Sakura…

Dedilhei o maxilar bonito do homem adormecido, a luz que adentrava o quarto deixava a aura etérea como em um sonho.

O corpo se remexeu antes dos olhos negros se abrirem para o novo dia e um sorriso desenhar a boca masculina ao me reconhecer.

– Admirando-me mais uma vez, Sakura? – brincou travesso.

Eu ri antes de abraçar o corpo masculino e me inebriar mais uma vez com o seu cheiro. Fui correspondida com os braços fortes ao meu redor.

– Só estava confabulando umas ideias – admiti para o homem que havia se tornado minha companhia constante dos dias e das noites.

– Estava pensando no quê? – Questionou curioso pelo que eu diria.

– Se você nunca quis se casar ou ter filhos, coisas assim.

Ele desviou o olhar para o teto alvo do meu quarto enquanto um pequeno sorriso saudoso demonstrava que estava pensando no assunto.

– A verdade é que tenho vontade de casar e ter uma família. Admito que sinto inveja do Naruto quando o vejo com a família dele, mas é claro que eu vou negar se algum dia você contar isso para ele – acrescentou rapidamente virando-se para mim com uma face divertida, eu ri em resposta antes de voltar a seriedade e dizer em sussurro:

– Você vai ser um bom pai, Sasuke. Posso ver como você cuida da Sarada.

O sorriso pequeno demonstrava que ele absorvia aquela sentença com deleite antes de uma ideia perpassar pela sua mente:

– Acho que quero ser pai de cinco.

– Cinco? – Questionei surpresa.

– Sim, poderíamos considerar a Sarada a 01, que tal Sakura? Pode me ajudar a arrumar mais quatro crianças? – Tentei fugir mas Sasuke me abraçou por trás ainda rindo da ideia. – Qual é, não é como se fosse um grande sacrifício fazer um bebê.

– Não é um sacrifício, mas você não tem ideia de como é ter um bebê te acordando a noite toda porque está com fome – bufei com as risadas na minha nuca.

– Prometo que fico responsável de cuidar das crianças se elas acordarem a noite – brincou.

Rolei os olhos dando um leve tapa nas mãos que impediam de me levantar.

Ele me abraçou mais forte e deu um beijo casto na minha nuca antes de sussurrar:

– Quero me casar e ter uma grande família, mas só se for com você, Sakura…

Acordei sobressaltada e ofegante. Minha mão foi ao peito de forma instintiva para garantir que meu coração não saltasse dali.

Respirei fundo mais uma vez antes de tentar focar na realidade, no quarto cheio de móveis antigos daquela casa no subúrbio de Tóquio.

– Foi só um sonho – tentei dizer para mim mesma enquanto via o início daquela manhã.

Um maldito sonho misturado às lembranças de uma época feliz…

Suspirei me levantando sabendo que não conseguiria retornar ao sono, ainda estava muito cedo até para acordar Sarada e no fundo, eu queria que pelo menos uma de nós conseguisse dormir após o ocorrido nas últimas semanas.

Vesti uma roupa esportiva discreta, escondi meus cabelos no boné antes de sair para correr naquele bairro exclusivamente residencial com poucas barracas.

A corrida estava se tornando minha companhia constante das noites de insônia quando os remédios do psiquiatra não faziam efeito.

Agradecia pelo fato dos poucos moradores daquela região, em sua maioria idosos, não me reconhecerem, permitindo-me pelo menos o benefício de correr ao ar livre.

Depois da nossa fuga, não pude voltar para o meu apartamento, por sorte ainda tinha a antiga casa dos meus pais para me esconder. Nos primeiros dias tive medo de Sasuke aparecer na minha porta, porém, com o passar dos dias, percebi que ele não viria. Ino e Hinata, mesmo com raiva dos seus maridos, haviam aconselhado-os a impedi-lo de me procurar, pelo menos, por hora…

Suspirei fundo vendo uma notícia passar em uma televisão na vitrine de uma pequena loja de móveis do bairro. Sasuke sempre em evidência nas notícias…

Bufei ajeitando meu boné, com medo de alguém me reconhecer.

Após a desastrosa noite, as consequências vieram em cascata. A verdade sobre a inseminação… mulheres que foram pacientes de Shizune questionando se Sasuke não era pai das crianças delas… o Conselho de Medicina questionando a ética médica de Shizune… Tsunade tendo que quebrar o sigilo de paternidade da antiga clínica de Shizune a pedido dos Uchihas para apaziguar a mídia, as mães e o Conselho…

No fim, o nome daquela renomada médica que nem está mais aqui para se defender, foi difamado e o meu entrou nas rodas de especulação: “Será se ela não sabia que ia gerar o filho de um homem rico e escolheu o esperma?”.

Da mesma forma que as especulações surgiam, elas desapareciam e eu sabia que tinha dedo da poderosa família Uchiha tentando sobreviver a grande crise que abalava sua integridade e sua empresa.

Parei de correr ofegante assim que cheguei na simples casa de 2 andares que havia vivido com os meus pais.

***

Autora…

E voltamos novamente às notícias que têm abalado a sociedade nipônica nas últimas semanas depois do desaparecimento misterioso da Dama de Branco e a revelação da paternidade de Uchiha Sasuke…

Os olhos lilases de Mika desviaram da televisão assim que viu sua mãe com uma expressão atípica de seriedade buscando o celular.

Será se marcaram a audiência? Pensou a cabeça infantil com leve preocupação.

– Oi… mãe? – Ouviu Karin proferir e Mika se surpreendeu com a mãe ligando para a sua avó, não só por ainda ser cedo, mas por sua mãe não ser tão próxima da sua avó. Mika observava as costas da sua mãe enquanto continuava a escutar a conversa baixa ao telefone: – Você olhou o que eu te pedi? Sabe me dizer se a casa está ocupada?

Casa? Mika não compreendeu ao que ela se referia e não obteve suas respostas, pois a ligação foi interrompida.

– Mika, você está pronta? – Sua mãe questionou continuando com sua seriedade atípica. – Precisamos sair mais cedo, preciso passar em um local antes de te deixar na escola.

Mika assentiu antes de pegar sua mochila e seguir sua mãe já com sua roupa de trabalho.

Foi um trajeto silencioso e pela primeira vez, Mika que não tinha trava ao se dirigir à sua mãe, se viu incerta do que dizer.

Karin explosiva com seu pai. Karin reclamona. Karin desdenhosa. E, por vezes, Karin amorosa com sua filha. Essas versões Mika conhecia, mas a versão silenciosa e pensativa, era desconhecida.

O carro parou ao meio fio, reconheceu o bairro residencial, simples, e um pouco afastado do centro onde seus avós maternos moravam, porém, estavam uma rua acima. Antes que pudesse questionar se iriam à casa dos seus avós, as palavras fugiram da boca da mais nova ao reconhecer as duas figuras que saiam de uma casa simples de dois pavimentos.

A boca se abriu ao ver Sarada e Sakura saindo da casa, com a mais nova com roupas escolares.

Era verdade que Sarada havia voltado para a escola após algumas semanas, mas o diretor Orochimaru havia instituído a regra que proibia a simples menção ao caso de paternidade dentro das paredes da escola. Como uma escola de prestígio com muitos filhos de celebridades entre os alunos comuns, era uma norma muito utilizada quando algum familiar estava envolvido em uma polêmica. O problema era que a própria aluna era a polêmica.

O silêncio disfarçado, as portas fechadas para os paparazzi e a proibição expressa de que Uchiha Sasuke ou qualquer outro Uchiha não poderia adentrar a escola sem a autorização de Sakura, deixavam a escola, e, principalmente a sua sala, sob uma aura carregada.

