria por vários setores que eu não faço ideia de quais são até chegar nas mãos do Presidente, no caso, o meu melhor amigo Teme – abriu um largo sorriso como se sua atitude fizesse todo o sentido.

— Vocês se aproveitaram da ideia de que o amigo de vocês agora toma todas as decisões finais da empresa para fazerem o que bem queriam sabendo que eu daria autorização?

— Exatamente, chefinho – falaram em uníssono, antes de rirem cúmplices, tirando-me uma carranca.

— Vocês sabem que eu posso vetar uma atitude – sorri de canto tentando me vingar levemente dos dois designers que me olharam confusos.

Pus as mãos nos bolsos e caminhei calmamente e confiante até a mesa do Uzumaki, próximo à janela.

Joguei-me na cadeira dele e observei os homens que me olhavam desconfiados, limitando-me apenas a entrelaçar meus dedos e sorri maldosamente.

— Você não faria isso, Teme!

— Estamos quase terminando.

Dei de ombros girando na cadeira.

— Olha para o seu afilhado – apontou desesperado para a representação inacabada do Boruto – ele está sem cabeça! O cabelo do meu filho é complicado de fazer! Agora eu entendo as reclamações da Hinata sobre o cabelo do nosso filho ser muito complicado de se arrumar.

— Pelo menos o seu filho tem corpo, Naruto – começou Sai apontando calmamente para o seu desenho. – Meu filho é uma cabeça flutuante!

Mordi o lábio inferior reprimindo o riso com aqueles desenhos inacabados e bizarros de crianças.

— Sempre achei você e seu filho meio cabeça de vento, Naruto – o loiro me fuzilou com o olhar – e você Sai... pense que é um novo tipo de arte contemporânea onde a cabeça de seu filho é flutuante – dei de ombros desviando o meu olhar dos dois homens que bufavam em frustração.

Destravei o computador de Naruto usando uma senha idiota que eu sabia que era a cara dele e comecei a analisar vários de seus desenhos gráficos de alta resolução que seriam usados no próximo jogo de terror psicológico de Itachi.

— Temeeee... eu sei que você está brincando e nem liga se grafitarmos a fachada da Companhia.

Desviei o meu olhar para o loiro emburrado de braços cruzados antes de suspirar procurando palavras.

— Dobe, o problema não é grafitar, mas sim, não pedir autorização. Por mim tudo bem vocês desenharem e pintarem a Companhia inteira, o único problema é que eu tenho um Conselho inteiro e mais uma mídia que tem uma imagem péssima de mim, tudo isso nas minhas costas – suspirei massageando as minhas têmporas. – Eles nunca sequer cogitaram a ideia de que o filho mais novo de Fugaku fosse assumir a Presidência da empresa. Nem eu esperava que meu nii-san fosse negar o cargo! Eles não têm bons olhos sobre mim e estou tendo que provar para aqueles arcaicos da tecnologia que eu posso assumir o cargo do meu pai.

Naruto suspirou se sentando na minha frente, enquanto Sai se encostava em sua mesa.

— Meu pai me contou a situação – disse com pesar o loiro e eu assenti.

— A minha grande sorte é que nossas famílias são próximas e o chefe do Conselho é o meu padrinho, o tio Minato, que sempre ameniza a minha situação para os outros.

— O pai do Naruto sempre foi o adulto legal – brincou Sai fazendo com que eu me lembrasse de todas as vezes que tio Minato amenizava nossas desobediências para o meu pai. – Mas Sasuke, lembre-se que você está nessa empresa desde a sua nascença. Ninguém conhece mais os pormenores dessa empresa do que um Uchiha. Todos os funcionários e setores têm bons olhos para vocês, inclusive você que desde os dezoito anos trabalha como assalariado, sempre dando suporte em todas as áreas de atuação da Companhia. Cansei de ver você ou o Itachi pondo a mão na massa durante todos esses anos. Quantas vezes vi você dando suporte para os estagiários atrapalhados da robótica e no instante seguinte, na cúpula para discutir ideias para novos jogos? Inúmeras!

— Sai tem razão – uma quarta voz chamou a nossa atenção para a porta, só percebendo naquele momento que o meu irmão estava encostado na porta escutando a nossa conversa. O homem, cinco anos mais velho do que eu, se aproximou com passos largos e calmos. – Você tem o diferencial de ter a confiança e o reconhecimento dos funcionários. Diferente de todos aqueles engravatados que passam o dia inteiro sentados em poltronas de couro julgando se o Presidente é ideal ou não, você, eu, otou-san ou qualquer outro Uchiha que eu conheço, está vendo de perto o andar de todos os setores da Companhia. Olhe só para você, um Presidente de uma empresa multimilionária e está sentado na cadeira de um funcionário em meio a uma sala cheirando a tinta fresca, recebendo apoio dos nossos melhores designers.

Sorri de canto puxando alguns fios dos meus cabelos com toda aquela situação complicada.

