Procura-se uma Uchiha
15 Como é ter um pai?
Notas iniciais
Sarada...
"Qual é a minha história?"
Você já se fez essa pergunta? Porque eu já.
Quem nunca se fez essa pergunta? Difícil não encontrar exemplares.
É uma verdade inexorável o fato de crianças serem curiosas. Mães e pais, dia após dia, são bombardeados por perguntas de qual é a história deles e como chegaram ao ponto de terem seus filhos.
Não foge da minha imaginação o fato de conversas regadas à lembranças e risadas serem o palco de tais revelações.
Crianças geradas de um relacionamento. Crianças como resultado de um primeiro olhar, de uma briga, de reconciliações regadas à brigadeiros e beijos furtivos de amantes.
Clichê.
O mais puro e sincero clichê que permeia a vida da maior parte da população.
Uma pena que eu não possa me pôr em uma categoria tão comum.
Como tudo em minha vida, o clichê passa longe de ser uma definição, chegando ao ponto de ser irrisório tentar inseri-lo em algo tão peculiar.
Eu não sou comum, tenho minhas particularidades que muitas vezes me diferem e me isolam de outros seres da mesma idade que a minha – os tensos e tão enigmáticos 12 anos – a porta de saída da infância rumo a adolescência, a fase de constantes mudanças e descobertas.
Mas como uma atípica pré-adolescente, meu passado também é atípico.
Não houve olhares, não houve um primeiro beijo, uma briga, uma reconciliação, toques desinibidos em carros, toque de peles, desejos sussurrados ou promessas feitas.
Não!
Não houve nada!
Meus pais não se conhecem e nunca nem trocaram um olhar. Não sou uma criança nascida do amor...
Sou um mero e intencional encontro de gametas promovido pela ciência.
Sou um bebê de proveta e meu pai, um mero doador de 23 cromossomos.
Não há rosto, cheiro, voz ou carinho em minhas lembranças sobre ele.
Não há nada, pois não somos nada, temos apenas em comum 50% dos genes.
Ele nunca esteve lá. Nunca viu o meu nascimento, minha primeira palavra, meu primeiro passo, meu primeiro dia da escola ou quando eu comprei o meu primeiro videogame.
Nunca! Não há nada! Apenas a mera fantasia de se imaginar como poderia ter sido se minha história fosse um mero clichê.
Talvez eu nunca o conheça e nunca tenha pelo menos uma feição para poder construir como sendo a do meu pai. Talvez eu esbarre com ele na rua e nem ao menos desconfie sobre nosso compartilhamento genético.
Ele pode ser qualquer um!
Não! Minha vida não é um clichê! Eu não tenho pai, avós, tios ou tias, mas tenho uma mãe que nunca me abandona e que está em todas as minhas lembranças tristes e felizes. Uma mãe que apesar de tudo e todos, sorri para mim e me abraça, mostrando que o melhor lugar do mundo é estar entre seus braços quentes e amáveis. Uma mãe que apesar da dor, mostra-me que a cada dia podemos nos reerguer e fazer nossa própria história feliz fora do clichê.
Tenho amigos, poucos, mas fieis e bons amigos. Tenho a Chouchou, Inojin, Shikadai, até mesmo Boruto pode ser considerado meu colega próximo apesar de tudo.
Tenho minha amada madrinha que me proporcionou a luz da vida por meio da ciência, Shizune. Meus considerados avós de criação, Tsunade e Dan.
São poucos, eu sei, mas os amos e agradeço todos os dias por existirem e por fazerem meus dias mais felizes.
No entanto, apesar de tudo... não há como preencher o vazio e as eternas dúvidas que preenchem meus pensamentos desde a descoberta do meu passado sem história. Desde a descoberta da tela alva que era a história da minha família paterna.
Não há como preencher um espaço inerente a mim. Um espaço pertencente apenas ao meu pai...
***
– SARADAAA! – Despertei dos meus devaneios com o grito da minha amiga de todas as horas.
Olhei sem entender para os olhos cor de âmbar que me encaravam com raiva durante a aula de culinária.
A morena suspirou tentando suavizar a feição raivosa depois de destampar a panela, a qual eu estava responsável por monitorar, enquanto Chouchou preparava a massa.
– Em que mundo você estava? Quase deixou o Nikuman passar do ponto!
Desviei o meu olhar para a pequena massa branca, levemente corada e crescida depois de ter sido cozinhado à vapor.
– Gomen – pedi, enquanto tirava e depositava a massa em um prato.
– Algum problema? – Perguntou, lançando um olhar de canto para mim enquanto preparava mais massa, recheando com carne de porco moído.
Meus olhos caíram na panela, onde coloquei outra pequena massa oval, antes de desistir de fugir do olhar de Chouchou.
Suspirei procurando palavras para explicar minha divagação sobre o meu pai de vidrinho.
Não era tão incomum divagar sobre ele, afinal, que criança na minha idade não teria interesse sobre o ser que doou o esperma para o seu aparecimento?
É impossível não me olhar no espelho e me lembrar que a minha aparência física é uma herança dele. Sua aparência está eternamente espelhada em meu reflexo, mesmo assim, não sei qual é a sua real aparência, apenas a que eu suponho ser...
– Não é nada não – sussurrei.
– Sei...
Não precisávamos de palavras ditas ou discursos longos para que nos entendêssemos. Chouchou conhecia a minha história desde sempre. Ela sabia como me afetava aquela história e como em certas épocas do ano, aquela realidade se transformava em um fardo para mim.
A morena se calou, deixando o assunto morrer para que discutíssemos melhor quando estivéssemos à sós e não pude evitar sorrir minimamente para a minha amiga, voltando para o meu ofício. Ela, porém, fez um bico petulante para o meu sorriso sem me olhar, deixando claro que aquele assunto não havia acabado.
– Isso é problemático – a voz masculina de Shikadai à nossa frente chamou a nossa atenção.
O moreno e o loiro, Inojin, tentavam decifrar a receita que era a nossa tarefa na aula.
As longas bancadas de mármore com fogões embutidos permitiam que os alunos se dividissem em pares para a realização das tarefas sob o olhar atento de nossa sensei Anko.