Karin não fez nada ao constatar o que já suspeitava. Ela e Sakura, apesar de não serem próximas, cresceram no mesmo bairro e ela sabia que a casa dos Harunos nunca havia sido vendida, logo, ela se esconderia lá depois de tudo.

Karin apenas deu partida no carro seguindo seu caminho.

***

Sasuke…

Respirei fundo antes de esfregar minhas mãos no meu rosto diante das notícias na televisão.

– Já está tudo pronto, Sasuke – Shikamaru tentou me chamar para realidade.

Naruto e Itachi me olhavam com preocupação diante das minhas feições de quem não dormia e passava as noites bebendo tentando esquecer a dor da perda.

A empresa estava em crise com a queda das ações. O prazo do testamento terminando sem uma única herdeira oficial para apresentar ao Conselho. A imagem da família, sendo denegrida nas páginas de fofoca. E a única coisa que eu desejava era ver Sakura e Sarada e perguntar se elas estavam bem.

Suspirei fundo antes de me erguer:

– Vamos terminar com isso de uma vez – determinei antes de rumar para fora da minha sala e seguir para a sala do Conselho onde os donos das grandes mídias estavam reunidos.

Sentei em minha cadeira da Presidência sem ofertar uma saudação às visitas indesejadas, sempre tendo Shikamaru, Naruto e Itachi ao meu lado.

– Estou curioso senhor, por que nos chamou? – Iniciou o dono de um jornal eletrônico, apesar dos termos cordiais, o meio sorriso mostrava sua intenção torta, afinal, ele era o que mais denegria a mim e a Sakura em suas reportagens.

– Serei breve com os senhores, afinal, depois de hoje, vocês terão muito trabalho fiscalizando seus subordinados para não lançarem nenhuma nota sobre mim, sobre a empresa, sobre meus familiares ou sobre a Sakura e a Sarada, sem a minha autorização.

– Ora seu – o dono de uma rede de televisão se ergueu com as faces ruborizadas, outros seguiram com protestos, enquanto Hiashi e Hizashi na ponta da mesa mantinham-se impassíveis.

– Antes que protestem, peço que abram o envelope na frente de cada um de vocês e vejam o conteúdo – ordenei antes que a desordem tomasse proporções maiores.

À medida que os envelopes eram abertos, o silêncio aumentava na sala.

– O qu-que isso significa? – Um gaguejou.

– Tenho certeza que nenhum de vocês vai querer que o seu concorrente receba o seu envelope – ameacei em um tom baixo diante da palidez daqueles senhores. – Então voltemos aos negócios, como eu ia dizendo, vocês não vão postar mais nada sobre mim, a menos que queiram que eu exponha o que eu sei sobre cada um de vocês – intimei sem um pingo de cordialidade.

Um deles engoliu em seco:

– Senhor, não podemos impedir que meios não oficiais divulguem algo sobre a sua família.

– O jurídico já está cuidando deles – expliquei antes de concluir me erguendo: – Podem levar seus envelopes como lembrança, tenho cópias desses documentos. Tenham um bom dia – sorri de canto vendo os homens partirem em silêncio presos em seus próprios pensamentos.

Hiashi e Hizashi foram os únicos que permaneceram na sala e se aproximaram.

– Não entregou nenhum envelope para a Hyuuga’s Company – comentou Hiashi com um olhar curioso.

– Não tenho a intenção de ameaçar a Hyuuga’s Company – admiti após um suspiro cansado antes de ver Naruto fazer uma breve mesura para o sogro. – Vocês foram os únicos que foram gentis com a minha família em suas notícias.

– Então por que fomos chamados para essa reunião? – Questionou direto Hizashi.

– Quando for o momento certo, vou dar uma entrevista exclusiva para a Hyuuga’s Company. Sei que em algum momento, terei que me manifestar, desejo que seja com vocês e gostaria que fosse a Mitsashi Tenten a entrevistadora – contei sobre meus planos.

A surpresa foi instantânea sobre a escolha da entrevistadora, apesar do longo histórico de reportagens que ela fazia sobre mim. Apesar de tudo, ela procurou Sakura antes de divulgarem sobre a existência da Sarada e foi a mesma quem ajudou Sakura a fugir do Teatro. Apesar de saber que Tenten não gosta de mim, ela parecia ter um cuidado especial quando o assunto envolvia Sakura e Sarada.

Percebendo que eu não daria mais explicações por hora, os gêmeos da Hyuuga’s Company decidiram se despedir e partir.

– Otouto, tem certeza sobre isso? – Itachi questionou.

– Tenho – respondi. – Não posso explicar muito agora, mas em algum momento terei que falar, mesmo que essa seja a única forma da minha mensagem chegar a Sakura e a Sarada.

Eu sabia que Naruto e Itachi estavam genuinamente preocupados comigo, mas não havia mais nada que eles pudessem fazer por mim e isso os frustrava.

– Vou para a minha sala trabalhar, vocês deveriam ir para as suas para aproveitar enquanto ainda temos autonomia nessa empresa – finalizei a conversa indo para a minha sala.

Karin entrou na minha sala em silêncio carregando documentos que necessitavam da minha atenção, apesar de ter colocado os documentos na minha mesa e tê-la dispensado, a mulher, de forma incomum continuou parada na minha frente como se decidisse o que devia fazer em seguida.

– Algum problema, Karin? – Questionei aquela atitude atípica.

Um olhar castanho decidido demonstrou que ela havia tomado uma decisão.

– Eu me questionei a manhã inteira se eu deveria fazer isso, mas acho que é uma decisão que o senhor deve tomar – proferiu aquelas palavras antes de deixar um papel dobrado sobre a minha mesa e partir da minha sala.

Desdobrei o papel e dentro estava um endereço desconhecido. Ergui uma sobrancelha para a porta que se fechava sem entender o que aquilo significava.

Bufei olhando para a rua residencial, afinal…

O que eu estava fazendo ali?

Não havia motivos de seguir aquele endereço sem saber o que havia, mas quando o nada nos acompanha por tantos dias, perseguimos o algo sem nem mesmo sabermos o que é.

Sai do carro assim que encontrei a casa correspondente ao endereço.

Era uma casa simples de dois andares, semelhante a outras tantas, mas assim que olhei a caixa de correios coberto por uma planta trepadeira, vi o nome “Haruno” escrito.

– Não pode ser – balbuciei com os olhos arregalados para a casa. – Será se essa casa…

– O que está fazendo aqui? – A voz que eu conhecia tão bem e que eu não escutava há semanas alcançou os meus ouvidos.

– Sakura – arfei, não acreditando em quem eu via.

***

Sakura…

Eu sabia que esse dia chegaria mais cedo ou mais tarde, mas olhando para Sasuke eu via os efeitos da insônia que eu via em meu espelho todos os dias, porém, mais proeminentes.

Eu sabia que ele viria, mas ele parecia surpreso ao me ver, como se não soubesse que eu estaria aqui.

– Eu não sabia que você estava aqui – balbuciou incerto, uma mistura de culpa, felicidade e saudade perpassou os negros cansados.

Suspirei olhando a Ferrari chamativa no meio-fio. Sabia que não conseguiria me livrar tão fácil dele, então cedi momentaneamente.

– Vou abrir a garagem para você colocar seu carro antes que chame mais atenção indesejada da vizinhança.

Ele assentiu fazendo o que eu tinha sugerido.

Era estranho ter ele sentado no sofá da sala da casa onde eu cresci com os meus pais.

– Vou preparar um chá, pode me esperar um pouco? – Ofertei e ele assentiu observando todos os detalhes ao redor como se ainda estivesse descrente de onde ele estava.

Escondida na cozinha, gemi sem saber o que eu ia fazer ou como iria lidar com aquela situação. Eu sabia que aquele momento chegaria, mas saber não quer dizer que eu estava pronta para enfrentar esses demônios.