— Você sabe que isso tudo é sua culpa – falei risonho com um tom ácido, mas que tirou risadas de todos. – Droga de irmão que nega trabalho e joga o problema todo para cima de mim. Se eu não conseguir cumprir com aquela maldita cláusula do testamento, o Presidente da Companhia perde toda sua autonomia e vai continuar sua atuação sob o comando do Conselho – falei com mal humor, recostando-me na poltrona de Naruto.

— Realmente, nosso otou-san pegou pesado nesse aspecto – lamentou Itachi, entortando o rosto para aquela ideia.

Durante a leitura do testamento para o Conselho e para os Uchiha's, aquela cláusula não foi bem recebida por mim e pelos meus familiares.

Havia uma saída prática, fazer meu irmão aceitar o cargo que pertencera ao nosso avô e ao nosso pai. No entanto, ao olhar para os olhos negros que me pediam desculpas em silêncio, eu sabia que não poderia simplesmente obrigar o homem, que havia sofrido tanto, a aceitar aquele peso.

Itachi sempre gostara de fazer parte do quadro de funcionários da criação. Meu irmão, por mais que não dissesse, não gostava da ideia de que por ser o primogênito e mais conhecedor daquele ramo, teria que um dia subir para o tão monótono último andar, onde o Presidente e o Conselho trabalhavam.

Um andar tão diferente dos outros agitados...

Em um pacto silencioso, eu decidi carregar o peso da administração por não haver outras possibilidades e meu tio Obito já ser responsável e tão conhecedor das filiais em outros países.

Mesmo com a cláusula absurda e ter que aguentar um Conselho e a mídia, eu decidi assumir aquele cargo pelo bem da empresa e por já ter uma grande afinidade com aquele ofício, até mais do que Itachi.

Minha pacata vida de mero funcionário de dia e Don Juan das celebridades à noite, foi completamente alterada no momento em que eu assumi aquele cargo e poucos dias depois acabei descobrindo ter uma filha maluquinha com uma mãe chutadora de Ferrari’s alheias.

Suspirei cansado fechando meus olhos, mas uma sentença de Sai me fez reabrir os olhos:

— Falando nisso, como você vai arranjar um herdeiro, Sasuke?

Naruto e Itachi se entreolharam, antes de buscarem o meu olhar.

Suspirei, lembrando-me que as únicas pessoas que sabiam da cláusula eram a minha família, o Conselho e aqueles dois amigos próximos.

Sai ainda não sabia sobre meu parentesco com Sarada e levando em conta que sua mulher era melhor amiga de Sakura, tudo aquilo poderia ser vantajoso para mim.

— Eu tenho uma filha de 12 anos – fui direto ao ponto.

A reação do moreno foi semelhante ao dos outros quando contei. Não demorou muito para que eu tivesse que explicar toda a história e a pedidos dos demais, contasse tudo o que havia acontecido entre mim e as Haruno’s.

Itachi ria de cada peripécia de Sarada, Naruto se vangloriava pela nora que tinha e Sai ainda tentava digerir a notícia que a melhor amiga de sua mulher tinha uma filha comigo sem nem ao menos eu ter tocado nela.

Sai contou que fora ele quem havia levado Sakura ao hospital quando a bolsa estourou. As duas moravam juntas na época e Ino estava no início da gravidez de Inojin.

O moreno disse que quase enlouqueceu por estar preso no trânsito, dentro de um carro com duas grávidas, uma em trabalho de parto enquanto a outra chorava impiedosamente devido as alterações hormonais.

— Eu não sabia se ficava com a minha namorada ou se entrava na sala de parto para filmar o nascimento da Sarada – contou em certa hora – mas a Ino, entre lágrimas disse que me castraria se eu não entrasse na porcaria de quarto de hospital e filmasse o nascimento de sua "sobrinha" – fez aspas. – Não tive outra escolha, acabei entrando e deixando minha namorada com as enfermeiras, esperando a chegada dos familiares da Sakura. Foi terrível ter que ficar em uma sala com Sakura gritando devido as contrações do parto normal, mas permaneci como um treino para quando o meu filho nascesse. Devo me orgulhar de ter sido o primeiro não membro da equipe médica a ver e gravar aquela bolinha de encrenca nascer – vangloriou-se.

Naruto sorriu largamente contando sua experiência no parto dos filhos, mas permaneci calado o tempo inteiro, imerso em pensamentos, só percebendo o olhar analítico do meu irmão, tempos depois.

Desviei do olhar de Itachi com incômodo. Já era estranho o bastante ter que ouvir seu próprio amigo dizer que viu o nascimento da sua filha, enquanto eu nem ao menos tinha noção daquela existência.

Eles tinham histórias para contar e vivências e por um segundo me senti novamente aquele jovem talento nato de futuro próspero no ramo da família, enquanto seus amigos encontravam companheiras e, por meio de acidentes ou não, começavam a formar suas famílias.

Era estranho estar no meio de amigos que antigamente vivíamos em festas todas as noites, mas em poucos meses mudaram para um estilo mais calmo de bares e conversas sobre suas parceiras.

Fingia não ligar, até porque Kiba também não tinha uma família sendo formada, mas continuava nos fazendo companhia.