Como as bancadas eram largas, era possível ocupar os dois lardos dos corredores de mármore.
Devido ao fato de sermos mais próximos, sempre Inojin e Shikadai ficavam de frente para nós duas, no entanto, existia outro por que...
– Chouchou, ajuda aqui – pediu baixo e temeroso por ser pego pela professora, o loiro.
– Hoje não, Inojin – ralhou no mesmo tom a morena.
Shikadai suspirou procurando paciência depois de desistir de entender a receita.
Segurei o riso vendo como nós duas estávamos mais adiantadas do que o resto da turma e tudo isso graças ao talento culinário de Chouchou.
A morena, apesar de ser uma amante da arte de devorar qualquer coisa comível, tinha um grande talento na cozinha devido ao ramo que sua família seguia nos negócios.
A família Akimichi é dona de um dos restaurantes mais elogiados da cidade e o chefe da cozinha é justamente o pai de Chouchou, ou melhor dizendo, os pais de Chouchou.
A garota de aparência tão incomum para uma japonesa, na verdade, é filha de dois talentos natos na cozinha.
Seu pai, na juventude, resolveu estudar a arte culinária na França, em um curso seleto, onde poucos exemplares conseguem entrar.
O homem rechonchudo, mas de coração mole, acabou se encantando pela latina de sangue quente e mãos de fada na cozinha.
Karui, mãe de Chouchou, tem um gênio fortíssimo que foi ainda mais atiçado pela competitividade de mostrar que era a melhor daquele curso repleto de homens. No entanto, tanto Chouji quanto Karui eram talentosos e daí pôde surgir o que hoje denominam de casamento de sorte no amor e nos negócios.
O talento daqueles dois seres é representado pela perfeita sintonia enquanto comandam uma grande cozinha de um restaurante.
Karui, que antes via seu futuro marido como um obstáculo, acabou cedendo à admiração seguida do amor.
O amor daqueles dois surgiu entre pratos e panelas...
Chouchou, não muito diferente de seus pais, teve uma infância com muitas lembranças tendo como cenário de fundo a cozinha.
A morena de olhos âmbar tem como únicas ambições se tornar uma grande chefe de cozinha no restaurante da família e poder experimentar o máximo possível de pratos que aparecessem em sua frente.
Era engraçado pensar em como eu desejava ser uma programadora de jogos enquanto a minha amiga, conhecedora do mundo dos famosos, queria ser cozinheira.
Somos tão diferentes, mas sempre nos compreendemos...
– Nani? – Ergui meu olhar para Chouchou que segurava o pulso de Shikadai como um aviso.
– Qual é o problema Chouchou? – Perguntou Inojin.
– Vocês estão pegando os temperos diferentes dos pedidos na receita – reclamou, devolvendo o pote de tempero no seu devido lugar. – Se continuarem assim, vão tirar zero na tarefa de hoje!
– Não temos culpa se é tudo parecido – Shikadai falou entediado o que não pude deixar de concordar com um aceno.
Chouchou suspirou em desistência.
– Me acobertem – pediu. – A sensei não pode me pegar fazendo isso!
– Hai – nós três respondemos sabendo o que aconteceria a seguir.
Inojin e Shikadai se aproximaram fazendo uma pequena barreira humana para que a professora, ao fundo da sala, aconselhando algumas duplas, não nos visse.
Chouchou se inclinou sobre a bancada preparando a massa de Nikuman dos meninos.
Com uma habilidade de dar inveja, vi Chouchou preparar tudo com facilidade e rapidez.
Não é à toa que a cozinha da casa dos Akimichi é maior do que a sala e sala de jantar juntas, pensei tendo a certeza de que quando fosse mais velha sempre iria para a casa de Chouchou no meu horário de almoço quando eu estivesse finalmente trabalhando na Uchiha's Company.
– Pronto! Já podem cozinhar a vapor – falou com um suspiro aliviado a morena, voltando a sua posição inicial.
– Arigato, Chouchou! – Agradeceu entusiasmado Inojin, enquanto Shikadai agradeceu de sua forma mais retraída seguida de um bocejo que me tirou risos.
– Aliás, – iniciou o loiro chamando nossa atenção – Sarada, por que você está evitando tanto o Boruto? – Os três olharam em minha direção, esperançosos com a reposta que receberiam.
Não pude evitar, senti meu rosto arder em vergonha pela pergunta repentina e minha boca emitir sons de gaguejos, sem saber como fugir daquele assunto.
– Ele fica olhando toda hora para cá – confidenciou Shikadai, olhando disfarçadamente por cima do ombro de Chouchou.
A morena com seu ar curioso fingiu olhar a arquitetura da grande sala que abrigava as duas turmas da minha série até um sorriso presunçoso se expandir em sua face assim que viu algo atrás de nós duas.
– Ele não para de olhar para você com uma cara emburrada – foi acompanhada no riso por Inojin.
Senti meu rosto arder ainda mais por aquela sentença e decidi ver pelos meus próprios olhos que aquilo não era verdade, entretanto, assim que olhei por cima do meu ombro, decidi que nunca mais duvidaria das palavras dos meus amigos.
Se eu estava vermelha, fiquei ainda mais quando dei de cara com um loiro me fuzilando descaradamente há duas bancadas de mim.
Mitsuki, seu parceiro de tarefa e estudante da outra turma, parou de dizer algo para o loiro quando notou que eu estava olhando para a dupla.
O menino alegre olhou sem pudores para mim com um largo sorriso e um aceno nada discreto, denunciando com todas as letras que eu era o alvo do olhar deles e possível conversa.
Nem ao menos tive coragem de corresponder o aceno, virei o rosto fervendo de vergonha, ficando petrificada de frente aos meus amigos que me olhavam com curiosidade.
– Boruto não gostou nada de você ter fugido dele todas as vezes que ele tentou falar com você depois daquele esbarrão que vocês tiveram dias atrás – comentou Shikadai. – Chegou até a perguntar para mim e para o Inojin qual era o problema com você.
