Procura-se uma Uchiha
18 Chichi no Hi – Parte II
Notas iniciais
Sasuke...
Retirei o meu capacete e encarei, com os olhos semicerrados, a construção do ginásio à minha frente.
Desci da moto e esperei Naruto estacionar seu Porsche laranja e Sai, seu Audi R8 preto, ambos ao meu lado.
Não falei nada, apenas suspirei e pus as mãos nos bolsos seguindo os dois pais tagarelas à minha frente.
Vez ou outra, Naruto olhava por cima do ombro e proferia algo para mim em seu eterno tom animado, mas eu apenas me limitava a frases curtas e acenos, enquanto observava o estacionamento claramente vazio, porém, era apenas uma medida de segurança.
Não queria que nenhum paparazzo me reconhecesse e esbanjasse em suas capas de revistas que Uchiha Sasuke havia sido visto em uma confraternização de Chichi no Hi.
Tudo o que eu menos queria era confusão por hora com a mídia.
Assim que a paternidade for revelada, sabia que o inferno começaria com a mídia tentando entender de onde uma nova herdeira Uchiha havia surgido, por isso, eu não poderia simplesmente me desesperar para a anunciação, primeiro, deveria resolver dois grandes problemas que tinham nome e sobrenome...
Haruno Sakura e Haruno Sarada.
Por mais que elas não quisessem, o destino de ambas estava entrelaçado ao meu pelo resto de suas vidas.
Eu tinha consciência de que talvez nunca seríamos uma família normal e dali a algum tempo, talvez, eu encontrasse uma mulher com a qual eu descobrisse querer formar uma família. Mesmo assim, independente do que ocorresse com a gente ou que caminhos tomássemos, estávamos fadados àquele entrelaçamento do acaso.
E era justamente naquilo que eu vinha pensando nos últimos dias...
Levantei meu olhar assim que entrei no amplo ginásio de barulho intenso de conversas paralelas e risadas infantis.
Não pude deixar de admirar a sensação nostálgica de entrar naquele colégio depois de tantos anos.
— Esse lugar não mudou quase nada – peguei-me comentando para os homens ao meu lado.
— É... O diretor Orochimaru sempre gostou de manter a estrutura original, apenas modernizando e reformando quando preciso – entortei o rosto ao ouvir a referência ao nosso estranho diretor da época, o qual tinha olhos serpentinos.
— Esse cara ainda está vivo?
— Ele ainda é o diretor da escola, Sasuke – dessa vez, foi Sai quem respondeu.
— Por Kami – murmurei antes de sermos interrompidos por uma criança que pulou em cima de Naruto antes que o mesmo notasse a sua presença.
— Você veio – falou alto o garoto loiro tão semelhante ao pai.
— É claro que eu vim! – Naruto falou de braços abertos.
Entortei a boca com aquela gritaria desnecessária, vindo deles. Procurei pelo suporte de Sai para aguentar a gritaria, mas o moreno apenas acenou de costas para mim, afastando-se do local.
Bufei percebendo que ele tinha a desculpa de ir procurar seu filho, enquanto eu não sabia o que fazer ou para onde fugir.
Afinal, o que eu fui fazer ali?
Praguejei internamente procurando algum rosto conhecido de preferência que tivesse um metro e meio e cabelos curtos e negros, no entanto, minha tentativa foi frustrada, tendo que voltar a minha atenção para os loiros, tendo a leve ideia de que ela talvez não pudesse estar ali.
— Olha quem eu conseguir trazer para te ver – anunciou Naruto apontando para mim.
O garotinho franziu o cenho, não compreendendo o que eu estava fazendo ali.
— Tio Sasuke, o que o senhor está fazendo aqui?
Boa pergunta, minha língua coçou para dizer. No entanto, apenas suspirei e olhei para Naruto, buscando suporte.
O loiro coçava a nuca, mais perdido do que eu.
— Apenas estou acompanhando o seu pai.
— Não tínhamos nada demais para fazer e já é sexta a tarde. Resolvemos sair juntos, mas como eu tinha prometido que viria, Sasuke resolveu matar saudade dos tempos de escola com uma passadinha rápida.
— Mas não foi você mesmo quem disse que o padrinho não gosta da escola, otou-san? – Ficou confuso o garoto e eu apenas fuzilei o loiro mais velho que parecia constrangido pela língua comprida do filho.
Que tipo de coisa ele anda contando para aquela criança sobre mim?
Minha expressão endureceu e Naruto tentou contornar a situação.
— Que isso, Boruto. Apesar de tudo, eu e seu padrinho passamos nossa vida escolar inteira aqui nessa escola, temos muita história com ela...
— Como o time de... – começou gritando animado o pequeno, mas Naruto começou a gaguejar balançando os braços querendo interromper a fala de seu filho.
— Isso, isso, isso... agora me diga uma coisa, Boruto – pigarreou o loiro afrouxando a gravata que lhe parecia estranhamente incomoda. – Onde está a minha nora?
— O quê? – Eu e Boruto perguntamos ao mesmo tempo.
O garoto estava começando a ficar vermelho. Eu apenas fuzilava Naruto que ainda permanecia com aquela ideia de que teria a minha filha como nora.
Ai de Sarada se resolver fazer essa heresia... ai dela!
— Otou-san! – Repreendeu o pequeno, desviando o olhar rapidamente para o meu, antes de falar em um tom mais baixo, ocultando parcialmente a boca, tentando confidenciar algo ao pai, mas que eu escutei para a minha infelicidade. – Eu já disse para o senhor não falar assim da Sarada-chan em público, algum amigo dela pode escutar!
