Procura-se uma Uchiha
19 Como invadir uma empresa privada
Notas iniciais
Os únicos sons audíveis eram dos saltos desfilando pelo caro piso do largo corredor, iluminado apenas pelas grandes vidraças ao lado direito.
Mikoto cantarolou baixo uma música qualquer, quase de maneira inaudível, antes de subitamente parar com todos os sons do ambiente e esbanjar um largo sorriso, adentrando em um dos inúmeros cômodos da mansão Uchiha, hoje em dia, tão escassa de moradores.
— Bom dia, Madara-sama!
Os olhos negros cansados do patriarca daquela família de nome levantaram minimamente para sua nora, antes do assentir silencioso.
Os negros retornaram para as palavras da revista ao mesmo tempo que seus lábios proferiam:
— Parece com bom humor hoje – observou a súbita mudança da mulher que há semanas permanecia com semblante triste pelos corredores da casa.
— Meu menino veio aqui na sexta – comentou, sentando-se com elegância em uma das poltronas de couro de frente para mesa do magnata aposentado.
— Informaram-me sobre a vinda inesperada de Sasuke.
— Você bem que poderia ter se juntado à nós para o chá da tarde. Onde está o grande anfitrião Uchiha? – Provocou a mulher, cruzando os braços, erguendo o queixo.
— Tenho certeza que você recepcionou muito bem o meu neto, Mikoto – a voz cansada saiu baixa, enquanto suas pupilas continuavam direcionados à revista. – Além do mais, se Sasuke quisesse falar algo comigo, ele saberia muito bem onde me encontrar – sorriu de canto, sabendo que sua nora estaria revirando os olhos para a sua colocação.
Uchihas! Praguejou em pensamentos a morena.
— Somos assim e você sabe muito bem do que estou falando.
A senhora Uchiha suspirou com aquela última colocação de Madara.
Ele tinha razão. Os elementos daquele clã eram taciturnos. Não precisavam de grandes declarações, palavras ditas, ou horas de conversas em família; cada um permanecia em seu canto, tendo amor pelo seu laço de sangue sem nem precisar estar perto vinte quatro horas por dia.
— Às vezes eu acho que deveria ter corrido quando Fugaku me disse de maneira tão monótona que era um Uchiha – resmungou a senhora, tirando uma risada baixa do homem que a acompanhava.
Mikoto suspirou antes de se apoiar sobre os braços derramados sobre a mesa de vidro cheia de livros.
— Ela é linda, não achas? – Perguntou com encantamento, observando a capa da revista de fofocas daquela semana que se iniciava.
Madara analisou rapidamente a figura de cabelos rosas que saía do hospital no canto da página, antes de levantar o olhar para a mulher que não o encarava.
— Uma figura interessante, presumo – foi lacônico, tirando uma bufada audível daquela pessoa que ele estava tão acostumado a ter a companhia, como se Mikoto fosse a filha que ele nunca teve com sua falecida esposa.
— Que lisonjeador! – Debochou. – Sakura me parece ser a mulher perfeita para Sasuke – falou dando palminhas de empolgação. – Já até consigo me imaginar rodeada de netinhos rosados correndo pela casa e destruindo artefatos históricos.
O homem entortou levemente a boca para aquela última cena criada em sua mente, antes de comentar:
— Ela não é uma mulher de nome ou coisa parecida, mas presumo que isso não tenha importância no momento, mesmo que Sasuke esteja à frente dos negócios e precise conquistar a confiança de seus subordinados mostrando segurança e bons laços.
Mikoto revirou os negros tão bem marcados.
— Você está brincando comigo, não é, Madara-sama!? – Exigiu. – Pensando em acordos comerciais, enquanto o que importa é felicidade de seu neto. Foi-se o tempo em que casamentos eram arranjados por interesses de nomes.
— Não me importo se ela é uma mulher de nome ou não. Como você mesmo disse, esse tempo já passou e a Uchiha's Company não precisa de um acordo devido a um casamento arranjado. Só disse que Sasuke está em um momento delicado, em que tanto a Companhia quanto a opinião pública, e até mesmo o Conselho, estão tentando se ajustar e aceitá-lo como o melhor para todos. Uma grande Companhia de negócios tem grande influência sobre a economia de um país. Com a Uchiha's Company não é diferente, Mikoto.
— Eu sei. Eu sei. Mas não posso simplesmente querer que o Sasuke vá com calma quando eu acho que ele finalmente achou alguém com quem ele possa ser feliz – tentou se justificar.
O patriarca suspirou pesadamente.
— Para o bem ou para o mal, essa jogada foi de mestre – admitiu, jogando satisfeito a revista entre eles, deixando à mostra a capa para ambos os olhos.
Mikoto sorriu satisfeita para a revista que ela tinha relido tantas vezes com satisfação logo que acordara naquele dia.
— "A nova Imperatriz não é boneca de porcelana" – leu deliciada aquele título de letras garrafais.
— Digamos que no mundo moderno, as pessoas apreciam mulheres fortes e essa jornalista parece apreciar muito esse tipo de pessoa.
— Sim – concordou a mulher, pegando a revista com os olhos brilhantes. – Essa tal Mitsashi Tenten fez um trabalho esplendoroso. A opinião pública pela Sakura vai ser de dar inveja nessa semana.
— Mulher, médica, dona do próprio nariz e com uma carreira promissora conquistada com as próprias mãos.
— Não se esqueça que ela também é mãe solteira – Mikoto repreendeu o sogro com o dedo indicador.
— Sim, ela comentou sobre, na festa, mas a reportagem não disse nada sobre.
— Sakura é uma mulher discreta, não tem redes sociais ou algo do tipo. Não é tão fácil saber pela tela do computador que ela é mãe.
Madara ergueu uma sobrancelha surpreso antes de sorrir minimamente.
— Hakeando pessoas, Mikoto – falou com um leve toque de diversão na voz.
— Eu tinha que aprender algumas coisas básicas em todos esses anos sendo mulher, nora e mãe de Uchiha! – Falou com impaciência pela insinuação de seu sogro.
— Claro. Claro. Só não esqueça que pode ser difícil, mas nada é impossível de se descobrir.
— Será interessante o andar dessa história – sorriu a mulher, erguendo-se de seu assento, arrumando com delicadeza suas vestes caras. – No entanto, agora preciso fazer outra coisa.
— Vai sair? – Perguntou com interesse contido.
— Sim – sorriu para o sogro, relaxando as mãos sobre o encosto alto da cadeira. – Depois de passar horas conversando com o meu filho depois de tanto tempo sem ter esse contato com Sasuke, já que apenas Itachi é mais sociável, eu percebi que não posso permanecer isolada, fingindo sorrisos apenas quando estou em público. Tenho certeza que não era o que o meu marido – pôs a mão direita sobre seu coração, antes de apontar com delicadeza para o sogro – o seu filho, iria gostar que eu fizesse. Durante esse final de semana refleti muito e decidi que voltaria a trabalhar no que me faz feliz – sorriu largamente para o semblante envelhecido que a analisava confuso.
— Vai voltar a atuar, Mikoto?
— Oh, não! – Riu suavemente negando com as mãos. – Meus dias de glórias no palco já se foram. Digamos que dessa vez estou mais nos bastidores – piscou um olho marcado antes de sair cantarolando para o corredor, deixando um Madara confuso para trás que logo se recompôs e decidiu pesquisar mais sobre a tal rosada que andava muito interligada ao seu sobrenome nos últimos tempos.
***
Mikoto sorriu para o seu reflexo no camarim do Teatro.