– Sarada se escondeu até atrás da lata de lixo depois de pedir para dizer para o Boruto que ela estava do outro lado do colégio – segredou a morena aos garotos.
– Chouchou! – Ralhei envergonhada.
Os três olhares de tons claros focaram-se em mim, esperando uma explicação.
Suspirando, decidi admitir:
– É que é constrangedor ver as pessoas fofocarem que eu tenho alguma coisa com o Boruto. Quero que as pessoas parem de falar sobre isso e a fofoca não vai ser esquecida se as pessoas nos verem andando juntos por aí, algo que nunca foi de acontecer normalmente!
– Então, por que ele está te perseguindo tanto? – Perguntou a morena.
– Como eu vou saber?
– Seja como for Sarada, sua fama não está melhorando nada com a Mika – alertou a morena retornando sua atenção para a massa.
Suspirei desolada, vendo o olhar mortal da ruiva para cima de mim, do outro lado da sala, enquanto suas seguidoras tentavam colocar a massa na panela com vapor ao som de gritinhos frescos.
Para a minha sorte, ou não tanto assim, Anko-sensei deu palminhas chamando a atenção de todos os alunos para a porta da sala, onde também se encontrava a professora de matemática, Kurenai, e o professor de educação física, Asuma.
– Pessoal, vocês sabem o que ocorrerá no domingo da próxima semana? – Começou a mulher rechonchuda dando-me a péssima impressão de que ela citaria justamente o evento que me deixava mais desanimada durante o ano escolar – Domingo que vem será o Chichi no Hi – falou animada a expressão que me fez suspirar desolada, recebendo olhares penosos de meus amigos que conheciam muito bem a minha situação.
O Chichi no Hi é o dia dos pais no Japão e é comemorado no terceiro domingo de junho. Nesse dia, a coisa mais importante não é os presentes, mas sim a tão esperada frase em meio a um abraço de pai e filho, o "Obrigado por tudo pai".
Por ser uma cultura nova, demandada em especial a partir da década de 50, o Chichi no Hi não é totalmente difundido, sendo mais lembrado e comemorado pelos jovens japoneses que gostam de agradecer aos seus pais por tudo.
Minha escola, além de ser uma das principais de Tóquio e ter como principais constituintes os jovens da classe alta, costuma ressaltar os festejos tanto tradicionais como culturas mais novas.
– No entanto, diferente dos outros anos – iniciou Asuma-sensei – o diretor Orochimaru recomendou que a celebração simbólica do Chichi no Hi aqui na escola ocorresse nessa sexta-feira, devido ao fato de muitos de vocês viajarem na sexta antes do Chichi no Hi para outras cidades onde seus avós moram.
Os outros alunos, diferente de mim, estavam exaltados com o evento que ocorreria, logo exclamando suas preocupações por causa do tempo curto, já que estávamos na quarta-feira.
– Não se preocupem – a professora Kurenai acalmou os alunos com doçura – sabemos que o tempo está curto e por isso esse ano a tarefa que contará ponto será mais simples. Nesse ano, vocês trarão ou confeccionarão algo que represente um hobby em comum com os seus pais. Algo que vocês compartilham e que seja só de vocês. Esse mesmo objeto será exposto em bancadas no ginásio com a placa correspondente ao aluno para que seus pais vejam o que para vocês representa o elo entre vocês – sorriu, mesmo que alguns alunos ainda levantassem a mão com dúvidas sobre a tarefa.
Diferente dos outros alunos, não prestei atenção nas explicações ou ideias que alguns alunos tinham para o Chichi no Hi, eu apenas me sentei em um dos bancos e fixei meu olhar na panela fechada à minha frente, desejando que o Nikuman ficasse pronto, mas minha atenção foi alcançada ao escutar a voz fina de Mika que balançava seu braço escandalosamente com o intuito de prevalecer sua vez em detrimento dos demais:
– Professora, e se caso uma pessoa não tiver pai e se por exemplo ela tiver sido abandonada logo ao nascer? Como ela vai fazer essa tarefa? Vai ficar sem ponto? – Perguntou com falsa inocência, levando suas companheiras e alguns alunos a risadinhas mal-intencionadas devido ao olhar furtivo e de canto que Mika lançava para mim.
Fiquei sem reação no início, sabendo que de todos aqueles alunos, eu era a única que não tinha um pai presente, não que eu saísse gritando aos sete ventos aquelas verdades, mas depois de tantos anos com a falta de um pai nos eventos na escola, as histórias se espalharam e muitas fofocas foram feitas sobre a minha mãe.
Quando eu era pequena, não entendia bem o que as pessoas mais velhas falavam, eu não via maldade e não compreendia os olhares das pessoas quando minha mãe me levava ao parque ou para um evento da escola.
Só anos depois compreendi que aqueles adultos viam minha mãe com olhos tortos para o fato dela não ter um homem ou sequer um nome para dar como sendo a do meu pai.
Foi com dor que muitas vezes escutei algumas mulheres fofocarem pelos cantos sobre a possibilidade da minha mãe ter sido uma libertina na adolescência, tendo engravidado de uma criança e nem saber qual dos parceiros era o meu pai ou talvez meu pai simplesmente ter nos abandonado e rejeitado a minha existência.
Eu sabia desde pequena a verdade sobre o meu nascimento, explicado com tanto cuidado e morosidade pela minha mãe, madrinha e avós de criação.
Todos envolvidos na área da saúde e conhecedores de como tudo havia acontecido, mesmo assim, era doloroso ouvir as vozes dos adultos que transferiram tais ideias aos seus filhos e filhas.
– Silêncio – pediu Asuma-sensei ao perceber o olhar raivoso que eu lançava para as crianças que riam de mim e das palavras maldosas de Mika.
Senti o toque suave e um olhar de alerta de Chouchou, só então percebi os meus punhos cerrados ao lado do meu corpo. Eu tremia levemente e minhas unhas perfuravam a minha pele.
Desviei meu olhar para janela, tentando mostrar que aquilo não me atingia, no entanto, não pude deixar de sorrir de canto ao ouvir as palavras doces mais repletas de indireta para Mika.