A esse momento meus punhos já estavam cerrados dentro dos meus bolsos. Minha unha já perfurava a minha carne e meus olhos estavam fechados em frustração, tentando procurar resquícios da paciência que eu já não tinha mais.
Sarada-chan? –chan? Esse garoto chamou a minha filha de Sarada-chan?
Reabri meus olhos e fitei Naruto que sorria torto.
Kami me odeia, essa foi a minha constatação ao encarar o garoto que eu me lembrava como agitado e encrenqueiro, completamente calado e de olhar baixo, enquanto, pelo seu perfil, ainda era possível ver resquícios de seu rosto corado só com a menção daquele assunto.
Respirei fundo e lancei um olhar significativo que fez Naruto engolir em seco.
— Então, Boruto, onde ela está?
— Eu não sei – deu de ombros olhando ao redor como se a procurasse com seus grandes olhos azuis. – Na verdade, depois que eu mostrei o meu desenho para ela, Sarada se despediu e entrou pelo acesso à escola – apontou para uma porta dupla azul marinho com pequenos visores circulares em cada um deles. – Ela não parecia muito bem, mas não deve ter ido embora porque estava ajudando a Kurenai-sensei com a iluminação e outras coisas – ouvi atentamente tendo uma ideia do que poderia ter acontecido com a garota.
Não me despedi, apenas troquei olhares com o loiro mais velho que assentiu, antes de lhe dar as costas e caminhar calmamente em direção às portas duplas que Boruto havia indicado.
Não fui importunado em meu caminhar e suspirei aliviado quando me encontrei no corredor com o silêncio sendo quebrado apenas pelo leve burburinho que vinha do grande ginásio cheio de tantos pais e filhos admirando projetos infantis.
Olhei para os dois lados e não vi nenhuma silhueta humana, mas eu sabia exatamente onde procurar uma criança que gostaria de se esconder e ter controle da iluminação.
Mordi meu lábio inferior sentindo a má sensação de dejá vù retornar com força enquanto dava passos largos, em direção às escadas para o andar superior, passando por uma grande estante de troféus que não dei importância.
No andar superior, o silêncio era ainda maior e intimidador, dando a ideia de que eu estava sozinho naquele colégio fantasma de longos corredores cheio de armários escolares.
Só parei de andar quando encarei a porta estreita com poucos dizeres, entre eles, “Acesso Restrito”.
Fiquei alguns segundos encarando aquela porta e só quando o gosto férreo se fez presente em minha boca, eu percebi que estava paralisado, mordendo com força a parte interna da minha bochecha.
Quantas vezes eu já havia entrado ali anos atrás?
Cerrei os olhos segurando a maçaneta fria, mas não abri pensando por um segundo que talvez ela não estivesse ali do outro lado, assim como eu já estive.
Não, ela não estaria.
E foi com esse pensamento pouco otimista que eu abri uma pequena fresta da porta, vendo o ambiente completamente escuro com uma fina tira clara no chão, devido a luz parca que entrava pela pequena passagem que eu havia criado.
Abri mais um pouco. Por um segundo, nada demais aconteceu, mas um leve movimento de uma cadeira de frente para o grande painel cheio de botões, denunciou que aquela pequena sala não estava tão vazia quanto aparentava ser.
Suspirei e inspirei procurando coragem para entrar naquele lugar que já foi tão íntimo de mim.
Fechei lentamente a porta e caminhei silenciosamente em direção às duas cadeiras giratórias.
Só quando eu cheguei perto o suficiente, pude ver o perfil da menina que estava encolhida.
Sarada estava abraçada às suas pernas, enquanto seu olhar estava perdido na visão do andar inferior, sem prestar atenção em nada especificamente. Apenas perdida em pensamentos.
Não havia nenhuma expressão nela, apenas a seriedade e olhos desfocados, ainda mais desfocados do que eu havia visto nos últimos dias.
— É um ótimo lugar para se esconder, não acha?
O susto foi instantâneo, fazendo com que eu tivesse que a segurar para que ela não caísse da cadeira e se machucasse com a queda.
— Sarada, você está bem? – Perguntei, ainda mantendo minha mão esquerda segurando seu braço, enquanto minha direita repousava em suas costelas como segurança para a menina que arfava tentando controlar a respiração.
Assim que se acalmou, seu rosto se virou para procurar pelo meu, cerrando os olhos como se não acreditasse no que estava vendo.
— Sasuke? – Perguntou incrédula, enquanto a soltava e me sentava na outra cadeira, à sua esquerda. – O que você está fazendo aqui?
Crispei meus lábios buscando a justificativa que eu nem ao menos sabia qual era, olhando furtivamente para o andar inferior como se ali eu fosse encontrar a resposta.
Ela não disse mais nada, mas permaneceu com a cadeira giratória voltada para mim, encarando-me com desconfiança e uma pontada de curiosidade, algo, que mesmo na penumbra, seus olhos não deixavam de negar.
Suspirei e disse a primeira coisa que veio à minha mente:
— Andando por aí – sorri de canto assim que ouvi seu bufar indignado.
Minha cabeça, encostada no estofado de couro antigo, pendeu para o lado, podendo visualizar a menina com um bico de frustração.
Assim que ela percebeu meu sorriso irônico, voltou sua cadeira para frente do painel com petulância, deixando seu rosto fora do meu alcance.