— Como estou, Jiraya? – Perguntou para o diretor e escritor responsável pelo Teatro que a Uchiha era madrinha.
— Bela como sempre, minha inspiração dos palcos – fez uma exagerada reverência para a mulher, antes de beijar a costa da mão ofertada a si.
A mulher riu, deliciada com a imitação barata de Romeu que ela conhecia tão bem, desde que era apenas uma jovem atriz.
— Tem certeza de seu plano?
— Sim. Quero conhecer com meus próprios olhos os seres que carregam o nome desse Teatro – pôs as mãos na cintura, verificando mais uma vez seu disfarce.
Lentes de contato azul, cabelo Chanel loiro, óculos grandes e redondos, roupas simples com diversos artefatos de maquiagem e cabelo em seus bolsos.
— Quem me olhar assim, nunca saberá que está lidando com a tão aclamada "senhora Uchiha" – falou revirando os olhos para a última sentença, fazendo o homem rir.
— Devo dizer que macacão e all star não são trajes dignos de uma deusa— brincou com o significado de seu nome antes de receber língua da outra.
— Deixe-me aqui, Jiraya. Preciso ficar sozinha para receber os atores – falou firme, ajeitando os óculos.
— Se assim desejas... – não terminou a frase, apenas saiu para cuidar do script do ensaio.
Não demorou para os primeiros atores chegarem, alguns vinham em grupo, outros sozinhos. Alguns eram falantes, outros, tímidos. Mas Mikoto não se importou, conversava quando tinha que conversar; se mantinha calada e fixa no ofício de maquiar quando lhe era conveniente, mas sempre atenta à todas as conversas que ali transcorriam sem que eles descobrissem quem ela era ou estranhassem a súbita entrada de uma nova maquiadora no grupo.
Muitos falavam sobre a tal Uchiha Mikoto que tinha seu grande poster eternamente colocado no camarim daquele Teatro.
Muitos elogios e encantamentos eram dirigidos à mulher que eles mal sabiam que estava ao seu lado, mas Mikoto permaneceu em seu disfarce com destreza, entrando até mesmo na conversa empolgada entre mulheres que até citavam a misteriosa mulher de cabelos rosas que havia conquistado o coração do tão cobiçado Uchiha mais novo.
A morena sorria constantemente e sentiu seu coração, dolorido desde a morte repentina de seu marido, se aquecer com louvor durante aquelas horas no camarim. Seu sorriso só vacilou quando a atual "estrela" do Teatro chegou com o queixo erguido.
Mikoto tentava não revirar os olhos para cada reclamação da maquiagem que ela estava preparando ou comentário invejoso que a atriz fazia para a sua imagem juvenil no poster.
Nunca Mikoto agradeceu tanto por um ser se afastar de si, mesmo que ela proferisse sentenças soberbas e desestimulantes para o seu trabalho, mas seu pequeno momento de liberdade e proximidade de descanso acabou quando ela viu uma nova criatura esbarrar na "estrela" que saia do camarim.
— Perdão – pediu Izumi, notando a figura mal-humorada da atriz principal.
— Olha por onde anda, árvore! – Ralhou a mulher, antes de gargalhar vendo os grandes e vermelhos sapatos de palhaço nos pés da morena. – Belos sapatos – debochou rebolando para longe de si.
Izumi revirou os olhos antes de notar a maquiadora de olhos fixos em si.
— Oi – falou tímida, indo para a cadeira de frente para o espelho. – Desculpe pelo atraso – sorriu sem graça para o reflexo de Mikoto que se posicionava atrás de si, já desprendendo seu longo cabelo dos grampos. – Você deve estar exausta e eu estou te dando trabalho, se quiser eu posso fazer minha própria maquiagem, é só me dizer que personagem eu tenho que interpretar.
Mikoto paralisou os movimentos nos cabelos de Izumi, olhando-a nos olhos pelo espelho para saber se ela estava brincando com ela, mas a sinceridade brilhava naqueles olhos negros tão semelhantes aos seus.
A mais velha olhou para a caderneta que Jiraya havia lhe dado com o nome de cada membro e personagem, mas ignorou o personagem que havia sido designado a ela, tendo outra ideia.
— Relaxe e deite. Eu cuido de tudo! Você parece ter corrido uma maratona para chegar no horário aqui – disfarçou a voz, continuando os trabalhos manuais.
Izumi assentiu relaxando um pouco, sempre observando os movimentos tão suaves como uma pluma que a maquiadora fazia em seus cabelos.
— Qual é o seu nome?
— Kenkuia, e o seu?
— Izumi.
O silêncio se impôs sobre elas e Mikoto trabalhou com afinco naquele trabalho, com muito mais louvor do que nos outros atores.
O silêncio só foi quebrado depois de quase dez minutos, quando Izumi observava a imagem daquela que era sua inspiração.
— Ela é linda, não achas?
A mais velha tomou um pequeno susto e um bom tempo para perceber que ela se referia a ela, já que estava tão entretida com seu trabalho.
— Ah sim! A grande Uchiha Mikoto! Ela é muito linda – falou com a falsa empolgação que exibia a todos, mas seu sorriso sumiu quando mirou os olhos negros continuamente mirados para a sua imagem.
— É – o verbo saiu como um suspiro dos lábios de Izumi.
— Fã?
A outra riu com a pergunta.
— Digamos que escolhi Artes Cênicas vendo o trabalho dela – admitiu tímida. – Mas, às vezes, acho que meus pais tinham razão. Eu deveria ter escolhido outra área já que eu caminho e caminho, mas não saio do lugar – seu semblante entristeceu.
— Personagens secundários são muito importantes, Izumi – observou a mais velha, recebendo um aceno positivo. – Mas hoje, – sorriu verificando a maquiagem – vai ser diferente – saiu da frente do espelho e Izumi demorou alguns segundos para processar o significado do seu reflexo, mas assim que reconheceu e voltou a olhar para o poster, não pode evitar o grito e o salto da cadeira.
— Por que eu estou maquiada de, Soya-Hime? – Perguntou com assombro.
— Sou só a maquiadora – sorriu para a jovem. – Só estou seguindo ordens.
Mikoto pegou suas coisas e o caderno de personagens antes de deixar a mulher de contínuas perguntas sem resposta para trás.
Ela ria internamente para o desespero da jovem, mas não se aguentou quando adentrou o grande Teatro, que tinha seu nome, e se jogou em uma das poltronas ao fundo, gargalhando audivelmente.
Jiraya, que estava em sua mesa de avaliador, olhou para a atriz disfarçada, mas voltou à concentração, pois as audições já iam começar.
Todos foram avaliados no papel que tinham sido designados a fazer, sem ao menos saberem de o porquê estarem interpretando personagens de uma peça tão importante para a história daquele Teatro.
As atenções de Mikoto redobraram quando chegou a vez de avaliar as candidatas à protagonista.
Eram poucas e a cena era complicada. Retratava o sofrimento de Soya-Hime no final da peça.
As primeiras candidatas foram logo descartadas e riscadas na caderneta de Mikoto, mas as sobrancelhas finas se levantaram quando a mulher que fazia todos os papeis principais adentrou.
Por mais que a mulher fosse horrenda como pessoa, sua atuação era magnífica e o canto, encantador. O sofrimento de Soya-Hime era retratado com fervor, recebendo palmas de pé do diretor da peça.
— Ótimo, parece que encerramos...
— Ainda falta uma – gritou do final das cadeiras, chamando a atenção do diretor e da atriz, mas Jiraya apenas assentiu confuso para a Uchiha disfarçada, enquanto a atriz de olhos azuis saía desconfiada do palco, mas não menos confiante, empurrando levemente a próxima Soya-Hime.