Suspirei fundo tomando coragem antes de voltar para sala com a bandeja com os utensílios do chá, mas Sasuke estava dormindo de forma torta no sofá.

Coloquei a bandeja na mesa de centro antes de estudar melhor a figura e perceber que ele dormia de forma serena, seus traços denunciavam o cansaço acumulado e naquele momento eu entendi que assim como eu estava tentando lidar com os problemas que havia mudado a minha vida de cabeça para baixo, Sasuke também estava tentando apagar o incêndio midiático que havia se tornado nossa história.

Cobri ele com um lençol e esperei ele acordar. Naquele momento eu levantei a bandeira branca, mas só por aquele momento…

– Você apagou por 2 horas inteiras – comuniquei assim que o homem acordou em um sobressalto sem entender o que havia acontecido.

Levou alguns segundos antes dos olhos reconhecerem onde estavam.

Ele sorriu parcamente antes de admitir:

– Pensei que fosse um sonho.

Não respondi, apenas questionei o que se passava na minha mente:

– O que você quer Sasuke? Veio atrás de uma herdeira para a sua empresa? Sarada não está aqui e ela não quer te ver.

– Na verdade, eu nem pensei nisso quando eu te vi. Eu só queria saber se vocês estavam bem – admitiu em um sussurro enquanto os olhos negros caiam no chão.

– Precisei me ausentar do meu trabalho por causa dessa confusão, minha filha não consegue nem andar na rua sem ser perseguida por paparazzi, estamos vivendo escondidas esperando que algum dia tudo volte ao normal, mas, no fundo, eu sei que nunca vai voltar – simplifiquei a situação.

– Eu sinto muito Sakura. Eu queria te contar – sua voz estava repleta de culpa, mas mantive minha posição austera. Eu precisava me manter firme, por mais que no fundo só quisesse chorar, gritar e me esconder.

– Você sempre soube? – Quis saber.

– Descobri um pouco antes de te conhecer, Shizune me contou.

Aquilo doeu, a traição de uma pessoa que eu confiava tanto.

Por que contar a ele e não para mim?

– Não a culpe, ela só queria te proteger – disse como se lesse meus pensamentos. – Tive receio de conhecer a mulher que tinha gerado a minha filha, tinha medo de ser interesseira e quis conhecer melhor vocês. E eu conheci. O problema é que quanto mais eu conhecia vocês, mas eu temia contar. Eu tinha medo Sakura. Medo de perder vocês.

– Parabéns, você conseguiu exatamente isso.

– Sei que não mereço pedir nada a vocês, sei o quanto vocês confiavam em mim e se sentiram traídas e isso não tem perdão, mas eu preciso ser sincero em dizer que eu tinha medo de perder mais tempo. Eu já perdi 12 anos da vida da Sarada, perder mais tempo é o meu maior medo.

Não poderia negar, ele tinha o olhar desesperado, como uma súplica para ajudá-lo, mas…

– Eu não vou obrigar minha filha a conviver com alguém que ela não quer ver. Na verdade – repensei –, ela não tem falado nada desde aquela noite. Ela tenta fingir que nada aconteceu, mas eu sei que é só uma armadura para aguentar tudo – confidenciei.

– Se ela quiser falar comigo, poderia dizer que estou no aguardo dela, a hora que ela quiser?

Assenti e o silêncio tomou conta da sala antes de Sasuke confidenciar:

– Eu nunca menti sobre os meus sentimentos Sakura. Eu sinto a sua falta.

Eu também sinto.

Eu sabia a verdade, mas sentir falta não era maior que o sentimento de traição e eu precisava de mais tempo para poder perdoar e seguir em frente.

– É melhor você ir Sasuke – balbuciei antes de me erguer e lembrar de algo. – Espere, há algo que quero te dar.

Busquei a caixa em um dos quartos superiores e entreguei para o homem confuso.

– É melhor abrir em casa.

Ele assentiu com relutância para ir embora, mas no fim ele foi, só então minhas pernas falharam e meu coração acelerou. Não sabia como havia conseguido me manter firme por tanto tempo quando no fim eu só queria chorar.

Eu sinto a sua falta.

Essa era a verdade e pensava que as semanas haviam cicatrizado um pouco as feridas, mas elas continuavam abertas e friáveis.

***

Sasuke…

Não retornei para a empresa, voltei para casa com a caixa que Sakura havia me dado. O apartamento escuro foi a minha recepção. Suspirei pensando nos dias claros quando convivia com as Harunos e que agora pareciam tão distantes da minha realidade atual.

As garrafas vazias estavam espalhadas pelo chão.

Afastei algumas garrafas antes de sentar no chão com a caixa no colo.

Abri o pacote e dentro encontrei um bilhete sobre alguns CDs antigos.

Não posso te devolver os 12 anos que você perdeu, mas posso te dar isso

Era a letra da Sakura.

Haviam números nos CDs e peguei o número 1 para colocar no console do meu videogame, configurei para rodar o CD como um DVD antigo. Em poucos segundos a imagem apareceu na televisão.

Oi, meu nome é Sakura e esse é o primeiro vídeo da pequena Sarada – a imagem de Sakura jovem risonha com Sarada bebê nos braços iluminou o meu apartamento. Fiquei petrificado com a imagem de Sakura filmando o reflexo de ambas no espelho. – Um dia você vai ver esses vídeos pequena Sarada e eu só quero que você saiba que eu te amo muito minha filha…

A imagem mudou para uma Sarada de 6 meses experimentando alguns alimentos enquanto reverberava o riso de Sakura quando Sarada fazia cara de desgosto para uma fruta, mas aceitou e gostou quando tomates foram ofertados.

A imagem mudou mais uma vez para Sarada de 9 meses dando seus primeiros passos e Sakura estimulando a criança a continuar a andar.

Acabei sorrindo um pouco quando a criança riu, mas caiu antes de ser amparada pelo colo da amável mãe.

Olhei mais uma vez para os CDs dentro da caixa entendendo que ali estavam os 12 anos que eu perdi em forma de vídeo. Dei um sorriso sem humor enquanto abraçava a caixa como se de alguma forma pudesse alcançar a Sarada. A risada infantil ainda reverberava pelo meu apartamento quando a primeira lágrima de saudade se formou.

***

Autora…

O homem de terno saiu do carro soltando uma lufada de nicotina. Uma sobrancelha se ergueu ao ver o homem loiro também aguardando em frente àquela casa simples.

– Não esperava encontrá-lo aqui, Sasori-san – Minato ofereceu um sorriso cordial que escondia suas verdadeiras intenções.

Sasori tinha que admitir que dentre todos os que trabalhavam na Uchiha’s Company, Minato era o único que não conseguia compreender, um homem tão diferente do filho que era como um livro aberto.

Sasori não teve tempo de questionar Minato, pois a porta foi aberta e a garota morena que era a ambição de todas as revistas de fofocas saiu em um rompante.

– Vamos mamãe, se não vou acabar me atrasando para a escola! – Sarada comunicou alto, mas estancou ao ver Minato e Sasori parados em frente a sua casa.

A surpresa e até um resquício de medo perpassou pelos negros enquanto buscava com o olhar a sua mãe também estática pelas visitas inesperadas àquele horário.

– O que vieram fazer aqui? – Questionou a mãe puxando sua filha para trás como forma de proteção. Sasori compreendia que Sakura não estava protegendo Sarada de si, mas do homem de negócios que era chefe do Conselho da Uchiha’s Company.

Minato ergueu as mãos em um pedido de trégua antes de admitir:

– Eu só vim entregar algo para Sarada. Não vim em nome da empresa e nem vim convencê-la a assumir o posto de herdeira dos Uchihas. Sasuke não sabe que eu estou aqui.

