Procura-se uma Uchiha
29 Pais e Filhos
Notas iniciais
Autora…
A porta de metal se abriu em um rompante, antes da mulher, vestindo o vestido elegante sob um casaco pardo, caminhar pelo beco estreito. A cabeça baixa era a prova que tentava fugir dos paparazzi que a aguardavam na entrada principal do Teatro.
– Izumi! – O chamado alto fez a mulher parar arregalando os olhos antes de ver por cima dos ombros a imagem de Itachi belamente trajado com o terno escuro feito sob medida, ressaltando mais a rara beleza que ele carregava.
Há quantos meses não o via? Que não ouvia a sua voz?
Não o tinha visto desde a fatídica noite de estreia.
Ele não havia ligado, a procurado, nem ao menos enviado uma mensagem.
Nada.
E naquele momento, ela se questionou se o que parecia ter iniciado entre eles na manhã da cafeteria era apenas uma ideia ilusória da sua cabeça.
Também não o procurou, resignou-se a focar em seu trabalho e nas inúmeras sessões da peça. Por vezes achava que via uma sombra, ao fundo do Teatro, observando-a, e por um milésimo de segundo, se questionava se era Itachi.
Tola! Era assim que se chamava toda vez que essa ideia surgia e ela não o encontrava em meio à escuridão.
Mas agora não era uma ilusão, era real. Itachi estava em um beco, com as mãos nos bolsos, olhando-a com uma espécie de saudade e deslumbramento.
Izumi sentiu seu rosto esquentar antes de se voltar para o homem que aproximava um passo.
– Olá Itachi-san! – a voz saiu baixa, incerta. Nem Izumi reconheceu a sua voz. – Mikoto-sama está quase saindo – apontou para a porta de onde havia passado. – Parece que vai almoçar com Jiraya-san.
– Não vim atrás da minha mãe – determinou para a surpresa de Izumi – Vim atrás de você!
Izumi ficou sem palavras, enquanto arregalava os olhos para o homem que havia desaparecido por meses.
– Eu sei que eu não tenho o direito de vir aqui depois de tudo – ele iniciou e Izumi nunca havia ouvido Itachi falar em um tom triste, quase suplicante –, mas eu precisei vir.
– O que você quer Itachi? – Perguntou de uma vez, olhando para os lados, com medo de algum paparazzi flagrar os dois.
– Soube que a equipe de teatro irá fazer uma turnê pelo Japão. Minha mãe me contou…
– Sim – disse em um tom baixo, abraçando o corpo para esconder as mãos trêmulas.
Izumi se sentia uma tola com o coração batendo forte, as maçãs coradas e a voz baixa diante dos olhos masculinos fixos em seu rosto.
Parecia que a aparente calmaria do tempo afastado só serviu para aquele traiçoeiro sentimento crescer dentro dela.
Tola! Gritou consigo mesma enquanto limpava a garganta para dizer com a voz mais firme:
– Vamos partir amanhã e ficaremos alguns meses fora. Jiraya supôs, que dependendo do nosso desempenho, talvez façamos uma turnê internacional.
– Isso pode levar até anos…
– Pode levar… talvez.
Itachi assentiu, com o olhar perdido no chão antes de erguer a cabeça e olhar mais uma vez a face avermelhada de Izumi. Apesar da maquiagem, do cabelo preso em um coque elegante, das roupas de grife, ainda via os olhos brilhantes, incertos e até mesmo inseguros que viu na primeira vez em que se encontraram… na sala de cinema da casa da família.
Ela ainda continuava ali. Intacta. Imutável.
E naquele momento, ele decidiu, pela primeira vez em anos, após a trágica viuvez, ser egoísta ao questionar:
– Posso ir junto?
– O QUÊ? – Izumi gritou e logo tampou a boca com medo de algum paparazzi tê-la ouvido. Depois de ver que continuavam sozinhos, disse em um tom baixo, quase um sussurro: – Ficou louco? Não é a empresa da sua família que estava passando por uma crise? Acho que ouvi Mikoto-san ou Sakura-chan falando que estavam produzindo um novo jogo com a Sarada participando do marketing – tagarelou descrente diante do sorriso de canto gentil que Itachi mostrava.
– Eu saí da empresa… bom, por um tempo.
Izumi quis gritar um grande “Nani!”, mas o toque gentil em seu rosto a calou.
Itachi permaneceu com um sorriso gentil enquanto acariciava a face corada de Izumi.
– Eles vão ficar bem – disse em um tom tão verdadeiro, que Izumi percebeu que nunca duvidaria daquelas palavras. – Sasuke e Sarada estão cuidando de tudo, e… eles não estão sozinhos…
O cenho feminino franziu enquanto balbuciava:
– Por que você está aqui?
O sorriso se alargou um pouco, quando mais um passo os deixou próximos o suficientes para as testas se encostarem, enquanto Itachi admitia:
– Por você!
Duas palavras. Apenas duas palavras foram o suficiente para as frágeis muralhas que Izumi tentava erguer contra suas fantasias, caírem por terra, e seu tolo coração disparar deixando-a tonta.
– Eu gosto de você, Izumi. E eu quero ir com você! – O sorriso diminuiu um pouco antes de completar: – Claro… apenas se você quiser.
Era aquilo, a decisão estava em suas mãos. O peso de decidir por algo de futuro tão incerto, mas que no fundo ela sabia a resposta. Por isso, com um sorriso envergonhado, com lágrimas no canto dos olhos, ela disse:
– Eu quero!
Não precisou de mais.
Itachi pela primeira vez selou os lábios de Izumi e naquele momento, em um beco que já tinha testemunhado tanto, eles sabiam que era a primeira vez de muitas.
A mão masculina deslizou para a nuca de Izumi, antes do beijo se aprofundar.
Izumi sentiu os próprios lábios simularem um sorriso enquanto as mãos femininas se apoiavam nos ombros do homem que sempre aparecia em seus sonhos.
Naquele momento, os amantes tinham apenas uma única certeza… em todas as manhãs incertas que surgiriam dali em diante, escolheriam a si, antes de tudo.
Escolheriam o amor. Sua felicidade…
***
Sakura…
– E aqui é o pezinho – Tsunade anunciou apontando para um ponto do ultrassom.
– Ahhhh!!! – Ino gritou eufórica ao meu lado, dando pulinhos de felicidade ao mesmo tempo que lágrimas teimosas começavam a se formar no canto dos olhos. – Eu não acredito. É tão lindinho! Já dá para saber se é menina ou menino?
Comecei a rir de Ino, enxugando as minhas próprias lágrimas enquanto via de novo o pezinho tão pequeno se mover na imagem do ultrassom.
Era até um pouco nostálgico lembrar os ultrassons durante a gravidez de Sarada que Ino me acompanhava e interpretava o pai mais preocupado que Tsunade poderia suportar.
Ino, mesmo grávida de Inojin, usando roupas góticas, sempre estava lá segurando a minha mão e surtando por cada batida de coração que escutávamos.
– Ainda não – Tsunade explicou –, mas talvez nos próximos a gente tenha mais sorte.
– Mal posso esperar! – Ino gritou exultante.
– Tecnicamente é só uma vaga de acompanhante durante o exame – Tsunade cruzou os braços antes de erguer uma sobrancelha em desafio: – E geralmente essa vaga é do pai.
Toda a felicidade de Ino pareceu ser drenada enquanto a boca se abria em assombro:
– Sasuke vai me expulsar?
Dei um sorriso sem graça para a minha amiga que logo se apressou a dizer:
– Talvez a gente possa segurar esse anúncio de gravidez por mais um mês – tentou, mas apenas neguei com a cabeça para o desespero da minha melhor amiga: – Sakura, eu preciso estar aqui! Se lembra quando descobrimos o sexo da Sarada!?