Jiraya quase não acreditou ao ver Izumi ali, mas ao ver o olhar decidido de Mikoto, ele acatou e pediu para que a mulher começasse a interpretação.
Ela tropeçou algumas vezes e até gaguejou no início dando uma má impressão para o diretor que olhava com pena para a mulher no palco.
Izumi estava nervosa, com vontade de chorar, por saber que não estava honrando o papel escrito especialmente para Mikoto-sama há tantas décadas, mas assim que olhou para a cabeleireira misteriosa no fundo, a coragem a domou e por mais que ela não fosse escolhida, ela faria o que fosse possível por aquele momento.
Ela pensou em tudo... pensou em suas amigas, nas crianças do hospital e até mesmo em Kiba e Akamaru. Todos lhe davam forças para continuar em sua luta na arte e foi com esse pensamento que ela liberou a voz, já que a fala era um canto sôfrego.
Mikoto abriu a boca em um perfeito "O", vendo todo o sofrimento que aquela Soya-Hime estava vivendo no palco, até lágrimas cristalinas rolavam pelas bochechas rosadas da mulher que se encontrava no chão.
Jiraya estava sem reação para aquela atuação e quando foi finalizada a cena, nem mesmo palmas ecoaram pelo local, apenas os passos sem jeito de Izumi eram ouvidos fugindo dali, pensando que nem mesmo alguma palavra do diretor sua atuação merecia, mas ao contrário do que ela pensava, o espanto havia calado as cordas vocais daquele homem de longos cabelos grisalhos.
— Acorde, Jiraya, precisamos dar o veredito aos atores – comentou Mikoto, passando ao lado do grisalho, em direção ao palco.
— Claro – balbuciou seguindo a mulher de passos graciosos.
Pegou a prancheta dela e analisou que a maior parte de suas escolhas eram semelhantes.
Não demorou para que todos voltassem e sentassem em semicírculo para o anúncio dos escolhidos para cada papel.
— Esse ano vamos refazer a peça de minha autoria que foi tão prestigiada há mais de 30 anos – o burburinho se alastrou, mas Jiraya os calou com um breve levantar de mão. – Como todos sabem, Soya-Hime é um grande marco em minha carreira e de vários artistas que se revelaram através dele, assim como nossa grande Uchiha Mikoto – as cabeças assentiram. – Hoje vocês foram avaliados e colocados em seus respectivos papeis. Os escolhidos são...
Mikoto ouviu calmamente cada um dos nomes proferidos e papeis, sempre que a discordância vinha à tona, Jiraya resolvia escolher quem a Uchiha havia escolhido, mas assim que chegou a hora de dizer quem seria Soya-Hime, o grisalho suspirou e olhou para a morena disfarçada.
— Antes de dizer quem será Soya-Hime, devo dizer o verdadeiro motivo para a reapresentação dessa peça. Na verdade, foi um pedido de alguém muito especial e eu acho que ela mesma deve dizer o que vocês tanto querem saber.
Mikoto entendeu a deixa e logo se aproximou do grisalho, tirando a peruca, lente e óculos para o espanto dos atores que reconheceram a figura na hora.
Ela quase gargalhou com a expressão petrificada de Izumi na fileira ao fundo.
— Olá, sei que muitos me conheceram como Kenkuia, mas na verdade meu nome é Uchiha Mikoto. A única vez que a peça foi reproduzida, foi quando eu fui a Soya-Hime e fizemos uma grande turnê por todo o Japão e até no exterior. A peça nunca mais foi interpretada, mas esse ano meu marido faleceu e Soya-Hime não significa apenas uma peça que me deu status, mas sim, quando eu conheci o meu companheiro de tantos anos.
"Como uma homenagem ao aniversário do nosso casamento, que é, propositalmente, o mesmo dia em que nos conhecemos, eu pedi à Jiraya que nesse dia, a peça fosse recriada e uma nova Soya-Hime fosse escolhida".
Ela sorriu para todos ainda entorpecidos com a notícia repentina.
— Eu estou voltando ao Teatro, não como atriz, mas sim como uma ajudante no que eu possa ser necessária e esse será meu primeiro trabalho – caminhou calmamente em frente as filas semilunares. – A nova Soya-Hime será treinada pessoalmente por mim, mas claro, durante os ensaios dos outros personagens, eu também estarei presente e darei a minha opinião clara e sincera em cada etapa da produção. Por isso, sem mais rodeios. Izumi, você será a minha Soya-Hime.
— O QUÊ? – O grito ecoou alto e inacreditável saindo da boca da "estrela" e de Izumi, que parecia prestes a ter um ataque cardíaco.
— Foi exatamente o que vocês duas escutaram. Eu avaliei cada um de vocês e na atuação, Izumi foi perfeita. Será um grande prazer trabalhar com cada um de vocês.
— EU DISCORDO! – Vociferou a mulher que não havia sido escolhida. – Como assim eu não vou ser a Soya-Hime!? Jiraya, você quer falir seu Teatro botando essazinha como Soya-Hime?
A veia temporal de Mikoto latejou com aquele ser, antes de caminhar confiante e de queixo erguido, mostrando o porquê era tão aclamada e porquê merecia o título de Senhora Uchiha.
— Saiime – tomou toda a atenção da mulher furiosa que tremeu com o olhar negro da Uchiha – você é uma excelente atriz. Interpretou incrivelmente bem Soya-Hime...
— Então por quê?
— Porque ela foi melhor do que você hoje.
A sentença calou a todos e só quando Saiime saiu de seu estado de petrificação, ela correu para fora do lugar sem esperar para saber qual personagem secundário iria interpretar.
— Mimada – murmurou cansada a Uchiha, antes de notar o vibrar em seu bolso. Com um olhar rápido, viu que era uma mensagem para confirmação de que a Uchiha iria comparecer ao desfile filantrópico organizado por um estilista famoso. – Preciso ir, Jiraya – falou com pesar para o grisalho que beijou suas mãos em despedida. – Está na hora de Uchiha Mikoto fazer seu papel perante a mídia – sorriu sem graça.
— Está na hora da minha estrela brilhar como sempre.
A morena sorriu e se despediu rapidamente do grupo, notando Izumi olhar para um ponto qualquer, perdida em pensamentos.
Ela não esperou. Saiu do palco e logo se encontrava no corredor, tirando com habilidade, o macacão que escondia sua veste cara.
— Espera! – Um grito reverberou atrás de si, sendo acompanhado de passos apressados e de uma respiração ofegante.
Mikoto sorriu com docilidade colocando os óculos negros quando Izumi a alcançou.
— Algum problema?
— Não. Eu só... eu só queria agradecer pela confiança – disse sem graça, fazendo a mais velha sorrir mais para a outra.
— Não precisa agradecer. Você recebeu o papel porque mereceu.
— Se não fosse por você, eu nem estaria fazendo esse teste.
Aquilo surpreendeu Mikoto, sabendo que Izumi sabia o que ela tinha feito no camarim.
— Todos merecem uma chance.
— Não acho que uma mulher de 35 anos, que chega atrasada no teste, mereça fazer um papel tão importante interpretado por você quando era tão jovem.
— Trinta e cinco? – Perguntou surpresa, analisando a mulher. – Jurava que ainda não tinha nem trinta – pôs uma mão no rosto de Izumi, o que a assustou. – Você tem a idade do meu filho mais velho, mas não se prive de desafios ou desista antes de tentar por causa da idade. Enfrente-os e agarre-os. Eu espero e confio que você fará um ótimo trabalho como Soya-Hime – sorriu antes de afastar seu toque.