— Você resolveu dar uma volta e acabou vindo para uma escola onde está ocorrendo um evento infantil? – Voltou o rosto para mim com uma sobrancelha erguida depois de alguns instantes.
— Tudo é possível – dei de ombros. – Até onde eu sei, tenho liberdade de transitar por aí.
Ela bufou, virando o rosto antes de voltar a abraçar as pernas e apoiar o queixo para observar o trânsito no andar inferior.
Ela parecia ainda menor naquela posição, parecia diminuir e ficar cada vez mais indefesa e não pude deixar de lembrar de mim.
Acabei dando um sorriso sem humor para as minhas mãos no meu colo. Aquelas cadeiras pareciam ter diminuído com o tempo, não conseguiam mais suportar e intimidar o meu ser como quando eu era aluno daquela instituição e corria para me isolar naquele lugar devido a uma raiva ou frustração momentânea.
— Sabe como eu descobri que você estava aqui? – Sussurrei encarando o vai-e-vem das pessoas sem escutar nenhum som atravessando aquelas paredes com a acústica isolada.
Senti o olhar de Sarada se voltar para mim, mas eu apenas continuei encarando aquele movimento sentindo como se estivesse no passado.
Nem eu mesmo sabia o porquê de estar falando sobre aquilo já que era claro a todos que eu não gostava de falar daquela época ou de meus antigos e incorrigíveis problemas de um passado longínquo, mas ultrapassando todas as barreiras que eu havia imposto naquelas memórias, acabei admitindo:
— Era sempre aqui onde eu me escondia quando tinha um evento na escola e ficava encarando as pessoas que sorriam e pareciam ter vidas perfeitas. Em grande parte, eu as invejava – sorri sem humor, deixando meu rosto pender para o lado, vendo a expressão confusa de Sarada.
— Isso não faz sentindo – balbuciou. – Por que você se escondia? Não vejo motivos!
— Faço essa mesma pergunta para você – aquela frase a pegou de surpresa e seu olhar confiante vacilou, olhando ao redor como se quisesse achar uma maneira de fugir dos meus questionamentos.
— Ora, como se eu devesse alguma justificativa para você – falou fingindo confiança momentaneamente, o que só me fez sorrir um pouco mais antes de encarar o painel, ignorando suas últimas palavras.
— Vamos fazer o seguinte: eu te conto uma história e você me responde uma pergunta que eu te farei.
— O que eu ganho com isso? Não há motivos para eu querer saber algo sobre você ou você sobre mim e se acha que essa tentativa barata vai fazer com que eu te aceite por causa da minha mãe...
— Eu nem pensei na Sakura – levantei a minha voz, interrompendo-a. A menina se calou quando eu a encarei com seriedade. – Você escolhe, ou ficamos aqui em um silêncio incômodo ou podemos conversar como duas pessoas civilizadas para passar o tempo.
— Duas pessoas civilizadas? – Ergueu uma sobrancelha confiante, cruzando os braços enquanto um sorriso pequeno brincava com divertimento em seus lábios. – Falou o cara que batizou meus tomates – foi irônica.
— Quer mesmo que eu comece a dizer tudo o que você fez comigo? Aposto que saí mais lesado – entrei na onda e ela deu de ombros, parecendo mais relaxada do que aparentava quando eu cheguei ali.
— Desculpa se eu sou tão boa e experiente no que eu faço com os meus vizinhos.
Acabei soltando uma risada com aquele comentário petulante.
— Acredite, se você soubesse tudo o que eu já fiz, descobriria que você é uma santa.
— Quer vergonha. Um marmanjo se vangloriando de ter feito travessuras – falou com humor.
— Não tenho culpa de ser tão bom no que faço – imitei-a, piscando um olho. Foi a vez de Sarada rir, mas logo pigarrear se repreendendo por ter se socializado com o seu atual “inimigo” e vítima nas brincadeiras.
— Tudo bem. Abrirei uma exceção hoje, não tenho mais nada de interessante para fazer mesmo – deu de ombros, tentando transparecer, sem sucesso, que aquilo não lhe significava nada, mas o desvio de olhar e sua mãozinha alisando o painel empoeirado, denunciava a clara mentira.
— Eu nunca fui muito próximo do meu pai – comecei em um sussurro, tomando toda a atenção e olhar da pequena ao meu lado. Sorri de canto para a sua expressão surpresa. – Sabe... todos acham que ter uma vida de sucesso e rosto estampado em revistas é um sonho, mas não é bem assim. Desde que eu me entendo por gente, a empresa e a mídia se relacionam com a minha família. Todos admiram a tão aclamada família Uchiha, dizendo o quanto ela é inalcançável e seus membros, taciturnos. Você sabe como a Uchiha’s Company surgiu, Sarada?
A menina assentiu freneticamente, ajeitando seus óculos.
— Sim... tudo começou com o fliperama inaugurado pelo Madara-sama, o seu avô. Os jogos eram criados por ele, com o tempo, fizeram sucesso, transformando-se em um negócio maior e mais ambicioso, mas só se tornou a grande e aclamada empresa, quando os negócios passaram a ser comandados por Fugaku-sama, o – fez uma pausa franzindo o cenho – seu pai – sussurrou.
Eu assenti com tudo o que ela disse, suspirando ao fim.
— Há um preço a se pagar com o sucesso e esse pagamento é sua própria família quem sofre. Quando eu nasci, a empresa já estava com uma ampla influência pelo país, inaugurando seus primeiros negócios no exterior. Meu pai não tinha tempo para ficar em casa, passava a maior parte do tempo na empresa com o auxílio do meu avô e do meu tio para cuidar de toda aquela explosão empresarial.