– Ah! Eu lembro bem! O escândalo que você fez! O hospital inteiro soube que ia ser menina – Tsunade ralhou fazendo com que pela primeira vez naquele dia eu me sentisse leve e gargalhasse com a lembrança.
Ino deu um muxoxo, antes de virar com um bico para mim, eu sabia que nada daquilo era real, Ino só queria me fazer rir:
– Só vou deixar porque essa criança vai ser meu afilhado.
Ergui uma sobrancelha antes de provocar:
– É? Já decidiu isso com o Naruto, porquinha?
A boca de Ino se abriu em um perfeito “o”, antes de jorrar sua indignação:
– Ele não é louco de me tirar esse direito! Eu sou a sua melhor amiga…
– E ele é o melhor amigo do Sasuke. Com certeza vai brigar pelo título, ainda mais por Sasuke ser padrinho do Boruto.
Ino jogou o grande rabo de cavalo loiro para trás antes de anunciar com confiança:
– Ainda bem que fiz as minhas unhas ontem. Minhas garras estão afiadas caso aquele idiota venha tentar roubar meu afilhado.
Meu sorriso se alargou diante da ideia que seria uma longa gravidez tendo aqueles dois loiros extrovertidos brigando pelo título.
– Aqui! – Tsunade anunciou com um suspiro, estendendo-me a pequena foto revelada do ultrassom. O pequeno bebê, ainda do tamanho de um limão, mostrando a sua perninha. Aquilo fazia meu coração aquecer. – Depois que contar, podem vir aqui, faço outro ultrassom para o Sasuke assistir.
– Obrigada madrinha – sorri agradecida, antes de ser açoitada pela acidez típica de Tsunade:
– Espero que seja o último! Só você mesma para me tirar da aposentadoria!
Gargalhei antes de provocar:
– Eu disse que não precisava! O hospital tem outros excelentes obstetras.
Tsunade bufou:
– Nunca deixaria nenhum outro obstetra tocar na minha afilhada.
Rolei os olhos discretamente, antes de ouvir Tsunade voltar ao tom sério:
– Como você está, Sakura? Sentindo alguma coisa?
Senti Ino voltar a seriedade, observando os meus traços:
– Ainda estou sentindo muitas náuseas. Há momentos que sinto grande desejo e como tudo pela frente, em outros, começo a vomitar e não consigo nem me alimentar – suspirei. – A gravidez da Sarada foi tão tranquila, mas agora…
– Cada gravidez é única e naquela época você tinha só 18 anos…
– Eu também tinha 18 anos quando eu tive um aborto espontâneo – a lembrei e ela assentiu.
– Já estamos passando do período de maior risco para aborto espontâneo, mas precisamos ficar atentas a qualquer sintoma que você esteja sentindo – concordei com um movimento da cabeça. – Náuseas e vômitos são comuns no primeiro trimestre, mas não devem ocorrer a partir do quarto mês e você já vai entrar nele.
Meus olhos caíram sobre o meu abdome, onde Tsunade limpava o gel usado no ultrassom. Tão liso que nada indicava que ali estava crescendo uma vida.
– Ficarei atenta, madrinha.
– E deve evitar estresse também – Ino lembrou as orientações do psiquiatra e da psicóloga.
Bufei antes de expor minha indignação:
– Como vou evitar estresse se ainda preciso encarar o Sasuke e dizer: “Ei Sasuke! Você nem sabe. Se lembra daqueles termos idiotas de um testamento falso de que você precisava ou de um filho ou de uma mulher grávida de você? Pois é! Parabéns, você conseguiu cumprir as duas coisas!”?
Bati palmas teatralmente para Ino e Tsunade.
Tsunade suspirou antes de questionar:
– Pensei que haviam voltado a ser vizinhos e assim seria mais fácil encontrá-lo e conversar de forma reservada.
– Eu também achei – suspirei em derrota olhando para o alto, antes de fechar os olhos.
Por um momento, quando eu e Sarada voltamos para nosso apartamento, eu achei que Sasuke apareceria na porta, ofegante, com traços de felicidade e culpa resplandecendo em meios aos olhos negros, mas não foi o que aconteceu.
Ele não veio.
A campainha não tocou.
O corredor se tornou silencioso.
Era como se o apartamento do outro lado estivesse desocupado, mas eu sabia que não estava, pois Sarada ia lá com frequência.
Os horários de chegada e saída não coincidiam com a frequência que meses antes parecia tão natural.
Eu sabia que não era simples desencontro, era Sasuke evitando qualquer encontro “acidental” comigo.
Será se era o simples medo de errar mais uma vez e me fazer partir com Sarada?
Eu sempre suspirava quando chegava do trabalho.
Mesmo com o aparente silêncio que ele havia nos colocado, um fantasma parecia rondar meu apartamento, pois pelo menos duas vezes na semana, eu encontrava algum presente na porta da minha casa, sem a identificação do autor, mas eu sabia que só poderia ser uma pessoa:
Uchiha Sasuke.
No dia que eu espirrei esperando o elevador para ir para o trabalho, foi o mesmo dia que uma pequena sacola parda com remédios para gripe me aguardava no retorno.
No dia que o telejornal anunciou que o dia seguinte ia ser frio – uma pequena amostra outonal no fim do verão – uma echarpe vermelha de luxo apareceu na minha porta quando eu estava saindo.
Ele estava me vigiando pelas câmeras, eu sabia, e talvez a expressão raivosa que eu fiz para a câmera tenha o reprimido mais, fazendo-o acreditar que não deveria se aproximar de mim. Mas eu coloquei a echarpe. Eu usei a echarpe. Ele deveria ter entendido aquilo como uma permissão silenciosa, mas ele não apareceu.
Suspirei abrindo os olhos para o presente, vendo Ino e Tsunade respeitando o meu momento.
– Hoje, isso vai mudar! – Anunciei me erguendo da maca ginecológica, buscando a minha bolsa para guardar a foto do ultrassom. – Tenho uma reunião para ir na Uchiha’s Company sobre a mudança do sobrenome da Sarada – bufei com a burocracia. – É a chance que eu tenho de encurralá-lo – terminei pondo a bolsa sobre o ombro, pronta para partir.
– Me liga assim que sair de lá. Se precisar, posso ir te buscar – Ino ofertou, temerosa.
– Não precisa, porquinha – ergui a mão com confiança. – Preciso fazer isso sozinha.
Ino e Tsunade assentiram, permitindo a minha saída altiva.
Foi só atravessar a porta do consultório de Tsunade, para toda a coragem escorrer entre os meus dedos e antigos e tolos medos começarem a rondar minha mente em frenesi.
E se ele desconfiar que o filho não é dele?
E se ele pedir um exame de DNA?
E se ele achar que estou dando o golpe do baú?
Balancei a minha cabeça em negação enquanto dirigia para a empresa da família de Sasuke, tentando praticar todos os exercícios de positividade que a psicóloga havia me ensinado.
Pensei ter controlado os pensamentos, mas quando dobrei na rua com o imponente prédio espelhado com o inconfundível letreiro, a insegurança voltou.
Não sei como adentrei o estacionamento e como parei o carro com as mãos trêmulas, mas ao me ver no escuro com medo de uma reação do idiota que havia mentido para mim, gritei de raiva e indignação.
– Se ele pedir um exame de DNA, eu vou dar um exame de DNA – falei com convicção para o meu reflexo. – Eu vou esfregar na cara dele a merda de um exame de DNA!
Mas talvez ele não peça…
Meu reflexo murchou enquanto eu ia para o outro extremo, pensando que eu estava sendo injusta.