– Nesse caso lidaremos de modo a considerar os pormenores singulares de cada aluno em particular – frisou a última palavra, calando por completo a turma com a frase seguinte. – Mas até onde eu sei esse não é seu caso, Hozuki-san, por isso, não se preocupe, apenas foque-se em suas tarefas particulares. Aliás, devo acrescentar que a pontuação do Chichi no Hi é muito importante para você, Hozuki-san.
Mika empalideceu com aquelas palavras cheias de doçura, calando-se enquanto alguns alunos riam disfarçadamente da ruiva de óculos.
As últimas instruções foram dadas antes de Anko-sensei anunciar que o tempo dedicado à tarefa do dia havia acabado.
Mostramos nossos pratos para receber nossa pontuação e como sempre, eu e Chouchou recebemos nota máxima devido à uma Anko-sensei que se lambuzava com nossos Nikuman.
Senti um pouco de felicidade brilhar no meu rosto com a empolgação e elogios das duas amantes de comida, até mesmo quando Anko-sensei reclamou que os Nikuman de Mika e suas seguidoras estavam incomíveis.
Enquanto éramos liberados para a próxima aula, apressei meus passos quando vi, pelo canto do olho, Boruto encarar com a intenção de me seguir, por sorte fui parada pela Kurenai-sensei que gostaria de passar algumas instruções em particular.
Meus amigos e Boruto seguiram para a outra aula, enquanto segui Kurenai-sensei para a sala dela.
Com um suspiro ela se sentou em sua mesa antes de me comunicar:
– Sinto muito pelo ocorrido de mais cedo.
– Isso não tem importância, não foi nada demais – tentei convencê-la, por mais que seu olhar sério me denunciasse que ela não acreditava em nada do que eu havia dito.
– Bom, como você sabe vamos ter o Chichi no Hi essa semana e...
– Vou ter que fazer um trabalho escrito de novo? – Perguntei com pesar, lembrando da tarefa que eu tinha que fazer todos os anos naquela época por não participar das atividades daquele dia.
A educadora assentiu em confirmação, o que provocou um suspiro pesado em mim.
– Não faça essa cara, separei uma tarefa interessante para você esse ano – soou otimista pegando uma pasta de sua gaveta. Retirou uma folha com poucas palavras, mas que me tirou um olhar surpreso. – Esse ano você fará uma redação falando da cultura do videogame entre os jovens japoneses e como isso pode influenciar no campo educacional – sorriu largamente me tirando um grande sorriso feliz.
– Pensei que seria algo chato e cultural mais uma vez – não consegui controlar a minha língua, mas diferente do que professores autoritários fariam, Kurenai-sensei apenas gargalhou da minha sinceridade.
– Espero que você tenha gostado.
– Eu adorei – abracei a folha de papel.
– Que bom – sorriu doce, estendendo um passe para poder entrar na sala onde ocorria minha aula. – Melhor se apressar, senão chegará atrasada na sua aula.
– Hai – assenti saindo correndo da sala, depois de me despedir com um abraço da minha professora.
Eu sentia um sorriso mínimo estampado em minha face durante todo o caminhar e decorrer daquela tarde educacional.
Evitei ao máximo Boruto e, ao sair, decidi fugir pelos portões do fundo da escola, antes mesmo que disparasse para a rua sobre meus patins, ouvi uma voz me indagar:
– Por que está fugindo tanto do Boruto? Ele não para de falar de você, Haruno-san. Disse que precisava falar com você.
Olhei para os lados tentando descobrir de onde a voz vinha, mas minhas dúvidas foram sanadas assim que eu vi o jovem de sorriso largo e vestes escolares sair dos arbustos próximo de mim.
O que o Mitsuki estava fazendo no meio do mato? Pensei confusa e petrificada olhando para o filho do diretor que se aproximava mais e mais de mim.
– Boruto está por perto? – Perguntei temerosa.
– Relaxa, ele já foi embora.
Suspirei relaxada o que não passou despercebido pelo garoto de olhos estranhos.
– Então, não vai me responder?
– Peça para o seu amigo ser mais discreto ao invés de me perseguir como um louco pela escola – falei de uma vez o que me incomodava. – Se ele for discreto, quem sabe eu possa saber o que ele quer comigo.
– Tenho cara de garoto de recados? – Mesmo que a resposta fosse malcriada, Mitsuki permanecia com o largo sorriso estampado.
Não sabia se ele estava chateado pelas minhas palavras anteriores ou se ele só estava tirando uma com a minha cara, por isso permaneci encarando-o sem saber o que dizer, até que...
– Hn... não sei.
O garoto estranho deu de ombros antes de se virar de costas e dizer voltando para a escola acenando:
– Vou avisar ao Boruto sua resposta, Haruno-san. Aliás, você tem olhos bonitos como o Boruto disse.
– Hã? – Meu rosto ferveu tanto que sair correndo para o mais longe possível daquele louco dos matos do fundo da escola.
Corri tanto sobre os meus patins que só diminui a velocidade quando vi propagandas de lojas estimulando os clientes a comprar presentes para o Chichi no Hi.
Argh! Grunhi em pensamentos me lembrando como era incômoda aquela época que me lembrava a todo momento que eu não tinha ninguém para presentear.
Antes mesmo que eu percebesse, meus pés desviaram meu caminho do centro comercial cheio de propagandas e cartazes anunciando promoções e festivais.
Decidi caminhar sem rumo por áreas nipônicas longe do centro. Passei por algumas praças, até perceber estar próxima da área tranquila onde ficava a casa da minha madrinha.
Decidi visitá-la para retardar minha volta para casa. Minha mãe confiava muito em mim para andar livremente, apenas tinha que comunicar onde eu estava caso estivesse muito tarde. Se eu não avisasse, era capaz que a rosada botasse a polícia atrás de mim devido aos seus conhecidos naquele ramo.
Até que seria divertido ser levada pelo carro da polícia para casa, pensei rindo.
– O que faz essa jovem sorrir tanto? – Perguntou uma voz adulta que eu conhecia há muitos anos.
– Nada – respondi ao marceneiro e aposentado da polícia, Yamato.