— A... arigato – o agradecimento saiu baixo.
— Nos vemos em breve nos ensaios, agora eu preciso ir – Izumi assentiu vendo sua ídola partir rumo a limusine que esperava em frente ao Teatro.
O torpor era forte nela. A incapacidade de raciocinar e de acreditar no que tinha acontecido a levava a pensar em uma única coisa...
Ela tinha que avisar às suas amigas sobre a novidade...
***
Sasuke...
Apertei com mais força o parafuso com a chave de boca, antes de estar satisfeito com o trabalho e enxugar minha testa úmida por uma fina camada de suor.
— Tentem agora. Deve funcionar – comuniquei aos estagiários e funcionários que me observavam com atenção.
— Sim, Sasuke-sama – um funcionário se afastou para um computador e digitou alguns códigos ligando o motor com perfeição.
Os funcionários e estudantes de engenharia pularam de satisfação por finalmente verem um resultado positivo na construção do motor desde a falha técnica de mais cedo.
— Como esperado do Sasuke-sama – um comentou, mas eu apenas suspirei cansado, limpando minha mão em uma flanela qualquer, antes de ajeitar as mangas que eu havia erguido até meus cotovelos para ajudar na falha.
— Façam testes e reportem aos responsáveis do setor e para a empresa de motores que está em associação nesse projeto com a Uchiha's Company. Acrescentem um relatório para mandarem diretamente para mim, quero acompanhar esse projeto de perto, principalmente se apresentar falhas. Temos prazo a cumprir e eu não gosto de ultrapassá-los. É só dor de cabeça desnecessária – falei sério e todos assentiram de acordo, correndo para os seus postos me agradecendo mais uma vez.
— Finalmente te encontrei – uma voz masculina muito conhecida aos meus tímpanos, ressoou atrás de mim.
— Se está tão desesperado, então é porque tem algum problema para me reportar – falei sem humor, seguindo o moreno sério que me conduzia em direção ao elevador.
— Eu estava vindo para te mostrar uma coisa, mas Karin me encontrou desesperada, pois não estava te achando.
— Ignorei as ligações dela – falei simplesmente, bocejando.
Na verdade, eu havia ignorado imaginando que mais relatórios haviam chegado ao meu escritório para que eu analisasse. Já havia lido centenas durante a madrugada e tudo o que eu queria era me manter o mais longe possível do último andar daquele edifício, usando a desculpa de verificar a linha de criação de médios projetos, ajudando quando encontrava falhas em minha vistoria.
— Pois não deveria – ralhou baixo meu irmão.
— Qual é!? É só relatório. Eu posso fazer isso depois.
— Dessa vez não é só um relatório Sasuke – disse seriamente alcançando meu Conselheiro que nos aguardava de maneira séria no elevador. – É algo bem mais sério.
— O que aconteceu? – Perguntei mais desperto, aceitando a pasta que Shikamaru me oferecia enquanto as portas metálicas se fechavam.
— Akasuna Sasori, 34 anos, único herdeiro das Indústrias Akasuna, um verdadeiro império da Indústria Bélica no estreito sul de Malaia – simplificou o Nara.
— Indústria Bélica? – Franzi o cenho, encarando meu irmão sem entender o significado de um herdeiro da Indústria Bélica estar em uma empresa voltada para jogos e robótica.
— As perguntas que rondam sua mente, irmãozinho tolo, também transitam em nossos pensamentos.
— Karin deixou o Akasuna na sala de reuniões, ele está à sua espera. Tem um encontro marcado para avaliação de negócios no sistema da empresa.
— Isso não faz sentido. Não somos da mesma área da tecnologia – massageei minhas têmporas que começavam a latejar achando tudo muito estranho.
— Seja como for, só descobriremos o que ele quer com a Companhia se formos ao encontro dele – finalizou meu irmão, saindo para o último andar, onde uma pálida Karin me estendia o terno para que eu vestisse antes de entrar na sala de reuniões.
Assenti para ela, direcionando meus passos para o corredor de luz baixa que dava acesso à sala de reuniões e outras salas dos membros do Conselho.
Terminei de arrumar meu terno antes de empurrar a grande porta dupla de mogno e me direcionar para a grande cadeira na ponta que me pertencia como Presidente da empresa.
— Desculpe por fazê-lo esperar, Senhor Akasuna, estava ocupado verificando o andar de alguns produtos da empresa.
— Não precisa se desculpar. Entendo como homens de negócio podem ser bem ocupados com suas empresas – a voz saiu baixa, mas com tom perigoso, da outra ponta da mesa.
O ruivo parecia relaxado, mas seus olhos castanhos pareciam me analisar com destreza como se procurasse por algo.
Apesar da luz baixa do ambiente, podia ver claramente o brilho confuso do meu irmão do meu lado esquerdo e o analítico de Shikamaru. Ambos compartilhavam dos mesmos pensamentos do que os meus...
Tudo estava muito estranho.
Diferente do convencional, Sasori estava sozinho, nenhum advogado ou representante para acompanhá-lo, a única coisa que ele tinha era a pasta com os negócios, semelhante a que estava na minha frente.
Abri e o que eu vi lá dentro deixou tudo mais confuso.
— O que isso significa? – Perguntei tentando controlar minha raiva.
— Negócios.
— Com o governo? – Ergui uma sobrancelha, deixando que Itachi e Shikamaru pegassem folhas do meu arquivo.
— Exatamente – o homem se endireitou na cadeira, apoiando o braço direito sobre a cara mesa, alisando levemente seus lábios em linha reta.
— Isso é muito dinheiro – ouvi Shikamaru balbuciar confuso.
— Sei que dinheiro não falta para o governo Japonês e de Cingapura. Eles querem melhorar seus combatentes. Melhores treinamento visando jogos eletrônicos e armas de última geração. Querem que trabalhemos em conjunto preparando essa maquinaria para o treinamento.
— Sasuke – meu irmão chamou baixo. Sabia a opinião dele e exatamente o que estava pensando, mas não desviei o meu olhar dos olhos estreitos que pareciam ansiosos pela minha resposta.
O dinheiro era absurdo, um negócio muito mais elevado do que qualquer outro que a Companhia havia feito e com uma proposta bastante simples para empresas de tecnologia tão elevada.
Eu sabia exatamente o que o Conselho diria, muitos pensando em benefício de seus próprios bolsos cheio de dinheiro e acionistas mais ricos sem pensar nas consequências.
Só havia uma resposta para uma proposta dessas e eu frisei, apoiando meus punhos fechados contra a mesa de mogno enquanto eu me levantava...
***
Sakura...
— Não acredito que você vai fazer isso – exclamou alto Ino enquanto dirigia apressada pelas ruas principais de Tóquio.
— Ah, eu vou sim! Vou estrangular aquele pescoço Uchiha! – Vociferei entredentes.
— Sakura, você está famosa! A imprensa só fala de você! Que mulher não gostaria disso? Eles estão te endeusando. Endeusando seu trabalho!
— Uma mulher que se importa com o próprio carro – gritei querendo explodir com as memórias de poucas horas atrás.
Minha segunda-feira havia iniciado tranquila. Sem intercorrências ou problemas no hospital durante o final de semana.
Aproveitei o máximo de tempo possível com minha filha durante os últimos dias, até mesmo me esqueci que o Uchiha morava do lado, já que ele permanecia o tempo inteiro dentro de seu apartamento. Mas a realidade foi jogada como um balde de água fria assim que eu cheguei feliz no hospital.
