Notas iniciais
Senti lábios macios beijando minha bochecha. Abri lentamente meus olhos e olhei para o lado. Uma loira de olhos cinzentos estava me acariciando.
– Oi Melanie. – falei preguiçosamente.
Ela franziu o cenho.
– Não! – negou – Sou Annabeth.
Afastei-me dela, confuso.
– AAAHHH! – gritei acordando. Parecia que a minha língua estava em chamas. Comecei a arfar. Luke estava perto de mim, com um copo d’água. Ele entregou para mim e eu recebi desesperadamente.
– Eu disse que o molho de pimenta funcionaria. – falou Thalia enquanto eu bebia água. Olhei para ela e a branquela estava com um frasco de molho de pimenta na mão.
– Você... Colocou molho de pimenta na minha boca? – indaguei.
– Foi o jeito. Você ficou desacordado por muito tempo! – explicou – Fora que eu gostei de fazer isso! – sorriu de maneira malvada – Isso foi por você ter me chamado de branquela na frente de todo mundo.
As lembranças da festa invadiram minha mente: O vexame que eu paguei, a traição do Jason e da Piper, a vontade que o Luke tem de ser pai e o beijo com a Annabeth. Ah, o beijo! Apesar de ter sido simples e rápido, eu adorei. Agora, eu queria saber se ela gostou também. Senti meu olho doer e pus minha mão sobre ele.
– Nico deve ter um soco muito forte. – comentou Luke – Seu olho está roxo!
Sentei-me no sofá em que eu estava deitado. Peguei o copo de alumínio e vi meu reflexo nele. Um olho realmente estava arroxeado. Gemi agoniado.
– Por que beijou a namorada do Nico, bobão? – retrucou Thalia.
– Porque... Eu estava bêbado e... Ela estava tão bonita. – tentei explicar – Foi coisa de momento.
– Lembre-me de nunca mais deixar você beber. – rebateu Thalia.
– Cara, você estragou a festa. – afirmou Luke – Piper e Drew saíram no tapa e Jason deu uma surra no Octavian. Nico e Annabeth não queriam durma aqui em casa, por sua causa.
– E onde eles estão? – perguntei.
– Acho que na casa dos pais dela. – disse Thalia.
Esfreguei meu rosto.
– Preciso me desculpar com o Nico. – falei.
– Mesmo se ele te perdoar, você acha mesmo que ele esquecerá o fato de você ter beijado a namorada dele na frente dele? – advertiu Luke – Percy, beber não é desculpa. Se você tivesse beijado a Thalia, como você fez com a Annabeth, acha que eu não teria mudado de opinião ao seu respeito?
Refleti. Porcaria, ele tinha razão!
– Bem que o Leo disse que você gosta da Annabeth. – falou Thalia.
Revirei os olhos.
– O Leo é só uma criança, ele não sabe o que diz. – falei.
– Percy, teve vezes em que eu reparei o jeito que você encarava a Annabeth e... – começou Luke – Sinceramente, você só falta comê-la com os olhos. – bufei – Gosta da Annabeth, Percy?
– Claro que não! – afirmei – Já falei, a única garota que eu realmente gostei até agora, foi a minha ex-namorada, Melanie.
– Que, fisicamente, parece muito com a Annabeth. – completou Thalia – Então, você só beijou uma namorada alheia, porque ela parece muito com sua ex-namorada? Sinto muito, mas isso é coisa de vagabundo retardado!
Levantei-me bruscamente.
– Olha, eu já sofri muito por causa de namoro, vocês não fazem ideia do quanto eu sofri! – disse estressado – Eu me desculparei com o Nico e tudo voltará ao normal. Agora, chega de falar sobre isso.
Saí de lá sem dizer mais nada.
[...]
Acordei. Fitei meu relógio de pulso e vi que já eram duas da tarde. Como eu dormi! Tomei um demorado banho com água quente, escovei os dentes e fui vestir uma roupa. Peguei uma cueca Box azul. Abri meu guarda-roupa e peguei apenas uma bermuda cáqui. Resolvi ficar sem camisa mesmo. Saí do meu quarto. Fui direto para a cozinha. Encontrei Luke. Ele estava ajeitando uma bandeja. Tinha colocado uma jarra com suco de laranja, uma fatia de bolo de morango com chocolate e alguns cookies.