Os olhos verdes estavam desconfiados antes de seguir o olhar para o ruivo também parado à sua porta.

– Eu vim falar com você – Sasori foi direto. – Não tenho nada a ver com eles – apontou com desgosto para Minato que se limitou a rir da falta de decoro de Sasori.

Os olhos verdes recaíram sobre Sarada que apesar de desconfiada, não deixava de esconder sua genuína curiosidade.

– Você quer conversar com ele, Sarada? – Sakura questionou a filha. Ela sabia que Minato não faria mal a sua filha apesar de tudo o que estava acontecendo.

Os olhos de Sarada recaíram sobre os seus pés, ela não havia contado para a mãe para não preocupá-la, mas a verdade é que por vezes retornou escondida para o antigo prédio e viu o apartamento escuro e cheio de garrafas vazias de Sasuke, em outros momentos até vigiou à distância a empresa que um dia declarou ser fã número 1. Apesar disso, ainda sentia grande mágoa daquela família e no momento não desejava se reaproximar deles, nem ser o trófeu de um maldito testamento, porém, a pulga da curiosidade foi imposta a ela no momento em que Minato disse que havia algo para entregar para ela.

– Eu quero escutar o que ele tem para me falar, mamãe – decidiu olhando diretamente para os olhos preocupados da sua mãe.

Minato sorriu com a decisão da criança e Sakura assentiu concordando.

– Vi que tem uma pequena praça aqui perto – Minato propôs. – Assim deixamos a sua mãe conversar com Sasori-san a sós.

Sarada assentiu antes de averiguar mais uma vez se sua mãe estava bem, apesar de ser deixada para trás com o homem que já foi o motivo do seu colapso.

– Não consigo confiar nesse cara – Sasori resmungou chamando a atenção de Sakura.

– Ele é diferente do filho, mais fechado, porém, é um homem que sempre pensa nos outros antes de si – Sakura defendeu em um sussurro antes de se aproximar de Sasori e questionar: – O que veio fazer aqui?

Os olhos castanhos se ergueram para a casa que ele tão bem conhecia o interior dos seus tempos de juventude enquanto a boca confidenciava:

– Vim me despedir – resumiu tudo naquela frase antes dos seus olhos recaíram sobre uma Sakura surpresa. Um sorriso de canto desenhou o rosto bonito antes de continuar: – Vou retornar para Singapura hoje. Tenho assuntos inacabados com o meu pai para acertar, acho que já está na hora de conversarmos.

Sakura se surpreendeu com a confidência de Sasori, sabia que Sasori odiava o pai mesmo sem saber os pormenores desta relação e o fato daquele homem decidir ir atrás do pai ao invés de se afastar como sempre fazia, deixou-a sem palavras.

– Mas antes – retornou a fala –, eu queria me despedir e… – se aproximou para dizer com uma certeza inabalável: – eu sinto muito.

Se Sasori era capaz de surpreendê-la ainda mais, naquele momento ela descobriu que sim.

– Nada do que eu diga pode apagar o que eu fiz com você no passado, mas depois de muito pensar… Eu sinto muito. Você pode não acreditar, mas eu gostava muito de você – suspirou procurando as palavras para continuar. – Talvez você nunca me perdoe e talvez nem eu me perdoe pelo que aconteceu, mas durante todos esses anos nutri raiva por você, pensando que na única vez que havia acreditado em alguém, havia sido enganado mais uma vez. Hoje entendo que a raiva não era direcionado a você, mas a mim e ao que eu poderia ser com você – finalizou focando o olhar nos verdes incrédulos.

Sakura riu descrente que estava escutando o que ela esperou tantos anos ouvir.

– Eu espero que você encontre a felicidade, Sasori – repetiu o que já tinha dito para ele antes. Pensou bem antes de dizer: – Eu te perdoo. – Sasori se surpreendeu com a fala, mas Sakura apenas sorriu sabendo que ela precisava dizer aquilo para colocar um ponto final na história dos dois.

Sasori riu baixo antes de comentar:

– Se você é capaz de me perdoar, acho que ainda há esperança para aquele Uchiha idiota.

Sakura ergueu uma sobrancelha surpresa pela fala de Sasori que se afastou com um sorriso no rosto antes de dizer:

– Adeus, Sakura!

O aceno de costas foi a última imagem que Sakura teve de Sasori antes dele entrar no carro de luxo.

Sasori não desviou os olhos de Sakura parada no portão até a imagem desaparecer quando o carro fez uma curva.

– Kisame, você ainda tem algum trabalho para fazer em Tóquio? – Questionou o motorista que o serviu por todo aquele período em que esteve em Tóquio.

– Não senhor, deixá-lo no aeroporto será meu último trabalho – o motorista respondeu de forma lacônica como todas as vezes.

Sasori sorriu antes de fazer a proposta:

– O que você acha de vir comigo para Singapura e trabalhar para mim? Vou precisar de um motorista confiável…

Algumas quadras de distância dali, Sarada sentava-se em um banco de madeira enquanto o homem tão parecido com o Boruto permanecia em pé, em sua pose austera.

– Veio me convencer a assumir o posto de herdeira dos Uchihas? – Questionou iniciando a conversa. – Acho que ouvi falar que hoje é o prazo final para Sasuke apresentar um herdeiro.

– É verdade, daqui irei para a reunião que decidirá o futuro da empresa, mas não vim por esse motivo – retirou um envelope do bolso interno do paletó. – Só vim entregar isso. Isso lhe pertence Sarada.

Sarada estava confusa com todo o andar da conversa, mesmo contrariada pegou o envelope que ele lhe oferecia. O envelope simples, apenas com o seu nome escrito por uma letra masculina, era uma incógnita.

– Uma carta? – Questionou espiando brevemente o conteúdo de dentro do envelope. – Quem escreve uma carta hoje em dia? – Observou com leve humor tirando um sorriso breve de Minato.

– Um homem de outra era – respondeu lacónicamente.

– O que tem nessa carta? Quem escreveu? – Quis saber receosa de descobrir o que havia ali dentro para ela.

– Eu não sei o que tem aí dentro. Quanto ao autor, você descobrirá ao ler. A decisão é sua de aceitar a carta ou não – explicou, antes de continuar: – Irei naquela barraca para te dar privacidade, quer algo para comer?

– Não, obrigada – murmurou vendo o homem se afastar.

Em seus tenros 12 anos, Sarada nunca havia se sentido temerosa por uma decisão como aquela. Mesmo sem saber o conteúdo daquela carta, ela sentia que haveria um antes e um depois de ver seu conteúdo.

Minato havia trazido aquele envelope em pessoa, não poderia ser algo simples.

Sarada viu que Minato já estava distante quando respirou fundo e decidiu abrir a longa carta escrita à mão. Não reconhecia aquela letra, mas com poucas linhas descobriu quem era o autor daquela carta.

Os olhos arregalaram, a boca se abriu, as mãos começaram a tremer ao entender o que era confidenciado ali só para o seu conhecimento.

Minato sorriu complacente vendo à distância a pequena garota ler a carta que agora lhe pertencia. Ele não sabia o que lhe era dito, mas sabia que aquelas palavras poderiam mudar todo o andar dos eventos…

***

Longe dali, poucas horas após a abertura da carta pela Sarada, Sasuke estava sentado em sua cadeira da Presidência aguardando a chegada do seu padrinho para iniciar a reunião que tiraria toda a autoridade da sua família sobre a empresa.

Um dia antes havia se reunido com os membros da família Uchiha para se desculpar e dizer que não poderia forçar Sarada a assumir um posto que não desejava. Em um silêncio perturbador os membros daquela família resignaram-se a aceitar a situação que viveriam; não poderiam fazer nada se Fugaku havia decidido entregar as suas ações para o Conselho se não houvesse um herdeiro.