O homem de cabelos castanhos e olhos negros era o homem que há muitos anos resgatou minha mãe do acidente que deveria ter tirado sua vida junto aos meus avós. Desde então, devido sua compaixão àquela jovem, tornou-se próximo de nossa família.
– Sei... – brincou cruzando os braços fortes e desnudos devido a camiseta azul marinho sem mangas
– Bom – desviei meu olhar sapeca para obras que havia feito com madeira bem polida, aquele era seu hobby favorito – se você ainda tiver um carro da polícia pode ser bem útil para a minha ideia.
– Sarada, Sarada. O que você está aprontando, sua pimentinha? – Brincou bagunçando meus cabelos curtos.
– Nada – levantei minhas mãos em defensiva, sabendo que Yamato, com sua astúcia de ex-delegado, sabia que eu era uma criança que adorava aprontar com os pretendentes da minha mãe – Eu juro! Só achei legal a ideia de chegar em casa no carro da polícia.
O homem riu alto.
– Sinto pena da sua mãe quando você chegar na adolescência.
– Serei um anjo de pessoa.
– Sei... quero só ver quando começar os primeiros namoros e fugas para festas.
– Sou tão boa que ela não vai nem perceber que eu já voltei da festa – brinquei batendo socos com Yamato-san.
– Até lá consigo um carro da polícia para te buscar nas festas e assustar alguns adolescentes que não têm conhecidos na polícia.
– Conto com você – acenei em despedida, subindo pela escadaria lateral da mercearia que levava ao apartamento da minha madrinha.
Já estava sem patins quando Shizune atendeu a porta com um aspecto doentio.
A mulher de aparência frágil e olhos destacados pelas olheiras escuras, sorriu gentil quando o pequeno pano que ela usava para tossir, revelou seus lábios finos e um pouco ressecados.
– Sarada! – Falou com surpresa pela minha visita inesperada e antes que eu pudesse evitar, já estava com meus braços rodeando a cintura fina da mulher.
Afundei meu rosto em seu tronco coberto apenas pela longa roupa de dormir semelhante aos pacientes hospitalizados.
Ouvi uma leve risada da mulher que acariciou com delicadeza meus cabelos negros, tão negros quanto um dia foram os delas, só que hoje, nenhum fio continuava em sua cabeça nua devido aos tratamentos, apenas as perucas que ela usava fora de casa ou os lenços coloridos adornavam seu rosto abatido.
Inspirei profundamente a mistura de cheiros tão característico dela.
Madeira, remédios, amaciante, chá verde... recitava em pensamentos, tentando descobrir todos os elementos que pareciam se prenderem nela.
– Que visita inesperada!
– Não gostou? – Fiz um biquinho que tirou outro riso da minha madrinha, enquanto erguia meu rosto para ela.
– Eu sempre adoro suas visitas – sussurrou como se contasse um segredo engraçado – mas não conte para a Tsunade-sama, ela não gosta de ser passada nesse quesito.
Sorri desvencilhando-me dela.
– Vamos, entre! – Me deu passagem para a sala cheia de móveis de madeira de aspecto antiquado em comparação aos móveis modernos em designe que eu via na casa dos meus amigos. – Vou buscar o chá que eu acabei de fazer, espere-me no sofá.
– Você não quer ajuda, madrinha? – Perguntei preocupada com a aparência física dela, enquanto deixava minha mochila e meus patins em canto próximo da entrada.
– Não sou uma inválida, dona Sarada – brincou alto e senti uma ponta de dor quando me lembrei o que a minha mãe havia dito sobre a saúde de Shizune-san.
Não era certo invalidar uma pessoa tentando fazer tudo por ela e não deixando que ela vivesse normalmente e com qualidade, prendendo-a em uma cama ao invés de deixá-la fazer atividades simples que lhe davam prazer.
Suspirei profundamente, antes de sussurrar um "hai" baixo para a mulher em outro cômodo, indo diretamente para o grande sofá de estampa floral e várias almofadas de crochê – um hábito que ela havia adquirido depois de ter que abandonar a profissão para se dedicar ao tratamento que durou anos.
Era estranho olhar para aquele ambiente tão íntimo e acolhedor que eu sempre conheci e pensar que em pouco tempo não haveria mais motivos para voltar ali.
Foi difícil quando minha mãe teve que me dar a notícia de que a minha madrinha não reagia mais aos tratamentos e, por isso, sua sobrevida era baixa a partir daquele momento.
Eu me lembro do sorriso doce e gentil da mulher que limpava o suor das mãos em suas saias de trabalho, tudo parecia normal, mas eu sabia que uma notícia ruim chegaria a mim devido aos seus olhos inchados e de aparência cansada.
Ela estava chorando, era a única coisa que eu pensava até as palavras começarem a sair em um longo monólogo que eu não conseguia reagir.
Assim que terminou, eu não tinha forças para reagir e nem para chorar. Fiquei parada ouvindo as vozes de quando tinha cinco anos e minha mãe explicava porque eu não tinha pai.
As vozes eram tumultuadas como uma lembrança distante, mas distinguia as vozes de meus familiares "adotivos" que foram chamados para explicar a história toda.
Naquele dia, Shizune me levou pela primeira vez em sua clínica. Eu estava confusa e não compreendia o que aquelas salas e aparelhos faziam, mas me encantei quando ela disse que havia me feito e colocado dentro da barriga da minha mãe.
"Você faz bebês!?" Exclamei alto tirando risadas da morena que me carregava no colo e de minha mãe que nos acompanhava.
"Sim, eu faço bebês e coloco na barriguinha das suas mães, assim como eu coloquei você na Sakura-san" falava com cuidado para que uma criança entendesse.
"Então você pode colocar um bebê dentro de mim?" Perguntei na inocência.
"Não, não, não" bradou a minha mãe pegando-me no colo enquanto a outra mulher ria da minha sentença. "Você ainda é muito nova para pensar nisso, mocinha".
– Por que você está sorrindo, Sarada? – Despertei-me com a voz da minha madrinha que se sentara do meu lado, servindo-me de chá verde.
