Notas iniciais
Desculpa? Desculpa. Vou contar o que aconteceu depois do feriadão... Primeiro eu fiquei sem internet, por dois dias, uma eternidade eu sei. Mas aí faltou inspiração para escrever aqui. Então hoje, umas 9h eu acordei e disse para mim mesma, preciso escrever. Não sabia o que iria escrever ou como começar, mas aí fui escrevendo achando que o capítulo ia ficar minúsculo, mas não ficou. Eu gostei do que meus dedos foram fazendo no decorrer, espero que gostem. E não se esqueçam que eu quero comentários, recomendações, opiniões e teorias. Sinto que essa história não está agradando vocês. Vou parar de enrolar, nos vemos lá embaixo. Beijos da Nanda.

Capítulo 3

“A gente precisa acreditar que tudo vai dar certo.”

Apertei o botão de replay no som do meu carro enquanto esperava o sinal abrir, aquela era uma das únicas músicas animadas de Ed Sheeran, Sing.

– If you love me come on get involved feeling rushing through you from your head to toe. (Se você me ama, venha, se envolva. Sinta isso percorrer seu corpo, da cabeça aos pés) – Tentei imitar o tom fino da música, mas já presentia que não havia conseguido quando um casal de idosos que estavam atravessando a rua viraram a cabeça para me encarar. Abaixei a cabeça com vergonha, só então o sinal abriu e acelerei o carro.

Devia ser um pouco mais de 20h as ruas estavam movimentadas por ser sábado, muita gente arrumada indo para festas ou baladas. Virei a esquerda depois do semáforo já conseguindo visualizar o shopping onde Noah pediu para me encontrar. Olhei pelo retrovisor tinha algum cara infantil jogando o farol alto contra mim, gerando insolação. Joguei meu carro para próximo a calçada, o carro que estava me incomodando começou a ultrapassar, quando chegou ao meu lado começou a buzinar.

– Olha a namorada do gayzinho! E aí moreninha quer conhecer um homem de verdade? – Fiquei tentada a dar o dedo do meio, mas não fui educada para isso. Apenas levantei os vidros e liguei o ar condicionado, agradecendo pelo meu mecânico ter dado a ideia de colocar vidros fumês.

Aqueles babacas da minha escola sempre que me encontrava fora dela vinham com aquele tipo de piadinhas. Isso me incomodava profundamente. Eles chamavam Noah de gay, pois antes da gente namorar ele namorou as três garotas mais populares – e bonitas – da escola, mas não levou nenhuma delas para a cama, sendo este o motivo para que ele terminasse com elas. Depois que elas levaram o “pé na bunda” espalharam para a escola toda que ele era gay porque não dormiu com elas.

Só de lembrar da história a raiva já enche meu peito, respiro fundo numa tentativa falha de me acalmar.

Eu sei que Noah não é mais virgem, embora ele não goste de falar nesse assunto, consegui arrancar dele com muita dificuldade. Ele me disse que foi quando ele tinha 14 anos e estava passando pela fase de revolta por ser HIV positivo, pensava que deveria pagar o que fizeram com a mãe dele a mesma moeda: infectando mais pessoas, pois só assim o Governo conseguiria uma cura eficaz. Isso não é certo, hoje ele também sabe e sente vergonha por ter pensado assim. Ele teve a sua primeira vez com uma menina cinco anos mais velha que ele, ela não sabia que ele era aidético e não usaram camisinha. Por sorte ela não se contaminou e olha que eles não fizeram só uma vez. Suspiro imaginar aquilo revirava meu estômago. Depois dessa ele começou a ficar com pessoas que não se importavam se ele era aidético ou não, isto é, ele ficou com drogadas, masoquistas, etc. Porém nessas vezes ele usou camisinha.

Balanço a cabeça tentando não pensar naquilo, ele era meu namorado, já tinha feito com várias garotas e quase infectado elas. Aquele era o Noah que eu desconheço profundamente. Ele mudou e eu sei disso. Sinto uma pontinha de inveja delas, me odeio por isso, mas tenho que assumir aquilo para mim mesma, jamais contaria isso para Noah.