– Thalia quer que você seja o escravo dela agora? – brinquei. Achei que o Luke fosse bater em mim ou me xingar. Mas, ele olhou para mim com o maior sorriso do mundo.
– Boa tarde, Percy!
Ergui uma sobrancelha.
– E... Aconteceu alguma coisa! – afirmei.
Ele começou a rir. Estranhei o ainda mais.
– Ah, Percy! – começou Luke – Bom depois que você explicou o motivo de ter beijado a Annabeth e me deixou a sós com a Thalia, bom... Eu e ela tivemos uma conversa bem séria, sobre as coisas que você revelou durante a festa. Ela disse que amaria ter um filho comigo, independente de quando seja. E aí... Ela me agarrou. – sorriu como um otário – Foi uma madrugada maravilhosa.
– Ela te estuprou? – ri.
– Não, bobão! – suspirou – Mas... Fizemos cinco vezes! E eu deixaria ela me estuprar a vontade.
– UAU!
Ele pegou a bandeja e saiu. Acho que o Luke não sairá do quarto dele tão cedo! Pelo menos, ele tem alguém para amar.
Fui até a caixa de correio. Estava lotada de envelopes e com pequenas caixas. Fui para sala e comecei a olhar de quem era. As contas de energia e água eram do Luke (que eu ajudava a pagar) e as de internet eram da Thalia. Tinha uma pequena caixa para a Piper e uma caixa mediana para o Jason. Achei algumas cartas para mim.
Peguei o que era meu e entrei no meu quarto. Sorri de lado quando vi de onde aquelas cartas vieram: do Brasil!
Abri a primeira.
Querido pai,
E aí? Como você está? Sim, eu te chamei de VOCÊ e não de SENHOR. Sabe que eu não gosto de te chamar de senhor, porque você não tem aparência de velho – e nunca terá! Bom, estou escrevendo essa carta só para que não percamos o contato. Nossa, faz muito tempo que a gente não se vê. Já se passaram dois ou três anos desde a última vez que você veio ao Brasil? Enfim, seria muito legal se você viesse nos visitar. Minha namorada está ansiosa para te conhecer. Sim, eu estou namorando e a garota é incrível! Por favor, responda essa carta.
Fernando.
Peguei a outra carta e comecei a lê-la também.
Percy,
Estou escrevendo essa carta por obrigação, porque o Fernando não para de me perturbar para fazer isso. Eu estou bem e é só isso que eu tenho a dizer.
Melinda.
Talvez, eu não tenha comentado, mas eu tenho filhos. Eles se chamam Fernando e Melinda. Eles moram em Fortaleza, no estado do Ceará, no Brasil. Eu morei lá por volta dos anos noventa, fazendo, pela terceira e última vez, faculdade de medicina. Conheci uma garota que, na época, morava na mesma rua que eu, a Isabela. Ela só tinha dezessete anos quando nos conhecemos. Ela se apaixonou por mim e eu fiquei com pena de dispensá-la, então começamos a namorar. Foi a única vez que namorei alguma garota depois da Melanie. “Por causa do destino”, acabei engravidando a. Casamos apenas no civil e passamos a morar juntos. Dois anos depois, ela engravidou de novo. Apesar de amar os meus filhos e ter um enorme carinho por Isabela, no fundo eu estava infeliz, muito infeliz. Divorciei-me e saí de casa.
Fernando, meu filho mais velho, entendeu a minha decisão. Ele era bem compreensivo, diferente da Melinda. Essa garota me odeia, ela nem sequer me chama de pai! Toda vez que tentava conversar com ela, ela me ignorava e ia embora.
E quanto a Isabela? No começo, ela não aceitou muito bem o pedido de divórcio, mas, depois de alguns anos, conseguimos ficar bem um com outro. Fora que ela encontrou um homem que a ama de verdade.
Realmente, faz muito tempo que eu não os vejo. Como será que eles estão?
[...]
Eu estava na sala de estar, assistindo ao filme Tróia com a Thalia. Eu quase não prestava atenção no filme, já assistira tantas e tantas vezes. Só conseguia me preocupar com o fato do Nico estar com raiva de mim e ainda não ter chegado em casa só para ficar me evitando. Thalia disse alguma coisa, mas eu acabei não entendendo.
– O que?
– Eu perguntei se você acha que eu seria uma boa mãe. – falou. Olhei para ela. A punk parecia realmente aflita.