Aos poucos, cada um dos membros daquela família abraçou Sasuke, ele não se recordava quando foi a última vez que se sentiu tão próximo da sua família como agora em tempos infelizes. Aquilo foi um acalento. O acalento de saber que poderia voltar para eles mesmo se tudo desse errado e se a primeira determinação do Conselho fosse tirá-lo da Presidência.

– Minato-san está atrasado – um dos conselheiros comentou tirando Sasuke dos seus devaneios.

Os olhos negros recaíram sobre Naruto que apenas deu de ombros sem saber onde seu pai estava.

O Conselho estava começando a ficar inquieto, mas o silêncio voltou a imperar quando a porta dupla se abriu revelando o homem loiro de roupas formais e um sorriso culpado.

– Perdão pelo atraso, houve contratempos – informou alegremente antes de abrir mais a porta para revelar Sarada ali parada com algumas folhas nas mãos.

Sasuke ergueu-se em sobressalto ao ver sua filha ali tão perto de si depois de semanas de separação. A voz não saiu.

– O que isso significa? – Um conselheiro questionou alto o que se passava na cabeça de todos naquele recinto.

– Minato, você não a obrigou a…

– Ela veio por vontade própria, Sasuke, posso lhe garantir, mas não foi pelo motivo que todos acham que é – dispôs-se a explicar, antes de orientar Sarada a seguir para a cadeira do lado oposto, a cadeira pertencente a Minato, enquanto o mesmo permanecia ao lado da garota como um porto seguro para o que ela iria fazer a seguir.

Depois de semanas, Sarada trocou um primeiro olhar com Sasuke, o primeiro olhar depois dela gritar que ele nunca seria o seu pai. Os sinais da separação estavam ali, as bochechas mais magras, os olhos fundos, os negros com um mistura de saudade e preocupação. Estavam agora ali, separados por apenas uma grande mesa e um Conselho opressor estudando cada um dos seus traços em expectativa.

– Então Minato-san, irá nos explicar o que está acontecendo? – Um dos homens exigiu.

Sarada trocou um último olhar com Minato, buscando ali coragem para o que ela iria dizer. O homem já apresentando os primeiros traços da meia-idade em seu rosto sorriu estimulando-a uma última vez. Uma conversa silenciosa que ninguém além deles dois poderia entender.

– Na verdade – Sarada iniciou com a voz falha, pigarreou limpando a voz antes de dizer com mais firmeza: – Na verdade, existe outro testamento.

– O quê? – A mesa explodiu em questionamento, enquanto Sasuke, imóvel em sua cadeira, buscava elucidação em Itachi ao seu lado, mas o mesmo estava mais confuso que ele com o andar da reunião.

– Onde está esse testamento? – Questionou outro Conselheiro demonstrando raiva pelo circo que havia se tornado aquela manhã.

– Não posso entregar para vocês até eu mesma ler diante de todos vocês, é a condição dele…

– Condição de quem? – Sasuke pela primeira vez se manifestou tendo uma péssima ideia do que ela diria.

– É a condição de Uchiha Fugaku.

E ela disse… aquela informação que abalou a todos, mas principalmente os filhos daquele falecido senhor.

Uma troca de olhares entre os irmãos foi o suficiente para ambos saberem que a mesma pergunta perpassava pela mente de ambos: O nosso pai sabia da Sarada?

Sarada respirou fundo pegando a segunda folha que estava no envelope, a primeira era a sua carta, enquanto a segunda era o último testamento de Uchiha Fugaku que anulava todos os anteriores.

Ninguém sabia da existência daquele testamento, apenas Sarada poderia encontrá-lo se aceitasse aquele envelope. Enquanto estavam no carro, Minato havia confidenciado que se Sarada recusasse o envelope, ele seria destruído sem ser aberto.

Você não sabe o quanto eu fiquei feliz em ter tempo de te conhecer Sarada, mesmo que você não soubesse quem eu realmente era

A decisão é sua, Sarada. Sempre será sua.

As palavras da carta direcionada a ela voltaram em sua mente dando-lhe coragem para iniciar a leitura em alto e bom som.

***

Sarada…

– Eu, Uchiha Fugaku, declaro este o meu último e definitivo testamento que para seu pleno cumprimento deve ser lido e entregue pela minha neta Haruno Sarada. Ao meu pai, Uchiha Madara, deixo a casa da família Uchiha adquirida por mim em vida. À minha adorada esposa, Uchiha Mikoto, deixo todos os imóveis que adquirimos durante nossos anos de casamento e a Presidência do Departamento Social da Uchiha’s Company. Ao meu irmão, Uchiha Obito, deixo-o o controle das filiais da Uchiha’s Company, seu posto é incontestável e só poderá ser assumido por alguém nomeado por Obito. Aos meus filhos, deixo a partilha das ações da Companhia que estão em meu nome. Uchiha Itachi – pela primeira vez desviei o olhar para o homem que era o meu ídolo desde a infância. O choque de ouvir as palavras nunca ditas pelo pai morto há meses abalava os dois Uchihas presentes naquela reunião. – Ao meu filho mais velho – reiniciei com mais coragem –, dou-lhe a liberdade de seguir seus sonhos e deixar a companhia se algum dia desejar. Eu sei que não quer ser Presidente da empresa meu filho e nunca o obrigaria a isso. Desejo que busque a felicidade, não importa onde isso o levará – levantei o meu olhar para Itachi desnorteado por aquelas palavras de libertação. No fim, apesar de tudo, ele era um homem preso na sensação de dever com a família. Desviei o meu olhar para Sasuke e ele era o próximo a ser mencionado. – Ao meu amado filho mais novo, Uchiha Sasuke, deixo-lhe a Presidência da Companhia sem restrições ou condições a serem cumpridas. – A boca de Sasuke abriu brevemente tentando buscar palavras que não existiam. Continuei lendo as palavras que eram direcionadas ao filho mais novo daquele senhor que já não estava entre nós para dizer ele mesmo: – Sasuke, meu filho, eu sei que ama essa empresa como ama a sua família e eu sei que você fará um bom trabalho. Você não é o que as revistas falam e ninguém o conhece mais do que eu – vi Sasuke desviar o olhar para as mãos sentindo o peso daquelas palavras que provavelmente esperou tanto para escutar. – Para Haruno Sakura, deixo a reforma do setor de Oncologia Pediátrica que está ocorrendo em conjunto com a Companhia Sabaku. Para a minha neta, Haruno Sarada, deixo-a o poder de instituir esse testamento ou modificá-lo à sua vontade. – Respirei fundo concluindo antes de focar meu olhar em todas as faces surpresas pelo que eu tinha acabado de ler.

– Isso não pode ser real – um dos senhores de idade balbuciou.

Procurei o olhar de Minato que apenas me confortou com a ideia de que ele cuidaria de tudo dali para frente.

– Acho que não restam mais dúvidas sobre a verdadeira vontade de Uchiha Fugaku – Minato iniciou pegando o testamento das minhas mãos. – Está assinado pelo Fugaku e pela Sarada que concordou em seu pleno cumprimento cancelando o testamento anterior.

Mostrou a todos a assinatura incontestável de Fugaku, silenciando a sala e deixando cada um em seus próprios pensamentos.

– Devo instruir que essa reunião termine por agora, nenhum dos representantes aqui presentes encontram-se em condições de continuarmos essa reunião de negócios. Deixemos as discussões empresariais para um segundo momento.

Os conselheiros que ainda digeriam o caminhar da reunião em que acharam que tomariam conta da maior parte das ações da empresa e determinariam um novo Presidente, saíram em silêncio deixando na sala apenas a mim, Minato, os irmãos Uchihas, Naruto e Shikamaru.