O carro dos meus colegas já estava longe, então pude voltar para a rua e dirigir em direção ao shopping, ainda sem conseguir tirar dos meus pensamentos aquilo. Me estico e tiro a música do replay, passando para uma música mais tranquila dele: The A Team.

Poucos segundos depois já estou procurando uma vaga no estacionamento lotado do shopping, acabo pegando uma vaga muito distante da entrada, pois aquela parecia ser uma das únicas desocupadas. Pego minha bolsa de mão simples preta, colocando meu telefone dentro e a minha carteira. Saio do carro e me olho pelo retrovisor. Estou usando uma camisa branca lisa com um cachecol na cor verde musgo e uma legue preta metálica e completando com um sapato fechado da cor do cachecol, me sinto à vontade, me sinto Claire Ellie Schmitt.

Já estou andando em direção a entrada do shopping quando percebo uma figura mais alta que eu e mais velha andando na direção contrária a minha. Estanco meus passos. Reconheceria aquela pessoa em qualquer lugar do mundo.

– Claire! – a pessoa grita, mas já estou virando a esquerda pegando um caminho mais longo e demorado para evitá-la. – Claire! – ela repete, quando percebo já estou correndo em direção ao shopping, a voz que me chama vai ficando cada vez mais distante até ficar inaudível, quando percebo isto já estou de frente para as portas de vidro que servem como entrada para o shopping.

Seguro-me em uma das grandes pilastras na cor bege tentando colocar minha respiração no lugar, mal percebo que as lágrimas já estão caindo.

– A senhorita está bem? – A voz de um rapaz negro e jovem me pergunta colocando a mão sobre as minhas costas, pois estou com a cabeça abaixada e com as mãos nas coxas como se fosse vomitar. Não consigo respondê-lo o choque e o terror ainda me enchem a cabeça. Ele era a última pessoa nesse mundo que eu quero ver.

Sei que ele é meu pai, mas isso não muda o fato do que ele fez para mim e para minha mãe. Compartilhamos o mesmo sangue e isso não quer dizer absolutamente nada.

– Acho que devemos ligar para a emergência. – A voz do rapaz me tira dos meus pensamentos e o agradeço mentalmente por isso.

Deixo meu corpo escorrer pela pilastra e me sento no chão, chamando a atenção de mais pessoas que passam, formando uma rodinha de cinco pessoas ao meu redor. Só então percebo que eles estão a ponto de chamar uma ambulância para me levar para o hospital.

– Não. – Gaguejo ao falar ainda tentando reafirmar como se respira e se falar ao mesmo tempo, sinto minha garganta fechar, um aviso que mais lágrimas irão rolar. – Não precisa. Estou bem. – Uso das minhas últimas forças para conseguir articular as palavras sem que uma enxurrada de novas lágrimas atrapalhem.

Respiro fundo ainda ciente da minha garganta se fechando. Estico a mão para a pessoa mais próxima de mim que no caso é o jovem negro – muito bonito por sinal – pedindo para que me levante, ele estende o próprio braço para mim ainda com a expressão preocupada se eu estava realmente bem de verdade para continuar andando. Seguro firme no seu ante braço e me levanto.

– Estou bem, não se preocupem. – Falo para as pessoas ao meu redor que me perguntam se eu não quero nada, se estou precisando de ajuda e outras perguntas que não consigo assimilar muito bem. – Estou bem. – Repito, mas desta vez mais para mim do que as pessoas ao meu derredor. – Obrigada. – Agradeço ao rapaz negro.

– Jason. – Ele se apresenta, apertando minha mão.

– Claire. – Aperto a dele de volta.

Depois de mais uma rodada de assegurar de quem estou bem, que não foi nada demais eu me afasto com passos largos, pois por sinal já estou atrasada meia hora. Sem parar de caminhar tiro meu celular da bolsinha para olhar meu reflexo, meus olhos estão um pouco vermelhos e por sorte eu não estava usando maquiagem, se estivesse, nesse momento eu já estaria com a aparência de um panda.