“Eu sempre ficava na grande mansão da família, fechado em meu quarto. Minha mãe sempre me dava atenção quando podia, no entanto, suas tarefas como a matriarca da família, já que a minha avó falecera muitos anos antes de eu nascer, fazia com que ela passasse o dia ordenando os empregados da mansão, onde todos nós vivíamos com a aparência de uma grande e unida família.
“Itachi era o único que passava um pouco mais de tempo comigo e foi ele quem me transmitiu meus primeiros conhecimentos sobre tecnologia”.
Acabei sorrindo um pouco ao ver os olhos arregalados e levemente brilhantes da menina.
— Você é fã dele, não é? – Ela gaguejou desconcertada por estar tão óbvia essa constatação em seu rosto. – Não fica constrangida, ele é uma boa pessoa e carismático com os outros, merece sua admiração, além de que ele achou você uma menina bem interessante depois daquele encontro na última Feira da companhia – dei um sorriso de canto e ela se encolheu com um leve sorriso nos lábios.
— Vocês falaram sobre mim? – Sua pergunta saiu constrangida e arrastada.
Eu assenti.
— Ele riu das coisas que você aprontou comigo, disse até que a melhor foi a da tinta – ri levemente com a face corada da menina apesar da escuridão que camuflava sua vergonha.
— Que vergonha – murmurou.
Dei de ombros.
— Mas, e o resto da história? – Perguntou com uma curiosidade inocente.
— Apesar da companhia do meu irmão, ele era mais velho e tinha que se dedicar aos estudos e sempre era levado para a companhia quando havia alguma reunião importante. Os Uchiha começam a aprender o ofício muito cedo, não importa a idade – frisei e ela assentiu, atenta a cada detalhe que eu lhe dizia. – Eu ficava ali, sozinho, dentro de uma grande mansão, olhando para a chuva que acertava as janelas do meu quarto com várias ferramentas ao meu redor.
“Minha okaa-san ficava preocupada com o perigo de mexer naqueles equipamentos, mas ela não poderia evitar o destino que seus filhos teriam que ter para suportar e abrilhantar ainda mais a empresa em explosão”.
— Mama, também vive reclamando de mim por mexer em coisas eletrônicas, sempre dizendo que eu posso tomar um choque ou me machucar – comentou entortando o rosto com a lembrança.
— Preocupação de mãe – dei de ombro.
— Elas não conseguem entender que existe uma coisa chamada equipamento de segurança – revirou os olhos, enquanto ri de sua indignação tão característica até mesmo para mim.
— Verdade, mas com o tempo elas desistem e nos aceitam – sorri de canto e ela me correspondeu com outro sorriso, acomodando-se melhor e com as pernas dobradas abaixo de si, como se esperasse que eu continuasse com a história. – Eu não tinha muita noção naquela época. Para mim, aquela vida era normal, mas estranhava quando eu recebia a visita de Naruto, sempre tão animado e espontâneo, às vezes até contando sobre suas peripécias com o pai – percebi que o semblante de Sarada ficou confuso e um pouco perdido em pensamentos, como se lembrasse de algo após ter dito aquilo, mesmo assim continuei quando os olhos negros, atrás das lentes, voltaram-se para mim como se quisesse escutar o resto. – Apesar da estranheza, permaneci calado. Os anos se passaram e eu comecei a ser requisitado para comparecer nas reuniões. Eu era apenas uma criança pequena que não entendia de negócios, mas permanecia atento a tudo, em silêncio, prestando atenção nos adultos Uchiha com quem eu, mesmo morando na mesma casa, não tinha muita convivência. Ficava encarando meu pai e sua expressão séria para as apresentações de novos projetos ou acordos fechados.
“É estranho dizer algo do tipo, mas eu comecei a ficar ansioso para participar dos eventos de negócios para poder me sentar ao lado do meu pai e de meu nii-san e ter um pouco da proximidade que eu não tinha.
“Os anos se passaram e comecei a notar como as outras crianças se comportavam, principalmente com seus familiares. Não vou mentir, senti inveja infantil das vidas comuns dos meus colegas de sala que sempre me viam como alguém que estava acima deles só por ser um Uchiha.
“Acredite, Sarada, um sobrenome pode ser um grande peso para uma criança”.
Sarada assentiu com tranquilidade, mas eu me calei só então percebendo o que eu estava fazendo.
Não era um simples contar do meu passado. Eu estava tentando informá-la inconscientemente sobre o que seria a vida dela dali por diante.
No dia em que eu contasse a verdade, a pacata vida de Sarada seria mudada sem volta.
Ela não seria apenas uma simples Haruno, ela viraria uma Uchiha e com isso, teria que aguentar tudo o que os Uchiha têm que aguentar.
Ela não caminharia mais tranquilamente sobre seus patins ou skate para ir para a escola como uma garota comum. Ela seria assediada e perseguida por paparazzi e teria seu rosto estampado em tantas revistas, muitas vezes, com histórias que a difamariam só para ter uma renda maior nas vendas.
Mordi o interior da minha bochecha perguntando-me continuamente: “Eu tenho o direito de mudar a vida dela?”
Por mais que ela fosse a pestinha que mudou a minha cor, arranhou o meu carro, destruiu parte do piso do meu apartamento, me bateu com um taco e pulou em cima da minha barriga para me acordar...
Ela era a minha filha.