– Bom… isso foi realmente inesperado – comentou Shikamaru quebrando o silêncio.

– Sarada – pela primeira vez, Sasuke, aquele que era o meu pai, dirigiu-se para mim: – Podemos conversar?

– Você não é obrigada, Sarada – Minato me confortou.

Sorri para o homem, antes de retornar o olhar para Sasuke para dizer:

– Podemos conversar, afinal, já perdi a aula hoje – dei de ombros tirando risos baixos dos demais.

Levantei-me seguindo o homem para a sala da Presidência. Vi de relance a mãe de Mika abrir uma carta. Como Minato-san havia me informado, depois de aceitar a minha carta, as demais cartas seriam entregues para seus respectivos donos.

Sasuke me guiou para o sofá enquanto ele sentava em uma poltrona. O friccionar das mãos demonstrava que ele estava nervoso naquele momento.

– Você não precisava ter feito isso.

– Eu não poderia deixar as coisas como estavam depois de descobrir que não passamos de peças de um jogo tão elaborado. Precisava zerar esse jogo, para poder começar um novo jogo – disse com confiança, mesmo sabendo que por hora ele não me entenderia. – Você vai compreender… vai compreender quando a sua carta chegar. Ele vai falar com você. Na verdade, no fim, isso não foi por mim – sorri desviando o olhar para a rosa do Chichi no Hi que Sasuke havia eternizado em sua estante –, mas por você, Sasuke. Ele fez tudo isso por você.

Tantas perguntas perpassaram pelo olhar negro, mas todas as dúvidas foram deixadas de lado quando Sasuke simplesmente disse:

– Eu sinto a sua falta, Sarada.

Sorri sem graça antes de admitir:

– Eu também sinto e eu queria te dizer que eu terminei o jogo que você me deu – tirei do bolso o pendrive que Sasuke havia me dado em um tempo que parecia tão distante hoje em dia. – Você deveria comercializar na empresa – deixei o pendrive sobre a mesa de centro. – A empresa está em crise, nada melhor que um jogo que você criou para me contar a paternidade para transformar esse vespeiro midiático ao seu favor – dei de ombros.

– Eu criei esse jogo para você, Sarada – quis negar a oferta, mas fui incisiva:

– E esse sempre será o jogo que você criou para mim independente de ser comercializado ou não – inspirei fundo antes de admitir: – Admito que seus jogos são muito bons, deveria criar mais jogos e não ficar só preso aqui na Presidência.

Correspondi ao pequeno sorriso que Sasuke deu. Ele enfim aceitou a minha oferta de comercializar o jogo que ele havia criado para mim. No fim do jogo ele era o vilão que a protagonista tanto buscava, mas também era o seu pai.

– Eu posso te ver? – Ele questionou com medo da minha resposta.

– Vamos nos ver muito daqui para frente. Seu pai fez questão de me incluir no Departamento Social, provavelmente Shikamaru-san deve estar recebendo essa instruções no momento – ri um pouco, fazendo o homem respirar um pouco aliviado. – Desculpe por não te chamar de pai – admiti. – Ainda estou tentando me acostumar com a ideia.

– Tudo bem, quem sabe um dia né!?

– Quem sabe – dei de ombros me erguendo já que as batidas na porta anunciavam que era hora de partir, mas antes que Sasuke desse autorização para entrarem, rompi nossa distância e abracei o corpo masculino tão maior que o meu.

Não me justifiquei, não pedi permissão, apenas o abracei em silêncio e ele correspondeu de igual forma.

Naquele momento eu não era capaz de chamá-lo de “pai”, mas queria ser capaz um dia. Eu só conseguia abraçá-lo naquela hora e essa seria a minha forma de dizer que eu sentia falta dele, muito mais do que antes quando não tinha nenhum rosto para relacionar ao termo “pai”.

Inspirei fundo o aroma masculino desejando que o tempo parasse naquele instante. Ele afagou meus cabelos com a morosidade de um pai, naquele momento ele compreendia minhas ações mesmo que palavras não fossem ditas.

Afastei-me lentamente enquanto a porta dupla era aberta e Minato e Shikamaru adentravam na sala da Presidência.

– Shikamaru-san, deve estar me procurando, não é? – Sorri para o homem que coçava a nuca compreendendo que tinha ganhado mais trabalho do que já tinha antes.

– Até logo, Sasuke – despedi-me antes de seguir Shikamaru para fora daquela sala, Karin não estava mais na recepção principal.

– Isso é tão problemático – o homem com a aparência de cansado resmungou chamando o elevador. – Acho que tenho que te explicar algumas coisas e Fugaku me incubiu dessa tarefa – iniciou olhando no iPad. – Primeiro de tudo, vou precisar conversar com o jurídico sobre os trâmites da sua mudança de sobrenome, mas o mais importante agora é você entender que pelo fato de ser uma Uchiha, mesmo sendo menor de idade, terá uma importância para a empresa e suas atitudes refletirão a imagem da empresa.

Assenti atenta enquanto o elevador se abria.

– É interessante o fato dele deixar tudo pronto para você mesmo não sabendo se no fim você viria.

– Talvez ele me conhecesse mais do que todos e sabia que no fim eu viria para essa reunião.

– Bom, todos os Uchihas passam por todos os setores da empresa para conhecê-la em detalhes, mas ele optou que você começasse pelo Departamento Social com a Mikoto-sama. Sasuke e Itachi não gostam de participar dos eventos em que são convidados e é bom ter mais uma Uchiha nesse departamento para ajudar Mikoto-sama.

– E o que eu vou ter que fazer?

– Bom, ir em jantares beneficentes, desfiles de moda, inauguração de centros de saúde, promover eventos e tudo mais o que o Departamento Social tiver que fazer. Creio que Fugaku deseja que você seja a nova cara da Uchiha’s Company – confabulou consigo mesmo.

Suspirei cansada só de ouvir tudo o que eu teria que fazer para ajudar a minha avó. No fim, ri um pouco da ideia que a Uchiha’s Company iria querer a garota estranha da escola como sua nova cara.

– Pelas estatísticas da última semana, você é o membro da família que melhor tem avaliação pelo público – o moreno riu um pouco da ideia.

Eu não gostava de público, mas se essa era a forma de ajudar a empresa, então eu faria.

A porta do elevador se abriu no subsolo e antes que eu questionasse, Shikamaru pôs-se a explicar:

– Esta é Moegi, Sarada – a mulher alta, loira, com o penteado engraçado fez uma mesura rápida; o terno demonstrava que estava de serviço. – Fugaku-sama a contratou antes de falecer para ser sua assistente, motorista e sua guarda-costa.

– É um prazer finalmente conhecê-la, senhorita Sarada. Senhor Fugaku me falou sobre você, estive esses meses ansiosa para finalmente conhecê-la – a mulher sorriu antes de soar o alarme de destrave do Audi negro. – Fugaku-sama também comprou esse carro para a senhorita. Onde devo levá-la, senhorita?

Meu queixo caiu enquanto estudava o carro de luxo.

– É meu? – Questionei incrédula Shikamaru que apenas assentiu de acordo.

Soltei um grito eufórica.

– Não é uma Ferrari, mas é lindo – cantarolei não acreditando que tinha um carro e uma motorista só para mim. Os adultos acabaram rindo um pouco da minha euforia vendo um carro.

– Talvez devêssemos ter mostrado o carro antes de tudo – brincou Moegi.

Bufei entrando no banco de trás do carro, doida para dar uma volta na cidade com aquele carro.

– Tenho algum compromisso hoje? – Questionei, mas Shikamaru negou com a cabeça. – Moegi-san, preciso ver a minha mãe.