– Olha, eu acho que sim. – respondi – Apesar desse seu jeito maluca-antissocial-baderneira... – bufei rindo e ela jogou uma almofada em mim – Você é uma pessoa autoritária, que esbanje liderança e que no fundo, beeeem lá no fundo, é muito amável com as pessoas que ama.
– Obrigada Percy!
– De nada. Quando você e o Luke tiverem um filho, ficarei me perguntando se ele será rebelde como a mãe ou mauricinho como o pai!
– Independente disso, ele será um roqueiro! – afirmou.
Escutamos a campainha e gritamos “Tá aberta”. Nico e Annabeth apareceram. Eles vieram até nós de mãos dadas e pareceram ficar receosos quando me viram.
– Oi Thalia. – disse Annabeth. Ela olhou rapidamente para mim e virou o rosto para o namorado – Nico, eu estou cansada. Vou logo para o quarto.
Ela foi em direção à escada e subiu.
– E onde está o Luke, o Jason e a Piper? – perguntou Nico à Thalia, tentando me excluir.
– Luke está trabalhado, Piper não mora mais aqui e o Jason eu não sei. – respondeu ela.
– Piper não mora mais aqui? – perguntei.
– Foi o que eu acabei de dizer. – retrucou – Ela ligou para mim dizendo que viria amanhã só para pegar os pertences dela. Ele disse que não tem mais motivos para morar nesta casa, já que ela e o Jason não são mais um casal.
Nico pigarrou.
– Bom, eu vou subindo... – começou ele.
– Nico, espera. – pedi. Levantei-me – Precisamos conversar.
– Não temos nada a conversar!
– Por favor.
Nós dois fomos para perto da piscina, para que tivéssemos mais privacidade. Ele me encarava com raiva, como se a qualquer momento fosse me esganar.
Ventava frio lá fora. A luz da lua refletia as pequenas ondinhas que se formavam na água clorada da piscina. Olhei para casa e avistei a janela do quarto do Nico. Annabeth estava lá nos observando. As mãos delas pareciam apertar a madeira da janela. Parecia que ela encarava mais a mim do que ao Nico.
– Fale logo! – exigiu Nico impaciente.
– Cara... Por favor, desculpe-me pelo episódio de ontem...
– O que você fez não tem desculpa.
– Tente me entender. – comecei – Eu estava embriagado, minha mente estava confusa...
– Você parecia bem sóbrio quando falou do Luke, da Thalia, do Jason e da Piper. – lembrou-me. Apontou o dedo para minha cara – Você beijou a MINHA namorada na minha frente e na frente de dezenas de pessoas. Como acha que estou me sentindo? E a Annabeth? Assim que você desmaiou, ela correu para dentro de casa para que as pessoas parassem de encará-la. E será que você pensou no quanto eu sofrerei na faculdade? Ninguém me deixará em paz, porque eu serei motivo de piada!
Suspirei.
– Quando eu falei dos outros, eu apenas desabafei. Eu falei coisas que estavam entaladas na minha garganta. Já com a Annabeth... Eu comecei a pensar na Melanie...
– De novo essa história de Melanie! – exclamou – Percy, a Annabeth não é a Melanie! A Annabeth é minha namorada e não sua! Se gosta tanto assim da sua ex-namorada, reata com ela.
– Não dá! – senti uma lágrima no meu olho.
– Por quê? Ela se mudou? Vai atrás dela! Ela está com outro cara? Faça com que ela goste de você de novo...
– ELA MORREU! – gritei deixando as lágrimas desceram. Nico pareceu mais fragilizado e menos nervoso – Eu não terminei com ela e ela também não fez o mesmo comigo. – respirei fundo – Melanie morreu e ainda foi na minha frente. Acha que é fácil para mim, ter que olhar para a Annabeth e lembrar-me da cena em que eu vi a ÚNICA garota que eu amei morrer?
Ficamos calados por um curto período de tempo.
– Sinto muito – disse ele – Nunca imaginaria uma situação dessas.
Acalmei-me.
– Tudo bem. Por favor, peça desculpas à Annabeth por mim. Sei que ela não irá querer falar comigo tão cedo, mas não quero que ela sinta raiva de mim. E, Nico, desculpe-me por ter feito aquilo ontem.
Ele apenas balançou a cabeça e apertamos nossas mãos.
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