Só então, percebi que um sorriso de canto estava em meu rosto enquanto havia tido aquela lembrança feliz, mas que se tornava triste sabendo do futuro que uma daquelas pessoas teria.
Voltei a seriedade, saboreando meu chá, antes de dar um sorriso fraco e constrangido.
– Não é nada não, estava apenas divagando sobre coisas.
– Hn – assentiu saboreando do próprio chá.
Ficamos em silêncio até que a mulher quebrasse ele:
– Posso saber o real motivo da sua visita? – Falou séria e eu me encolhi sabendo que não conseguiria mentir para ela.
– Estava passando aqui perto e resolvi parar – tentei omitir algumas coisas.
– Interessante – bebeu um pouco de chá antes de focalizar em mim os olhos negros e inteligentes da médica. – Até onde eu sei, essa vizinhança não fica no caminho do colégio para a sua casa – olhou acusadoramente para as minhas roupas escolares.
Suspirei em derrota, alisando nervosamente a superfície morna da porcelana branca com desenhos florais.
– Chichi no Hi – admiti em um múrmuro quase inaudível sem conseguir encarar o olhar da minha madrinha, apenas o meu reflexo incerto pelo movimento do líquido, mas o suspiro da outra foi a prova de que ela havia me escutado e entendido tudo.
Curiosa, levantei devagar o meu olhar, vendo Shizune-san com um semblante entristecido direcionado para a estante à nossa frente.
Segui seu olhar para encontrar as fotografias sob a grande televisão de LCD.
Lá tinham muitas fotos de nossos amigos próximos em várias épocas de nossa vida. Tinha uma da formatura de Shizune, o casamento dos meus avós adotivos, Tsunade e Dan, uma minha com a minha mãe dias após o meu nascimento e uma recente com todos.
Voltei meu olhar para a mulher de olhar perdido e um sorriso pequeno no rosto como se tivesse tendo uma lembrança boa.
– Eu sei que você tem curiosidade sobre o seu pai, Sarada – começou sem olhar para mim e não pude conter meu espanto, o que alargou ainda mais seu sorriso quando seu olhar caiu sobre mim. – Não faça essa cara de espanto, qualquer criança em sua situação estaria. Você pode se fazer de forte com a sua mãe e evitar assuntos como esse com ela, mas eu sei que aí dentro – tocou com o dedo indicador o local que ficava o meu coração – tem uma garotinha linda que carrega várias dúvidas e muitos porquês.
– Eu sei que você sabe quem ele é, sempre soube – minha voz saiu sem comando.
– Você sempre foi muito mais esperta que a maioria.
Sorri fracamente com o comentário.
– Foi você que fez todo o procedimento da minha mãe e escolheu o doador. Eu... – respirei fundo antes de admitir a minha vergonha – tentei hackear o sistema da sua antiga clínica, mas não consegui porque ela já foi fechada há alguns anos – senti minhas bochechas queimarem.
Os olhos de Shizune se arregalaram antes dela rir da minha tentativa frustrada.
– Os dados da clínica estão gravados em um banco nacional por segurança e por lei, principalmente após fechar a clínica.
– Isso é um pouquinho mais complicado de hackear – falei pensativa.
– Haruno Sarada, me prometa que você não vai tentar fazer uma loucura dessas – falou firme cruzando os braços.
Bufei.
– Isso é complicado e eu levaria séculos tentando achar a minha informação, madrinha, sem contar que não são nomes, mas sim números que identificam as pessoas e doadores – suspirei cansada só de pensar no trabalho que seria fazer isso.
Minha madrinha assentiu satisfeita com a resposta.
– Mas há outra forma de descobrir – sorri para a mulher que arqueava a sobrancelha. – Tenho certeza que você sabe o nome e sobrenome do dono do espermatozoide que você utilizou em uma amiga tão próxima...
– Não! Isso é quebra de sigilo médico!
– Posso ao menos saber se eu tenho irmãos, sei lá, já vi em filmes que usando o código do doador você poderia saber se tem irmãos também por inseminação – arrisquei, querendo saber qualquer coisa, mas ela apenas balançou a cabeça em negação.
– Eu não poderia dizer isso, mas, em minha clínica, você é a única criança a partir daquele material.
Meu corpo caiu em desistência no sofá olhando para o nada.
– Desculpe Sarada, sei como isso é importante e confuso para você, mas...
– Não, vocês não sabem como é – murmurei me encolhendo.
– Talvez eles tenham razão de terem mudado as regras – voltei meu olhar para a mulher de sorriso fraco. Ela entendeu a confusão em meu rosto, por isso continuou com uma explicação. – A ética nesses procedimentos. Logo que conseguiram o primeiro bebê de proveta, o mundo se encantou com essa ferramenta e não pensou muito em seus atos, mas depois dos primeiros problemas...
– Que problemas?
– Existiam casos de mulheres que engravidavam de seus maridos recentemente falecidos, usando o material que eles haviam mandado congelar em vida, mas no fim, era apenas para ter herdeiros e ter direito à herança – sua voz abaixou em confidência, o que me espantou.
– Que horror. Ter um filho pensando em benefício financeiro? – Minha madrinha assentiu com tristeza.
– Por isso que ao longo dos anos, várias novas normas éticas entraram em vigor por causa desses casos particulares, em alguns casos, vai parar na justiça para ver se consegue autorização para o procedimento, tudo visando o direito do embrião.
– Direito do embrião? – Perguntei interessada, aproximando-me ainda mais da minha madrinha.
– Sim. Os embriões também têm direito. Por exemplo, se uma mulher viúva resolve engravidar de seu marido falecido é ótimo para ela, mas e a criança, Sarada? Qual será o futuro dela?
– Ela será uma criança que já vai nascer órfã – adivinhei o que ela queria me dizer.
– No início, a ciência viu o benefício próprio, principalmente para nós adultos, mas nos esquecemos que estávamos lidando com a vida de futuras crianças.
Fiquei pensativa. Nunca tinha parado para pensar daquela maneira.
Eu sou uma dessas crianças.
Será que a minha mãe pensou como seria a minha vida?
Provavelmente não. Pensei com pesar, mesmo sabendo de tudo o que a minha mãe fazia por mim para suprir os dois papeis.