“Evite pensamentos negativos ou confabulações. Todas as vezes que deixa a sua mente livre, pensa em opções negativas”. Minha psicóloga havia dito o óbvio, o que era uma coisa complicada de evitar quando meus principais relacionamentos foram um fiasco.
– Ok! Parou! – Ordenei a minha mente dando batidas nas minhas bochechas. – Não adianta nada ficar aqui pensando em possibilidades. Você tem duas crianças que dependem de você Sakura e o pai delas está em algum lugar aqui em cima! Você consegue lidar com ele!
Respirei fundo antes de colocar a echarpe vermelha e sair do carro sobre os meus saltos.
Foi com alívio que vi Moegi, a motorista de Sarada, próxima aos elevadores me esperando.
– Senhora Sakura, é um prazer revê-la! A Senhorita Sarada ainda está na coletiva de imprensa, vou levá-la até lá – assenti em agradecimento deixando Moegi me guiar através do elevador.
A grande sala de coletiva de imprensa ficava no térreo e Moegi me deixou em um local escuro dos bastidores, onde eu conseguia ver a longa mesa na qual Sarada, Sasuke, Naruto e Shikamaru estavam sentados respondendo questionamentos dos entrevistadores.
Ouvi um som de desgosto ao meu lado. Segui o som antes de perceber que a origem era de Karin com um tablet em mãos, olhando fixamente para mim.
– Ahh… você! – Entortei a minha boca. – Tinha esquecido que ia encontrar você aqui. Não se preocupe, não será um encontro frequente.
Karin revirou os olhos antes de teclar algo no tablet e dizer algo no ponto do ouvido – uma orientação sobre iluminação.
Ergui uma sobrancelha surpresa com o quanto Karin parecia profissional.
Não disfarcei o meu olhar sobre ela e com o tempo, Karin retribuiu o olhar sem dizer nada.
– Foi você, não foi? – Perguntei de forma direta para a confusão de Karin.
– Eu o quê?
– Foi você quem disse para Sasuke onde eu e a Sarada estávamos nos escondendo – não foi um questionamento, foi uma afirmação.
Não havia me questionado sobre isso antes, pensei ter sido obra de um detetive particular, mas ao ver Karin, a ideia veio clara.
Karin não negou, só clicou algo no tablet e emitiu mais algumas poucas ordens.
– Você nem gosta de mim. Por que fez isso? – Questionei séria e pela primeira vez na vida, não houve deboche, raiva ou qualquer outro sentimento nos olhos de Karin que olhavam fixamente Sasuke discursando ao mesmo tempo que segredava:
– Porque ele me lembrou Fugaku-sama.
Franzi o cenho, enquanto os estranhos castanhos avermelhados se voltavam para mim.
– Quando eu me separei de Suigetsu e iniciei o processo de divórcio, precisei procurar um emprego. Nenhum juiz me deixaria com a guarda da minha filha se eu não provasse que poderia sustentá-la – iniciou para a minha surpresa. – Eu nunca fui próxima dos amigos do meu ex-marido, mas soube que o senhor Fugaku precisava de uma nova secretária – desviou o olhar para o tablet enviando outras ordens. – Eu não tenho ensino superior igual você, Sakura. Eu engravidei um pouco depois de você e me casei assim que Suigetsu terminou a faculdade. Virei dona de casa e achei que viveria assim para sempre, mas… há um pouco mais de um ano, precisei procurar um emprego. Eu era a pior das candidatas, não tinha nada no meu currículo. As candidatas saiam chorando da entrevista com o senhor Fugaku. Fui a última e quando ele me questionou por quê eu queria aquele emprego, fui sincera em dizer que só estava atrás de um emprego para manter a guarda da minha filha.
Karin ergueu o olhar, vendo-me surpresa com o que ela me contava.
– Ele me disse para voltar no dia seguinte. Que o emprego era meu. Eu fui a pior das secretárias. Não sabia o que fazer, que papel separar, como organizar uma agenda, mas ele nunca me despediu – desviou o olhar mais uma vez para o tablet e percebi como Karin parecia coordenar as equipes com tanta facilidade através daquela tela, tão diferente da secretária inexperiente que ela contava. – Ele não me repreendia, apenas dizia para sentar e prestar atenção. Senhor Fugaku me ensinou tudo o que eu sei e até ordenou que mantivessem meu emprego mesmo depois da morte – disse aquela última frase em um tom triste.
Karin respirou fundo erguendo o olhar para Sasuke.
– Sasuke e o senhor Fugaku discutiam muito – segredou. – Todas as vezes que Sasuke saia do andar da Presidência depois dos dois discutirem, senhor Fugaku ficava com um olhar perdido. Eu sempre levava chá quando isso ocorria. Ele era gentil e agradecia. Uma vez até questionou como era a minha relação com a minha filha – Karin deu um sorriso gentil como se estivesse perdida nas lembranças. – Fugaku-sama sempre ficava muito sozinho naquele último andar…
Deslizei meus olhos para Sasuke que agora respondia outra pergunta, mostrando sua desenvoltura com o público. Karin continuou seu relato:
– Quando veio a público a verdade sobre a paternidade da Sarada e vocês desapareceram, eu vi Sasuke se isolar naquela sala. O mesmo olhar perdido… e pela primeira vez o achei tão parecido com o pai – a voz morreu antes de admitir: – Não fiz isso por você, pela Sarada ou pelo Sasuke. Eu fiz pelo senhor Fugaku!
Karin virou o olhar para mim e eu sustentei surpresa com tudo o que ela dizia.
No fundo, eu me deixei cegar pela raiva que carregava de Karin desde a nossa adolescência e não conseguia ver que, assim como eu, ela era uma mãe fazendo tudo pela filha, sem se vangloriar desse fato.
– Não estou dizendo isso para que você fique com pena de mim e peça para a família Uchiha retirar a investigação de bullying contra Mika – foi voraz e pela primeira vez na vida, fiquei impressionada com a segurança de Karin. – Isso realmente pode atrapalhar a vida acadêmica de Mika, fazer o juiz retirar a guarda de mim e dar para Suigetsu, mas eu não quero pena! – Ergueu o queixo. – Só contei isso para você entender que não fiz isso por você ou pela sua filha – foi petulante, o que me fez rir incrédula.
– Tudo bem Karin, vou tentar fingir que não acabei de descobrir que até você pode ter um coração. Sempre achei que tinha uma pedra no lugar…
As maçãs ficaram rubras, da mesma cor que o cabelo, antes de desviar o olhar e emitir mais algumas ordens pelo ponto eletrônico no ouvido.
Ainda tinha um sorriso divertido no rosto quando voltei o olhar para a mesa dos entrevistados deparando-me com os olhos de Sasuke surpreso ao me ver ali.
Sarada falava algo divertido para um repórter, mas Sasuke não ouvia e nem disfarçava que estava olhando para algo à sua esquerda. Senti meu rosto esquentar com o olhar fixo em mim.
Shikamaru teve que bater em seu ombro para o Presidente da empresa prestar atenção no próximo questionamento.
– Não se preocupe, não será um encontro frequente – Karin debochou, imitando o meu tom de voz.
Ainda estava envergonhada pela indiscrição de Sasuke, por isso só dei um empurrão leve com o ombro como uma repreensão.
– Ainda sou capaz de arrancar uns fios cor-de-rosa da sua cabeça, testuda – ameaçou massageando onde a empurrei.
– Ah, essa Karin… é a Karin que eu conheço – sorri zombeteira fazendo-a rolar os olhos. – Vou subir e aguardar na sala da Presidência para não chamar mais atenção – comuniquei séria e Karin assentiu voltando para o profissionalismo.
Suspirei pegando o elevador. Diferente do dia que havia invadido aquela empresa, agora todos os funcionários pareciam saber exatamente quem eu era. E simplesmente ter o posto de mãe da herdeira da família Uchiha, parecia abrir muitas portas.