Moegi assentiu assumindo seu posto no volante.

***

Sasuke…

– Isso pertence a você, Sasuke – meu padrinho me ofertou uma carta. – É melhor lê-la em um lugar que esteja sozinho.

Assenti antes de ser deixado sozinho com os meus pensamentos.

Respirei fundo sentindo o peso daquela carta nas minhas mãos, eu sabia que eram as últimas palavras do meu pai para mim. Era tão estranho receber as palavras depois dele ter partido subitamente, sem um adeus.

Optei por sair da empresa e ir até o cemitério isolado onde havíamos sepultado meu pai. Apenas uma placa simples com a imagem austera de Uchiha Fugaku identificava o local. Sentei-me na grama de frente para a placa sem me importar se algum segurança dissesse que era contra as regras.

Olhei profundamente a imagem estática do meu pai antes de ter coragem de abrir a carta. Eram duas páginas cobertas pela letra masculina do meu pai.


Sasuke, meu filho querido, sei que não esperava receber uma carta de mim depois de tanto tempo separados, mas enquanto inicio essa carta, uma das minhas lembranças mais antigas com você vem a minha mente. Lembro de você tão pequeno e olhos grandes e curiosos enquanto eu te mostrava as ferramentas de um robô que eu estava montando, sei que você era novo demais para compreender o que eu dizia, e a sua mãe sempre brigava comigo quando o deixava perto de peças, dizendo que era perigoso para uma criança, mas a verdade é que eu desejava mostrar meu mundo para os meus filhos e estava animado demais depois que você nasceu.

Não sei em que momento nos afastamos, mas sei que a culpa foi minha de querer dar a você e ao Itachi a melhor das empresas e esquecer que no fundo tudo o que vocês mais queriam, eram momentos em família. A verdade Sasuke, é que você nunca saiu da minha vista. Todas as noites que eu chegava tarde em casa, eu ia ao seu quarto e o via adormecido em um sono tranquilo, sua mãe sempre me mostrava seus projetos ou dizia o que os professores haviam contado sobre você.

Hoje, no fim, olho com saudosismo esse tempo e se pudesse ter um último pedido atendido, eu pediria para voltar no tempo e fazer tudo diferente.

No dia que eu descobri minha doença e a bomba relógio que havia na minha cabeça determinando meu tempo de vida, a primeira coisa que eu fiz foi tentar te ligar, mas você estava em viagem internacional lidando com transações entre empresas junto com o seu tio.

Tentei outras vezes, mas quando tinha a chance de falar com você e você atendia com indiferença disfarçada, eu desistia de contar a verdade.

Ao olhar para o rosto da minha esposa, não tive coragem de contar que em poucos meses eu não estaria mais com vocês, apenas uma pessoa sabia a verdade e não o critiquem, pois eu o fiz jurar que não contaria nada mesmo a contragosto dele. Acho que agora você sabe a quem eu me refiro. Refiro-me a Minato.

Mesmo no fim, eu recebi uma notícia inesperada. Shizune o procurou certo dia na empresa, você não estava e Karin havia me informado que não era a primeira vez que ela lhe procurava. Talvez seja compaixão do fim da vida, não sei lhe explicar, mas fui atrás de Shizune.

Ela estava contrariada de me contar o que havia ido fazer, mas depois de compartilharmos um café na cafeteria de frente para a empresa, ela me contou o que você havia feito há 12 anos e como aquele “erro” juvenil tinha resultado em uma garotinha de 12 anos.

Devo admitir que ri do destino de me presentear com uma neta ao mesmo tempo que ganhava a contagem regressiva da minha vida.

Eu tentei te ligar, mas você ignorou as minhas ligações; não lhe julguei, afinal havíamos tido uma discussão grave no dia anterior na empresa. Parado ao meio-fio da empresa que tanto lutei para crescer, senti-me impotente de não conseguir alcançar meu próprio filho.

Naquele dia, seguindo as orientações de Shizune, fui atrás da Sarada. No início a observei de longe, ela era tão parecida com você, meu filho, tão travessa quanto você era na mesma idade.

Orochimaru, um conhecido de longa data, ajudou-me a me infiltrar na escola e disfarçado de serviços gerais pude entender e conversar com a Sarada sem ela saber quem eu realmente era. Sarada apesar dos problemas escolares era a garota mais gentil e engraçada que conversava comigo. Ela é gentil mesmo com a mais humilde das pessoas.

Interessei-me em conhecer Sakura e ao conhecê-la entendi como ela havia criado uma garotinha como Sarada.

Quanto mais investigava as duas com a ajuda de Minato, Kakashi e Shizune, mais encontrava interseções entre a sua história e a das duas Harunos. Minato orientou-me a parar e contar a verdade para você, talvez eu devesse tê-lo escutado naquela época, mas a verdade é que você não me escutaria como eu queria que você me escutasse. A verdade filho, é que eu não conseguia alcançá-lo.

Tornei-me um grande amigo de Shizune, talvez por ambos compartilharmos a contagem regressiva da vida, tenhamos nos conectado mais que os outros. A cada novo encontro Shizune me contava mais sobre Sakura e assim eu cheguei a história dos pais dela, da relação dela com Karin, Sasori e Gaara.

Como a própria Shizune dizia, o passado de Sakura a impediria de seguir em frente. Talvez seja errado e talvez você ache que eu tenha brincado de Deus colocando todos vocês em um mesmo momento da história.

Mas foi nesse momento que eu decidi que eu criaria um testamento falso. Minato foi contra a minha ideia, mas disse que me apoiaria não importa o que acontecesse. Shizune mesmo contrariada, acatou desejando o melhor para Sakura e Sarada. Kakashi, talvez eu não precise dizer, mas não precisei convencê-lo de participar, ele é curioso por natureza, então naturalmente iria querer participar para ver onde tudo isso ia acabar.

Nos meses em que me restou, montei meu tabuleiro de jogos. Meu último jogo teria meu filho como meu protagonista. Talvez esteja incrédulo em pensar como eu posso saber o que vai acontecer depois que eu falecer, pois darei um breve resumo do que irá acontecer a partir da minha morte…

Vocês lerão o testamento e é claro que ficarão chocados com a minha decisão, talvez você entre em desespero, mas te conheço bem o bastante para saber que não irá gerar um filho com a primeira mulher que aparecer na rua apenas para benefício próprio. Shizune irá lhe procurar e contará sobre a Sarada. Posso apostar minha empresa que você irá contactar Kakashi e como deixamos preparado, ele te dará o dossiê sobre a Sarada. Meu filho, eu te conheço bem demais para saber que você vai atrás delas. É bem provável que elas não gostem de você e tentem te afastar. Você, com a sua armadura de muitos anos, pode ser desagradável à primeira vista. No fim, você provavelmente irá se apaixonar pela Sakura, mas ela irá te repelir por causa de Sasori. É neste momento, com um acordo que estou preparando antes da minha morte que trarei Sasori e Gaara para dentro da vida de Sakura. É claro que não podemos esquecer da mídia, afinal, você consegue ser bem famoso, mas contactei uma jornalista que eu sei que será profisisonal e cuidará de vocês, a Mitsashi Tenten.

Não estarei no futuro para ver esses eventos que se iniciarão no dia da minha morte, mas gostaria de estar. Minato, Shizune e Kakashi cuidarão para que os eventos ocorram da forma que planejei.

Se você está lendo esta carta Sasuke, isso quer dizer que o jogo terminou. Diga-me Sasuke, você fez alguma besteira e magoou as Harunos?

Mesmo que tenha feito meu filho, sei que não foi por maldade. Você, mesmo que não admita, é um dos homens mais gentis que eu conheço e eu sei que conseguirá resolver esse problema.