E essa constatação fez minha garganta secar.
Eu sabia que Sakura e Sarada não eram interesseiras, na verdade, pareciam quererem me ver pelas costas, mas, infelizmente, eu precisava delas...
Mesmo assim eu me mantinha em silêncio com o segredo.
Afinal, o que eu estava esperando?
Que as consequências não fossem tão ruins do que seria se eu contasse nesse exato momento. A resposta veio fácil e fluida em meus pensamentos.
Se eu contasse agora, o que teria?
Meu cargo garantido e uma filha perseguida que não gosta nada do pai que tem, mas que está parecendo começar a ficar interessada pelo que eu lhe contava...
Suspirei pesadamente com toda aquela situação complicada, animando-me com a ideia que eu já tinha e estava tendo a oportunidade de ter...
O simples fato de conhecê-la ainda mais e de quebra, poder fazê-la me escutar antes de tentar me bater com um taco de beisebol com a ideia de que eu estava apenas interessado em sua mãe, enquanto a verdade era que eu estava ali...
Por ela.
Sempre foi... apenas por ela.
— Eu comecei a virar um garoto encrenqueiro, não que eu gostasse daquilo, mas era simplesmente para chamar atenção – Sarada franziu o cenho e abaixou o olhar. – Eu simplesmente queria que alguém olhasse para mim, eu queria que meu pai olhasse para mim, mas ele sempre me olhava para me dar bronca e por isso repetia com as brincadeiras, chamando cada vez mais atenção.
“Certo dia, minha mãe disse que meu pai iria junto à comemoração do Chichi no Hi que ocorreria no colégio – o rosto de Sarada se sobressaltou e arregalou os olhos, encarando furtivamente o andar inferior. – Eu dei de ombros, mas acabei passando algumas madrugadas acordado construindo um pequeno robô como tarefa para tal evento – sorri sem graça com a lembrança, antes de passar as mãos pelos meus cabelos, suspirando pesadamente. – Com grandes bolsas sob meus olhos e mãos calejadas, com curativos eventuais, eu compareci ao evento, mas...”
— Ele não foi, não é? – Supôs a menina em um sussurro, com um leve olhar triste.
— Exatamente. Apenas minha mãe e meu irmão vieram e tentaram explicar a situação, mas eu simplesmente não queria entender os motivos dele ter viajado de última hora para outro país. Eu simplesmente não queria ser trocado por uma empresa e por isso – inspirei profundamente procurando coragem de admitir o que havia feito – eu joguei com força o robô que eu havia criado no chão, fazendo todo o meu trabalho se tornar meras ferramentas deslizando pelo chão do centro do ginásio, enquanto todos nos olhavam com curiosidade – sorri sem graça para a boca infantil que se abriu com espanto. – Eu corri e achei esse lugar para me esconder, já eram altas horas da noite quando um segurança particular me encontrou desacordado e me entregou para a minha mãe.
Sarada abraçou as pernas, ficando em posição fetal.
Os segundos se passaram até que sua voz baixa e insegura perguntou:
— Você nunca tentou se aproximar dele depois disso?
— Depois de anos, você desiste, mas estaria mentindo se dissesse que não tive outras tentativas frustradas – sorri minimamente, tentando mostrar otimismo.
— É por isso que você não gosta desses eventos?
— Serei sincero com você – juntei minhas mãos e me inclinei um pouco em sua direção – não gosto dessa escola, porque ela me faz lembrar da época em que eu me importava.
— Você não se importa mais?
— Aprendi a ignorar e seguir em frente, mas não podemos mudar o passado, pois ele faz o que somos hoje. Temos que seguir em continuidade.
— A vida é como um jogo, onde não há Reset, apenas o botão Continue— balbuciou a frase que eu tanto conhecia e que me pegou de surpresa por escutar ali, naquela saleta isolada. – Esse é o lema da UC.
— Sim – assenti. – O lema criado pelo meu pai.
— Você – ela abaixou os olhos para seus sapatos escolares inquietos – sente falta do seu pai? – Levantou seus olhos negros depois de se manter um bom tempo em silêncio.
— Eu não sei – admiti. – Eu estava começando a programar um novo jogo quando a minha mãe me ligou de madrugada, ela estava em prantos e eu sabia que não haveria boas notícias. Quando ela disse o que havia acontecido com ele, eu apenas continuei olhando para aqueles códigos incompletos por um longo período. Uma hora se passou até que eu chegasse no hospital e visse minha mãe sendo amparada pelo meu irmão abatido. Eu não chorei, nem mesmo em seu enterro, apenas não sabia como reagir.
— Você se arrepende de não ter aproveitado o tempo para se aproximar dele? – Perguntou incerta, ultrapassando todos os limites de um assunto particular.
— Nem eu mesmo parei para pensar nisso – admiti.
Ela sorriu um pouco antes de começar a falar:
— Respondendo a sua pergunta, eu não tenho motivos para estar lá embaixo – seus ombros estavam muito encurvados e a menina encolhida.
— Como assim?
Ela suspirou antes de levantar o olhar para mim. Havia incerteza neles, mas ela resolveu ceder:
— Eu vou te contar uma coisa, só porque você foi sincero em sua história, mas o que for dito aqui dentro, fica aqui dentro, certo? – Eu assenti e ela pareceu relaxar. – Eu... eu não tenho pai – mordeu o lábio inferior com força. – Você já deve ter percebido que não há um homem morando conosco, isso é porque eu sou fruto de uma inseminação in vitro – sua voz sumiu. – Nunca tive uma presença paterna e como você mesmo disse, isso no início não é importante, porque vivendo dentro das paredes de nossa casa quando somos pequenos, achamos que aquilo é normal, mas... com o tempo, percebemos que não é bem assim – abaixou o olhar. – Eu não me sinto bem em meio a tudo aquilo e sempre acabo aqui, olhando pessoas com vidas clichês, tentando imaginar como é ter uma vida assim.