O andar da Presidência estava vazio e a porta da sala de Sasuke destrancada.
Por um segundo, senti falta de Karin me distraindo, já que ficar meia hora esperando Sasuke e Sarada para a reunião não foi a melhor escolha…
Sorri vendo a imagem do ultrassom mais uma vez, sentindo que aquilo me acalmava do turbilhão que parecia ter virado a minha vida.
Fiquei perdida no traço do meu bebê sendo despertada apenas pela voz alta de Sarada ecoando do corredor.
Nunca escondi tão rápido uma foto como naquela hora enquanto eu via uma radiante Sarada abrir as portas e correr na minha direção:
– Mama! Você já chegou? – Aceitei o abraço da minha menina afundando meu nariz em seu cabelo com cheiro de shampoo.
– É claro que eu já cheguei, são vocês que estão atrasados! – Tentei soar leve, apesar do olhar de Sasuke sobre mim enquanto assumia a sua cadeira de Presidente.
– A coletiva demorou mais do que previsto, Sakura, perdão – Shikamaru explicou já pegando alguns documentos espalhados sobre a mesa de vidro.
– Tudo bem – assenti soltando a minha filha para ela conseguir sentar na outra cadeira.
Sasuke mantinha um sorriso de canto leve em seu rosto enquanto perseguia Sarada com o olhar.
Ah, querido, daqui há um pouco mais de 5 meses você vai precisar perseguir outra criança também…
Shikamaru retomou a minha atenção:
– Será rápido. Os documentos já estão prontos, só precisamos da sua assinatura e depois preciso lhe explicar alguns pormenores.
Assenti aceitando o primeiro documento.
– É o documento que legítima a troca do sobrenome de Sarada, falta só a sua assinatura.
Olhei com tristeza o documento que tiraria meu sobrenome de Sarada.
– Não fica assim mãe, é quase como se eu tivesse dupla identidade. Haruno Sarada… Uchiha Sarada… Sou quase uma agente secreta.
Acabei rindo da piada idiota de Sarada enquanto assinava e entregava para Shikamaru pensando que havíamos finalizado, mas ele estendeu outro documento para mim.
– Esse é o outro assunto que precisamos resolver – Shikamaru determinou enquanto eu lia por alto o conteúdo e franzia o meu cenho.
– Ações? – Questionei pela primeira vez Sasuke que não se abalou, como se aquilo fosse um episódio corriqueiro. – Por que têm ações no meu nome, Sasuke?
– Não foi uma decisão minha – ergueu as mãos ao perceber meu tom. – É norma da empresa.
– Eu não sou da empresa – determinei sem desviar meu olhar do homem que pedia ajuda ao Conselheiro ao perceber que eu estava ao ponto de atacá-lo e se alguma agressão ocorresse, eu diria que era culpa dos hormônios de gravidez.
– Mas é mãe de uma herdeira – Shikamaru pôs-se a explicar. – Há muitos anos, Fugaku determinou um estatuto. A porcentagem de ações direcionadas para cada herdeiro nascido e a porcentagem que a mãe de um herdeiro receberia por filho.
– Por filho? – Questionei alternando o meu olhar incrédulo entre Sasuke e Shikamaru que pareciam tranquilos demais diante daquele absurdo. – Como assim “por filho”? – Fiz aspas.
Sasuke suspirou antes de jogar o cabelo para trás. O maldito movimento que eu achava tão sexy. Apertei mais o contrato nas minhas mãos, para não me denunciar.
Eu ainda não o havia perdoado e achava que levaria algum tempo para cogitar a ideia de perdoá-lo, mas estava tentando manter o convívio ameno por causa da Sarada… e agora, também por um bebê.
– Agora deve entender por quê eu tinha receio de mulheres interesseiras – bufou tamborilando os dedos sobre a mesa e eu sabia que ele estava desconfortável com o meu olhar de julgamento, não com o fato de literalmente pagarem mulheres para serem mães de Uchiha.
Eu nem sabia que isso podia ser tido como uma profissão… e que eu tinha essa profissão!
– Como você só tem uma filha com o Sasuke, botamos a porcentagem referente a um filho – Shikamaru apontou para a porcentagem e por um segundo me senti mais tranquila vendo que era uma porcentagem abaixo de 1%.
O conselheiro me estendeu outro papel antes de informar:
– Você recebe por mês de acordo com as suas ações. Mês passado foi um mês ruim, mas o próximo, com o novo lançamento de Sasuke, vai ser mais rentável.
Assenti antes de olhar o valor, mas assim que meus olhos caíram sobre o valor, um grito involuntário saiu dos meus lábios assustando os três presentes.
– Esse é o mês ruim? – Falei exasperada para Sasuke. – Isso é mais do que eu ganho como médica.
E eu claramente não ganho mal…
– Eu não posso simplesmente recusar? – Supliquei.
– É reconhecido judicialmente, não posso simplesmente ignorar uma norma da empresa e não te dar essas ações. Seria como se eu tivesse roubando as ações de um acionista – Sasuke explicou para o meu desespero.
Deixei meu corpo cair de encontro ao estofado enquanto olhava mais uma vez para o valor referente a um filho…
Claramente hoje é o pior dia para dizer que na verdade são dois filhos.
Se eu sequer citasse, Shikamaru redigiria um novo contrato colocando o dobro do valor.
Resignei-me e assinei o maldito contrato enquanto Shikamaru me estendia um cartão black.
– Vou aceitar isso como uma pensão – apontei para Sasuke que deu um sorriso torto que prenunciou que minha raiva ia aumentar.
– Na verdade – ele iniciou olhando para Shikamaru. – Sobre pensão… lidamos de uma forma diferente.
– Como assim? – Estreitei meu olhar.
– Como eu disse antes – Shikamaru iniciou. – Além de cada mãe de herdeiro… cada herdeiro ganha uma porcentagem – o Conselheiro estendeu outro documento mostrando a porcentagem que Sarada ia receber mensalmente, sendo maior que a minha e meu desespero foi confirmado quando Shikamaru mostrou o valor que ela receberia naquele mês. – Quando fizer 18 anos, o valor das ações será reajustado.
– Vou ganhar um cartão black? – A voz travessa de Sarada acordou-me a tempo de determinar:
– Não!
– Não? – Sasuke questionou com dúvida.
– Não – repeti focando em Sasuke. – Você não pode simplesmente dar um cartão black para uma criança de 12 anos!
– Eu tinha um cartão black com 12 anos – comentou como se fosse a coisa mais normal do mundo.
Grunhi ao perceber mais uma vez que eu e Sasuke vivíamos em realidade completamente diferentes.
– Céus! Como ninguém me disse que somos completamente incompatíveis!? – Minha boca expôs antes de conseguir me controlar.
Ofeguei diante das palavras, mas o olhar lastimoso de Sasuke foi a minha punição.
Ele apenas melhorou a postura tentando fingir que aquelas palavras não o haviam atingido, enquanto o silêncio nos cercava.
Desculpas não seriam o suficiente…
– Olha – iniciei chamando a sua atenção. Usando um tom mais diplomático. – Eu cuido da Sarada há 12 anos e sei que se ela tiver um cartão black, vai encher a minha casa de camisas de banda e jogos…
– Ei! – Sarada tentou protestar, mas eu ergui uma mão pedindo silêncio.
– Eu me fiz de cega durante todo esse tempo, mas eu sei que desde que Sarada assumiu o posto de sua filha, você está mimando ela, dando jogos diariamente – acusei e o olhar de Sasuke para Sarada foi a prova do crime.
– Eu disse para não contar para a sua mãe – Sasuke cochichou para Sarada.