Divaguei em pensamentos até ser despertada por um acesso de tosses vindos da minha madrinha.
– Madrinha! – Gritei em desespero, sobressaltando-me com a porcelana que se partiu no chão, já que seu corpo estava enfraquecido tentando parar com o acesso.
Pus minha xícara vazia sobre a mesa de centro, antes de me ajoelhar no sofá, só então vendo as linhas de sangue que escorriam pelo seu braço, saídas pela sua boca e nariz para o meu desespero.
***
– Perdão, você não precisava ter visto aquilo – ouvi a voz baixa e fraca vinda do quarto.
Suspirei com o olhar focado no pequeno pano molhado e sujo de sangue. Torci o pano vendo a mistura de água e sangue escorrer pelo ralo.
Lavei o pano e deixei sobre a pia de mármore branco, pegando outro pano limpo para umedecer.
Voltei para o quarto, onde Shizune-san estava deitada sobre sua cama de casal respirando com dificuldades devido aos seus problemas pulmonares.
– Shh... – chiei quando percebi que ela se esforçaria para falar. – Você precisa não se esforçar muito – sussurrei, limpando os resquícios de sangue em seu pescoço alvo.
Por sorte não havia sido algo mais sério, o sangramento estancou e, mesmo com dificuldades, consegui levar minha madrinha para o quarto e ligar para a minha avó que estava indo ao nosso encontro.
Mesmo assim...
Mordi minha bochecha interna reprimindo o choro, evitando olhar nos olhos que me fitavam.
Respirei aliviada quando escutei a porta sendo aberta pela loira que correu até nós duas.
Minhas mãos já tremiam e eu queria sair correndo para que ninguém me visse caso começasse a chorar vendo a morte tão próxima da nossa família.
Eu não tinha pai e agora a vida queria me tirar uma pessoa importante para mim...
Que injustiça!
– Eu... – pigarreei para limpar a minha voz rouca – eu preciso ir para casa – falei para as duas.
– Tudo bem, querida – falou a minha avó me abraçando e depositando um beijo no alto da minha cabeça. – Tome cuidado – acariciou o meu rosto, fazendo-me sorrir fracamente.
– Tchau, madrinha. Melhora, tá!?
Ela sorriu gentilmente, retribuindo o abraço fraco que eu lhe dei.
Sem demoras, sair daquele lugar sentindo um nó em minha garganta.
Coloquei minha mochila e patins, antes de sair daquele lugar em disparada, nem ao menos me lembrando de Yamato-san.
Eu não sei por quanto tempo corri sobre meus patins, mas apenas quando cheguei à um grande parque arborizado que eu parei buscando fôlego pelo meu esforço exagerado.
Risadas infantis estavam por todos os lados. Era final de tarde e o clima ameno era perfeito para um passeio em família. Meus olhos vagaram pelos meus dois lados, vendo que o parque se estendia por ambos os lados da passagem de concreto que eu me encontrava.
As árvores formavam um arco sobre mim e algumas folhas caiam devido a leve brisa.
O farfalhar continuo e o som das risadas era um calmante que eu decidi aproveitar de olhos fechados para me acalmar.
Já estava me sentindo melhor, quando ouvi uma voz que eu não esperava escutar ali:
– Sarada!
Virei-me em um rompante, encontrando o loiro que me perseguia no colégio com uma expressão tão confusa e surpresa quanto a minha.
Ele ainda estava com as roupas colegiais e seu skate, diferenciando apenas pelo fato dele está segurando um caderno de desenho e um lápis ao lado do seu corpo.
– Espere – pediu erguendo o braço livre como se tentasse me alcançar quando fiz menção de fugir dele como fazia no colégio – eu preciso falar com você.
– Sobre o quê? – Perguntei desconfiada.
– Sobre o Kurama – falou como se fosse óbvio.
Senti meu rosto corar lembrando do nosso trabalho que ainda não havíamos iniciado.
É claro que ele queria falar contigo só por causa de um trabalho, Sarada!
Ralhei em pensamentos.
– Podemos conversar agora ou você vai fugir como você faz no colégio?
Senti a vergonha aumentar e com raiva, virei-me para ele como um desafio.
– Agora? Aqui?
Ele assentiu seguindo caminho para um banco próximo além das árvores laterais.
Resolvi seguir em silêncio.
Boruto jogou sua mochila e skate sem cuidados do lado direito do banco, antes de se jogar no banco ainda segurando o caderno em seu colo, olhando para um ponto distante da praça.
Sentei em silêncio ao seu lado, abraçando a minha mochila apoiada no meu colo.
Fiquei sem saber o que fazer, já que o garoto de aparência atípica para um japonês permanecia calado.
No fim, também permaneci.
Meu olhar caiu em uma pequena família de três integrantes. O casal estava sentado no gramado rindo feliz enquanto o pai chamava pela pequena filha que estava aprendendo a dar seus primeiros passos. Os risos eram altos e as palmas me faziam sorrir de canto para a cena, divagando novamente para assuntos que tiraram meu sorriso do rosto, por sorte, Boruto falou, chamando a minha atenção:
– Sabe, você não precisa ligar para o que a Mika fala. Aquela ruiva só quer aparecer – sussurrou sem olhar para mim que encarava ele com uma sobrancelha arqueada.
Cadê o papo de que queria falar sobre o trabalho?
– Não é a primeira vez que escuto algo do tipo vindo dela – limitei-me a falar, voltando meu olhar para a frente. – Por que você estava aqui?
– Estava fazendo meu trabalho para o Chichi no Hi e aqui é um ótimo lugar para se inspirar – virei subitamente para ele, conseguindo ver as bochechas coradas que tentavam se esconder do meu olhar.
– Pensei que eu teria que fazer seu trabalho, como tenho tido que fazer nesses últimos dias.
Boruto inflou as bochechas e me olhou indignado.
– É para o meu pai, quero fazer algo especial – apertou com força o caderno me deixando sem reação para o que ele havia dito com tanto fervor.
Seu rosto suavizou como se visse algo em meu rosto, então disse mais calmo e preocupado:
– Perdão, não queria ter falado isso na sua frente.