O celular que estou usando de espelho apita, mensagem de Noah. Abro. Na verdade, são em torno de cinco mensagens não respondidas, uma avisando que ele já tinha chegado e estava me esperando, outra me informando que ele estava em uma das mesas mais afastadas da praça de alimentação próxima a escada rolante onde gostando de ficar para observar o vai e vem de pessoas e as outras três perguntando onde eu estou, se aconteceu alguma coisa e se eu desisti de ir. Apenas mando uma pequena resposta com ‘estou chegando’ e apresso os meus passos, até chegar a escada rolantes, pois a praça de alimentação fica no primeiro andar do shopping.

Assim que toco os pés no primeiro andar visualizo Noah, ele está mais magro que de costume, efeito colateral dos remédios que estão ficando cada vez mais fortes. Ele está de cabeça baixa encarando o nada, por isso não me vê. Estou na metade o caminho para a mesa onde ele está quando ele levanta a cabeça me vendo e sorri. Aquele sorriso consegue me fazer esquecer de tudo que estava me fazendo chorar e me irritar minutos atrás, aquele sorriso provoca um arrepio por mim. Aquele sorriso seria capaz de pôr fim a guerras e curar o câncer. Lembro-me da citação de John Green, ela caía como uma luva para o sorriso de Noah, pois o sorriso não tem a ver com a beleza ou a genética de alguém e sim com os sentimentos que ela tem a oferecer para quem está sorrindo.

– Pequena. – Ele diz com a voz rouca que tanto amo se levantando para beijar-me de leve nos lábios.

Sento-me a sua frente, enquanto ele me acompanha no movimento, só então com a proximidade ele consegue observar o meu rosto com clareza como consegue fazer melhor do que a maioria das pessoas nesse mundo, até mesmo que a minha mãe na maioria das vezes.

– Você andou chorando. – Percebo claramente que não se trata de uma pergunta, então não gasto meu tempo respondendo apenas desvio meus olhos dos dele focando num ponto invisível. – Você encontrou ele não foi? Por isso se atrasou.

Continuo em silêncio, Noah não estava falando diretamente comigo, estava apenas afirmando as próprias conclusões em voz alta.

– Claire. – Ele me chama num tom mais baixo, querendo que eu fale sobre o assunto, ele não precisa por aquilo em palavras o conheço bastante para entender o que ele quer sem ele mesmo por em palavras. Balanço a cabeça o informando que não quero falar disso. – Quando quiser falar disso, eu estarei aqui.

Sei que estará. Respondo mentalmente.

– Então o que você quer me contar que não pode ser por telefone? – Mudo de assunto, voltando para a verdade de estarmos aqui agora.

Ele respira fundo antes de falar, o que já me faz ficar preocupada com o que poderia ser. Talvez os resultados dos últimos exames que ele fez trouxeram algo pior, um câncer talvez, uma pneumonia, ou o que mais poderia acontecer para alguém que praticamente não tem o sistema imunológico.

– Lembra daquele teste que eu fiz para uma cirurgia experimental da cura da Aids através de um transplante de medula em Boston? – Sua voz saí muito baixa, apenas balanço a cabeça concordando esperando as notícias ruins. – Fui aceito.

Suspiro aliviada enquanto sorrio para ele quase pulando de alegria da cadeira para lhe abraçar, só então percebo que Noah não partilha da mesma felicidade que eu. Ele continua um pouco encolhido e a cabeça abaixada, não consigo entender a razão para ele estar assim, aquilo era algo bom, ele poderia se curar. Ele queria se curar, não queria?

– Eu não vou fazer. – Ele me diz e se encolhe mais. Minha boca fica aberta em forma de um “O” chocada com as quatro últimas palavras dele. Ele estava louco, aquilo não era possível.

– Porquê? Noah isso é tudo o que a gente sempre quis! – Aumento meu tom de voz sem perceber fazendo o garoto a minha frente se encolher mais um pouco.