Ino me recebeu correndo, com um enorme sorriso no rosto, arrastando Izumi, vestida de palhaço, em seu encalço, que não compreendia o alvoroço de logo cedo. Mas assim que a revista foi jogada sobre a mesa do meu consultório, o meu grito reverberou pela ala de oncologia pediátrica inteira, assustando muitos funcionários e pacientes preocupados com a minha saúde.
"A nova Imperatriz não é boneca de porcelana"
Era assim que tudo começava...
A medida que meus olhos percorriam as páginas da matéria, mais minhas bochechas coravam e meus olhos se arregalavam de surpresa.
Não haviam ofensas ou qualquer julgamento torpe sobre mim, mas a jornalista havia feito uma matéria impecável sobre mim e sobre o trabalho que eu realizava. Até mesmo sobre artigos publicados e convites para dar aulas em várias universidades, aquela tal Mitsashi, havia descrito em suas páginas...
"Ela não tem nome de deuses, muito menos sobrenome de sangue azul. Ela não desfila em rubros tapetes ou posa nas principais agências de modelo. Ela não é intocável, nem soberba. Não nasceu em berço de ouro ou de estacas de pau.
Ela é uma pessoa comum, mas, ao mesmo tempo, instigadora.
A alta sociedade por muito tempo ignorou sua existência, já que não é rodeada de flashes que a Dama de Branco vive, mas sim em meio de estéreis paredes alvas e sons incertos de BIP's.
Ela não é modelo, atriz ou uma socialite, ela é apenas ela. Uma médica, mais precisamente oncologista pediátrica do Hospital Central de Tóquio.
Para surpresa da sociedade em geral, o tão conhecido Uchiha Sasuke não está acompanhado de uma das tantas lendas famosas de seu passado por nós tão conhecido.
Não há fama unindo eles, mas sim a tão surpreendente simplicidade, o que nos leva a perguntar:
'Uchiha Sasuke foi finalmente enlaçado por uma mera oncologista que tem como méritos conquistados pelo seu próprio esforço, provinda da classe média? Como foi que eles se conheceram? Como tudo começou? Estamos presenciando um Conto de Fadas moderno onde a gata borralheira encontra seu príncipe encantado?'
Eis tantas e inestimáveis perguntas, caros leitores, mas de uma coisa temos certeza, a mocinha não é uma princesinha indefesa, ela luta e batalha dia após dia, até mesmo fazendo plantões exaustivos em prol dos outros, enquanto nosso tão estimado 'príncipe encantado', não tem o ouro mesclado em suas madeixas ou olhos de um profundo azul celeste. Seu passado não é santo e seus lábios estão sempre levemente encurvados em um breve sorriso de deboche.
Eles não são a perfeição em pessoa. São opostos e ao mesmo tempo, os protagonistas dessa crônica.
Ela pode não ter o nome de uma deusa, mas os campos da primavera reverberam pelo nome da mulher que parece ter iluminado o agora tão desaparecido das revistas, Uchiha Sasuke.
O sol da primavera ilumina essa mulher independente que chegou até ali com suas próprias mãos e seu nome é Haruno Sakura. [...]".
Tive que aguentar horas de falação animada das minhas amigas, o olhar dos funcionários para as televisões ligadas e até perguntas de meus pequenos pacientes para saber um pouco mais sobre o "namorado da Tia Sakura".
Suspirava durante todo o tempo, tendo paciência com todos, mas assim que um funcionário da recepção chegou ofegante para me chamar, eu vi, pela sua expressão pálida que minha paciência iria pelo ares em poucos segundos e foi exatamente o que aconteceu quando eu vi uma mulher completamente alterada, vestindo camisa de fã clube, destruindo o meu carro com um grande martelo, enquanto ela gritava: "O Sasuke-kun é meu!".
Meu momento de espanto se tornou raiva pura, vendo alguns jornalistas e fotógrafos na frente do hospital registrando a cena e até tirando fotos minhas.
Puxei uma surpresa Ino para dentro do carro dela e mandei ela dirigir rumo à Uchiha's Company.
A loira parecia animada com tudo e até sorriu e acenou para uma câmera que lançou flashes em nossa direção.
O mal humor era minha companhia e nenhum sorriso era direcionado para as câmeras.
— Qual é o plano? – Chamou a loira, tirando-me dos meus pensamentos.
Olhei para o alto prédio espelhado com a grande logomarca da Companhia. Alguns paparazzi estavam presentes nas largas calçadas dos dois lados da avenida atolada de empresas de alta tecnologia.
Estávamos estacionadas no meio-fio, próximas da entrada cheia de seguranças guardando as portas metálicas.
— Precisamos entrar.
Os olhos celestes da minha eterna amiga analisaram o perímetro com preocupação, antes de brilhar tendo uma ideia.
— Ali! – Apontou para um grupo de turistas que olhavam folhetos esperando na entrada da Companhia. – A Uchiha's Company abre visita para alguns espaços da empresa. Podemos usar esse artifício.
Assenti para o plano e saí do carro, fazendo uma prece à Kami para que eu não fosse reconhecida antes de alcançar a entrada, mas minha má sorte de ter cabelos cor de rosa denunciou minha presença para um paparazzo que atravessou correndo a avenida movimentada do centro de Tóquio, sendo quase atropelado diversas vezes, enquanto gritava:
— Haruno Sakura! Haruno Sakura! Uma foto por favor!
— Corre! – Ino gritou me puxando pelo braço para atravessarmos as portas duplas, sendo protegidas pelos altos seguranças que não permitiam a entrada da impressa na empresa.
— Essa foi por pouco – apressei o passo para me aproximar do grupo de turistas que escutavam atentamente a guia que falava com louvor sobre a estrutura da Companhia. – Onde eu encontro o Sasuke?
— Sai me disse que a sala da Presidência fica no último andar do prédio – comentou baixo, olhando para o grande trânsito de funcionários no amplo salão. – Você precisa alcançar aqueles elevadores sem ser pega.
— Isso seria fácil se não houvesse três brutamontes fazendo a segurança dos elevadores – olhei com pesar para os homens fortemente armados que analisavam com um olhar duro cada pessoa que acessava os elevadores.
— Sorte sua ter uma amiga linda, sexy e loira para embarcar em cada loucura sua – vangloriou-se jogando a bolsa de marca em uma lixeira de inox pela qual passamos ao lado.
— O que você vai fazer? – Perguntei com preocupação, enquanto via a loira ajeitar o alto rabo de cavalo.
— Izumi pode ser atriz profissional, mas eu também tenho muito talento guardado especialmente para esses momentos de necessidade – piscou um olho travesso.
— Yamanaka Ino, o que você...
Não consegui terminar minha fala, porque a loira me empurrou para um denso grupo de turista, perdendo-a de vista, mas o grito agudo vindo dela fez todos os seres daquele salão paralisarem e olharem sem entender para a loira de expressão de pânico.
— Socorro! Roubaram a minha bolsa! – Gritava desesperada, apontando freneticamente para um corredor à nossa direita, só então notei o burburinho e agitação começar.
Os seguranças correram em direção a loira eufórica, algumas pessoas tentavam acalmá-la e outras estavam em pânico com a ideia de assaltadores infiltrados na empresa.
Não perdi tempo, cortei a maré de pessoas que estavam à minha frente, verificando vez ou outra se algum segurança havia me visto, mas entre esbarrões e corrida trôpega sobre meus saltos, pulei para dentro de um elevador lotado de funcionários bem vestidos com seus ternos.