Ela se calou e permaneceu com os olhos no chão.
Era claro que Sarada tinha uma sensibilidade muito mais apurada e uma visão de mundo mais profunda do que de uma criança de sua idade. Ela amava Sakura acima de tudo e não se ressentia pelo fato de não ter lhe dado um pai, mesmo assim...
Isso não a impedia de sentir.
Era estranho olhar para aquela menina sempre tão confiante, com todas as suas barreiras ruídas e derrubadas, deixando à mostra para mim algo que era claro que ela estava insegura de contar, tomando coragem para ser sincera quando eu mostrei confiança em compartilhar algo com ela.
— Não conta isso pra ninguém, por favor – pediu sem me olhar, focando-se em sua perna que balançava monotonamente.
— Eu não vou contar. Esse vai ser o nosso segredo – sorri minimamente, vendo os olhos surpresos que assentia com fervor. – Você... sente falta dele? Gostaria de... sei lá... conhecê-lo?
Mordi o interior da minha bochecha, esperando a resposta da menina surpresa com o questionamento repentino.
— Bom – começou incerta – falta, acho que não, minha mãe vale pelos dois, esse cara mal sabe a sorte grande de ter a minha mãe como progenitora de sua filha. – Eu sei sim, Sarada, pensei. – Mas, conhecer – seus olhos vagaram pelo ambiente antes de focar em mim – sim – admitiu e foi a minha vez de desviar o olhar – queria poder perguntar porque o meu pai de vidrinho me colocou em um potinho – falou com humor, antes de continuar rindo levemente – porque, vamos ser sinceros, o que faz um cara ir em uma clínica pra bater uma? Altruísmo não me parece uma opção.
— SARADA! – Ralhei assustado com a boca suja da garota, agradecendo por estar no escuro e meu constrangimento de estarmos falando daquela parte do meu passado sem nem ao menos ela saber que se tratava de mim, estar camuflado.
— Desculpa – deu leves batidinhas em sua boca suja, sem parar de rir com os pensamentos que me eram um segredo. – Mamãe sempre diz que eu tenho uma boca suja, mas não tenho culpa se é engraçado pensar nisso – abriu os braços mostrando inocência.
Sarada continuou a proferir como achava que deveria ser esse tal “pai de vidrinho” e ficava cada vez mais surpreso com as distorções que a imaginação fértil e Sarada e Sakura construíram sobre mim e das intenções assassinas de Sakura para me espancar caso me conhecesse, culpando-me de todo o lado incomum de sua filha.
Sarada se mostrou uma verdadeira tagarela, enquanto limitava-me a poucas sentenças, estimulando-a a contar mais e mais, apenas sendo interrompida quando teve que tomar conta da apresentação de slides que consistia na foto dos alunos com seus pais, todos estavam lá, menos eu e Sarada.
Toda a leveza da nossa conversa pareceu desaparecer da menina quando encarou aquela apresentação.
Fiquei inquieto me perguntando o que eu poderia dizer para suavizar tudo, mas foi a menina quem tomou a iniciativa quando aquela tortura terminou.
Sarada pulou da cadeira e me perguntou com o olhar se eu ainda continuaria ali, eu apenas me limitei a segui-la para fora, parando apenas quando estranhamente a menina parou subitamente em frente aos troféus no andar inferior.
— Você não disse que participava do time de beisebol – comentou apontando para uma foto em particular.
— Se lembra que eu disse que fiz algumas tentativas frustradas? – Ela assentiu interessada. – Bom, essa foi uma. Itachi descobriu que o esporte preferido do nosso pai era beisebol...
— Sério? – Gritou surpresa. – Esse é o meu – começou animada, mas depois diminuiu a voz com pesar – quer dizer... foi o esporte que eu achei interessante quando assisti na televisão, mas...
— Você não sabe jogar – supus.
— Como você sabe?
— Você não pega da maneira correta no taco de beisebol – falei o óbvio que já tinha notado.
Ela suspirou.
— Pois é – disse sem graça – é difícil encontrar pessoas que gostem de beisebol, por mais que esse esporte esteja em expansão no Japão. Enchi o saco da minha mãe por um ano inteiro até conseguir que ela comprasse um para mim. Não aprendi a jogar, achei outra utilidade para ele – sorriu torto e eu compreendi a que ela se referia – além de assistir a todos os jogos da MLB* com ele.
— Nossa, não assisto um jogo dessa liga desde os meus tempos de beisebol apenas para chamar atenção do meu pai.
— Ele ia para os seus jogos?
— Na verdade, não – a expressão alegre se tornou penosa – mas nesse dia – apontei para a foto – foi o final do campeonato e ele foi. Eu era rebatedor e estava desanimado por não ter visto ele na arquibancada, mas Naruto apontou para a arquibancada logo que meu nome foi anunciado, quando eu olhei para trás, vi minha família reunida. Nesse dia eu fiz um home run* e ganhamos o campeonato.
— Dá para ver sua felicidade – comentou analisando a foto, mas deixou um sorriso fraco e tímido se apossar quando me olhou curiosa. – Qual era o time preferido dele na MLB?