– Clair, os riscos são muito grandes, não vale a pena. – Ele me responde ainda num tom baixo, sei que ele deveria ter brigado muito consigo mesmo para decidir se me contaria que passou e não faria a cirurgia ou mentiria simplesmente dizendo que não foi aceito. Neste momento eu preferia que ele tivesse mentido para mim, saber que ele não queria lutar para ficar vivo quebrava meu coração completamente.

– Mas as chances de você ficar vivo são maiores! – Aumento mais o tom de voz, chamando a atenção de pessoas sentadas em mesas próximas a nós. – Porque se inscreveu se não queria a cirurgia? – Abaixo meu tom de voz, tentando me controlar.

– Por você. – Ele responde me fazendo arquear as sobrancelhas em questionamento. – Eu não achei que iria passar, mas você queria que eu tentasse, então me inscrevi por você e pela minha mãe. – A mãe que ele se referia é sua madrasta e mãe adotiva, uma pessoa muito boa e gentil para com ele. – Eu não acreditava que conseguiria passar.

Ele estica as mãos para segurar as minhas sobre a mesa, mas estou muito chocada para permitir aquele simples toque, então retiro minhas mãos da mesa pousando-as sobre meu colo.

– Você tem que fazer, tem que lutar. Por você, por nós. Tudo é possível para quem vai à luta... – Minha voz abaixa tanto que se perde, minha garganta se fecha pela segunda vez aquela noite, olho meu namorado nos olhos, implorando para que ele volte atrás.

– Não sou forte como você pensa. – Ele me responde, completando em seguida. – Isso não é o fim para nós Clair, isso não quer dizer nada. Eu estou aqui não estou? Nós continuaremos juntos até ficar velhinhos. Prometo.

Tento acreditar naquela promessa com todas as minhas forças, mas parece que sempre que estou perto de acreditar naquilo o pensamento desmorona como se algo me impedisse de acreditar naquilo. Fecho os olhos tentando me acalmar, mas aquilo só faz com que as lágrimas que estavam enchendo meus olhos – que deveriam estar beirando o cinza ou verde – caíssem. As lágrimas aumentaram, apenas fechei os olhos e deixei elas rolarem. Não só por Noah não querer lutar, mas pelo meu pai, por tudo de errado que ele fez e todos que magoou, choro também pelos comentários maldosos que tenho que escutar de pessoas que não sabem pelo o que estou passando. Choro. Choro para aquilo vá embora de mim. Choro, ignorando o mundo a minha volta.

Só me lembro que não estou sozinha quando os braços quentes de Noah me puxam para que eu levante e se fecham contra mim, me abraçando. Choro contra o ombro dele e ele entende que aquilo é o que eu estava precisando a muito tempo, desabar para poder me construir novamente.

– Eu estou aqui para você Clair. – ele sussurra no meu ouvido. – E estarei sempre aqui para você.

Eu sei que estará e aquilo bastará. Só então consigo acreditar na sua promessa, sei que envelheceremos juntos e não nos deixaremos jamais, pois mesmo se eu quisesse não poderia mais viver sem ele, e é aquele pensamento que me faz parar de soluçar e beijá-lo, o pegando de surpresa, sem me preocupar com as pessoas ao redor ou com o oxigênio que teima em querer nos separar. Só afasto um pouco meus lábios dos deles quando sinto uma pequena tontura pela falta de ar, mas assim que termino de respirar volto a beijá-lo. Pois a gente precisa acreditar que tudo vai dar certo.

Notas finais
Vocês gostaram? Acham que preciso melhorar em alguma coisa? O que vocês acham que aconteceu entre a Clair e o pai dela? Vocês entenderam o porquê do Noah ser tarjado de gay? Vocês vão deixar um comentário grande lindo e detalhado? Essa eu sei responder. SIM! Não se esqueçam de recomendar, indicar para os amigos e deixar comentários. Beijos e até o próximo capítulo.