Sorri sem graça para os funcionários que me olhavam em confusão, enquanto duas mulheres arregalavam os olhos me reconhecendo.
Reprimi uma bufada quando uma cochichou:
— É a Dama da Branco, a mulher do chefe!
Grunhi por dentro, fixando minha atenção no botão do último andar, vendo o elevador esvaziar aos poucos até que eu ficasse sozinha nele.
Estava preocupada com a minha amiga louca alastrando pânico no térreo, mas assim que eu saí do elevador e encontrei os castanhos avermelhados me encarando com surpresa, meus pensamentos se tornaram uma página em branco.
— O que você está fazendo aqui? – Vociferou, erguendo-se da cadeira, espalmando a mão magra sobre o balcão de mogno.
— Eu que te pergunto o que você está fazendo aqui, Karin! – Apoiei a minha mão esquerda na minha cintura, enquanto a outra apontou acusadoramente a mulher.
— Eu trabalho aqui – disse como se fosse óbvio. – Sou a secretária do senhor Uchiha.
Entortei minha boca com aquela descoberta.
Bem que eu tinha estranhado o Sasuke ter chamado sua secretária de Karin naquela ligação. Pensei em pensamentos.
— Sua vez de me responder – exigiu.
— Vim falar com o seu chefe – tentei manter minha postura para não ser banida dali por seguranças. Precisava inventar uma história.
— Não tem horário marcado – falou com desgosto.
— Até onde eu me lembre, Sasuke nunca disse que eu precisava de hora marcada para falar com ele – ousei, mantendo minha postura altiva, por mais que por dentro tremesse caso eu fosse descoberta.
Os olhos carmim se estreitaram em dúvida, mas a petulância e raiva espalharam pelo rosto da mulher que eu conhecia há tantos anos e nunca tive boa convivência.
— Eu vi a matéria. Você devia aproveitar seus quinze minutos de fama, porque para o Sasuke-sama você é apenas uma diversão de momento, como sempre foi para os homens. Até parece que um homem do porte do Sasuke-sama iria querer algo com você, uma mulher que ainda tem uma encrenqueira sem sal como filha.
Meus punhos se fecharam e meus olhos cerraram.
— Do que você chamou a minha filha? – Falei entredentes, dando passos sutis em direção ao balcão.
— Não se faça de surda, Testuda. Sabe muito bem que tem uma filha travessa. Coitada dela, mas não se podia esperar outra coisa vinda de uma mulher que não teve nem capacidade de segurar o pai da filha que desapareceu sem deixar rastro de seu paradeiro ou se importando com a filha que deixou para trás. Não era de se esperar que essa criança terminasse assim...
— Sabe Karin – comecei friamente, com um sorriso cínico nos meus lábios enquanto me apoiava no balcão que nos separava – eu tolero muito as ofensas ou mal interpretações direcionados a mim. Sou uma pessoa muito paciente e tolerante, mantendo-me sempre com minha postura, mas se existe uma coisa que me faz descer no salto sem pensar duas vezes, ah, essa coisa é falar mal da minha filha.
— E o que você vai fazer? – Provocou com petulância, aproximando o rosto de maneira perigosa do meu, mas apenas sorri um pouco mais, antes de dizer pausadamente:
— Fazer você engolir o seu veneno – meu semblante mudou quando segurei com força as longas madeixas, que puxei de encontro a madeira dura que ecoou alto pela sala em que estávamos.
— Aaaahhhh – gritou tentando se soltar, mas meu agarre era mais forte. – Me solte sua louca!
— Só depois de você pedir perdão – grunhi impulsionando o meu peso sobre a cabeça, prendendo-a mais.
— Não! – Gritou tateando cegamente a madeira fria, até apertar um botão no canto da mesa. – SOCORRO! SEGURANÇA!
Grunhi alto enfiando uma bola de papel na boca da mulher, antes de puxar com fúria aquele corpo magro por cima da bancada, caindo no chão junto com ela.
Mal conseguia enxergar o corpo que se debatia abaixo de mim. Karin grunhia furiosamente tentando cuspir a bola de papel, ao mesmo tempo que puxava meu cabelo.
— Solta o meu cabelo – gritei arranhado o seu rosto, antes de puxar o vermelho com tanta força que fios foram arrancados e enrolados nos meus dedos.
— Sua louca cor de rosa, sai de cima de mim! – Vociferou ao mesmo tempo que os elevadores se abriram e passos fortes correram até nós. – Tirem essa louca de cima! Joguem ela para fora da empresa! Rápido!
Grunhi tampando a boca manchada da ruiva.
— Vocês não estão me reconhecendo? – Arrisquei, mas... – Aiii... – grunhi com o puxão. – Eu sou a Dama de Branco! – Falei com dificuldade.
Os homens se entreolharam e ficaram confusos com a minha revelação, não fazendo nada para apartar as duas mulheres que se atracavam no chão daquele andar.
— É a mulher do chefe – um cochichou audivelmente. – Acho que o Sasuke-sama não iria gostar de saber que nós tocamos na mulher dele.
Sorri debochadamente para a ruiva vermelha de raiva com a reviravolta, puxando com mais força o meu cabelo.
— AAAAAAHHHH! – Gritei tão alto que uma porta foi aberta em um rompante, seguido de passos apressados em nossa direção.
— O que está acontecendo aqui? – Uma voz alta e masculina, reverberou chocada pelo ambiente, mas nem eu ou Karin paramos de puxar o cabelo da outra, até que braços fortes rodaram a minha cintura, erguendo-me com propriedade.
— Me larga! – Gritei me debatendo, tentando voltar a bater na ruiva que era segurada por outro homem.
— Para Sakura! – Ralhou o homem que tentava me conter, só então reconheci quem me segurava com força de encontro ao seu corpo.
Parei de me debater assim que os negros firmes de Sasuke se encontraram com os meus verdes.
Suspirei desolada e por mais que eu permanecesse calma, encarando a ruiva segurada por Shikamaru, encarando-me com ódio, Sasuke permanecia com os braços ao redor da minha cintura.
— Alguém pode me explicar o que está acontecendo aqui? – Exigiu o Presidente de maneira fria.
— Essa louca invadiu o local e me bateu, Sasuke-sama – apontou acusadoramente para mim.
— Sakura – me chamou baixo o moreno e eu sabia que não tinha para onde correr, já que Karin havia dito uma meia-verdade.
Suspirei pesadamente, encontrando o olhar acima de mim, esperando uma resposta.
— Eu só bati porque ela falou mal da minha filha – me defendia alto, percebendo os negros perderem o brilho momentaneamente, voltando a encarar com inexpressividade a ruiva.
— Filha? – Não foi a voz de Sasuke que proferiu a sentença, mas outra, baixa, fria e cortante que vinha do corredor mal iluminado.
Meu coração descompassou e meu corpo petrificou ao reconhecer aquele timbre tão conhecido por mim. Ouvindo-o constantemente ao meu lado, até mesmo rouco, quando o homem acordava após uma noite juntos.
Meu corpo começou a tremer. Eu não queria olhar, mas meus olhos me traíram, assim que eles caíram sobre a figura alta de roupas formais e uma cabeleira ruiva desengonçada. Seu semblante era sério e fixo em mim.
— Então, você teve a criança – a voz saiu como um sussurro, mas só pela leitura labial, eu sabia o que ele dizia.
Senti os braços de Sasuke se apertarem mais ao meu redor e internamente eu agradecia aquele cuidado, pois tudo o que eu sentia era a perda da força nos meus membros inferiores.