– Eu não contei – Sarada se defendeu com ultraje pela acusação.
– Ela não precisa me contar – dei de ombros. – Consigo ver na cara de felicidade dela quando volta do seu apartamento que ela burlou mais uma vez o castigo dela. Ou você se esqueceu que ela está de castigo pelo resto da vida? – Cruzei os braços e Sasuke apenas se resignou. – Entregar um cartão black não parece um castigo.
Sasuke deu um sorriso torto antes de se dirigir para Sarada:
– Desculpa, pimentinha! Sua mãe tem razão.
Sarada com o olhar exasperado afundou no estofado negro da sua poltrona, aceitando a derrota.
– Olha, eu posso dar a minha opinião? – Shikamaru, que estava calado diante da briga da família, ergueu a mão e eu apenas assenti. – Eu concordo com a Sakura, mas eu acho que podemos olhar o cartão de Sarada de outra forma – abriu as mãos. – Pense nele como uma pensão. Para pagar todos os custos de Sarada como escola, viagens, cursos extracurriculares, além de que Sarada vai precisar participar de muitos eventos com a avó.
– É verdade, Batchan me chamou para ir fazer compras hoje porque preciso de roupa para um jantar e um desfile – Sarada me recordou sobre o que havia me informado na noite anterior.
– Pois bem… – Shikamaru continuou apontando para Sarada. – Ela precisa pagar as roupas e são roupas de marca.
Estreitei meu olhar compreendendo a tentativa de Shikamaru de me convencer a aceitar aquele cartão. Suspirando frustrada, apenas entreguei o cartão para Sarada que gritou de felicidade.
– Quando chegar em casa, esse cartão vai para o cofre e só vai sair de lá em situações especiais – fui rápida colocando regras para o muxoxo de Sarada que apenas concordou.
– Mais algum documento precisando ser assinado? – Questionei Shikamaru que apenas negou com a cabeça. – Ótimo, ainda tenho compromisso hoje – soltei, mas o “aaaahhh” provindo de Sarada era o prenúncio de uma pequena vingança.
– É verdade, eu tinha esquecido – o sorriso maléfico que agora eu percebia que era idêntico ao de Sasuke despontou nos lábios infantis. – Você tem um encontro hoje com o Gaara-san! – Cantarolou para o desespero do seu pai que se engasgou com a água que tomava.
– Encontro? – Sasuke questionou entre tosses, alternando o olhar entre eu e Sarada.
Bufei sentindo meu rosto arder. Ele não tinha o direito de questionar qualquer relacionamento meu, não estávamos mais juntos, mas me peguei murmurando:
– Não é um encontro. É só um jantar de negócios sobre a Ala de Oncologia Pediátrica que seu pai me deixou responsável.
Sasuke assentiu aceitando parcialmente minha justificativa, enquanto olhava furtivamente para Sarada que não disfarçava ter feito aquilo de propósito para provocá-lo.
– Mama, poderia vir junto comigo e a Batchan. Ela disse que vamos à um salão depois das compras. Poderia ir junto… para ficar ainda mais linda para o Gaara-san – abraçou-me recebendo um olhar estreitado de Sasuke e naquele momento até eu tive vontade de rir pensando que hoje Sarada não ganharia um jogo do seu pai.
– Sarada, eu acho que você já está atrasada para se encontrar com a sua avó – Sasuke anunciou controlando o tom de voz.
Sarada suspirou entendendo a ordem, antes de me dar um beijo de despedida na bochecha e um abraço em Sasuke. Foi acompanhada de Shikamaru para a porta de saída.
Assim que sozinhos, Sasuke iniciou em um tom mais baixo:
– Desculpa, eu não queria passar por cima da sua autoridade. – Encontrei pura sinceridade e até um pouco de constrangimento nos olhos negros. – Eu não sei como fazer isso.
Aquilo me calou e meu olhar caiu sobre a minha mão que carregava o cartão com o dinheiro referente à um filho.
– Eu também não sei – admiti antes de erguer o meu olhar e encontrar Sasuke fixo em mim. – Sempre fui a única a decidir pela Sarada. É um pouco estranho ter que me lembrar todos os dias que agora a Sarada tem um pai – me inclinei um pouco para frente antes de admitir: – Eu não te culpo por dar todos esses presentes para Sarada. Sei que só quer agradá-la e quer ver a sua filha feliz – entortei um pouco a boca. Ainda era difícil referir Sarada como “sua filha”, mas eu estou aprendendo. – E acredite, eu tenho essa vontade todos os dias – retirei um sorriso fraco de Sasuke antes de continuar: – Mas se não quisermos estragar uma garotinha de 12 anos de gênio forte, vamos ter que entrar em acordo em decisões sobre ela.
Sasuke assentiu antes de dizer:
– Eu aceito o que você decidir sobre ela. Sabe melhor do que eu como fazer isso.
Balancei a cabeça em negação, antes de explicar melhor:
– Não é concordar com o que eu determino, mas discutir o que pode ser melhor para ela – encostei-me na poltrona ao admitir: – Eu também quero ouvir a sua opinião. Eu realmente não sei o que pensar sobre Sarada nesse mundo – apontei para a sala ao nosso redor: – Eu não sou do seu mundo Sasuke. Eu não sei como ele funciona e como proteger Sarada nele, mas você sabe…
Sasuke desviou o olhar por um segundo antes de voltar a me encarar com um sorriso.
– Obrigado, Sakura – as palavras me pegaram de surpresa, fazendo meu rosto arder. – Obrigado por me permitir participar do mundo da Sarada e obrigado por me ajudar.
Pigarreei para dissipar o constrangimento ao anunciar:
– Bom, seu primeiro trabalho como pai da Sarada vai ser arrumar uma psicóloga de celebridades mirins – Sasuke ergueu uma sobrancelha em um questionamento silencioso. Pus-me a esclarecer: – A psicóloga da escola me ligou dizendo que Sarada precisava de um acompanhamento especializado – ergui minhas mãos em derrota. – Eu não conheço esse tipo de psicóloga, você conhece?
– Acho que devo ter ido duas vezes quando era criança antes dos meus pais desistirem, porque eu não gostava – disse pensativo. – Creio que a minha mãe tenha algum contato, posso te mandar assim que conseguir um.
– Ótimo! – Ergui-me para ir embora. – Vou ficar no aguardo, mas antes – estagnei vendo o pequeno frigobar no canto e a minha boca salivar.
Era o desejo de grávida atacando mais uma vez e eu precisava disfarçar.
– Uma vez eu comi sanduíches na sua casa e você disse que eram da empresa – Sasuke que também se erguia da cadeira, olhou-me confuso pela mudança abrupta de assunto. – Você tem aqui? – Apontei para o frigobar.
Era claro que tinha… eu havia visto e precisava comer desesperadamente.
– Acho que sim – o pobre homem que não sabia que precisava aplacar o desejo de uma mulher grávida, andou devagar demais para os meus padrões atuais.
E daí se ele era lindo e sensual caminhando pelo escritório vestindo as roupas formais de trabalho?
Não era por esse motivo que eu estava salivando.
– Tem de frango, atum, salmão…
– Um de cada, por favor – anunciei rápido, dando um passo para pegar o de frango que ele me estendia.
O decoro foi deixado de lado quando abri o pacote ali mesmo e quase chorei quando dei a primeira mordida como se fosse o melhor sanduíche do mundo.
Sasuke estava confuso com as minhas atitudes, mas engoliu qualquer piada que poderia ter surgido em sua mente ao dizer:
– Vou pedir para prepararem mais para deixar na sua casa.
– Por favor – pedi terminando o meu primeiro sanduíche, antes de dar as costas para comer o segundo, já segurando o terceiro.