Filho, a partir de agora, não irei interferir em sua vida. Você é e sempre será o meu mais precioso bem. Esse último jogo que chamamos de vida, eu dedico a você.

Eu te amo filho e lembre-se: “A vida é como um jogo, onde não há Reset, apenas o botão Continue”.

Cuide-se filho e eu estarei torcendo por você, de onde quer que eu esteja.

Com todo meu amor, seu pai.


As folhas caíram das minhas mãos enquanto tentava digerir tudo o que meu pai havia escrito para mim.

– Você sabia – balbuciei para a lápide fria que era incapaz de me responder. – Você sabia e você estava lá – pensei em todos os momentos que ele descreveu que iria acontecer e aconteceram após a sua morte. A primeira lágrima achou o seu caminho. – Você estava lá, em todos os momentos, em todas as horas.

Solucei sendo acometido pelo mesmo arrependimento que me acometeu no dia do velório do meu pai.

Afinal, antes de morrer meu pai tentou me ligar e eu não atendi… Eu sou o último em seu histórico de chamada.

Ele tentou me alcançar mesmo tão próximo da morte e ele conseguiu me alcançar só após a morte.

Espalmei as mãos na grama enquanto tentava controlar os soluços incontroláveis que vinham em torrentes. O choro que estava guardado a tanto tempo.

– Me perdoa, pai – falei entre soluços. – Me perdoa! Eu deveria ter atendido a sua última ligação…

***

Autora…

Sasori estava acomodado em sua poltrona da Executiva olhando uma revista qualquer esperando a hora da decolagem do avião quando uma aeromoça se aproximou com uma carta e estendeu para o homem confuso.

– Disseram-me para entregar para o senhor – foi tudo o que ela disse antes de se afastar.

Sasori abriu a carta com desconfiança, antes da surpresa tomar conta do seu rosto ao ler a seguinte frase:

Talvez esteja curioso para saber quem são os homens que o tiraram da prisão e o trouxeram para Tóquio. Gostaria de me apresentar formalmente, meu nome é Uchiha Fugaku, e o homem que me acompanhava era o meu amigo, Namikaze Minato

O resto da carta era uma explicação e um desejo de um futuro promissor.

Você lembra um pouco meu filho Sasuke, talvez seja por isso que tenha me compadecido por você. Desejo que sua relação de pai e filho tenha mais sorte e mais tempo do que eu tive com o meu filho, Sasori

Sasori estava incrédulo, mas riu ao final da carta, ansioso para chegar em Singapura e ouvir do próprio pai como havia sido esse acordo entre o grande Fugaku e o seu pai para levá-lo para esse teatro de fantoches e cartas marcadas.

Do outro lado da cidade, em um prédio comercial com a logo da Hyuuga’s Company, outra carta era lida. As pernas de Tenten fraquejaram e ela caiu sentada no sofá da sua sala ao terminar a carta que um grande empresário escreveu para ela antes de falecer. O homem em questão parecia conhecer o íntimo dela mais do que a própria, o que era loucura já que nunca haviam se visto presencialmente.

Tenten riu um pouco com a ideia de que sentiria saudade de receber mensagens estranhas no seu celular já que aquela história estava se encerrando.

Conto com o seu sigilo

Ele pediu no final, mas o que mais retumbava em sua mente era a frase:

A vida é curta demais para temermos vivê-la

Aquela frase de forma inesperada fez Tenten ficar de pé e sair da sua sala buscando o outro andar que ela conhecia tão bem. Assim que chegou no andar investigativo de casos criminais, seus saltos caminharam com confiança rumo ao fim do corredor, onde a sala de Neji ficava.

– O que você está fazendo aqui, Tenten? – O homem de olhos perolados questionou confuso levantando da sua cadeira, mas ele não teve tempo de questionar mais, pois antes que pudesse reagir, Tenten segurou a camisa de Neji e o puxou para um beijo sem se importar com todos os repórteres que os viam através do vidro.

Quando Tenten se afastou, apenas disse com convicção:

– Esse é o meu ultimato.

Neji riu um pouco antes de puxar a mulher de eternos coques para um beijo apaixonado. Afinal, aquela era sua resposta…


Inerte ao que acontecia em vários lugares de Tóquio, Sakura caminhava olhando para o céu claro daquela tarde. Havia ido buscar o resultado dos exames de sangue que o psiquiatra havia solicitado para averiguar a segurança de iniciar um medicamento para sua insônia.

Desta vez, Sakura havia decidido não lutar sozinha com seus demônios, procuraria ajuda como orientado por Tsunade. Já havia agendado com o psicólogo na próxima semana. Sim, depois de tudo o que tinha acontecido com ela, ela precisava fazer terapia e convenceria a filha a fazer também, mas antes, ela teria que se tornar o exemplo da filha.

Suspirou assim que chegou em frente da casa, percebeu que a caixa de correios estava mexida. Estranhou por ser incomum utilizarem a caixa de correios nos dias de hoje. Tudo ficou mais estranho ao encontrar a carta apenas com seu nome escrito. Olhou ao redor temerosa de ser de alguma fã do Sasuke ou de alguma mídia, mas a rua estava vazia e sem vida naquele horário.

Decidiu entrar e rumar ao seu quarto.

Assim que abriu o envelope encontrou duas folhas, uma carta e um testamento.

A primeira linha elucidava quem era o remetente e por um segundo Sakura ficou descrente que o remetente era um homem já falecido.

Por um segundo pensou que era uma brincadeira de mal gosto, mas quanto mais ela lia, mais compreendia que aquilo era real, que Uchiha Fugaku lhe escreveu antes de morrer e que ele sabia de tudo.

– Por Kami, ele fez tudo isso – Sakura estava descrente vendo a cópia do novo testamento. Com um olhar ela compreendeu que se aquela carta havia chegado a si, então isso significava que Sarada havia assumido seu devido lugar.

As mãos trêmulas fizeram os exames de sangue caírem no chão.

– Kuso – Sakura proferiu enquanto tentava apanhar as folhas espalhadas. Estava desnorteada demais para focar em algo, mas uma folha simples chamou a sua atenção. – Positivo – murmurou, antes de sair do torpor com a chegada de Sarada na residência.

– Mãe – a garota gritou na sala, procurando pela mãe. – Está em casa mãe? Preciso conversar com a senhora.

Mesmo desnorteada, Sakura desceu as escadas encontrando Sarada com um semblante preocupado, como se não soubesse como dizer o que havia feito.

– Eu sei – foi tudo o que Sakura disse antes de abraçar Sarada.

Sarada chorou entendendo a compreensão da mãe. Não queria magoá-la e nem queria forçar ela a conviver com pessoas que ela não desejava, mas ao mesmo tempo, Sarada não poderia negar o próprio desejo.

– Desculpa mama, eu não queria te magoar.

– Xii… – Sakura chiou afagando os cabelos negros da sua filha antes de erguer o rostinho choroso. – Não tenho direito de privá-la por mais 12 anos se é isso o que deseja. Eu vou estar aqui com você, independente das suas escolhas.

Sarada sorriu antes de afundar o rosto infantil na barriga da sua mãe.

Sakura sorriu para a atitude infantil de Sarada, mas a abraçou pensando que não tinha o direito de fazer Sasuke perder mais tempo da vida de Sarada e ela não tinha o direito de privá-lo da outra criança, já que seu exame de gravidez tinha dado positivo.

– Sarada – Sakura começou amorosa, puxando o rosto infantil para si –, arrume suas coisas. Vamos voltar para o nosso apartamento.


Notas finais
Esse era o capítulo que eu mais esperava escrever desde que iniciei essa história. Sabia que seria o capítulo mais difícil de escrever e depois de tanto reescrever, posso enfim dizer que ele está entre nós.