— Itachi cuida de tudo. Meu veredito já foi dado, acompanhe o senhor Akasuna até a saída – disse frio o Presidente, já me puxando junto a si em direção à uma grande porta dupla. – Karin, tire o dia de folga. Não quero ninguém me perturbando pelo resto do dia – finalizou a ordem fechando a porta, cortando meu contato visual com Sasori.
Sasuke me conduziu até um sofá de frente à uma grande televisão e diversos DVD's de jogos.
— Você precisa tomar água. Você está pálida!
— Eu preciso de algo forte – balbuciei inutilmente, vendo apenas o assenti do homem enquanto preparava uma bebida no bar particular de sua sala.
— Bebe – disse com calma, estendendo o copo de líquido âmbar em minha direção, ao mesmo tempo que se sentava na mesa de centro.
Virei o copo de uma só vez, engasgando-me com a bebida que queimava meu trato digestório e convulsivas tossis saiam pelos meus lábios.
— Vai com calma – o homem sussurrou pondo as grandes mãos em meus ombros.
Assenti sentindo a tosse parar, mas a sensação de cansaço se apoderou do meu corpo.
Olhei para o líquido amargo entre as minhas mãos com pesar, apenas o toque quente e suave que as mãos masculinas faziam em meus ombros nus, deixavam-me presa naquele plano de existência, enquanto todo o meu corpo ficava letárgico, pensando em como o meu dia estava confuso.
Em como minha vida estava confusa.
Minha vida era tranquila até poucas semanas atrás. Não era uma vida perfeita, pois todas são imperfeitas, mas era feliz, vivendo calmamente eu e minha filha em nosso apartamento.
De um dia para o outro, encontrei minha face estampada em revistas de fofoca e antigos fantasmas ressurgirem do meu passado para me atormentar.
Por um momento, achei que era apenas minha mente perturbada projetando Sasori naquela festa, mas a presença dele ali, era a prova que ele estava de volta à minha vida e agora ele sabia que eu tinha uma filha.
Ele não pensaria que era sua, pensaria?
Não! Ele não queria a criança, não iria atrás! Iria?
— Sakura – o chamado e o singelo toque no meu queixo me tiraram do torpor, encarando o rosto sem expressão há poucos centímetros de distância de mim.
Sasuke não disse mais nada. Permaneceu encarando meus verdes como se só pelo meu olhar ele descobrisse toda a verdade e essa contestação tirou toda a minha coragem de continuar com aquela troca de olhares.
Só que acabei sorrindo minimamente com a surpresa de ver a pequena caixa branca do lado esquerdo do homem que permanecia paralisado, com as mãos sobre os meus joelhos expostos.
— É a rosa da Sarada – comentei docemente pegando a caixa, deixando a bebida em seu lugar. Dedilhei o vidro frio que me separava da rosa desidratada que era exposta com tanta delicadeza dentro da caixa. – Por que você guardou? – Perguntei sem entender o que aquilo significava.
O maxilar masculino parecia trincado e tenso, mas os olhos não se desviaram em nenhum momento, respondendo-me com notável sinceridade:
— Porque eu prometi que guardaria e cuidaria. Essa rosa parece significar muito para a Sarada...
— E significa – minha voz morreu, enquanto encarava a flor. – Ela nunca deu para ninguém, no máximo para mim – apertei as laterais da caixa – várias vezes a vi jogando a flor que ela recebia, no lixo – levantei o meu olhar e encontrei o cenho franzido e perdido em pensamentos do homem para o que eu dizia – mas, dessa vez, ela te deu...
Não precisei terminar a fala, o homem assentiu compreendendo o que eu dizia.
Eu não conseguia entender o porquê de Sarada ter entregado aquela rosa à Sasuke, muito menos a justificativa do homem de cuidar daquela rosa que não deveria significar nada para ele.
Eu tinha plena certeza que Sarada já havia aprontado com Sasuke, da mesma forma que ela fazia com todos nossos vizinhos, mas dessa vez...
Ela está diferente...
Eles estão diferentes...
Dessa vez é diferente.
Eu aceitei a decisão de Sarada naquele momento e não a indaguei, mas, no decorrer do final de semana, ela não quis voltar ao assunto para me explicar sua atitude inesperada, mas só de olhar nos olhos petulantes da minha filha, olhando furtivamente às vezes para a porta que dava para o corredor, eu sabia que minha pequena criança havia encontrado alguém que estava lhe chamando atenção, ao invés de só repulsa e tentativa de mandá-lo embora.
Não sabia o que eles haviam conversado antes de chegar ao Chichi no Hi, mas sabia que foi o suficiente para fazer Sarada começar a encarar Sasuke não só como a atual vítima de suas brincadeiras, mas também como alguém mais importante para ela, assim como Sasuke parecia ter uma atenção especial para a minha filha. Um cuidado especial. Algo que nenhum outro vizinho havia dado para ela, vendo-a só como "a filha da vizinha gostosa".
— Obrigada por ter guardado a flor – respirei fundo, recebendo apenas um assentir do homem que suspirou.
— Agora que você está mais calma, pode me explicar por que você veio até a minha empresa?
Assenti pegando o controle que estava ao meu lado para ligar a televisão em um canal de fofocas.
Ele observou de maneira silenciosa as notícias por cima do ombro, até mesmo franzindo o cenho para a cena de depredação do meu inocente carro.
— Já entendi tudo – murmurou desligando a televisão, esfregando o rosto, buscando a calma antes de falar comigo. – Agora eu sei o que Itachi queria falar comigo antes dos problemas aparecerem e eu aposto que você veio aqui por causa do carro.
— Sim – murmurei. Sentindo aquela justificativa ser ínfima naquele momento em que minha raiva havia passado.
— Tudo bem – resmungou tomando toda a bebida que eu não havia tomado. – Vou providenciar um novo carro para você.
— Não é exatamente por isso que eu vim – comecei. – É que... até quando isso vai continuar? – Perguntei com súplica.
Sasuke fugiu do meu olhar pela primeira vez e eu sabia que ele estava escondendo algo de mim.
— Sasuke?
— Eu não sei – admitiu passando a mão direita nos cabelos arrepiados. – Eu posso te dar seguranças particulares se você quiser – ofereceu inseguro.
Entortei a boca com a ideia.
— Não quero segurança particular. Isso só vai dar mais motivo para eles especularem o que não existe! – Bradei e ele assentiu. – Eu só não quero que essa história acabe com a minha filha no meio!
Vi o homem engoli em seco antes de falar com a voz arrastada:
— Posso dificultar o acesso deles na internet para qualquer informação que eles possam adquirir sobre ela. Faço isso quando chegar em casa. Dou um jeito...
Mesmo sabendo que aquilo era ilegal, acabei suspirando em desistência.
— Que tal fugirmos por um dia? – Ofereceu se levantando em um rompante. Não consegui ver se a oferta era séria, pois seus olhos estavam longes do meu alcance, fixos na caixa branca que ele havia pego do meu colo e depositado com cuidado em uma das prateleiras de sua estante, deixando em um local privilegiado a flor. Mas, assim que ele voltou a se aproximar e estender a mão com cavalheirismo, vi que a proposta era séria.
Ergui uma sobrancelha. Em ocasiões normais eu não aceitaria, mas que opção eu tinha? Estava sem carro, minha amiga já deveria ter sido posta para fora da Companhia, eu tinha tido uma manhã péssima encontrando Karin e Sasori. Eu não tinha nada a perder...
E foi com esse pensamento que eu aceitei a mão estendida para mim, deixando que o homem me conduzisse para fora daquele lugar.