– Não é por que eu não tenho pai que eu não posso ouvir essa palavra.
– Pensei que não gostasse – se encolheu.
– E não gosto.
– Então...
– Só incomoda, tá, mas posso escutar essa palavra.
Ele assentiu tentando me entender.
– Você deve ser muito próximo ao seu pai para querer fazer algo especial para ele.
– É, nós somos, por mais que as vezes eu não possa vê-lo porque ele tem que preparar alguns desenhos para a Companhia.
– Como é? – Decidi fazer todas as perguntas que eu queria, já que estávamos conversando amigavelmente e o andar da conversa me fazia esquecer dos meus problemas com as pessoas que eu amava, mesmo que momentaneamente.
– O quê?
– Como é ter um pai? – Boruto ficou surpreso com a pergunta que eu havia lhe dirigido, mas como se pensasse em algo, resolveu ceder sorrindo de leve.
– Ah, eu não sei bem como explicar, mas é bom de certa maneira.
– Como ter uma mãe? – Tentei.
– Não – negou com a cabeça. – É diferente! Nem tudo que nós gostamos podemos compartilhar com a nossa mãe, aí vem o nosso pai. Sabe, o otou-san é menos rigoroso que a minha okaa-san, fazemos coisas divertidas juntas que eu não faço com ela. Por mais que ele chegue cansado em casa, sempre abraça a mim e a minha irmã, jantamos juntos escutando todas as histórias dele e depois ele nos coloca na cama. Nos finais de semana, brinca com a gente ou simplesmente nos escuta. Chegamos até a fazer grafite na parede do fundo da nossa casa, minha mãe ficou furiosa – riu com a lembrança e eu acabei sorrindo imaginando a cena. – Até a minha irmã que não tem talento nenhum se arriscou na tarefa. Ouvimos a okaa-san brigar pelas roupas sujas por horas, mas no fim rimos da nossa arte, indo jogar videogame depois.
– Parece bom.
– É bom saber que ele está sempre ali para cuidar de nós e nos escutar.
– Você estava fazendo um desenho para o seu pai – supus e ele assentiu. – Posso ver?
Suas bochechas coraram.
– É que... ainda não está pronto e quero mostrar só no dia.
– Tudo bem – falei desanimada, pois realmente estava curiosa para saber o que ele havia desenhado. Sabia que ele tinha muito talento e deveria ter feito uma obra de arte que humilharia minhas pessoas feitas de risquinhos.
– Mas eu te mostro no dia – apressou-se a prometer. – Você vai uma das primeiras a ver!
Fiquei surpresa e acabei sorrindo agradecida o que o fez me olhar sério, antes de pigarrear desviando o olhar.
– Podemos começar nosso trabalho em breve – mudou de assunto.
– Ah sim, claro! Só preciso arrumar o equipamento – falei ajeitando os meus óculos, recompondo a minha postura.
– Yosh! To certo! Vamos ser os melhores no projeto de ciências – falou alto, antes de sorrir largo com a ideia.
Não pude me conter, acabei sorrindo para aqueles trejeitos engraçados de Boruto, até que eu me lembrei...
"Aliás, você tem olhos bonitos como o Boruto disse"
Meu riso morreu sentindo minhas bochechas pegarem fogo, o que deixou o menino confuso aproximando o rosto do meu.
Mesmo no crepúsculo era possível ver a intensidade do brilho dos olhos azuis e aquilo me deixou desconfortável, fazendo-me levantar em um pulo inventando uma desculpa para ir embora.
Não notei as coisas ao meu redor. Corri para o meu prédio tentando refrear o constrangimento que me abatia. Como uma forma de fuga, repassei todos os eventos daquele dia, tentando me lembrar como aquela avalanche havia começado...
Afinal, como foi que tudo começou?
Ah, sim! Com o meu pai e com o pensamento de que ele poderia ser...
– Qualquer um – terminei em um sussurro o meu pensamento.
– Espera! – Ouvi uma voz alta e passos apressados, surpreendendo-me com a mão que impediu que as portas do elevador se fechassem.
Sasuke apareceu ofegante e se assustou ao me ver, mas voltou a seriedade como se estivesse pensando em algo enquanto me encarava.
Seus pensamentos eram uma incógnita para mim...
Eu só conseguia olhá-lo sem dizer nada, ainda estava meditando em meus pensamentos a expressão "Qualquer um", até que eu acordei para a realidade desviando meu olhar com um bico petulante, assim que o moreno deu boa noite e um sorriso de canto.
Qualquer um, menos ele, acrescentei rapidamente como uma nota mental.
***
Autora...
Shizune permanecia em sua cama. O sorriso cálido que sempre estava em seu rosto quando algum de seus amigos estava por perto, tornou-se uma linha reta, enquanto seu olhar endurecido e pensativo, permanecia fixo no celular entre as suas magras mãos que tremiam levemente.
Tsunade estava na cozinha preparando algo para a amiga e aproveitando a oportunidade, a antiga mulher de cabelos negros e curtos ligou a tela e escreveu uma rápida mensagem mandando via SMS para um número, que por segurança, não gravava em seu celular, apenas tinha decorado em seus pensamentos e pedia para que aquela invasão cerebral de seu câncer não influenciasse em suas memórias.
"Sarada veio à minha casa hoje, queria saber sobre o seu pai" – foi sucinta.
Tensos segundos se passaram esperando por uma resposta, trocando seu olhar do celular para a porta entreaberta, até que uma mensagem de texto chegou.
"Ótimo, tudo está acontecendo como planejado"
Sentiu um aperto no peito apagando a mensagem. Ela sempre se perguntava se aquilo era traição com as pessoas que amava, mas agora já estava envolvida demais para voltar em sua escolha.
O jogo só pararia quando terminasse e ainda sentia que estavam longe do fim. A única coisa que ela pedia é que pudesse ver o seu fim antes que seu tempo em vida acabasse, só assim saberia se suas escolhas foram sábias e se poderia realmente confiar naquelas pessoas ou se aquilo só traria mais dor para suas amadas Sakura e Sarada.
Continua...
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