— NY Yankees.
Os olhos da Sarada brilharam com aquela notícia.
— Eu sabia – ela gritou dando pequenos pulinhos animada. – Eu sabia que ele não poderia ser tão ruim assim – buscou ar e tossiu tentando se controlar quando percebeu meu olhar questionador para aquele ataque súbito da menina. Sem graça ela explicou. – Yankees é o meu time preferido da MLB. É difícil encontrar pessoas que curtem beisebol aqui em Tóquio e de quebra, sejam fãs dos Yankees! – Deu um pequeno gritinho.
Suspirei me ajoelhando para ficar da altura da menina ainda animada com a notícia que entre os Uchiha havia um fã de Yankees.
Toquei meu dedo indicador e médio em sua testa, o que a surpreendeu e fez parar confusa, olhando para os meus dedos ainda repousados em si.
Sorri de canto.
— Nunca disse que ele era uma pessoa ruim. Apenas, um pai ausente – dei de ombros tirando meus dedos da testa da menina. – Ele vivia tanto tempo trabalhando, pensando que estava fazendo bem para sua família que nem ao menos sei se ele percebia o que estava realmente causando.
— Ótimo, então você tem consciência de que quando for a sua vez tem que dar atenção para os seus filhos, mesmo sendo o Presidente da Uchiha’s Company – fez uma pose severa, apontando o dedo indicador para mim.
— Claro, revidarei cada travessura que tentarem fazer comigo ou irei nesses eventos infantis – sorri de canto, pois era exatamente o que eu fazia com ela.
Ela concordou sem saber o real significado das minhas palavras em relação a si.
— Aliás, – cobriu a testa com as duas mãos – o que foi isso que você fez com os dedos?
Ri um pouco me levantando e contornando a pequena curiosa que me seguia.
— Quem sabe da próxima vez eu te conto – pisquei por cima do ombro, rindo da menina que bufou em frustração.
— Ei, Sasuke – me deteve antes que eu passasse pela porta dupla.
— Sim – estimulei assim que eu vi a expressão contraditória dela.
— Apesar de termos tido uma conversa legal, isso não quer dizer que nossa relação mudou – virou o rosto completamente corada.
— Claro, não esperava outra coisa de você – sorri de canto passando pela porta dupla sem antes deixar de perceber a expressão surpresa e o sorriso de canto traiçoeiro, antes de algo prender sua atenção na multidão.
Antes que eu percebesse, Sarada já corria para longe de mim, restando a mim, segui-la tentando entender o que havia acontecido, mas assim que ultrapassei uma multidão, estanquei vendo a minha filha abraçando com força uma rosada surpresa que logo substituiu a expressão por um leve sorriso enquanto afagava os cabelos negros e lisos da pequena.
— Você veio! – Falou alegre a criança, olhando para Sakura que sorria assentindo.
— Eu consegui tirar uma folga pela tarde inteira para vir te buscar e passarmos o dia no shopping para comprarmos aquele jogo que você tanto me pediu.
— Mas o horário ainda não terminou.
— Já falei com a Kurenai-sensei – piscou um olho para a filha que pulou de felicidade a abraçando mais.
— Valeu! – Agradeceu, antes de afastar um pouco de sua mãe, sem soltar suas mãos. – Mas sabe mama, eu estava pensando, podemos deixar para comprar o jogo na próxima vez, hoje eu queria comprar uma camisa dos Yankees – disse sem graça.
— Yankees? Eu comprei um boné oficial deles para você não faz muito tempo, pensei que a próxima camisa que você fosse querer era do AC/DC – comentou confusa a rosada.
— Ela descobriu que o meu pai era fã dos Yankees – pronunciei-me, denunciando a minha presença para a surpresa da rosada que me olhou sem entender.
— O que você está fazendo aqui, Sasuke? E, espera aí, vocês dois estavam conversando e a Sarada não tentou te matar – comentou sem acreditar.
— Mamãe! – Repreendeu uma vermelha Sarada.
— Até parece que eu não te conheço, Sarada – rebateu para um maior constrangimento da pequena e para que meu sorriso aumentasse mais com aquela situação.
— Ele só está andando por aí – explicou a nossa filha – mas voltemos aos Yankees. Vai ter um jogo da MLB e eu queria uma camisa nova – sorriu sem graça.
Sakura suspirou puxando a filha para um abraço.
— Tudo bem, tudo bem. Compraremos uma camisa nova dos Yankees para você usar com o seu boné, enquanto você agarra seu taco e brigamos pelo domínio do balde de pipocas, já que eu não entendo nada daquele jogo – falou com falso pesar e eu acabei rindo imaginando a cena de mãe e filha.
— Sarada! – Gritou alto uma mulher de cabelos negros repicados que cortava a multidão sobre seus saltos.
— Kurenai-sensei? Algum problema? – Perguntou uma Sarada confusa.
— Ah... nada demais, só vim te entregar sua rosa. Todos os alunos recebem uma. Eu sei que você...
— Arigato, Kurenai-sensei – cortou a pequena com um mínimo sorriso, enquanto a mais velha lhe entregava a rosa vermelha que é o símbolo entregue de filhos para os pais.
A sensei se despediu rapidamente, enquanto Sarada olhava intrigada para flor de pétalas tão bem cuidadas.
Sakura suspirou para a visão, afagando levemente as madeixas da garotinha.
— Vamos, Sarada. Ainda temos um shopping e algumas lojas de esportes e música para desbravarmos – tentou soar animada para a filha que assentiu com um pequeno sorriso.