Estendi a mão para abrir a porta de saída mas um tom irônico ressoou de algum ponto atrás de mim:
– Bela echarpe.
Meu cenho franziu olhando Sasuke por cima do ombro vendo o sorriso de canto idêntico ao da minha filha.
Por Kami! Como eu não vi que eles são idênticos até nas provocações?
Engoli o pedaço de sanduíche de atum antes de abrir um sorriso provocador:
– Gostou? – Debochei jogando a echarpe para trás. – É do meu admirador secreto – o sorriso irônico se alargou antes do meu golpe. – Suspeito do Gaara – o sorriso se desfez na face masculina. – Vou perguntar para ele hoje no encontro – silabei a última palavra antes de dar as costas: – Tchau Sasuke!
Bati a porta sem esperar uma resposta.
– Idiota – murmurei mordendo mais um pedaço do sanduíche de atum.
– Pelo visto a reunião não foi boa – Karin supôs enquanto organizava alguns papéis na sua mesa.
– Engana-se Karin – apertei o botão do elevador. – Foi ótima – debochei.
Ouvi um riso baixo vindo de Karin, mas me mantive de costas para ela, terminando o meu segundo sanduíche.
O elevador chegou bem na hora que eu iniciei o meu terceiro sanduíche.
Não é atoa que estou perdendo meus vestidos tão rápido… Suspirei com o pensamento mastigando com raiva o sanduíche de salmão, mas o movimento do elevador, fez o outro extremo daquela gravidez me alcançar… as náuseas!
Nunca agradeci tanto pela abertura de portas de um elevador, como agora, pois assim que a passagem foi o suficiente, corri para a lixeira mais próxima, depositando todo o conteúdo gástrico na pobre lixeira.
Ofeguei sentindo repulsa pelo pedaço intacto ainda na minha mão que o descartei com todo o resto.
– Esse dia ainda pode piorar? – Murmurei me apoiando na parede, buscando o antiemético sublingual que Tsunade havia me indicado.
Mantive-me naquela posição, agradecendo por não ter nenhum funcionário por perto para me dedurar para Sasuke, até o remédio fazer seu efeito e eu conseguir alcançar o carro.
No escuro, esperei mais quinze minutos antes de me sentir bem para dirigir.
Durante aquele tempo, admirei mais uma vez a foto do ultrassom, sentindo o mal estar se afastar só com aquela imagem.
– Meu bebê, você vai ter que esperar só mais um pouco – suspirei desenhando o pezinho. – Seu pai ainda está aprendendo a ser pai de uma garota adolescente e vai precisar aprender, ao mesmo tempo, a ser pai de um bebê… pobre Sasuke – ri um pouco com a ideia de Sasuke aprendendo a trocar fraldas antes de dar partida no carro.
***
Sarada…
– Tchau, meu amor! Ver se não fica jogando até tarde na casa do seu pai – minha mãe anunciou depositando um beijo na minha bochecha.
– Claro mãe, tenho certeza que ele vai cumprir o castigo depois da bronca que levou da senhora hoje – provoquei fazendo a mulher rir colocando os saltos altos. – Você está linda mãe – admiti quando ela se ergueu para sair de casa.
O vestido de corte reto em combinação com o sobretudo, apesar de discreto, parecia realçar os traços exóticos da minha mãe.
– Obrigada meu amorzinho – jogou um beijo no ar antes de sair pela porta.
Esperei o som do elevador anunciar que ela já havia partido antes de jogar o edredom que me enrolava para longe, revelando a minha roupa nova que eu usava.
Corri para o meu quarto para ver se precisava ajustar algo, mas pela primeira vez na vida eu descobria que roupas de grife e com um bom corte pareciam valorizar mesmo as pessoas.
Peguei meus coturnos negros e vesti correndo antes de sair em disparada para o apartamento do meu pai.
Eu sabia a senha de cor, por isso, sem anúncio, apenas adentrei o amplo apartamento masculino como um foguete, encontrando o meu pai vestindo moletom enquanto terminava de guardar a louça.
– Pensei em pedir comida chinesa hoje, o que acha Sarada? – Questionou sem direcionar o olhar para mim.
– Quero comida italiana hoje – anunciei para a confusão do homem que enfim ergueu o olhar em minha direção.
– Vai sair? – Ergueu uma sobrancelha.
– Nós vamos! – Determinei com as mãos na cintura.
Uma sobrancelha negra se ergueu antes do sorriso irônico surgir, imitando-me com as mãos na cintura.
Eu sabia que ele ia me provocar, por isso apenas suspirei aceitando…
Vai lá, pode fazer uma piada! Eu aguento.
– Está me chamando para sair, pimentinha?
Bufei com o apelido que ele insistiu em colocar em mim. Protestei no início, mas aceitei quando Sasuke disse que era como meu tio Itachi havia se referido a mim quando soube da minha existência.
Eu podia suportar aquele apelido criado por Itachi, com certeza era muito melhor do que todos os apelidos que poderiam ter surgido na mente de Sasuke durante o nosso período de ódio declarado.
Meu pai deu um passo confiante para frente e eu sabia que ele não havia terminado.
– Cadê as flores? Os chocolates? Minha serenata abaixo da minha janela?
– Só se eu me colocar em andaime suspenso – rolei os olhos.
– Posso arrumar um – deu de ombros.
– É claro que você consegue arrumar um andaime suspenso – debochei. – Oh grande Uchiha Sasuke… o que ele não pode fazer!?
Sasuke deu de ombros sem se abalar.
– Não sou tão fácil de ser levada à um encontro apenas com um “Nós vamos”.
– É mesmo? – Bati o dedo nos meus lábios de forma pensativa. – Juro que já ouvi dizer que você era um homem bem fácil. Um galinha de primeira… algo do tipo.
Eu sabia que ele gostava quando eu o provocava, lembrava-o dos velhos tempos.
– Não ouviu as novas matérias nas revistas de fofoca? – Abriu as mãos convencido. – Dizem que sou um pai de família agora. Um pai de menina. Um ótimo partido.
Bufei indignada antes de dar a minha cartada final:
– Juro que se você não estiver pronto em 15 minutos eu vou chamar o Boruto para ir jantar comigo.
Toda a prepotência na face do meu pai se desfez diante da ameaça.
Vi o cenho masculino franzir antes de murmurar:
– Você não faria isso.
– Quer apostar – mostrei o cronômetro do meu celular e acionei os 15 minutos. – É melhor correr, o tempo está passando.
Sasuke bufou antes de seguir em silêncio para o seu quarto.
– E ver se não fica se admirando no espelho, não vou dar nenhum segundo a mais – provoquei não recebendo uma resposta.
Sentei no banco da cozinha enquanto aguardava. Tamborilei os meus dedos com impaciência. Quando a contagem regressiva começou, me ergui do banco e comecei a gritar para a escuridão:
– E eu vou chamar o Boruto para sair em… 5… 4… 3… 2…
– Eu já estou pronto – meu pai apareceu com roupas sociais.
Eu abri a boca em choque me questionando como ele poderia ficar tão perfeitamente bem arrumado em apenas 15 minutos.
Seria um pacto? Uma habilidade Uchiha que ainda não haviam compartilhado comigo?
– Eu sei que sou lindo, não precisa babar.
– Você sabe que no meu coração, meu tio Itachi sempre vai estar em primeiro lugar – provoquei já indo para a porta. Ouvi o bufar indignado do meu pai atrás de mim.
Ele não questionou, apenas focou em fechar o relógio caro no pulso, enquanto descíamos no elevador.
Só quando entramos em sua Ferrari, Sasuke questionou:
– Qual o destino, madame?
Mostrei o visor do meu celular fazendo uma sobrancelha se erguer para o restaurante chique que eu indicava.