No entanto, era estranho não seguir aquele rumo por mais que eu ainda quisesse curtir a vida como fazia nas tantas festas que ainda frequentava. O problema de tudo, é que eu não estava tendo a mesma vida que os meus amigos. Mesmo que ainda continuássemos próximos, nossos estilos de vida eram divergentes.

Às vezes, cheguei a frequentar bares sozinho após ligar para eles e descobrir que não poderiam me acompanhar porque estavam ajudando suas mulheres com as crianças.

Por vezes me encontrei em um banco de bar olhando a grande estante de diversas bebidas, perguntando-me se havia algo de errado comigo ou até, durante pontos altos de bebedeira, sentindo uma pontada de inveja deles, no entanto, tudo desaparecia dos meus pensamentos quando alguma mulher, pela minha beleza ou por imaginar minha conta bancária, sentava-se ao meu lado e se insinuava para mim.

Bebida, uma noite de sexo descompromissado, revistas me difamando com fotos das minhas saídas e discussões com o meu pai sobre a imagem da família.

Era isso.

Apenas assim se resumia a vida de Uchiha Sasuke.

Mal sabia que minha vida se assemelhava ao dos meus amigos tão longe dos meus olhos...

— Ei, acorda! – Naruto estralou os dedos na minha frente chamando a minha atenção.

— O quê? – Perguntei confuso pelos olhares que eles me lançavam.

— Eu perguntei se você não quer vim com a gente para a escola dos nossos filhos – sorriu largamente, mas não compreendi o motivo.

— Por quê?

— Hoje eles vão comemorar o Chichi no Hi e vai ter uma exposição dos alunos – falou animado, mas seu sorriso murchou ao ver minha expressão para aquela sentença, só então, Naruto, a pessoa que mais conhecia meu jeito e a minha história, se lembrou de algo longínquo. – Olha, eu sei que você não gosta desse tipo de evento – coçou a nuca – mas agora você é pai e deveria fazer isso pensando na sua filha – desviei o olhar. – Você já pensou como ela deve ficar nessas datas?

Não olhei novamente para Naruto, apenas fiquei lembrando da expressão aérea que Sarada apresentara nos últimos dias após a sua última ameaça.

Não vou negar, esperei que alguma coisa explodisse na minha casa ou alguma ofensa fosse deferido em minha direção por meio da expressão superior daquela criança, mas nada aconteceu o que me fez estranhar aquela situação e por vezes ter me pegado observando o rosto de perfil e aéreo enquanto nos encontrávamos por acaso no elevador.

Às vezes ela desviava o olhar fazendo bico, mas em outras, nem me notava.

— Tudo bem – peguei-me murmurando sendo recompensado por um pulo de felicidade do loiro e risadinhas dos outros homens.

Entortei meu rosto com aquela atitude, logo procurando o olhar do meu irmão.

— Pode ir, nii-san. Eu vou tomar conta de tudo enquanto você cuida da minha sobrinha – o homem se dispôs sabendo o que eu pediria. – Qualquer coisa eu te ligo – piscou um olho.

Assenti e segui o loiro e o moreno para fora da sala antes que eu desistisse daquela ideia incômoda, mas assim que fechava a porta, vi as costas largas de Itachi coberta pelo terno, enquanto o mesmo analisava alguns desenhos feitos pelo Naruto para o seu novo jogo.

Querendo ou não, em poucas semanas, eu estava tendo a vida que deveria ter sido do meu irmão.

Itachi era para ser o Presidente da Companhia com uma mulher que amava ao seu lado, sempre sendo atencioso com o filho que esperou com tanta ansiedade, mas não teve nem a possibilidade de conhecer seu rosto.

Meu irmão tinha tudo para ser feliz, no entanto, tudo foi tirado dele sem que o mesmo tivesse chance de lutar contra. Agora, o mesmo estava sozinho enquanto eu, paradoxalmente, havia recebido uma filha sem nem pedir e um cargo que eu nem esperava.

A única coisa que eu pensava era o quanto meu irmão merecia ser feliz...

Aquele foi meu último pensamento antes de dar as costas para aquela sala e seguir Naruto e Sai em direção à um evento na escola que eu tanto havia dito um dia que eu não voltaria devido as lembranças...

Continua...

Notas finais
Betado por Hitsatuke heheheheheh Capítulo grande focado mais para apresentar um pouco mais da empresa que muitos já me perguntaram sobre os detalhes sobre ela. Hoje, eu apresentei o departamento de Design, no decorrer da história outros setores serão apresentados além de mostrar um pouco do lado trabalhador de Uchiha Sasuke! ^^ Para quem gosta de fics concluídas, Re/Desconfigurado foi concluído e este é o link da história: https://fanfiction.com.br/historia/630447/ReDesconfigurado/ Boa Noite pessoal ^^ espero por poder ler a opinião de vocês, aliás, o que vocês acham que vai acontecer nesse passeio do Uchiha por esse evento da escola??? hehehe Beijos! Até a próxima!