Os papeis da mesa de Karin ainda estavam no chão devido a confusão que eu havia armado, mas o lugar parecia abandonado.
Sasuke permaneceu em silêncio olhando para a numeração que localizava o elevador.
Ele parecia mais sério que o normal. Era estranho vê-lo daquela forma, já que sempre o via mais despojado, até jogando cantadas para cima de mim, tentando algo com segundas intenções.
Mas, com vergonha, percebi que ali era seu local de trabalho. Talvez ele tivesse que adotar uma postura mais séria para comandar uma empresa.
— Algum problema? – Indagou percebendo que eu estava encarando-o por tempo demais.
— Não. É só que é estranho vê-lo sério – admiti entrando de mãos dadas com ele no elevador vazio.
Ele suspirou audivelmente, antes de rir levemente se encostando em uma das paredes de vidro, comigo ao seu lado.
— Isso é bom ou é ruim? – Sua cabeça tombou para o meu lado, analisando minha figura de perfil.
— Nenhum dos dois. É só... diferente.
— Só estou um pouco cansado – esfregou os olhos para frisar suas olheiras. – Dormi pouco essa noite resolvendo alguns problemas da Companhia.
Foi a minha vez de voltar meu rosto para ele e ver os traços de cansaço evidente no homem de negócios.
— Deveríamos ir para casa – o vinco entre suas sobrancelhas seguido do sorriso travesso, fez-me acrescentar imediatamente – você para a sua e eu para a minha.
— Tsc – resmungou com decepção e eu acabei rindo de sua feição pela tentativa frustrada de dar segundas intenções às minhas palavras.
— É, eu estava errada. Não dá para te levar à sério nem no seu local de trabalho – brinquei, observando que a luz natural vinda do vidro se extinguiu por termos entrado no subsolo, sendo iluminada apenas pela luz artificial sobre nós dois.
Um riso baixo saiu da garganta do homem e antes mesmo que eu percebesse, a pergunta saiu sem comando:
— Sasori trabalha aqui? – Toda a leveza de seus traços ficaram tensos, assim que Sasuke apertou o botão de parada de emergência, fazendo o elevador parar com um leve solavanco que me levaria ao chão se ele não tivesse rodeado a minha cintura com sua mão livre. – Ai! Por que você fez isso? – Resmunguei com o meu rosto de encontro ao seu peito.
— Estava esperando que você entrasse nesse assunto – a voz saiu séria e eu levantei meu olhar encontrando os negros analisadores sobre mim.
Não compreendi, mas a sensação incômoda de estar presa em um elevador no meio do subsolo, não me deixava calma.
Senti a mão que me envolvia na cintura, deslizar suavemente sobre a minha cintura marcada pela blusa branca e saia secretária rosa-claro que eu usava, até que, com uma leve pressão, ele me encostou suavemente na parede fria para começar com os seus questionamentos.
— Você conhece Akasuna Sasori? – Inclinou o rosto em minha direção, apertando levemente a mão unida à minha.
— A... até onde eu me lembre foi eu quem começou com as perguntas – achei minha voz para ser petulante ao invés de uma donzela em perigo.
A boca fina se encurvou junto com a cabeça de seu dono que me analisava com afinco.
— Não. Ele é herdeiro de uma empresa da Indústria Bélica em Cingapura. Estava aqui querendo fazer negócios com a Companhia, mas o que me chamou atenção foi a atenção dele voltada para você e a sua para ele.
Entreabri meus lábios surpresa com tudo o que ele havia dito.
— Herdeiro? De uma Companhia? – Ri desacreditada. – Não podemos estar falando da mesma pessoa.
Sasuke franziu o cenho.
— Você não sabia dos negócios dos Akasuna?
— Sasori não é dono de uma Indústria Bélica – falei mais alto.
— Um... ele é sim e eu posso provar se você quiser. Dois, só pelas suas respostas, dá para saber que vocês se conhecem – os negros permaneceram sérios em mim. – Desde quando vocês se conhecem?
— Não quero falar sobre esse homem – falei ríspida, com vontade de fugir do assunto, não conseguindo acreditar que o Sasori que eu havia conhecido, frequentador de lugares ilegais, era, na verdade, herdeiro de um Império Bélico.
Permaneça longe desse homem! Meu eu interior gritou só com a menção de Sasori.
— Tudo bem – acatou Sasuke, soltando a minha mão esquerda para apertar o botão, mas não saindo de perto de mim.
Logo chegamos na garagem e de súbito Sasuke segurou minha mão direita, caminhando com propriedade entre os tantos automóveis até alcançar sua moto e pegar o capacete para colocar em mim, mas eu suspirei com pesar.
— Você não tem um carro reserva?
— Medo de moto? – Provocou com um erguer de sobrancelha.
— Não – suspirei. – Só estou em dúvida se é seguro subir em uma que você dirija, ainda mais parecendo ser uma de grande velocidade – observei a grande moto, recebendo uma lave risada do homem que apenas se limitou a sentar no veículo sem capacete, chamando-me com um movimento de mãos.
Acatei e subi na moto, apertando meu abraço em torno do homem de roupas formais, tão perto, que o cheiro de perfume caro inundava os meus sentidos.
Sasuke deu partida, subindo alguns andares, antes de alcançar a rua movimentada. Alguns paparazzi de plantão se surpreenderam com a saída de Sasuke, tirando fotos ao me notar na garupa.
Grunhi com força, escondendo-me atrás do corpo masculino que costurava com familiaridade e velocidade os carros.
Meu coração saltitava a cada sensação de perigo que me alastrava quando ele fazia uma curva fechada e eu via o asfalto tão perto de mim.
Ele não se importava com a possível multa que receberia por estar sem capacete, apenas permanecia atento nas tantas ruas secundárias ele escolhia.
Não sabia para onde estava indo, mas sabia que Sasuke estava saindo do centro da cidade, indo para a periferia, em direção à Baía de Tóquio.
Ele pegou uma autoestrada com velocidade, até que em uma curva para a direita, deixou o caótico trânsito para trás, indo para uma estrada secundária em obras, quase não utilizada.
Arregalei os olhos para aquela imprudência, mas a feição tranquila e familiarizada com a situação do homem me acalmou, por mais que estivéssemos atravessando em meio à trabalhadores que operavam na área.
Alguns olharam em nossa direção sem entender, mas Sasuke apenas continuou em direção à uma área isolada que eu nunca havia visto antes. O grande elevado de pedras ao nosso lado esquerdo e a vegetação ao nosso lado direito, era o contraste que eu nunca pensaria em encontrar nas margens da tão industrializada Baía de Tóquio.
A vegetação deu lugar à uma pequena área de areia branca que terminava no mar.
Minha boca se abriu ao ver aquela perfeição da natureza, descendo tropegamente para as margens em que o asfalto e a areia se encontrava.
Havíamos demorado para chegar ali, mas a beleza valia a pena todo o trajeto.
A praia não era extensa, terminando nas laterais pelas vegetações características da região.
Olhei para a estrada perfeita e nenhum carro vinha nas duas direções.
Voltei a olhar para o mar brilhante iluminado pelo sol da tarde e não consegui acreditar que sentia o vento salgado contra a minha pele, muito menos que escutava o som das ondas de encontro com alguns rochedos, onde gaivotas pousavam brevemente, cantando em seus voos.
— Onde nós estamos? – Perguntei confusa.
— Na minha praia particular – disse simplesmente, estreitando os olhos para observar os navios cargueiros ao longe.
Continua...
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