– Isso não parece um lugar que você escolheria para ir.
– Estou tentando ter um gosto mais refinado – provoquei guardando o meu celular na bolsa de marca que minha avó tinha insistido em comprar para mim. – Semana que vem tenho mais uma entrevista e eles sempre perguntam o que eu faço com o meu pai. Não posso responder para sempre “ah, a gente come pizza e joga video game”.
Sasuke deu de ombros:
– Não deixa de ser verdade.
– Mas agora eu posso dizer – limpei a minha voz fingindo ser uma patricinha mimada: – Ah, eu e o papa vamos a restaurantes juntos. Semana passada conhecemos um italiano maravilhoso.
O sorriso se alargou no rosto masculino e eu sabia que ele estava se segurando para não gargalhar.
– Vamos logo para esse restaurante – disse ligando o carro e o barulho do motor da Ferrari me fez deitar a cabeça no painel frontal.
– Eu amo esse barulho – alisei o painel enquanto Sasuke focava na direção, tirando o carro da garagem. – Se você me prometer me dar uma Ferrari quando eu tiver uma carteira de motorista, eu aceito ficar sem o cartão black – testei, recebendo um olhar de canto.
– Se você me considerar acima de Itachi e dizer isso para ele, eu posso considerar a sua proposta – provocou.
Bufei me endireitando no banco, indignada.
– Não peça algo tão impossível!
Sasuke riu antes de admitir:
– É… eu sei. Também prefiro o Itachi.
Não demorou para o meu pai questionar:
– Esse restaurante precisa de reserva, alguém reservou para você?
– Eu reservei – disse orgulhosa antes de admitir rindo. – Hoje quando eu liguei e perguntei se tinha alguma mesa para reservar, eles falaram que só tinha vaga para daqui três semanas – vi Sasuke assentir. Eu sabia que diferente de todos os adultos, tirando a minha mãe, Sasuke escutava com atenção tudo o que eu dizia, mesmo se fosse algo idiota. – Aí eles perguntaram o meu nome para me pôr na lista de espera, porque poderiam ocorrer desistências e eu poderia ser chamada.
– Você pôs seu nome na lista de espera e conseguiu uma mesa? – Sasuke disse descrente com a possibilidade.
– Não, eu usei meu novo nome.
Sasuke franziu o cenho tentando entender onde eu queria chegar.
– Eu disse: “Ah, meu nome é Uchiha Sarada”. Houve silêncio na linha – fiz uma dramatização. Nos últimos meses compreendi que tinha um lado atriz correndo em minhas veias: – E aí eles soltaram um “Ah, senhorita Uchiha! Acabamos de verificar aqui que temos uma mesa disponível para a noite. Qual local do salão a senhorita prefere? Próximo da janela? Um local mais reservado?” – Imitei a voz da atendente vendo a diversão se espalhar pelo rosto de Sasuke.
Olhei para a avenida larga daquele dia de semana, antes de continuar:
– Foi nesse instante que eu descobri algo que me abalou – busquei o olhar de Sasuke e vi seu cenho franzir com a seriedade das minhas palavras. – Foi nesse instante que eu percebi que eu não perdi 12 anos de paternidade. 12 anos de história familiar. Não! Eu perdi algo muito mais visceral e que molda o caráter de uma pessoa…
Fiz um suspense, esperando Sasuke questionar com preocupação:
– O que você perdeu?
Controlei o riso que queria surgir em meus lábios enquanto proferia com toda a seriedade que eu era capaz de exprimir naquele momento:
– Eu perdi… – fiz uma pausa dramática antes de gritar: – EU PERDI 12 ANOS DE PRIVILÉGIOS!!!
Sasuke freou o carro subitamente em um sinal, recebendo uma buzinada atrás de si.
O sinal vermelho foi a deixa para Sasuke conseguir virar o rosto para estudar a minha face.
– O quê? – Questionou incrédulo.
– Não finja que não escutou – cruzei os braços. – Eu perdi 12 anos de privilégios!
A risada que ele teimava em controlar, encheu o carro enquanto eu continuava a minha lamúria:
– Todos os ingressos de shows que eu não consegui. Todas as filas para tentar conseguir um autógrafo de um ator para ChouChou. Os jogos que eu não conseguia no pré-lançamento – enumerei todas as possibilidades de privilégios que eu fui privada.
– Por Kami Sarada, nunca fale isso na frente da sua mãe. Ela vai dizer que eu estou estragando você. Você precisa ser mais humilde – pediu em uma mistura de desespero e risada.
– Humildade? Humildade? – Questionei vendo ele voltar a dirigir. – Eu já fui humilde por 12 anos!
– Ai que drama! – Ironizou.
– Você fala que é drama porque quando você deu o primeiro suspiro no mundo, já ganhou um privilégio! Aposto que te colocaram em um berço de ouro na maternidade – brinquei.
– De ouro não. Talvez prata – jogou a mão no ar com descaso, fazendo-me rolar os olhos.
– Você por acaso sabe o que é mesada?
– Claro que eu sei.
– Não, não sabe. Porque mesada não é ações e o cartão black que você tem desde criança – Pontuei. – Minha mãe botava um mesmo valor todos os meses em um cartão e me dava. Tenho certeza que você não sabe o que é olhar a conta do banco antes de comprar algo, para ter certeza que vai dar para pagar – comentei e sabia que ele não poderia negar. – Hoje, quando fui fazer compras na loja com a Batchan, as etiquetas não tinham valor. Eu fui descobrir o valor quando eu fui pagar – arregalei os olhos lembrando do valor absurdo. – Juro, Sasuke! Nunca rezei tanto para um cartão passar. Mama nem deixou ver quanto tinha no cartão antes de você me expulsar da sala – dramatizei continuando a minha história. – Mas quando o cartão ainda estava há trinta centímetros de distância, deu compra aprovada! – Expressei minha surpresa enquanto Sasuke apenas erguia uma sobrancelha confusa. Bufei murmurando: – Caramba, você nem sabe que sensação é essa!
– É um cartão sem limite, é claro que vai passar!
– ‘Tá bom senhor rico – balancei a mão no ar. – Entendi. Entendi.
– Tecnicamente você também é rica. Na verdade – Sasuke parou diante da fachada requintada do restaurante italiano –, se tudo der certo, passaremos a faixa dos bilhões e você poderá se chamar de bilionária.
– Talvez eu consiga me acostumar com esse termo – pisquei um olho antes de aceitar o mão do Valet que abria a porta ao meu lado. – Obrigada – agradeci, enquanto aguardava meu pai dar a volta no carro e entregar a chave.
Um paparazzi nos reconheceu e apenas posamos para uma foto antes de seguir o recepcionista que parecia sorrir mais que o adequado para nós dois.
– É uma honra recebê-lo em nosso restaurante, senhor Uchiha. Recebê-lo com a sua filha – um gerente apareceu e eu forcei um sorriso para me manter simpática.
– A reserva está no nome dela – Sasuke anunciou e o gerente nos indicou a mesa na área mais silenciosa do segundo andar. Claramente um andar reservado para elite nipônica.
Meu Kami-sama! Aquela ali era a atriz do J-Drama que a ChouChou está assistindo?
Arregalei os olhos, sem conseguir fingir costume enquanto sentava na mesa requintada.
– Você poderia ser mais discreta? – Sasuke murmurou lendo uma carta de vinhos.
Rolei os olhos antes de semicerrar os olhos para uma mulher loira, uma modelo talvez… olhando furtivamente para a nossa mesa.
– Conhece aquela mulher ali? – Questionei baixinho. As mesas eram longe uma das outras, dando grande privacidade, mesmo assim, decidi manter o tom baixo.