Elas se separaram e começaram a caminhar de mãos dadas, lado a lado, enquanto eu as acompanhava para o estacionamento cheio de carros.
Nossa despedida foi rápida. Ainda escutava suas vozes e risadas à distância quando estava sentado sobre a minha moto e as observava entrando no Jeep.
No entanto, assim que coloquei o capacete já me preparando para partir, vi Sarada sair correndo do Jeep, vindo em minha direção.
Ela estava ofegante quando chegou, apoiando as mãos em seus joelhos para recuperar fôlego.
— Toma – esticou a rosa na minha direção, mas a surpresa me fez ficar parado, encarando-a sem entender. – Pega! – Falou com mais fôlego, virando o rosto vermelho de constrangimento. – Eu não tenho mesmo para quem dar – murmurou.
— Pensei que daria para a sua mãe – comentei pegando a rosa, vendo o rosto da menina ficar mais rubro.
— Eu ia dar, mas... – seu olhar caiu no chão, mostrando todo o constrangimento daquela situação.
Percebendo que ela nem sabia como explicar sua atitude impulsiva, disse:
— Arigato, Sarada. Vou guardar ela com cuidado – sorri de canto.
Os olhos surpresos se voltaram para mim, mas ela nada disse, apenas saiu correndo de volta para o carro onde uma Sakura confusa nos encarava sem entender.
A mulher deu partida no carro, assim que sua filha pôs o cinto, buzinando em despedida. Eu apenas acenei, ligando a minha moto para logo me encontrar dirigindo sem rumo pelas largas avenidas de Tóquio, tomando o rumo do bairro nobre de grandes mansões.
Fazia tempo que eu não ia ali e sempre evitava ao máximo seguir aquele rumo, visitando a minha família em sua residência, só quando necessário, mas, naquele dia, acabei direcionando-me para os grandes portões de ferro com o emblema da família gravado em seu centro.
Os porteiros abriram assim que me viram aproximando, entrei na pista de pedras, parando na frente da escadaria que levava à entrada da mansão alva de três andares de estilo ocidental.
Sem cerimônias, saí da moto, deixando meu capacete sobre ela, permanecendo apenas com aquela rosa, para entrar no grande salão de piso xadrez, encaminhando-me para a grande escadaria bifurcada.
Com passos largos alcancei com facilidade o terceiro andar. O corredor longo de quartos estava pouco iluminado pela tempestade que se formava sobre a metrópole. O único som eram os dos meus passos e do chacoalhar das árvores além das grandes janelas à minha esquerda.
Abri em um rompante a grande porta de mogno do quarto que me pertencia.
A sensação nostálgica me assolou ao ver o quarto impecavelmente limpo, mas quase não mudado depois que eu saí de casa para a faculdade para nunca mais voltar para as dependências dos meus pais.
O grande grafite de parede inteira à minha direita, mostrava uma moto vermelha em um fundo azul.
A cama King Size estava encostada no centro daquela parede, de frente para a entrada do meu closed.
Olhei rapidamente para as estantes ao redor da entrada, vendo todos os jogos, projetos robóticos, mangás e decorações que eu acumulava durante toda a minha infância e adolescência naquele quarto.
Com passos apressados invadi o closed e logo encontrei a caixa que eu tanto estava atrás, no alto de uma prateleira.
Ela estava empoeirada e um acesso de tosse me atingiu assim que eu abri depois de me sentar no chão do meu quarto com as costas contra minha cama.
Eram meus antigos apetrechos que eu utilizava no beisebol quando eu tinha 14 anos.
O primeiro objeto tirado de lá de dentro me fez rir alto...
Era um taco de beisebol personalizado com o meu nome.
O segundo era a minha jaqueta branca de mangas negras e gola, pulsos e bainha listrados.
Meu capacete, minha roupa, medalhas, estava tudo ali e tirei colocando ao meu redor.
Meus olhos caíram sobre o último objeto ao mesmo que a torrencial chuva caiu sobre Tóquio.
Era um porta-retratos simples que referenciava à mesma foto que Sarada havia visto na escola, mas nessa, não era o time que me acompanhava, mas sim toda a minha família que sorria comigo no centro carregando o grande troféu.
Meu pai estava ao meu lado, pondo uma mão sobre meu ombro como se dissesse com orgulho que aquele era o seu filho.
Sorri fracamente para aquela fotografia ao som da chuva, só levantando o olhar quando ouvi a voz da minha mãe ao meu lado:
— Também gosto muito dessa foto. Ela mostra um dia feliz da nossa família, algo que nunca mais vai acontecer – seus olhos eram tristes e perdidos na fotografia, enquanto se sentava ao meu lado. Os finos dedos da minha mãe desenharam o contorno do meu pai e eu suspirei, passando meu braço esquerdo sobre seus ombros, com o intuito de trazer minha progenitora para o conforto dos meus braços.
Ela encostou sua cabeça em meu ombro, sem desviar os olhos da foto.
— Eu sinto tanta falta do seu pai – falou com a voz embargada, mostrando que aquela dor ainda não havia sido superada por mais que mostrasse em grande parte do tempo, a postura firme de matriarca Uchiha diante de toda a sociedade.
— Eu sei...
A confortei apoiando o meu queixo no topo da sua cabeça, enquanto olhava a chuva escorrer pelas grandes e frias vidraças, como há tantos anos eu observava, com exceção de uma rosa vermelha ao meu lado...
Continua...
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