Sasuke fingiu admirar a decoração ao redor antes de furtivamente perceber a loira que acenava para si.
– Talvez seja atriz – deu de ombros voltando a estudar a carta de vinhos que parecia mais interessante que a atriz suspirando pelo meu pai. – Eu não sei o nome de todos.
– Ela é uma ex-ficante sua? – Fui direta fazendo Sasuke focar o olhar em mim e ele não precisava responder, eu sabia que a resposta verdadeira era “eu não lembro… talvez”. – Deixa pra lá – balancei a mão no ar, aceitando o passado vergonhoso do meu pai, mas não antes de disparar: – Tem certeza que eu não tenho nenhum irmão perdido por aí?
– Tenho! – disse sem pensar duas vezes.
– Como pode ter tanta certeza? – Ergui uma sobrancelha.
– Se houvesse um irmão, ele com certeza já teria aparecido.
– Eu demorei 12 anos para aparecer – provoquei.
– Sua mãe é um caso especial – voltou a analisar a carta de vinhos enquanto um sorriso encrenqueiro desenhava os meus lábios:
– Realmente, a minha mãe é um caso especial e ela está linda naquela ala privada junto com o Gaara-san.
Se Sasuke foi discreto para ver a atriz loira, ele claramente não foi discreto ao se virar procurando o ponto cor-de-rosa.
Crispei os lábios tentando segurar o riso vendo a face incrédula de Sasuke voltando para mim.
– Você veio nesse restaurante espionar a sua mãe?
– Ah, não finja que você não queria dar uma espiada – dei de ombros. – É só você não se virar que não ver nada. Minha cadeira está perfeita – sorri vitoriosa.
– Não faça nada para estragar o jantar da sua mãe – alertou.
– Não vou – fui firme olhando nos olhos de Sasuke. – Eu vim jantar com o meu pai e é o que eu vou fazer.
Finalizei olhando o cardápio.
Eu não sabia o que era metade daquelas coisas e por um segundo, desejei que ChouChou – minha especialista da culinária – estivesse ali.
Não precisei dizer, estava constrangida, por isso Sasuke escolheu o meu prato sabendo o que eu poderia gostar naquele mar de nome refinado, pronunciando também em um perfeito francês o vinho que ele desejava.
– Não se preocupe, logo vai se acostumar – meu pai tentou me consolar.
– Ouvi a vovó falar que vou ter aulas de etiqueta – entortei a minha boca.
– Você não precisa fazer algo se não quiser.
– E correr o risco de pegar o talher errado em um jantar beneficente? – Ergui uma sobrancelha em questionamento. – Não vou correr o risco das patricinhas me chamarem de plebeia – rolei os olhos. – Eu já estudo em uma escola que a elite nipônica estuda, sei bem como eles podem ser cruéis.
Sasuke assentiu em concordância, já que havia vindo do mesmo colégio que eu, mas diferente de mim, seus anos escolares foram regados de privilégios.
Suspirei fundo vendo as entradas chegarem.
Mordisquei a primeira Bruschetta, arregalando os meus olhos para Sasuke que correspondeu com um sorriso.
– Isso é muito bom!
– Eu sabia que você ia gostar – disse convencido.
Terminei a minha entrada já mais ansiosa pelo meu prato principal.
Sasuke brindou a minha taça de água com a sua taça de vinho, antes de saborear a bebida alcoólica.
Deslizei os olhos para o ponto em que a minha mãe estava e a vi sorrir, se divertindo com algo que Gaara dizia. Os movimentos de Gaara eram tão suaves que parecia até arte a forma que ele comia e se portava.
– Uau… ele é mesmo perfeito – murmurei admirada.
– Ele é – ouvi meu pai confirmar depois de seguir o rastro do meu olhar. – Ele é um perfeito gentleman inglês – algo no tom de sua voz e no jeito que bebeu um grande gole de vinho denunciava o desgosto, ainda mais por não poder dizer nada contra o Gaara.
O homem era simplesmente perfeito, mas mesmo assim…
– Ele gosta dela e ele é simplesmente o melhor dos partidos – iniciei para a confusão do meu pai. – Até eu ia querer um partido desse – brinquei tirando um sorriso mínimo de Sasuke.
– Bem melhor que o Boruto – deu de ombros me fazendo corar.
Pigarreei tentando voltar a seriedade do que eu estava dizendo:
– Ele gosta dela… gosta muito… e há muito tempo – afirmei. – Não sou cega para os interesses dos homens com a minha mãe, mas… – ergui o olhar para o meu pai. – Ela não gosta dele. Não o suficiente para se abrir.
Meu pai compreendeu onde eu queria chegar.
– Ela se abriu uma vez e pelo visto se arrependeu, Sarada – determinou antes de agradecer o garçom que trazia nossos pratos.
– E se ela nunca mais se abrir de novo? – Questionei debilmente enrolando a massa no meu garfo. – E se ela demorar mais 12 anos para tentar de novo?
– Qual seria o problema? – A voz de Sasuke me fez erguer o olhar para a sua segurança enquanto continuava: – Sua mãe nunca se fechou para você e é só isso que importa. Você não vai ser atingida. Nunca! – Determinou antes de suspirar: – Se ela demorar mais 12 anos para se abrir novamente, qual seria o problema? Não seria você quem teria que esperar. Essa pessoa, seria eu!
Aquilo me calou.
Não havia palavras para contradizer Sasuke que apenas focou em desfrutar sua requintada massa.
Naquele instante, no meio daquele mar de socialites, eu percebi que Gaara era sim perfeito, mas não era o meu pai… o homem que parecia disposto a esperar minha mãe o tempo que fosse, mesmo que sua espera levasse 12 longos anos.
Provei um pouco da minha massa para disfarçar o sorriso traiçoeiro que queria despontar em meios lábios.
– Hmmm… isso está delicioso – anunciei com um sorriso para o meu pai.
– Eu sabia que você ia gostar – vangloriou-se e eu ri.
Infelizmente tivemos que pular a sobremesa por causa da nossa estranha alergia ao açúcar, por isso pedimos a conta.
– Ela vai pagar – para a surpresa do garçom e minha, Sasuke indicou a mim. – Eu sou só o convidado deste encontro.
Franzi o cenho para o sorriso debochado de Sasuke.
– Você trouxe o cartão, não trouxe? – Questionou.
– Trouxe – bufei, colocando o cartão dentro do porta-comanda antes do garçom desaparecer.
Em nenhum momento trouxeram a conta, apenas trouxeram o meu cartão de volta.
Eu me questionaria se aquela atitude estava certa, mas diante da naturalidade de Sasuke e dos outros casais que pagavam da mesma forma, comecei a pensar que talvez naquele mundo que eu desconhecia, aquilo era natural.
Céus! O que mais eu preciso aprender?
Sasuke me deu a mão para sairmos juntos. Minha mãe parecia estar de saída também, mas nem Gaara, nem ela, nos viram.
Saímos em silêncio e adentramos no carro de Sasuke.
– Quer sorvete de sobremesa? Tem um lugar que eles fazem com o açúcar que podemos comer – Ofereceu.
– Quero – aceitei deixando Sasuke escolher nossa próxima parada.
Foi rápido e era a caminho do nosso prédio. Eu já conhecia aquela sorveteria, pois era onde minha mãe sempre me levava quando era mais nova.
Àquele horário, o local estava vazio.
Pedi o sabor de sempre, Sasuke riu do meu paladar infantil, mas o seu não passava longe da definição de “infantil”.
Decidi relevar daquela vez e não fazer um comentário cruel enquanto Sasuke pegava nossos sorvetes e sentávamos em um dos bancos perto da janela.
Assim que dei a primeira colherada, o sino da porta soou e a minha mãe atravessou a porta ao lado de Gaara…
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